6/20/2019

Romão de Januária (Conto), de Veiga Miranda

Romão de Januária
Quando cheguei já o João da Luz começara a contar o caso e os outros todos se lhe haviam grupado em de redor, curiosamente. Era o serão do costume: no meio havia um monte de mandioca e os caboclos, sen­tados em toros de pau ou em tamboretes baixos, aga­chados, iam dali tirando as raízes enlameadas e des­cascando-as.
A história do João da Luz fizera esmorecer o tra­balho mas, ainda assim, ouvia-se o rumor das pequenas facas recurvas sobre as crostas das mandiocas e as raízes desnudadas e brancas eram de contínuo atiradas para o lado sobre uma esteira grande.
"Fazia três dias naquela tarde, dizia o João da Luz, que o Zé Borboleta tinha ido para o Córrego Fundo, dando repasso naquele potranco ruço queimado que foi do Major Felício e que o patrão tinha dado a ele para adornar. Oh! cavalo danado aquele!... Nem lhe sei dizer mesmo, minha gente, se um bicho assim não era até o demônio para tentar e perseguir um homem...
Mas o rapaz era destorcido como nenhum e saltou em riba do macho sem medo, no primeiro dia de re­passar. O potro pulou feito um doido. Aquilo o terreiro da fazenda ficou assim de povo para apreciar o tombo do peão. Mas, qual!... O Borboleta ainda metia a chilena na barriga do poldro que o animal gemia que nem gente.  Depois de muito corcovo, o cavalo disparou pelo curral a fora, saltou a cerca e foi pelo campo numa vereda, de galope feito uma flecha.
O Antônio Reinaldo e os outros que correram atrás, foram topar com o poldro, lá adiante, caído no meio do açude, e o rapaz em cima, de espora, metendo o rabo de tatu, berrando com o bruto... Foi preciso pedir ao homem para não matar o cavalo, que o patrão ficava danado, se não ele não saía de riba do bicho nunca.
Tiraram os dois de lá encharcados, e o cavalo ema­greceu com o repasso que até pesteou um pouco. Teve de ir para o gordura e, quando foram buscá-lo outra vez, já estava bravo e arisco que era um veado.
Foi nessa outra vez de repassar o piquira que houve no Córrego Fundo aquele mutirão do João Vitória, e um batuque sarado de noite.
O moço, mal soube da festa, arriou o cavalo (já estava até meio escurecendo) e ainda teve de correr à roda do bicho para montar, que ele estava boleador e mesquinho, dando só cada pinote e cada bufo que a alma até lhe parecia querer sair pelas ventas...
Mal o Borboleta sentou no arreio e meteu a tala, o ruço queimado saiu num trote largo, só refugando, torcendo para cá, para lá, e o rapaz quebrando o animal, dando cada soco na rédea que a boca dele já estava que era sangue só.
A coitada da Nhá Maria Velha ainda falou assim, antes dele ir:
— Olhe, Zeca... você ainda se machuca com esses cavalos...
— Qual o que, Nhá Mãe! O homem morre no dia e não na véspera.
E partiu no galope do poldro, só esbarrando-o e quebrando-o, que o animal já ia banhado.
***
Pois é como eu lhes estava contando... Naquela tarde fazia três dias que o Borboleta tinha ido para o Córrego Fundo e desde então Nhá Maria andava num susto de morte. Vivia rezando para Nossa Senhora, fazendo promessa e mais promessa!...
O Córrego Fundo era perto, umas cinco léguas, no mais, e na toada daquele poldro o rapaz podia estar lá em duas horas. E, ainda que tivesse passado a noite na catira, no outro dia bem pudera estar de volta. E a pobre da velha tinha um pressentimento ruim, pensando na braveza do poldro, nas buraqueiras do caminho, cuidando que o filho tivesse ficado estendido no fundo de alguma cata, se porventura caísse do cavalo...
E era o dia inteiro de rosário na mão, terço e mais terço para as almas...
Pois naquela tarde (o sol já ia entrando), a velha estava catando uns gravetos em frente da tapera dela, ali no Mundo Novo, quando ouviu de repente umas vozes e enxergou logo os vultos de três mulheres que vinham caminhando para o lado dela. Firmou bem os olhos e conheceu que eram três raparigas das Águas, a Celestina, a Cota e a Januária, três criaturas perdidas e de quem a Nhá Maria tinha uma birra enorme. E não deixava passar ocasião de falar mal delas, "três tipas ordinárias que não perdiam função, só para andar desen­caminhando os rapazes, fazendo briga e barulho em toda a parte. Olhem, ainda no outro dia, Zequinha Lopes não enfiara a faca no Lino? E eram todos dois rapazes de juízo, trabalhadores... Foi tudo por amor delas, cambada!"
***
Nisso vinham chegando as três, a Cota na frente, toda regateira, com um lenço vermelho na cabeça, por amor do sol, com um vestido azul de ramagens que tinha a barra toda suja de lama. E mal enxergou a velha, pegou a falar, só se rindo:
— Hi! hi! hi!... Boas tardes, Nhá Maria; então, como vai? Está catando gravetos?
— Boas tardes, minhas filhas, estão vindo da festa, respondeu a velha, sopitando a raiva que tinha daquelas malandras. Digam-rne uma coisa, o seu Zeca, não viram se ele ainda estava lá?
— Está lá, Nhá Maria, no fundo de uma cama, gemendo!
— No fundo de uma cama!... Virgem Nossa Se­nhora!... Mas, que foi, que foi que aconteceu? Ele caiu do cavalo?...
— Uai!... Pois vancê não sabia? Nós nem che­gamos a dançar. Não houve festa por amor disso. Nós, desde anteontem que viemos, estávamos ali na casa da Januária, no Marimbeiro.
A velha já nem escutava mais nada. Pôs as mãos na cabeça, com os olhos vidrados, feito louca:
— Por que é que não me avisaram? quando foi? me conta, gente! que é dele, machucou muito? Celes­tina, minha filha, me conta!
E a velha chorava que fazia dó na gente.
— Olhe, Nhá Maria, eu lhe conto. Quando o seu filho chegou lá, já era de tarde, o sol já tinha entrado. Nós estávamos na porta do curral, no alto da escadaria de pedra, vendo o Camilo da tia Joanna, que queria apartar uma vaca de bezerro novo, brava feito onça. A vaca investia com vontade, e o Camilo já tinha pulado para fora da cerca e estava trepado no moirão da por­teira dizendo que não havia ali um cabra de coragem capaz de apartar aquele bezerrinho.
Nisso chega o seu Borboleta e vai a Januária virou assim para ele:
— Como é, seu Zéca, eu amanhã quero comer leite daquela vaca e não tem um homem de sustância que vá apartar a bezerrinho?...
Todos então pegaram a desafiar o moço:
— Então, seu Zéca, não vê? A moça está falando... O rapaz nem se houvera desapeado. Tocou o ca­valo para perto de nós e falou:
— Uai, dona! Que é que vancê me dá se eu apartar o bezerro? dança comigo?
— Danço a noite inteira com vancê.
Mal a Januária falou assim, o moço tocou o animal, empurrou a porteira e entrou no curral. Ninguém ima­ginava o que ele ia fazer; estávamos todos pasmos, e os homens pegaram a falar:
— Que é isso, seu Zéca? Olhe que a vaca lhe chifra o cavalo.
Ele nem respondeu, virou para nós e disse:
— Olhe a catira, moça!
E tocou o cavalo para o lado da vaca brava, e, quando chegou bem pertinho, agachou de repente, agarrou o bezerrinho e botou em riba dos arreios, em tempo de levar um tombo do animal.
O bezerro largou um berro, a vaca veio em cima, o cavalo pegou a pular... Os cachorros entraram no terreiro e era só au! au! au! que parecia uma caçada. Nem lhe sei contar mais nada. A gente só via os sola­vancos do poldro, a vaca em riba do cavalo, de cor­nadas, e o Borboleta abraçado com o bezerro, tocando o cavalo para o cercado de apartar, e gritando:
— Eh!... moçada, conheceu?! Nós gritávamos:
— Largue, seu Zéca, venha-se embora!
Mas ele ou não escutava ou não se importava. De repente, escureceu de poeira! A vaca destripou o pingo com urna cornada e foi em cima do rapaz que o rolou no chão! O cavalo caiu já morto e o moço havia de ficar também despedaçado, estraçalhado de todo, se o seu João Vitória não tivesse perdido o amor da criação e não metesse uma bala na testa da vaca. E ainda foi Deus, a bala não ter pegado o moço...
E ficaram ali, todos três, estirados.
Quando a Celestina acabou de contar o fato a Nhá Maria Velha, que estava chorando e se lastimando desde o princípio, parou de repente, com os olhos secos, bri­lhando, e virou para a Januária, com uma gana de morte:
— Então, bruaca sem vergonha, foi você que matou meu filho! Ah! ladrona, cadela do diabo, se tu não inguiçasse, ele não se machucava, demônia! Tu me hás de pagar, deixa estar, tu me hás de pagar!...
E a mulher estava que nem uma cobra danada, dando cada bote na outra que quase lhe metia as unhas na cara.
***
Vancês sabem o sítio onde era a casa do Borboleta. Tem ali para baixo aquelas pedreiras altas que vão dar no rio. Elas estavam bem no alto da pedra grande, mesmo na ponta, aonde vai dar a estrada do Marimbeiro. Quando a Nhá Maria Velha estava xingando a Januária, vinha chegando ali um filho dessa rapariga, que tinha ficado para trás. Era um curuminzinho de seis anos, por nome Romão.
A velha, quando viu chegar a criança, redobrou de raiva e desandou a dizer, tremendo, com a boca espu­mando, como quem está com o maligno no corpo:
— Tu também tens filho, diaba! Tu ainda hás de saber o que é andar matando filho dos outros. Eu te mostro, eu hei de te mostrar, tu te hás de arrepender, bruaca!
Ninguém esperava o que a velha aprontou naquela hora: — agarrou o rapazinho pelos braços e atirou com ele pelas ribanceiras a baixo, de maneira que o menino foi arrebentar a cabeça nas pontas das lajes do rio. A água ficou num instante vermelha que nem tinta!
As três raparigas quando deram pela coisa, já a danada da velha ia longe, correndo, com os cabelos soltos, voando, feito a crina de uma égua disparada!
E nesse gosto ela caminhou a noite inteira, soltando cada grito rouco que parecia um uivo de sauá. E os galos já estavam amudarido, a barra do dia já ia apa­recendo, quando ela desceu o morro do Córrego Fundo naquele mesmo galope de animal. Enveredou pela casa do João Vitória adentro e foi parar no quarto onde estava o filho, com a cabeça toda enleada de pano, estendido no catre, feito defunto. A coitada da velha caiu de joelhos, agarrou a mão do moço e pegou a beijá-la, sem parar.
O rapaz estava fraco que nem dava manifesto de nada; mas quando ele viu a mãe, ergueu um pouco a cabeça e sorriu.
Depois, com uma voz baixa, sumida como um sopro, ele principiou a falar, devagarzinho, sé parando para gemer, com a suspiração cada vez mais difícil:
— Ah! Nhá Mãe, vancê fez bem de vir aqui. Olhe, eu vou morrer, mas não queria... levar um pecado... que tenho. Eu quero lhe contar... e lhe pedir... um favor. Vancê faz, Mãe, vancê faz?
A voz dele já estava que nem na agonia mesmo. A velha não parava de chorar... Nós todos, ali, estávamos sucumbidos de tristeza.
— Eu faço, meu filho, eu faço o que você quiser. Ai! meu Deus, Nossa Senhora da Conceição!...
— Olhe, Mãe, eu lhe conto... Eu fiz uma coisa mal feita... um dia. Eu perdi... uma rapariga. Ela teve um filho... Eu lhe peço, Mãe, vancê olhe por ele e.... por ela. Tudo o que é meu é para ele: meu cavalo... meu socado... a faca de prata...
Mal falou isso, caiu outra vez nos travesseiros como desacordado.
Das brechas da cabeça estava saindo outra vez uma porçãozinha de sangue.
— Mas quem é, meu filho, como se chama ele, como é? E a velha se debruçava na cama, abraçando o filho, beijando-lhe a cara inteira. Todos ali estavam num silêncio de morte. Alguns choravam. Outros ajoe­lhados aos pés do catre, de rosário na mão, já tinham pegado a rezar o responso. A modos que o rapaz já estava morto e bem morto.
De repente ele estremeceu e, já na agonia mesmo, fez uma força, abriu os olhos e falou um nome que só a velha é que escutou. Escutou, largou um grito e nós ouvimos o baque do corpo dela no chão.
Arredaram a coitada para um canto, botaram a vela na mão do defunto e, quando foi de tarde, pusemos o corpo dele numa rede e levamos para o arraial.
Quando voltamos, soubemos que a Nhá Maria Velha tinha sumido. Foram achar o corpo dela, daí a uns dias, no sumidouro, para baixo do lugar onde morreu o Romão.
Depois é que se soube que esse rapazinho era o filho do Borboleta...
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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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