terça-feira, 4 de junho de 2019

Santo judeu (Fábula), de Ana de Castro Osório



Santo judeu

Vivia um velho muito avarento quase sempre fechado em casa, servido por submissa criada, também idosa, e tendo por companhia um gato. Não dava nada a ninguém nem queria falar com pessoa alguma, receando que lhe pedissem esmola.

Chegou o Entrudo e uns rapazes da vizinhança resolveram enganar o avarento, que era ao mesmo tempo um grande finório. Vestiu-se um deles com fato muito poeirento e remendado, a fingir de pobre pedinte que vinha de longe, e foi bater à porta do velho. Tanta lamúria fez que a criada o deixou entrar para a cozinha. Veio o avarento e não gostou da graça, mas, como o rapaz fazia muito bem o seu papel de tontinho, deixou-o ficar, achando até graça às perguntas que ele fazia, e respondendo a tudo às avessas. Assim dizia o rapaz:

— O senhor como se chama?

— Santo Judeu. —

Bem sabia ele que tal não era, mas fingiu acreditar, com cara de muito pateta. Viu a cama onde dormia a criada, e perguntou:

— E aquilo o que é?! Responde o velho:

— É o cabo da folgança.

— Sim senhor, bonito nome! — Olhou para o lado, viu o gato e disse:

— Ui que bicho tão feio! O que é?

— É um animal chamado pilpirratos. — Como a velha estava a fiar estopa, perguntou:

— E aquilo que a sua criada está a fiar como se chama?

— Calhamandras.

— Muito engraçado nome! E o que está naquele pote?

Era água, pois vinho nunca lá tinha entrado em casa.

— Aquilo é abundância (respondeu o velho por troça).

— Sim senhor. E como se chama esta casa onde vive?

— Isto não é casa, é altas miras.

— Bom; agora que já vi tudo, há de dizer-me o que é que ali tem pendurado? — Era um presunto e chouriços que estavam no fumeiro.

— Aquilo (disse o avarento, fingindo-se muito admirado)?! Pois também não sabe o que tenho ali?!

— Eu, não senhor! É coisa que nunca vi.

— Pois admira! Aquilo é Jesus Cristo e os Apóstolos.

Chegou a hora de se irem deitar, e o rapaz dizia consigo:

— Deixa estar, meu velhote, que eu te direi se tu ris mais do que eu!...

Mal viu tudo sossegado, abriu a porta aos companheiros. Foram ao fumeiro tiraram os chouriços, pegaram num bocado de estopa, ataram-na ao rabo do gato e começaram a gritar:

— Levanta-te, Santo Judeu,
Desse cabo da folgança,
Que fugiu o pilpirratos

Com as calhamandras no rabo.
Se a abundância lhe não acode
Lá se vão as altas miras!

Altas miras, senhor meu amo!
Fique-se com Jesus Cristo
Que nós cá vamos com os Apóstolos!


Enquanto o velho se levantava, todo aflito, safaram-se os rapazes com os chouriços e foram, a rir, contar a história. Não sem desatarem a estopa do rabo do gato, que afinal não tinha culpa nenhuma das avarezas do velhote.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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