sábado, 8 de junho de 2019

Rumpelstichen (Fábula), dos Irmãos Grimm




Rumpelstichen

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha uma filha linda. Um dia ele se encontrou com o rei e, para se dar importância, disse que sua filha sabia fiar palha, transformando-a em ouro.

— Esta é uma habilidade que me encanta — disse o rei. — Se é verdade o que diz, traga sua filha amanhã cedo ao castelo. Eu quero pô-la à prova.

No dia seguinte, quando a moça chegou, o rei levou-a para um quartinho cheio de palha, entregou-lhe uma roda e uma bobina e disse:

— Agora, ponha-se a trabalhar. Se até amanhã cedo não tiver fiado toda esta palha em ouro, você morrerá! — Depois saiu, trancou a porta e deixou a filha do moleiro sozinha.

A pobre moça sentou-se num canto e, por muito tempo, ficou pensando no que fazer. Não tinha a menor ideia de como fiar palha em ouro e não via jeito de escapar da morte. O pavor tomou conta da jovem, que começou a chorar desesperadamente. De repente, a porta se abriu e entrou um anãozinho muito esquisito.

— Boa tarde, minha linda menina — disse ele. — Por que chora tanto?

— Ah! — respondeu a moça entre soluços. — O rei me mandou fiar toda esta palha em ouro. Não sei como fazer isso!

— E se eu fiar para você? O que me dará em troca?

— Dou-lhe o meu colar.

O anãozinho pegou o colar, sentou-se diante da roda e, zum-zum-zum: girou-a três vezes e a bobina ficou cheia de ouro. Então começou de novo, girou a roda três vezes e a segunda bobina ficou cheia também. Varou a noite trabalhando assim e, quando acabou de fiar toda a palha e as bobinas ficaram cheias de ouro, sumiu.

No dia seguinte, mal o sol apareceu, o rei chegou e arregalou os olhos, assombrado e feliz ao ver todo aquele ouro. Contudo, seu ambicioso coração não se satisfez.

Levou a filha do moleiro para outro quarto um pouco maior, também cheio de palha, e ordenou-lhe que enchesse as bobinas de ouro, caso quisesse continuar viva.

A pobre moça ficou sentada olhando a palha, sem saber o que fazer. "Ah... se o anãozinho voltasse...", pensou, querendo chorar. Nesse instante a porta se abriu e ele entrou.

— O que você me dá, se eu fiar a palha? — perguntou.

— Dou-lhe o anel do meu dedo. Ele pegou o anel e se pôs a trabalhar. A cada três voltas da roda, uma bobina se enchia de ouro.

No outro dia, quando o rei chegou e viu as bobinas reluzindo de ouro, ficou mais radiante. Mas ainda dessa vez não se contentou. Levou a moça para outro quarto ainda maior, também cheio de palha e disse:

— Você vai fiar esta noite. Se puder repetir essa maravilha, quero que seja minha esposa.

O rei saiu, pensando: "Será que ela é mesmo filha do moleiro? Bah! O que importa é que vou me casar com a mulher mais rica do mundo!"

Quando a moça ficou sozinha, o anãozinho apareceu pela terceira vez e perguntou:

— O que você me dá, se ainda dessa vez eu fiar a palha?

— Eu não tenho mais nada...

— Se é assim, prometa que me dará seu primeiro filho, se você se tornar rainha.

"Isso nunca vai acontecer", pensou a filha do moleiro. E não tendo saída, prometeu ao anãozinho o que ele quis. 

Imediatamente ele se pôs a trabalhar, girando a roda a noite inteira.

De manhãzinha, quando o rei entrou no quarto, encontrou prontinho o que havia exigido. Cumprindo sua palavra, casou-se com a bela filha do moleiro, que assim se tornou rainha.

Um ano depois, ela deu à luz uma linda criança. Já nem se lembrava mais do misterioso anãozinho. Mas naquele mesmo dia, a porta se abriu repentinamente e ele entrou. — Vim buscar o que você me prometeu — disse.

A rainha ficou apavorada e ofereceu-lhe todas as riquezas do reino, se ele a deixasse ficar com a criança. Mas ele não quis.

— Não! Uma coisa viva vale muito mais para mim que todos os tesouros do mundo!

A rainha ficou desesperada; tanto chorou e se lamentou, que o anãozinho acabou ficando com pena.

— Está bem — disse. — Vou lhe dar três dias. Se no fim desse prazo você adivinhar o meu nome, poderá ficar com a criança.

A rainha passou a noite lembrando os nomes que conhecia e mandou um mensageiro percorrer o reino em busca de novos nomes.

Na manhã seguinte, quando o anãozinho chegou, ela foi dizendo:

— Gaspar, Melquior, Baltazar — e assim continuou, falando todos os nomes anotados. Mas a cada um deles o anão respondia balançando a cabeça:

— Não é esse meu nome!

No segundo dia, a rainha pediu às pessoas da vizinhança que lhe dessem seus apelidos, e fez uma lista dos nomes mais esquisitos, como: João das Lonjuras, Carabel-assim, Pernil-mal-assado e outros. Mas a todos a resposta do anão era a mesma:

— Não é esse meu nome!

No terceiro dia, o mensageiro que andava pelo reino à cata de novos nomes voltou e disse:

— Não descobri um só nome novo. Mas eu estava andando por um bosque no alto de um monte, onde raposas e coelhos dizem boa-noite uns aos outros, quando vi uma cabana. Diante da porta ardia uma fogueirinha e um anão muito esquisito, pulando num pé só ao redor do fogo, cantava:

— Hoje eu frito! Amanhã eu cozinho! Depois de amanhã será meu o filho da rainha! Coisa boa é ninguém saber

Que meu nome é Rumpelstichen!

Pode-se imaginar a alegria da rainha, quando ouviu esse nome. E quando um pouco mais tarde o anãozinho veio e perguntou:

— Então, senhora rainha, qual é meu nome? Ela disse antes:

— Será Fulano?

— Não!

— Será Beltrano?

— Não!

— Será por acaso Rumpelstichen?

— Foi o diabo que te contou! — gritou o anãozinho furioso.

E bateu o pé direito com tanta força no chão, que afundou até a virilha.

Depois, tentando tirar o pé do buraco, agarrou com ambas as mãos o pé esquerdo e puxou-o para cima com tal violência, que seu corpo se rasgou em dois. Então, desapareceu.


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Fonte:
"Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos": Ministério da Educação - Fundescola - Projeto Nordeste - Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000 - Volume 2. (A imagem que acompanha o texto, não se inclui na referida obra).

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