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6/25/2019

O presente de bodas (Conto), de Veiga Miranda



O presente de bodas
Prelidiano Gonçalves de Távora desposara, havia quase vinte e cinco anos, uma mocinha de Iguape, franzina, meiga e cheia de sardas. Naquela época, ainda não era ("lê escrivão nem qualquer outra coisa. Entrou para o cartório mais tarde, instado pela sogra a cujas costas vivia e que se não cansava de pregar todos os dias um sermão contra "certos maridos troca-tintas que deixam a mulher em casa, a trabalhar, e vivem trocando as pernas, pelas esquinas..."
A temível senhora morria pouco depois, de um antraz ao peito e só então veio a conhecer Freudiano a dura contingência de prover ao combustível para a máquina doméstica, contingência tanto mais imperiosa quanto a família prosperara (em número, já se vê...), havendo a franzina iguapense em menos de dois anos brindado ao aturdido escrivão com três magníficos exemplares da última edição dos Gonçalves de Távora.
Essa assustadora fecundidade assombrou o pobre pai; vieram primeiro aquelas meninas gêmeas. Laura e Leonor, depois o seu morgado, como ele dizia aludindo ao rebento varão, a que chamou Mariano, em honra de sua esposa, Marianinha.
Mas, foi um susto apenas; a fecundidade de Ma­rianinha esvaiu-se, estacou, desapareceu, como esses veios de água límpida que correm sob as florestas e de súbito somem na terra. Tranquilidade para Freudiano... Tranquilidade logo depois convulsionada por uma dor aguda: o seu morgado que, aos sete anos já era um grandíssimo peralta, certa manhã, em outubro, levava uni trambolhão dos píncaros de uma jabuticabeira, de tal sorte que se lhe torceram os gorgomilos e morreu.
Ficou o doce sentimento da paternidade reduzido, em Freudiano, a passear da cabeça de Laura para a de Leonor, da cabeça de Leonor para a de Laura. E, como a família era pequena, entenderam as suas cunhadas de Iguape que seria agradável e consolador virem-se aboletar com ele, nada menos de três, uma das quais viúva, reumática, e com quatro filhos. A máquina doméstica exigia agora o dobro em cavalos-vapor de autos, translades e públicas-formas, e a figura de Prelidiano a suportar todo o estafante e pesadíssimo encargo daquela família lem­brava bem o símbolo mitológico de Atlas, mas de um Atlas pigmeu, condenado a aguentar o mundo.
***
Aproximavam-se para o venturoso casal as bodas de prata e a suave Marianinha lembrara-se de que bem podiam festejar aquela data casando as duas filhas, pois tanto Laura como Leonor traziam namoro, a primeira com um escrevente de cartório, a segunda com certo oficial de polícia. Estavam ambos prontos a pedi-las, era questão de um sinal de cabeça das meninas...
— Seria a maneira mais bonita, dizia a romântica Marianinha, de comemorar-se aquele dia... Mas, objetava o marido, para isso eram precisos meios, recursos para o enxoval, para os consertos da casa, para a mobília dos quartos!
A casinha era própria, uma casinha na Rua do Carmo, pequena é verdade, mas era deles, ou antes dela, Marianinha, legado de certa baronesa rica que n levara à pia do batismo e cuja proteção e amizade foram para a iguapense, ao lado do encanto dos seus olhos, as coisas que mais enfeitiçaram Freudiano.
O escrivão achara a ideia dos casamentos verdadeiramente genial, tanto mais que se lembrara de estabelecer com os genros uma espécie de comandita para aguentar o lar doméstico. E andava preocupadíssimo com a lem­brança dos enxovais, da mobília dos quartos, dos con­sertos da casa, sonhando mil recursos diferentes, emba­lando-se nas mais frágeis miragens, lançando a âncora da esperança aos bilhetes de loterias, ao acaso, a algum testamento desconhecido.
Mas nada, nada!
Com os seus proventos de escriba, magros, que mal chegavam para o feijão diário, nem era bom contar. Naquele caso só uma intervenção providencial, algum fenômeno benéfico da fortuna, coisas que escapavam inteiramente aos seus esforços e à sua energia.
E, entretanto, contava de tal forma com essas forças estranhas, que as duas raparigas já haviam acenado aos namorados o "peça-me a papai", e tal pedido já fora feito e dado o Sim, tudo isso em duplicata, infestado, como dizia um caixeiro da vizinhança, amigo do escrivão.
Faltavam apenas quatro meses para a data venturosa e fatal, o amoroso idílio das pequenas corria o mais ardente possível, sob o olhar de cérebros tutelares da mãe e das tias, e só Freudiano andava cada vez mais sorumbático e triste.
A fortuna não dera ainda um passo a seu favor! Os enxovais estavam por fazer, as mobílias por comprar, a casinha inteira esperando a mão de tinta prometida e urgente.
A sua Marianinha desfazia toda a suavidade em objurgatórias constantes, terríveis catilinárias que desa­bavam como pedras sobre a cabeça do escrivão, atos esses em que colaboravam as três cunhadas vindas de Iguape, uma certa comadre da vizinhança, e até as me­ninas com expressivos muxoxos e dengues cheios de ironia e desprezo.
— Arre! Graças a Deus, tia Antonica, já me deu seis camisas, dizia uma.
— E eu, para o meu vestido, já tenho uma peça de tira bordada, volvia a outra.
— E vocês se contentem, meninas, que o enxoval há de ser pouco maior, gorgolejava uma das tias, que era um tanto papuda.
— E, se formos esperar por mais, não casamos, respondiam ambas.
Estas palavras, entrecortadas de sorrisos escarninhos, olhares mofadores e ferinos, transpassavam a alma do escrivão como sete espadas. Era quase sempre à hora do almoço que se passavam tais escaramuças e o pobre homem saía para o trabalho varado e humilde como um cão.
Sofria aquela injustiça dos seus com resignação estoica. Que pretendiam, santo Deus? Que fabricasse moeda falsa, roubasse, descobrisse uma mina de ouro? Já se não lembrava porém de que aquela suntuosidade de enxovais, de mobília, de casinha pintada, fora ele próprio que despertara no espírito das filhas, sugerindo-lhes coisas que, á sua imaginação de visionário, se auguravam realiáveis e possíveis.
O pobre homem tomava tristemente o chapéu, a bengala, um maço de autos que levara a copiar toda a noite, e o jornal. Acendia um cigarro grosseiro, de palha, e lá se ia vagarosamente, lendo a folha pela rua. A primeira coluna por onde soltava os olhos febris e espe­rançosos era a das loterias. Nunca deixava de ter um bilhetinho a conferir. Era o seu grande sonho! Cin­quenta contos, bastavam... E imaginava o seu número premiado, notas dos bancos bailando em torno à figura, num frenesi. Não dizia nada a ninguém; depositaria o dinheiro em um banco, afetaria em casa a mesma pobreza, o mesmo desânimo... Deixaria que fizessem um enxovalzinho modesto, simples, muito escasso... Ouviria as recri­minações da mulher contra o mau estado da casa, a feia e velha mobília dos quartos: suportaria o desdém e má vontade das filhas, tudo com um sorriso superior, enigmático, de quem traz um mistério dentro de si.
Ah! mas no dia, depois de realizada a cerimônia, ele se chegaria aos dois pares, na presença do juiz de paz, do cônego, dos convidados, metido naquela mesma sobrecasaca ruça que também passava as bodas de prata e, depondo nas mãos de cada filha um rolo de papel, dizia:
— Eis aí, meninas, o presente de bodas do vosso pai!
Eram vinte apólices, vinte contos para cada uma. E todos ficariam atônitos, e ele, radiante, alegre, triun­fador, seria abraçado e beijado pelas filhas, pela mulher, pelas cunhadas, e até pelos dois genros, sem dúvida, principalmente pelos dois genros.
E o pobre Gonçalves de Távora repetia na rua o seu grande gesto, vibrando o rolo dos autos e do jornal, a dizer em voz alta para os transeuntes espantados:
— Eis aí, meninas o presente de bodas do vosso pai!
Mas o som das suas próprias palavras vinha fazê-lo cair em si, despenhando-se do alto da sua quimera para a dureza da realidade e do asfalto.
***
Diariamente era a. procura dos números da loteria que o levava a sonhar; e diariamente a sorte fugia dele numa obstinação cruel. Da coluna das loterias passava os olhos pelo jornal todo, com indiferença. Lia-o, entre­tanto, linha por linha, até o fim, mas às vezes a leitura estava para um lado e a sua imaginação se desgarrava por outro, aos saltos, atrás do belo sonho de sempre.
Certa vez em que procedia distraidamente a essa leitura, sentado a sua mesa de trabalho, antes de encetar a labutação enfadonha de encher folhas e folhas de almaço, surgiu-lhe pela frente uma notícia que lhe soube prender os olhos e a atenção. Vinha no obituário e dizia:
"Suicidou-se ontem, ingerindo uma forte porção de láudano, o conhecido negociante desta praça, Sr. A. de L.
Atrasos comerciais levaram-no a esta solução extrema. Sabemos, porém, que deixa a família amparada graças a um seguro de cem contos que fizera na companhia tal"...
Como! Exclamou consigo Freudiano, as companhias pagam o seguro em caso de suicídio! Não é possível... Mas, daí a três ou quatro dias, tinha a confirmação daquilo lendo no mesmo jornal o recibo firmado pela viúva do morto, acompanhado de agradecimentos à companhia de seguros pela prontidão com que satisfizeram o pagamento, etc.
Segundo o costume, logo subordinou aquele caso à sua fantasia. Releu vagarosamente o recibo, mas firmado por Marianinha, e o segurado extinto, suicida, tinha o nome dele, bem claro, com todas as letras — Freudiano Gonçalves de Távora! Aquela ideia sulcou-lhe a mente como as rodas de pesado caminhão um terreno fofo e compreensível. Sim, realmente, era uma solução, pensava ele. E, depois, que heroísmo, quanta abnegação naquele sacrifício pela família!...
Faltavam dois meses apenas para as> suas bodas de prata e até agora a fortuna, o acaso, as loterias, nada qui­sera vir ao seu encontro.
Guardou no fundo d'alma aquela resolução. Desde esse dia, quando, em casa, a mulher e as filhas o primiam sob uma saraivada de remoques e ditos, ele sorria, tinha um ar transfigurado de mártir, parecendo gozar daquele sofrimento. Os ápodos, as recriminações, as continuadas invectivas que dantes o abatiam e torturavam, constituíam agora para ele delícias esquisitas.
— Como se hão de arrepender, pensava ele, como se hão de arrepender!...
E, em segredo, sem participar a ninguém, conheceu a prestação que, na sua idade, se deveria pagar por um seguro de cinquenta contos, sujeitou-se ao exame médico no consultório da companhia, tudo misteriosamente, às escondidas, com terror pânico de ser pilhado e descoberto durante aquelas disposições.
Homem de ordinário inerme, sem expedientes, Prelidiano se transformara naqueles dias, desenvolvendo atividade e astúcia até então desconhecidas na sua pessoa.
Assim foi que, ao saber que uma só prestação lhe custaria dois contos de réis, devido à sua avançada idade, não desanimou; foi a um capitalista seu amigo e fê-lo, pe­dindo o maior sigilo, dizer se lhe emprestava aquela quantia sob a hipoteca de sua casinha. Obtida resposta favorável do argentário, fez lavrar em cartório a com­petente escritura que apresentou à sua mulher, fazendo-a assinar como se fossem papéis para os casamentos. A simples e suave Marianinha assinou confiante-
Freudiano, nadando cm júbilo, partiu de casa para o escritório do capitalista que o embolsou do dinheiro. Ao tocar aquelas notas, numa quantia que nunca tivera em mãos em dias de sua vida, o escrivão não teve a menor sensação de horror. Não eram a sua sentença de morte; eram os esponsais, a felicidade das filhas, o seu presente de bodas.
Levou toda a importância à agência da companhia, recebendo imediatamente a sua apólice de cinquenta contos. Cinquenta contos! O que não pudera adquirir, em trinta anos de trabalho e de sofrimento, para legar à família, ia conseguir de uma hora para outra, rapida­mente, graças a uma dose de láudano. Andou, de far­mácia em farmácia, comprando o tóxico em pequenas quantidades para não suscitar suspeitas... E, guardando no bolso aquele arsenal de vidrinhos, ao lado da apólice do seguro, partiu para a casa feliz, cheio de tranquili­dade, trauteando cançonetas alegres.
Certa manhã, a mulher dirigiu-se-lhe de mau-humor:
— Não sei se te lembras de que faltam vinte dias para os casamentos! E estamos tão adiantados como há seis meses... Santo Deus, que palerma de marido!
— É hoje, pensou o pobre homem — E respondeu: — Não te aflijas, Marianinha, juro-te que os casamentos serão feitos. Amanhã mesmo terás todo o necessário para isso...
— Todo o necessário... É bom dizer mas não de arranjar. Esperas que caia do céu, não é?
— Verás, Marianinha, verás...
Tomou o chapéu, a bengala e os jornais, como de costume, mas, em vez de sair para o cartório, dirigiu-se sorrateiramente para um compartimento da casa que lhe servia de escritório e fechou-se por dentro.
Sentou-se à sua velha escrivaninha, onde tantos milhares de autos, translades, públicas-formas e escrituras copiara durante a vida e escreveu estas linhas derradeiras e fatais:
Marianinha
Nesta gaveta acharás uma apólice de seguro de vida no valor de cinquenta contos. É meu desejo que no dia dos casamentos, seja dada a cada uma das meninas, como presente meu, a quantia de, vinte e cinco contos. O resto é para ti e para as despesas. Adeus.
Prelidiano.
E deitando-se num velho canapé ingeriu, de um por um todo conteúdo dos frasquinhos que trouxera.
Seria uma hora da tarde quando um solicitador do foro bateu à porta da casinha da Rua do Carmo, per­guntando pelo escrivão.
— Foi para o tribunal, disseram.
— Mas lá não está, respondeu o homem.
E acrescentou precisar de uns papéis que deveriam estar na escrivaninha de Prelidiano e pedia às senhoras licença de procurá-los.
— Pois não! Entre e faça o favor, respondeu uma das filhas introduzindo o recém-chegado.
E Marianinha e as duas raparigas lá conduziram o rapaz, através dos corredores da casa, até o gabinete do escrivão. Notaram com espanto que a porta estava fe­chada e a chave pelo lado de dentro, na fechadura. O espanto degenerou em pânico e terror quando lhes pareceu, a todos, ouvir gemidos trágicos, dolorosos, que provinham do aposento.
Gritos e lamentações de Marianinha e das filhas, enquanto o solicitador metia ombros à porta que, depois de várias e enérgicas tentativas não teve senão ceder.
No chão, sobre o tapete esgarçado, caído do canapé, jazia o Prelidiano mísero! A mulher atirou-se aos gritos para ele, as meninas saíram correndo, a pedir socorro, entrou gente estranha na casa, apareceu um médico, reinando por algum tempo uma confusão terrível.
Quando o enorme alarido serenou, é que deram com o bilhete em cima da secretária. Marianinha, ao lê-lo, teve um delíquio e foi necessário retirá-la do gabinete.
O solicitador que, no meio daquilo tudo, não esque­cera os seus papéis e remexia as gavetas a procurá-los, tirou de uma delas a apólice do seguro e leu-a.
— Datada de quatro deste mês, disse ele para o mé­dico que neste momento acabava de declarar perdido aquele caso, mas esta apólice não vale nada...
— Como? perguntou um dos presentes.
— A companhia só paga o seguro em caso de sui­cídios quando o sinistro se dá depois de cinco anos de prestações.
O pobre envenenado teve um momento de lucidez extrema ao ouvir aquelas palavras. Pensou na sua ca­sinha hipotecada e expirou.

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/20/2019

Romão de Januária (Conto), de Veiga Miranda

Romão de Januária
Quando cheguei já o João da Luz começara a contar o caso e os outros todos se lhe haviam grupado em de redor, curiosamente. Era o serão do costume: no meio havia um monte de mandioca e os caboclos, sen­tados em toros de pau ou em tamboretes baixos, aga­chados, iam dali tirando as raízes enlameadas e des­cascando-as.
A história do João da Luz fizera esmorecer o tra­balho mas, ainda assim, ouvia-se o rumor das pequenas facas recurvas sobre as crostas das mandiocas e as raízes desnudadas e brancas eram de contínuo atiradas para o lado sobre uma esteira grande.
"Fazia três dias naquela tarde, dizia o João da Luz, que o Zé Borboleta tinha ido para o Córrego Fundo, dando repasso naquele potranco ruço queimado que foi do Major Felício e que o patrão tinha dado a ele para adornar. Oh! cavalo danado aquele!... Nem lhe sei dizer mesmo, minha gente, se um bicho assim não era até o demônio para tentar e perseguir um homem...
Mas o rapaz era destorcido como nenhum e saltou em riba do macho sem medo, no primeiro dia de re­passar. O potro pulou feito um doido. Aquilo o terreiro da fazenda ficou assim de povo para apreciar o tombo do peão. Mas, qual!... O Borboleta ainda metia a chilena na barriga do poldro que o animal gemia que nem gente.  Depois de muito corcovo, o cavalo disparou pelo curral a fora, saltou a cerca e foi pelo campo numa vereda, de galope feito uma flecha.
O Antônio Reinaldo e os outros que correram atrás, foram topar com o poldro, lá adiante, caído no meio do açude, e o rapaz em cima, de espora, metendo o rabo de tatu, berrando com o bruto... Foi preciso pedir ao homem para não matar o cavalo, que o patrão ficava danado, se não ele não saía de riba do bicho nunca.
Tiraram os dois de lá encharcados, e o cavalo ema­greceu com o repasso que até pesteou um pouco. Teve de ir para o gordura e, quando foram buscá-lo outra vez, já estava bravo e arisco que era um veado.
Foi nessa outra vez de repassar o piquira que houve no Córrego Fundo aquele mutirão do João Vitória, e um batuque sarado de noite.
O moço, mal soube da festa, arriou o cavalo (já estava até meio escurecendo) e ainda teve de correr à roda do bicho para montar, que ele estava boleador e mesquinho, dando só cada pinote e cada bufo que a alma até lhe parecia querer sair pelas ventas...
Mal o Borboleta sentou no arreio e meteu a tala, o ruço queimado saiu num trote largo, só refugando, torcendo para cá, para lá, e o rapaz quebrando o animal, dando cada soco na rédea que a boca dele já estava que era sangue só.
A coitada da Nhá Maria Velha ainda falou assim, antes dele ir:
— Olhe, Zeca... você ainda se machuca com esses cavalos...
— Qual o que, Nhá Mãe! O homem morre no dia e não na véspera.
E partiu no galope do poldro, só esbarrando-o e quebrando-o, que o animal já ia banhado.
***
Pois é como eu lhes estava contando... Naquela tarde fazia três dias que o Borboleta tinha ido para o Córrego Fundo e desde então Nhá Maria andava num susto de morte. Vivia rezando para Nossa Senhora, fazendo promessa e mais promessa!...
O Córrego Fundo era perto, umas cinco léguas, no mais, e na toada daquele poldro o rapaz podia estar lá em duas horas. E, ainda que tivesse passado a noite na catira, no outro dia bem pudera estar de volta. E a pobre da velha tinha um pressentimento ruim, pensando na braveza do poldro, nas buraqueiras do caminho, cuidando que o filho tivesse ficado estendido no fundo de alguma cata, se porventura caísse do cavalo...
E era o dia inteiro de rosário na mão, terço e mais terço para as almas...
Pois naquela tarde (o sol já ia entrando), a velha estava catando uns gravetos em frente da tapera dela, ali no Mundo Novo, quando ouviu de repente umas vozes e enxergou logo os vultos de três mulheres que vinham caminhando para o lado dela. Firmou bem os olhos e conheceu que eram três raparigas das Águas, a Celestina, a Cota e a Januária, três criaturas perdidas e de quem a Nhá Maria tinha uma birra enorme. E não deixava passar ocasião de falar mal delas, "três tipas ordinárias que não perdiam função, só para andar desen­caminhando os rapazes, fazendo briga e barulho em toda a parte. Olhem, ainda no outro dia, Zequinha Lopes não enfiara a faca no Lino? E eram todos dois rapazes de juízo, trabalhadores... Foi tudo por amor delas, cambada!"
***
Nisso vinham chegando as três, a Cota na frente, toda regateira, com um lenço vermelho na cabeça, por amor do sol, com um vestido azul de ramagens que tinha a barra toda suja de lama. E mal enxergou a velha, pegou a falar, só se rindo:
— Hi! hi! hi!... Boas tardes, Nhá Maria; então, como vai? Está catando gravetos?
— Boas tardes, minhas filhas, estão vindo da festa, respondeu a velha, sopitando a raiva que tinha daquelas malandras. Digam-rne uma coisa, o seu Zeca, não viram se ele ainda estava lá?
— Está lá, Nhá Maria, no fundo de uma cama, gemendo!
— No fundo de uma cama!... Virgem Nossa Se­nhora!... Mas, que foi, que foi que aconteceu? Ele caiu do cavalo?...
— Uai!... Pois vancê não sabia? Nós nem che­gamos a dançar. Não houve festa por amor disso. Nós, desde anteontem que viemos, estávamos ali na casa da Januária, no Marimbeiro.
A velha já nem escutava mais nada. Pôs as mãos na cabeça, com os olhos vidrados, feito louca:
— Por que é que não me avisaram? quando foi? me conta, gente! que é dele, machucou muito? Celes­tina, minha filha, me conta!
E a velha chorava que fazia dó na gente.
— Olhe, Nhá Maria, eu lhe conto. Quando o seu filho chegou lá, já era de tarde, o sol já tinha entrado. Nós estávamos na porta do curral, no alto da escadaria de pedra, vendo o Camilo da tia Joanna, que queria apartar uma vaca de bezerro novo, brava feito onça. A vaca investia com vontade, e o Camilo já tinha pulado para fora da cerca e estava trepado no moirão da por­teira dizendo que não havia ali um cabra de coragem capaz de apartar aquele bezerrinho.
Nisso chega o seu Borboleta e vai a Januária virou assim para ele:
— Como é, seu Zéca, eu amanhã quero comer leite daquela vaca e não tem um homem de sustância que vá apartar a bezerrinho?...
Todos então pegaram a desafiar o moço:
— Então, seu Zéca, não vê? A moça está falando... O rapaz nem se houvera desapeado. Tocou o ca­valo para perto de nós e falou:
— Uai, dona! Que é que vancê me dá se eu apartar o bezerro? dança comigo?
— Danço a noite inteira com vancê.
Mal a Januária falou assim, o moço tocou o animal, empurrou a porteira e entrou no curral. Ninguém ima­ginava o que ele ia fazer; estávamos todos pasmos, e os homens pegaram a falar:
— Que é isso, seu Zéca? Olhe que a vaca lhe chifra o cavalo.
Ele nem respondeu, virou para nós e disse:
— Olhe a catira, moça!
E tocou o cavalo para o lado da vaca brava, e, quando chegou bem pertinho, agachou de repente, agarrou o bezerrinho e botou em riba dos arreios, em tempo de levar um tombo do animal.
O bezerro largou um berro, a vaca veio em cima, o cavalo pegou a pular... Os cachorros entraram no terreiro e era só au! au! au! que parecia uma caçada. Nem lhe sei contar mais nada. A gente só via os sola­vancos do poldro, a vaca em riba do cavalo, de cor­nadas, e o Borboleta abraçado com o bezerro, tocando o cavalo para o cercado de apartar, e gritando:
— Eh!... moçada, conheceu?! Nós gritávamos:
— Largue, seu Zéca, venha-se embora!
Mas ele ou não escutava ou não se importava. De repente, escureceu de poeira! A vaca destripou o pingo com urna cornada e foi em cima do rapaz que o rolou no chão! O cavalo caiu já morto e o moço havia de ficar também despedaçado, estraçalhado de todo, se o seu João Vitória não tivesse perdido o amor da criação e não metesse uma bala na testa da vaca. E ainda foi Deus, a bala não ter pegado o moço...
E ficaram ali, todos três, estirados.
Quando a Celestina acabou de contar o fato a Nhá Maria Velha, que estava chorando e se lastimando desde o princípio, parou de repente, com os olhos secos, bri­lhando, e virou para a Januária, com uma gana de morte:
— Então, bruaca sem vergonha, foi você que matou meu filho! Ah! ladrona, cadela do diabo, se tu não inguiçasse, ele não se machucava, demônia! Tu me hás de pagar, deixa estar, tu me hás de pagar!...
E a mulher estava que nem uma cobra danada, dando cada bote na outra que quase lhe metia as unhas na cara.
***
Vancês sabem o sítio onde era a casa do Borboleta. Tem ali para baixo aquelas pedreiras altas que vão dar no rio. Elas estavam bem no alto da pedra grande, mesmo na ponta, aonde vai dar a estrada do Marimbeiro. Quando a Nhá Maria Velha estava xingando a Januária, vinha chegando ali um filho dessa rapariga, que tinha ficado para trás. Era um curuminzinho de seis anos, por nome Romão.
A velha, quando viu chegar a criança, redobrou de raiva e desandou a dizer, tremendo, com a boca espu­mando, como quem está com o maligno no corpo:
— Tu também tens filho, diaba! Tu ainda hás de saber o que é andar matando filho dos outros. Eu te mostro, eu hei de te mostrar, tu te hás de arrepender, bruaca!
Ninguém esperava o que a velha aprontou naquela hora: — agarrou o rapazinho pelos braços e atirou com ele pelas ribanceiras a baixo, de maneira que o menino foi arrebentar a cabeça nas pontas das lajes do rio. A água ficou num instante vermelha que nem tinta!
As três raparigas quando deram pela coisa, já a danada da velha ia longe, correndo, com os cabelos soltos, voando, feito a crina de uma égua disparada!
E nesse gosto ela caminhou a noite inteira, soltando cada grito rouco que parecia um uivo de sauá. E os galos já estavam amudarido, a barra do dia já ia apa­recendo, quando ela desceu o morro do Córrego Fundo naquele mesmo galope de animal. Enveredou pela casa do João Vitória adentro e foi parar no quarto onde estava o filho, com a cabeça toda enleada de pano, estendido no catre, feito defunto. A coitada da velha caiu de joelhos, agarrou a mão do moço e pegou a beijá-la, sem parar.
O rapaz estava fraco que nem dava manifesto de nada; mas quando ele viu a mãe, ergueu um pouco a cabeça e sorriu.
Depois, com uma voz baixa, sumida como um sopro, ele principiou a falar, devagarzinho, sé parando para gemer, com a suspiração cada vez mais difícil:
— Ah! Nhá Mãe, vancê fez bem de vir aqui. Olhe, eu vou morrer, mas não queria... levar um pecado... que tenho. Eu quero lhe contar... e lhe pedir... um favor. Vancê faz, Mãe, vancê faz?
A voz dele já estava que nem na agonia mesmo. A velha não parava de chorar... Nós todos, ali, estávamos sucumbidos de tristeza.
— Eu faço, meu filho, eu faço o que você quiser. Ai! meu Deus, Nossa Senhora da Conceição!...
— Olhe, Mãe, eu lhe conto... Eu fiz uma coisa mal feita... um dia. Eu perdi... uma rapariga. Ela teve um filho... Eu lhe peço, Mãe, vancê olhe por ele e.... por ela. Tudo o que é meu é para ele: meu cavalo... meu socado... a faca de prata...
Mal falou isso, caiu outra vez nos travesseiros como desacordado.
Das brechas da cabeça estava saindo outra vez uma porçãozinha de sangue.
— Mas quem é, meu filho, como se chama ele, como é? E a velha se debruçava na cama, abraçando o filho, beijando-lhe a cara inteira. Todos ali estavam num silêncio de morte. Alguns choravam. Outros ajoe­lhados aos pés do catre, de rosário na mão, já tinham pegado a rezar o responso. A modos que o rapaz já estava morto e bem morto.
De repente ele estremeceu e, já na agonia mesmo, fez uma força, abriu os olhos e falou um nome que só a velha é que escutou. Escutou, largou um grito e nós ouvimos o baque do corpo dela no chão.
Arredaram a coitada para um canto, botaram a vela na mão do defunto e, quando foi de tarde, pusemos o corpo dele numa rede e levamos para o arraial.
Quando voltamos, soubemos que a Nhá Maria Velha tinha sumido. Foram achar o corpo dela, daí a uns dias, no sumidouro, para baixo do lugar onde morreu o Romão.
Depois é que se soube que esse rapazinho era o filho do Borboleta...
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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)