quarta-feira, 12 de junho de 2019

Sacrificada (Conto), de Ana de Castro Osório



Sacrificada

CAPÍTULO 1

Quando Manoela entrou para o convento, todas as freiras e recolhidas correram apressadas à grade do coro para conhecerem a nova companheira, de que a superiora, Sóror Gertrudes, há muito anunciara a vinda.

Falavam a um tempo, riam satisfeitas com aquela diversão, que desmonotonizava a vida fastienta de todos os dias, enquanto que ela, nervosa e pálida, as olhava assustada, como quem entrevê, sem o compreender, um mundo estranho.

Sentia-se abandonada no mundo, sem um afeto ou uma ilusão que lhe devesse dar o desejo e a alegria de viver, mas, apesar disso, aos seus dezesseis anos encantadores não sorria positivamente a ideia da prisão.

Era tão doce o sorriso triste que lhe errava nos lábios, e a sua voz, ligeiramente cantada, com o sotaque provinciano, era tão fresca e cariciosa, que as boas freiras a consideraram desde logo um anjo do Senhor, mandado para as consolar naquele triste fim da sua casa religiosa.

Encheram-na de presentes: uma trazia-lhe uns bentinhos, outra uma lâmina ingênua, salpicada de papelinhos doirados; rendas finas, outrora feitas na casa; doces, especialidade do convento; coisas insignificantes, que eram no entanto toda a sua fortuna.

E ela sentiu-se assim presa pelo reconhecimento, integrando-se numa vida que em breve seria também a sua.

A mãe perguntou-lhe: se queria entrar desde logo para o convento ou ficar alguns dias fora, para ver a cidade.

—Não; se tinha que entrar ali, então que fosse já. Ver a cidade para quê?! Que lhe importava a alegria, o movimento, a luz, — aquilo que era a existência da outra gente?

Não estava ela perdida, morta para o mundo, despedaçado tudo que tinha feito o encanto da sua própria existência, que era agora uma coisa à parte, fora da normalidade?!...

A mãe aprovou, contente com aquela resolução; ansiava por a ver entregue aos cuidados da boa tia, Sóror Gertrudes, que a recebeu soluçando de contentamento e mágoa —alegria de ter a sobrinha junto de si, fundo desgosto pela sua imensa desgraça.

Porque era uma história um pouco triste, a dessa rapariga, que assim vinha esconder a sua vida em flor no silêncio dos longos corredores cheios de sombra, adormentar o espírito nessa vida que já pertencia ao passado.

Manoela ficara, muito nova, sem pai, e por isso quase inteiramente abandonada a si mesma, visto que a mãe, duma devoção estreita e dum caráter frio e áspero, entregava-se por completo à prática das suas muitas rezas e orações e deixava os filhos em plena liberdade.
A pequena, que era uma natureza delicada e emotiva, assim foi crescendo sem um carinho que lhe afagasse e dulcificasse a existência, retraindo-se numa aparência de frieza melancólica.

Os irmãos, três rapazes, viviam alegremente, sem cuidados nem canseiras, caçando pelas serras, comendo e bebendo à tripa-forra com os companheiros, jogando o pau pelas romarias e feiras — senhores morgados de aldeia que todas as raparigas disputavam para seus pares, e dos quais todos os homens tinham como honra a convivência.

O mais velho, bom rapaz, bronco e ingênuo apesar da sua aparência de gozador, fora para Coimbra por sua alta recreação, segundo o costume tradicional dos morgados beirões, e por lá se ia formando aos solavancos: “R R” daqui, guitarradas dali, ceias e patuscadas com os amigos, sempre alegre e satisfeito consigo e com os outros.

Ora uma vez, a pretexto de caçadas que se faziam melhores que em parte alguma pelos matagais cerrados das suas serranias, levou, para passar umas férias na aldeia, o seu mais íntimo amigo e companheiro mais certo das suas noitadas e trupes em vésperas de feriado.

Cavalgando os possantes cavalos que os criados lhes levaram com tempo, juntaram-se à caravana dos mais rapazes da região e seguiram, como era costume, atravessando vilas e aldeias ao som marcial das cornetas, como um verdadeiro batalhão, que ia diminuindo, não pela morte, mas pela alegria dos que primeiro encontravam as suas casas e se despediam dos companheiros até ao fim das férias.

Foram eles os últimos a chegar ao vasto casarão de província, onde a adega estava sempre aberta, as espingardas carregadas atrás da porta, e a matilha impaciente tudo invadia, roubando na cozinha, sujando as salas e quartos, batida pelas criadas em desespero, afagada pelos amos que riam das suas partidas e se sentiam muito à vontade no meio daquela desordem.

Manoela era um verdadeiro milagre de graça e pureza num meio tão vulgar e rude.

O rapaz, ao vê-la assomar ao alpendre, mal sentira a tropeada dos cavalos e descer correndo os degraus de pedra que davam acesso exterior para o andar nobre da casa, para abraçar o irmão, ficara deveras impressionado. Tanto mais que não contava encontrar, numa irmã do seu hercúleo companheiro de estúrdia, tanto mimo e graciosidade de linhas, uma tal delicadeza e aristocracia nativa de porte.

À primeira impressão de agradável surpresa seguiu-se o desejo da posse e o projeto da conquista.

Para que essa criança, ignorante e ingênua, se prendesse a um homem que lhe falava a dulçorosa e enganadora linguagem de vulgar D. João, que para ela representava a verdade, a honra, o ideal supremo porque tantas outras têm, como ela, sofrido, não era preciso muito.

Um homem honesto ter-se-ia cautelosamente afastado, receoso de despertar uma alma tão confiada e crente, na sua ignorância infantil; mas ele, conquistador sem escrúpulos, de palidez sentimental e cabeleira romântica, cantando ao luar fados chorosos que falam de amores infelizes com tremuras na voz e fundos ais arrastados, dedilhando a guitarra que soluça baixinho carícias de beijos gritando alto paixões estrídulas... Ele, sem alma nem consciência, viu apenas a flor que se abria à vida e que as suas mãos brutais podiam desfolhar e arremessar depois como coisa inútil e sem importância.

Representou, mais uma vez, a vulgaríssima comédia do amor-paixão, em que ela, a pobresita, acreditou, exatamente porque era ingênua e pura, deixando-se arrastar, sem que houvesse mão amiga que a fizesse parar a tempo na descida perigosa.

Acabadas as férias, promessas feitas e juradas, ele partiu alegre e triunfante, ela ficou abismada na mais desesperadora tristeza.

A saudade, fustigando barbaramente a sua pobre alma mal preparada para o sofrimento, punha-lhe nas faces a palidez da morte e nos olhos arroxeamentos de incurável doença.

Os dias foram passando, os meses decorreram lentos e monótonos, e o desespero ia-lhe tomando o coração avassaladoramente, visto que ele, o ingrato, nem uma única palavra lhe enviara a encorajá-la e a dar-lhe esperanças. Confiando da Ama-Rita o seu segredo, conseguiu da pobre mulher — que a amava, mais do que aos próprios filhos, porque a criara com o seu leite — a promessa de receber e mandar as cartas para o namorado.

Enviou muitas, muitas, mas respostas nunca as recebeu, porque nunca ele lhas mandou.

Sentindo-se abandonada, quando mais necessário se lhe tornava o auxílio moral do homem que a enganara vilmente, e não podendo esconder por mais tempo o seu estado, foi ter com a mãe implorando proteção e piedade.

Contou tudo, por entre soluços e lágrimas, nem tentando sequer atenuar com uma desculpa a grandeza do delito, como se tivesse um prazer estranho em se torturar e deprimir, num princípio de expiação.

Quando a mãe compreendeu o verdadeiro sentido das suas palavras, possuiu-se dum desespero louco. Levantando os braços e os olhos ao céu, tomava-o como testemunha da sua ignorância e inocência em tão grande crime, como se o esperasse ver cair sobre a cabeça da pecadora que soluçava a seus pés.

Mas como do céu não baixou nenhum sinal indicador da cólera divina, ela afastou-se brutalmente, proibindo-a de sair mais do quarto.

Escreveu então ao filho, contando-lhe em poucas palavras o que se passava e encarregando-o de procurar o amigo, e — prometendo um bom dote a Manoela — fazer com que casassem imediatamente.

Essa carta, mandada pela Ama-Rita para Manoela ver, deixou-lhe no coração um vislumbre de esperança, naquele desejo que todos nós temos de nos agarrar ao menor luzeiro que prediga felicidade.

Mas a resposta não podia ser mais cruelmente aniquiladora: — o namorado de Manoela tinha casado, pouco tempo antes, com uma prima muito rica, e nunca mais pensara na criança que ia começar a expiação duma culpa que era só dele.

Não havia pois maneira de legalizar ao pequenino ente que vivia já da vida da infeliz mãe, a entrada no mundo e na família.

Tratou-se então de esconder um fato — que seria a vergonha para todos.

Levaram-na para uma casa meio arruinada, numa propriedade distante; e foi ali, entre rochedos desolados e na vizinhança lúgubre dos lobos que uivavam a sua fome pelos matagais, que Manoela, entregue aos únicos cuidados e carinhos da ama, teve uma filha.

Com que dúlcido encanto, depois do martírio de algumas horas, em que as velhas paredes repercutiram os seus gritos lancinantes, ela acalentou nos braços o corpinho frágil, que era uma parte do seu próprio ser, e premia sob os seus lábios febris a carnezinha arroxeada e cetínea da pequenina face!

Nos olhos, que mal se abriam à luz, queria ela ler um infinito de ternura; da boquinha, que ainda não sabia sorrir e já sabia chorar, esperava talvez ouvir palavras de justiça e consolação...

E as lágrimas iam correndo serenamente pelas suas faces desbotadas, lágrimas que eram ainda uma felicidade, que em breve deixaria de possuir.

A Ama-Rita chorava também, sem coragem para de pronto lhe arrancar a criança, como lhe fora ordenado, na impotência de todas as boas almas para despedaçar uma ilusão alheia, principalmente quando toda uma existência está suspensa dum sorriso de criança.

Foi ainda a mãe que a veio arrancar desse passageiro sonho, anunciando-lhe como coisa decidida a sua entrada para o convento onde Sóror Gertrudes já a esperava.

Manoela revoltou-se: — o convento, a prisão para ela, que apenas fora uma vítima!?... Pois era tamanha a sua culpa, santo Deus!?...

—Era, sim, tão grande que já coisa alguma poderia lavar essa mancha do seu nome, recaindo sobre toda a família. Apenas o silêncio e a ausência poderiam atenuar o mal fazendo-o ignorar do público!...

Soluçava baixinho, num grande aniquilamento de toda a vontade, escutando as palavras que saíam frias e ásperas da boca da mãe.

—Bem, irei! — disse por fim Manoela, resignada — mas ao menos quero levar a certeza do seu perdão, minha mãe!...

—O meu perdão?! Não, nunca poderei perdoar à senhora que assim desce ao nível de qualquer campônia sem princípios...

Então, sentindo-se ferida, mais pelo tom do que pelas palavras, que representavam apenas o seu orgulho de casta, a alma de Manoela levantou-se também com altivez.

Uma revolta surda a tomava toda, partidos definitivamente os laços que a prendiam a essa mãe que a repelia sem encontrar uma atenuante à sua culpa, sem um lampejo de piedade pela sua existência tão cedo anulada.

Embora! Se não lhe perdoavam os outros, absolvia-se ela a si mesma. Não conhecia o mundo; mas a sua consciência pressentia vagamente que não eram justos acusando-a duma falta que se baseava apenas no preconceito social, que entre dois cúmplices escolhe, para imolar como vítima expiatória no altar da hipocrisia, aquele que pela inocência e ignorância menor responsabilidade apresenta.

Avaliando bem — agora que a vida se lhe atulhava tal qual é: cheia de deveres e responsabilidades para os fracos, livre e tolerante para os fortes e cínicos... — a perversidade moral do homem que amara, uma grande repulsa, um grande desprezo lhe invadiu o espírito por tal criatura.

Vieram então novas cartas de Coimbra nas quais o irmão, numa fúria brava, contava como procurara o sedutor para o matar, como costumava matar os lobos que lhe ameaçavam os rebanhos, e não o poderá encontrar.

Apenas lhe souberam dizer: que fora com a mulher passar a lua de mel, não lhe quiseram indicar para onde. Oh, mas havia de encontrá-lo, fosse onde fosse, fosse como fosse. Quanto à irmã, que desaparecesse — não a queria mais ver!

Manoela sorriu, já conformada.

Também ela não tinha vontade de viver mais com uma família que tão levianamente a abandonara e era agora tão cruel na condenação.

—Sim, iria para o convento o mais depressa possível.

Mas duas condições punha à sua completa submissão: saberia onde ficava a filha, que não queria deixar entregue ao acaso, como ser desprezível que não merece a esmola dum afago; e fariam prometer ao irmão que não continuaria a perseguir o sedutor. Para quê?! Matá-lo era forçarem-na a lamentá-lo, quando era apenas desprezo e asco o que sentia por tanta abjeção.

Esquecessem-nos a ambos... Ela entraria desde já para o convento, sem nenhuma relutância.

O irmão cedeu, instado pela mãe, ansiosa por ver o caso liquidado como entendia ser melhor, sem mais desassossegos e desgostos.

Os outros dois irmãos, não tendo entrado na confidencia, admiraram um pouco a súbita vocação de Manoela, mas como lhes não desagradava inteiramente, pois ficavam assim mais à vontade, — visto que a mãe, afora as horas de comer, raro saía do quarto, a não ser para a capela — aprovaram a resolução com toda a boa vontade.


CAPÍTULO 2

Desde que obteve a certeza de que as suas condições eram acatadas, Manoela ficou apática e indiferente para tudo.

Deixava-se levar sem resistência para onde a mãe queria que fosse. No seu espírito não havia senão ruínas e desmantelos.

Sempre melancólica, sem raiz que a prendesse à vida, parecia nem sequer se preocupar com a filha que tanto a sobressaltara de princípio e deixava especialmente entregue aos cuidados da ama.

—Adeus Ama-Rita, — dizia-lhe na última hora — estima a minha filha como me estimaste a mim, e que Deus a faça mais feliz do que a sua triste mãe! Até... um dia — em que nos havemos de encontrar.

Mas quando esse dia?... Não sabia, não via nada claro no seu futuro.

Encostada à varanda do quarto onde tanto sonhara e tanto sofria agora, passeava os olhos amortecidos por toda a montanha que limita o horizonte, e naquela ocasião, em que a primavera tudo cobria com o seu verde manto, se afofava em cambiantes de pelúcia cara.

Ao seu lado, a pobre mulher abafava os soluços que a sufocavam e limpava as lágrimas à ponta do avental.

Seguira-se a viagem, a cavalo, atravessando terras desconhecidas, onde gente espantada as seguia com a vista pelos caminhos poeirentos e pedregosos, deixando-lhe tal confusão no espírito que nunca saberia dizer por onde passara nem o que vira.

Logo à chegada, a mãe conferenciou com Sóror Gertrudes, tia do marido, agora superiora do convento, que a pouco e pouco iria acabando pela morte das últimas freiras, e onde Manoela foi recebida em festa por todas essas tristonhas almas encarceradas precocemente envelhecidas.

A mãe partiu, sossegada enfim, sem saudades que a fossem mortificar ou distrair dos seus austeros deveres de boa católica.

Também a filha as não sofreu, porque nunca se tinham compreendido nem estimado aquelas almas, que ninguém diria tão estreitos laços uniam, tal a dessemelhança que involuntariamente as separava.

Manoela parece que vinha, inteiramente, do pai, de quem se lembrava vagamente, fazendo-a saltar nos joelhos, rindo e chalaceando com todos, enchendo a casa de vida e satisfação. E um dia, subitamente, estando sentado à mesa, do rompimento duma aneurisma morrera.

Quase se não lembrava do fato em toda a sua nitidez, tão longínqua era essa recordação, que ficara apenas na sua alma infantil como sensação dolorosa, a primeira tristeza na sua vida tão cheia delas.

Agora vinha encontrar, na tia, o mesmo caráter, essa amizade confiante que lhe faltara, essa alegria que tão bem fazia à sua alma dolorida.

Sentia-se envolver naquela atmosfera de paz, que nunca tinha respirado, e sentia-se bem naquele esquecimento de tudo quanto a fizera padecer.

Os dias sucediam-se aos dias, de quando em vez cortados por notícias de casa, que recebia indiferente; o tempo ia correndo sempre igual, com as mesmas festas aos mesmos santos, as mesmas rezas, as mesmas infantis preocupações de vestidos a bordar para o menino Jesus tal ou para a Senhora de invocação diversa, o presepe no Natal, o doce para a venda, a mesma comida sempre às mesmas e invariáveis horas.

Mas um dia Sóror Gertrudes morreu.

Manoela tinha então vinte anos. Era uma criança pela simplicidade do espírito, que ficara ingênuo e ignorante do mal, apesar de tudo, mas era uma verdadeira mulher pela reflexão e pela dor.

Os últimos quatro anos passados naquela casa conventual tinham decorrido num meio sonho vago, que nem chegava a compreender bem.

Depois da catástrofe que lhe angustiara a existência, a alma tinha-se-lhe afundado num como branco nevoeiro, que a deixava viver inconsciente e passiva essa vida comum sem que nela tomasse verdadeiramente parte.

Dir-se-ia um meio estado sonâmbulo de que a morte da tia, a boa Sóror Gertrudes, a vinha acordar dolorosamente.

Como ia sentir a falta dessa querida velhinha, que lhe dera um afeto todo maternal na solidão em que a austeridade da verdadeira mãe lhe deixara o coração!

Logo ao entrar, passados os primeiros dias de surpresa, as palavras de conforto da boa velhinha tinham sido um grande bem para o seu espírito.

— Aconselhava-a a ter esperança — o futuro traz surpresas que não podemos prever... E ela era tão nova, santo Deus, como desesperar?! Sossegasse, estava entre boas criaturas que a amavam, e ela como tia a teria sempre junto de si. Ainda que o não fosse, estimá-la-ia na mesma, bastava ser uma criança que a desgraça lhe tinha tão tragicamente arremessado aos braços...

Tinha razão Sóror Gertrudes — Manoela era bem digna de piedade. Entrada apenas na vida, era dela expulsa com vergonha, e a sua mocidade, que mal desabrochara, iria fenecer entre as paredes frias dum convento. Quebrados todos os laços que a prendiam ao mundo exterior, o que ficava dessa pobre rapariga tão admiravelmente feita para amar e ser amada?

Sentia-se cair pesadamente num abismo. Fechando os olhos, estendeu os braços em busca dum apoio, e encontrou a mão trêmula, o sorriso alegre na sua boca desdentada, e a face macerada da freira, que para ela teria carinhos inigualáveis.

Bem sentia ela o cancro brutal, que a ia corroendo lentamente, mas nada dizia para não afligir a sobrinha.

Sorria dolorosamente quando uma picada mais aguda a fazia levar a mão ao seio esquerdo, num gesto mecânico, quase involuntário.

Manoela sobressaltou-se quando as dores começaram a ser mais amiudadas, lembrando-se da terrível moléstia que de quando em quando assaltava a sua família paterna.

A tia sossegava-a: — era um nascido que tinha havia muitos anos, não seria coisa de morte...

Mas nos últimos três meses a doença agravara-se caminhando rapidamente para o fim.

O cancro rebentara, vermelho, luzidio, enorme, deformando horrivelmente o pequenino seio estéril, branco como o marfim — esse seio que guardara com tanto recato durante sessenta anos e se mostrava agora na sua enfermidade horrível.

Quando Manoela o viu pela primeira vez, perdeu a cor, vacilou e só se conteve por um esforço de vontade, que se manifestava nela com a revolta natural contra mais esse golpe do destino.

Daí para diante nunca mais abandonou a tia, assistindo-lhe a todo o martirizante fim, sentindo, por assim dizer, na sua alma todas as dores que ela ia sofrendo no seu magro corpo esfacelado.

Foi-lhe enfermeira solícita, disfarçando a repugnância que lhe inspirava a ferida, que se ia arroxeando, com laivos azuis, quase negros, numa aparência asquerosa de podridão. Em volta a pele retesada do peito ia-se abrindo e esfarelando.

Manoela tinha sempre diante dos olhos a ferida horrível que tão cuidadosamente tratava, e que era o fim — ela sabia-o — dessa existência tão querida.

Por fim Sóror Gertrudes nem sequer se podia assentar na cama, e ela assistiu-lhe à agonia, que durou dois longos dias, — lento quebrar de cadeias que se tinham enferrujado mas não carcomido.

Quando a superiora declarou que chamassem Sóror Angélica para a substituir, porque já se não podia levantar e a morte não tardava, toda a comunidade acudiu em pranto: — era pois certo que Sóror Gertrudes as ia deixar para todo o sempre?!

Foi-se prevenir o capelão, que a confessou rapidamente, tal era a inocência dessa alma imaculada, e quando voltou com a comunhão todas as freiras e recolhidas ajoelhadas em volta do leito choravam silenciosamente, com os véus negros caídos sobre os seus rostos de cerusa.

Manoela encostara-se à cama, e a tremura do seu corpo fazia estremecer esse leito onde a morte já se instalara triunfante.

A cerimônia prolongou-se com o perdão que a moribunda foi pedindo a uma por uma das suas companheiras, numa voz que era já um eco de outra existência passada.

Quis a sobrinha sempre ali, e consolava-a com a esperança dum futuro melhor. Deixava-lhe o Menino Jesus do Milagre, que fora o seu companheiro de longos anos, desde que uma senhora freira do convento do Paraíso ali morrera e lho deixara por lembrança. E deixava-lhe tudo mais que propriamente possuía, e bem pouco era, naquela vida estreita de renúncia.

Dirigindo-se a Sóror Angélica entregou-lhe a sobrinha e pediu-lhe para ela todo o seu amor e carinhosa solicitude.

Custava-lhe muito deixá-la. Deus mandara-lhe ao fim da vida aquela suprema provação, que fora afinal a maior felicidade de toda a sua existência. Quando ela já se sentia cair na cova, com tão egoísta alegria, vinha aquele afeto imenso prendê-la à terra com laços tão fortes que ao parti-los metade da alma lhe ficava cá.

Fechou os olhos: imaginaram-na morta e já os soluços se ouviam mais altos. Mas não, era apenas um dormir de extenuamento que breve durou. Ao acordar já a voz lhe estava presa no estertor, que causava calafrios a todas as assistentes.

Fazia esforços para falar, queria talvez dizer coisas que a sua alma, já quase desprendida do mundo, via como nunca tinha visto enquanto a matéria a segurava à terra.

Os seus olhos, dum azul pálido, como desbotado pelos anos, voltavam-se para a sobrinha numa ânsia derradeira.

Choravam todas por a ver assim, implorando a morte que a viesse libertar do incomportável martírio.

Manoela escondia a cabeça na roupa, soluçando e gemendo apavorada; teria fugido àquele espetáculo superior às suas forças, se a moribunda lhe não tivesse agarrado desesperadamente as mãos como última ancora...

A situação prolongava-se pela noite fora, e tão pungitiva que todas se entreolhavam em pânico.

Era alta noite quando uma criada, vinda do campo havia pouco, se propôs por termo àquele martírio, voltando a senhora. E explicava, muito sabida e vista nessas coisas: —que era o demônio que estava ali, não deixando morrer a senhora, enquanto estivesse deitada sobre o lado esquerdo. Vingava-se assim de não lhe poder levar a alma, que era de Deus, pela muita bondade da Madre-Superiora.

Todas acreditaram piamente na explicação da rapariga; não estava o Livro da fundação cheio de fatos que comprovavam as tentações e malefícios do eterno inimigo das esposas do Senhor, especialmente dirigidos contra as piedosas irmãs daquela santa casa tão rica em milagres e indulgências?!...

Aceite o alvitre, voltaram o corpo pesado, que a morte já quase gelava completamente, deixando-lhe apenas aquele imenso sofrimento como despedida duma existência de que não conhecera senão as tristezas.

Mal lhe tocaram, despediu num suspiro o último lampejo de vida, tal como aqueles cadáveres conservados intactos por anos e anos nos seus túmulos sossegados e logo que se lhes toca, trazendo-os ao ar, se desfazem em pó.


CAPÍTULO 3

Manoela saiu do dormitório logo que a tia deixara de existir.

Cambaleando, os olhos secos, a alma vazia, sem a sensação dolorosa da pena, como se a tivessem magnetizado para a furtarem ao sofrimento, apenas uma necessidade material a impulsionava.

Tinha sono — havia tantas noites que não dormia!

Agora que tudo estava acabado, que não havia uma esperança a sustentá-la, estonteada, inconsciente, deixava-se vencer por esse torpor que segue a excitação dolorosa de dias sobre dias de expectativa diante da morte. A natureza retomava os seus direitos, e a reação era tanto mais violenta quanto fora maior o predomínio do espírito sobre a matéria.

Logo na pequena sala contígua ao dormitório, que fazia de livraria, deixou-se cair numa cadeira sem força para ir mais longe.

No dormitório ia um vaivém silencioso que mais parecia mover de sombras num pesadelo. As freiras ciciavam ordens às criadas, acendiam-se luzes, rezavam baixinho, limpavam as lágrimas que teimavam em enevoar-lhes os olhos, e levantavam com respeito a morta para a vestirem como havia de ir para a cova, com o mesmo triste habito que trouxera em vida e logo ao entrar para o convento, noviça ingênua e formosa, lhe tinham dito que seria a sua mortalha.

E assim, eternamente amortalhada, passava da tristeza de viver ao único sono consolador dos infelizes, porque é daquele que se não acorda para sofrer mais.

A sua face, serenada pela morte, refletia a suprema felicidade de não existir conscientemente num triste mundo tão cheio de desacertos e injustiças. As freiras benziam-se e murmuravam baixinho, pondo as mãos com devoção: — que o seu rosto de santa refletia já todo o gozo da bem-aventurança.

Manoela, abrindo os olhos no meio sono em que ficara embebida, viu os pés da morta calçados com as sandálias da ordem, magros e compridos, atados com uma fita para não descaírem; e, mergulhando de novo em letargo, sonhou que esses pés caminhavam por sobre o seu corpo desfeito e lhe batiam com força no coração. E a sensação foi tão dolorosa e a dor tão forte, que acordou de vez, sentindo realmente uma pontada que lhe suspendia quase a respiração e a fez gritar levando as mãos ao peito, sufocada.

Foi quando Sóror Angélica veio ter com ela e a conduziu para o segundo dormitório, fazendo-a deitar na sua própria cama, encarregando uma irmã leiga de a vigiar e acompanhar. Então Manoela caiu num sono pesado e mau, cheio de sonhos que a faziam chorar e gemer baixinho como quem se sente estrangulado, sem poder gritar, e a que a irmã leiga punha termo chamando-a carinhosamente e abanando-a de leve todas as vezes que a sentia.

Era já manhã quando a vieram chamar para assistir aos responsos que se iam fazer no coro e para os quais toda a comunidade se preparava.

Levantou-se sobressaltada, sem nada perceber, como quem acorda dum terrível pesadelo e reconhece com surpresa que ainda existe na vida tal qual a deixara... Atiraram-lhe o véu para a cara, compuseram-lhe o vestido, e levaram-na pelo braço, sem que compreendesse intimamente de que se tratava. Mas quando se encontrou no coro e viu a morta estendida no chão sobre um pano preto, entre quatro grossos tocheiros, os padres rezando os responsos, e toda a comunidade em volta com os véus caídos e segurando velas acesas, compreendeu finalmente o que se passava, a sua alma despertou para o sofrimento intenso da pavorosa realidade.

Já não havia dúvida possível, e a noite, que se passara num atordoamento de sonambulismo, aparecia-lhe agora em toda a sua nua e horrível fatalidade.

Debaixo do véu que lhe cobria o rosto, as lágrimas corriam sem cessar mas já sem explosão de soluços, tão amargas e lentas que cada uma parecia vir arrastando um pedaço da sua alma esfacelada.

Procurava nessa face amada, coberta igualmente com o véu preto, o sorriso bondoso, o olhar de carinho, que em quatro anos de reclusão a tinham feito esquecer que a vida existia fora daquelas paredes soturnas.

O véu era denso bastante para lhe velar a face, mas nada obstava a que os seus olhos alucinados vissem, debaixo do grosseiro hábito, o peito intumescido escancarando-se na repelência da ferida.

Finda a encomendação, seguiu atrás das freiras, velhinhas alquebradas e esquecidas pelo mundo, que assim iriam rareando, uma por uma, na longa fila que vinha do coro.

Era o último enterro a que assistia ali, porque a nova lei proibia enterrar fora do cemitério público e fora não pequeno trabalho para se conseguir das autoridades aquela exceção em favor de Sóror Gertrudes, que era conhecida e estimada em toda a terra.

Manoela tremia de pavor observando a serenidade extática das freiras, que não se distinguiam umas das outras, com os véus negros derrubados, as velas a arder na mão direita, hirtas e silenciosas e graves como espetros.

Lá dentro, — quem sabe? — talvez que as suas almas tremessem de frio a cada sacudidela do vento da morte que ia levando uma a uma as companheiras de muitos anos, e que nunca mais seriam substituídas.

Já no refeitório iam faltando tantas que, ao meio-dia, a hora antigamente tão alegre de jantar, — quando sobre as toalhas de linho alvejante os moringues de barro de Estremoz marcavam nas mesas estreitas e compridas, voltadas para o púlpito, o lugar de cada uma — mais parecia que a sineta chamava para um banquete de sombras.

Os padres iam compassando os responsos, rodeando a cova onde já repousava o cadáver, e cada um ia deitando uma pá de terra, seguindo-se na cerimônia toda a comunidade.

Ah, bem feliz era Sóror Gertrudes que ainda encontrava um abrigo santo junto das suas irmãs, vivendo com elas no eterno sono, sob o abrigo das arcarias do claustro florido, acalentada pelo murmúrio fresco da fonte que transbordava na sua concha de mármore. As outras —pobres delas! — já não teriam na morte esse mesmo abrigo sagrado e seriam relegadas a mãos estranhas e indiferentes, esquecidas nesse campo desabrigado e devassado por todos os olhos profanos, que eram os novos cemitérios.

As velas tremiam nas mãos enrugadas das pobres velhinhas.

Das trinta e três freiras que o Livro da fundação dava como limite para a comunidade, homenagem piedosa aos anos de Cristo, e que ao soar a hora, que para muitos fora de redenção e para elas de mágoa, se preenchera à pressa, abreviando as profissões das noviças, já quinze dormiam insubstituídas sob as lajes do claustro.

Sentindo o lento caminhar das vivas, que eram como fantasmas errantes nesse asilo guardado pela morte, sentiriam a doce ilusão de assistirem com elas na vida comum.

Olhavam-se apavoradas, as velhas freiras, a cada nova escolhida que a morte vinha tocar com o seu beijo gelado, e murmuravam entre si: — de qual será agora a vez? —terrificadas com a ideia de serem a última.

Sóror Claudea, com o seu olhar sombrio e desvairado, seguia a cerimônia fúnebre com tremuras convulsivas no seu corpo magro de que a loucura histérica fizera uma boa presa.

Dantes também morriam, é certo, mas a cada cova que se fechava abria-se a porta a uma noviça que tomava o véu preto, e no simbólico número se ia conservando sempre a comunidade.

Manoela soluçava agora, vendo cair a última pedra que a separava para sempre da boa tia, que era a sua única grande afeição no mundo — tão diluída tinha na memória a lembrança do passado que a filha era apenas uma vaga recordação, tão pouco pungitiva como a que lhe ficara do pai, que mal conhecera.

 Sóror Angélica ficara superiora sem quase se proceder à cerimônia da eleição, tanto se impunha a todas a sua inteligência, a sua energia, e a sua cultura, rara entre as senhoras daquela casa de regra áspera e humilde.

A nova superiora era uma boa e valiosa amiga para Manoela, considerando como um dever estimá-la tal qual o fizera Sóror Gertrudes, que tão solenemente lha entregara.

Mas Sóror Angélica era um espírito mais varonil e enérgico, e, se dava amizade segura e proteção incondicional, não tinha como a tia de Manoela os carinhos e as delicadezas dum espírito que tinha ficado menineiro apesar da esterilidade duma vida sem família própria.

A nova superiora era respeitada por todas; a antiga tinha sido amada e era chorada como uma boa mãe.

Se Sóror Angélica tivesse nascido anos atrás, seria uma dessas preladas temidas e escutadas por todos, porque sabiam fazer valer a força do seu direito e pesar a influência das famílias, da fortuna e do nome profano de todas as suas governadas, em qualquer questão que as interessasse.

Se tivesse nascido alguns anos mais tarde, seria, em qualquer campo para onde dirigisse os seus passos, uma criatura representativa, uma destas influências que todos procuram captar para o seu lado porque em toda a parte entra com o valor da inteligência, da energia e da tenacidade, qualidades sempre raras em todos os tempos.

Superiora sem importância num convento desapossado de todos os seus rendimentos e que existia apenas enquanto vivessem as últimas freiras — como existe, sustentado pela hera que o reveste, o velho muro em ruínas — Sóror Angélica era um desacerto porque era uma força inutilizada.

Desde que ficou naquele quase isolamento, o espírito de Manoela começou a acordar, a debater-se para sair do torpor em que esses quatro anos amimalhados lhe tinham adormentado a alma.

Essa loucura ardente da fé que despreza o presente pela vaga esperança dum futuro cheio de delícias, já por vezes a compreendia, exaltada pela devoção e pelas leituras místicas que a superiora lhe indicava. O caminho que leva à sarça em fogo onde se consomem as pobres almas doentes, que dão as Santas Teresas de Jesus, já por vezes se abria diante da sua imaginação inativa e do seu coração amorável tão implacavelmente impelido pelo destino para a solidão e o desamor.

Naquele meio de apertada devoção, no silêncio dos grandes corredores pontuados de capelinhas milagrosas, o seu espírito inclinava-se para um misticismo apaixonado e obsessivo, como tudo seria naquela alma de peninsular temperada e sutilizada pelo sofrimento, que vencera sem queixa.

Andava vagarosamente pelos claustros lajeados, sentindo-se presa dum respeito supersticioso por essas pedras que cobriam corpos macerados de santas; tinha sorrisos silenciosos, gestos vagos de corpo apenas vivo pela esperança de se consumir em breve e reviver só em espírito purificado.

À hora das orações rituais, assentava-se com as companheiras nos cadeirões de pau santo, que se defrontavam em duas filas sobrepostas e dantes eram só destinados às professas, e pensava que a vela benta que as separava era a alma de cada uma das freiras que ardia no amor apaixonado do Senhor seu Esposo e seu Deus.

O bruxuleamento da luz sobre as páginas do livro de ofícios, que seguia por dever, tinha para a sua mente enfebrecida a significação clara dum suspirar de espírito aspirando à eterna bem-aventurança.

Ali, naquele coro grande como uma capela, revestido de azulejos policromos, cheio de santos e relicários preciosos, que irradiavam na meia obscuridade das suas douraduras e pedrarias, numa luz quase de sonho, Manoela gastava os seus longos e inúteis dias.

O coro era, como tinha sido sempre desde que se fundara aquela casa, o único luxo, o cuidado e gosto de todas aquelas almas privadas doutras delicadezas e distrações feminis. Privadas até de irem à igreja, que Manoela contemplava extática pelas grades estreitas, revivendo a vaga recordação que lhe ficara do dia da entrada, quando os seus olhos enevoados pelas lágrimas a tinham visto sem lhe poderem dar o verdadeiro valor.

O convento nem se via de fora, construído em quadrado por traz da igreja que o guardava, imperturbável e austera como sentinela incorruptível da fé.

A igreja era magnífica, nada dizendo com a humildade da regra nem com a modéstia do resto da casa: duma traça arrojada, em que as colunas em mármore cor de rosa subiam em cordas espiraladas, até se juntarem na cúpula alta e sonora.

As janelas, do nosso gótico rendilhado a que se chama manoelino, conservavam ainda restos dos antigos vitrais, que deviam ter sido dum brilho e colorido que encheriam de encanto as naves silenciosas.

Os painéis, que a rodeavam, sobressaíam das largas molduras doiradas e entalhadas, pelo colorido um pouco frio e o desenho convencional e rígido do estilo que se impunha no tempo em que uma grande dama da corte se lembrara, apaziguando talvez recordações importunas duma mocidade cheia de doces culpas, de fundar aquela santa casa onde, propositadamente, só à igreja fora dada a magnificência e o fausto devidos ao Senhor onipotente, dispensador de todas as graças, arbitro de todo o julgamento. Para as Esposas, as virgens oferecidas como vítimas expiatórias do pecado deleitoso da fundadora, a humildade, o desconforto, e a aspereza da regra.

Contemplando a igreja, Manoela sentia-se amar um Deus imenso e majestoso, arrastando púrpuras e fazendo refulgir as joias da sua coroa imperial por catedrais góticas de naves ressoantes, cheias de grandezas e mistério. Prostrava-se ante o seu trono de luz nessa corte celestial tão fantástica e deslumbrante, que lhe descreviam as almas crédulas e os livros piedosos.

O Cristo torturado, empalidecido e humanizado pela dor, não o compreendia ali, no luxo e na grandeza da arte, como o poderia compreender na igreja humilde da sua modesta aldeia.

Ali era um Deus para camponeses e para as almas simples; aqui era um Deus aristocrático e soberbo que se impunha aos grandes e aos poderosos.

Presa naquele deslumbramento, que a fazia viver uma existência à parte, Manoela assim iria gastando a existência se não viesse um banal incidente chamá-la a si, chamando-a à vida com novos interesses e novos deveres a cumprir.

Ama-Rita, a boa mulher que nunca a esquecera, escrevia-lhe uma longa carta, de letra tortuosa, quase ininteligível, que ela decifrava a custo. “Só passados sete anos lhe escrevia, porque a senhora lho tinha proibido e, não sabendo escrever, não confiava em ninguém da terra para fazer uma coisa contra a sua ordem. Agora era a sobrinha, a Luísa da Roda, que o fazia. A menina devia lembrar-se dela, eram da mesma criação, tinham brincado bastante em pequenitas... Viera de servir, mas tão doente que o mais certo era não poder voltar. Podiam confiar nela e enquanto vivesse não teria a menina falta de cartas”.

Manoela tinha os olhos rasos de lágrimas ao pensar na pobre rapariga, talvez tísica, que tinha sido sua companheira de infância, dessa breve infância que lhe vinha, numa lufada sã, evocada por essa mal redigida carta de campônia. Era um pedaço da sua rude terra, que a urze e o rosmaninho incensavam.

Depois, as notícias alongavam-se: — este que tinha ido para o Brasil, aquele que voltara da tropa, casamentos, batizados, mortes... e por fim, numa linha só, como misteriosamente, a causa primaria de se ter escrito aquela grande carta: — “A menina criava-se muito bem; a menina era muito linda”.

Mais nada... E, no entanto, que mundo novo de pensamentos e de paixões essas poucas palavras desenrolavam diante dos olhos e do coração da triste reclusa!

O seu espírito, adormentado numa crise de misticismo para que a predispunha o meio ambiente, reagia agora com toda a energia, porque a sua alma não era feita para vagas abstrações; antes fora, era, e seria sempre, uma mulher humana, nascida para viver e sentir humanamente a vida, com todas as suas amarguras e alegrias compensadoras.

A filha!... Quase a tinha esquecido, naquele viver sem consciência de si própria, que fora a sua existência ali.

Como poderá resignar-se durante tanto tempo só com a certeza de que esse pequenino anjo, que era a carne da sua própria carne, vivia, nessa terra longínqua e áspera, sob os cuidados da velha Ama-Rita? Sentia remorsos e agradecia intimamente à boa serviçal, que assim a chamava à vida lembrando-lhe o cumprimento do seu dever.

Relendo aquela frase incolor, sentia que dentro da sua alma se ia levantando outro altar, criando uma nova religião, que mal sabia como era difícil de harmonizar.

Encostada às grades da janela do dormitório, para onde viera na ânsia de se encontrar a sós com a sua própria alma, olhava o campo que se estendia num verde luminoso, com um castelo ao fundo, na imponência de cenografia espetaculosa.

Na cerca a nora gemia e a água caía no tanque donde era tirada para as regas.

Esse murmurar da água corrente evocava-lhe o passado distante, a sua terra, o fiozinho de água transparente a deslizar por entre os choupos, ao fundo da sua quinta, e aquela pequenina enseada onde se ia esconder, num desejo calmo de solidão, a olhar a água saltando de pedra em pedra num grande esforço de quem vem exausto de longa caminhada.

Recordava, com tanta saudade que chegava a ser uma dor material, essa época tão afastada para o seu espírito que já parecia ter pertencido a outra existência, as horas que passara ali sozinha, idealizando um futuro de poesia e de romance, como o idealizam sempre as mulheres que uma educação racional não preparou para entrar na vida pela porta ampla e sem mentidos encantos da realidade.

Recordando todo esse passado, para sempre morto, a sua alma tão cruelmente torturada e tão profundamente humana acordava num alvoroço.

Chamavam-na para a vida, e ela vinha toda inteira, corpo palpitante, coração sangrento pronto a entregar-se a um novo ideal.

Desde esse dia nunca mais deixou de pensar na filha, que se tornou a sua obsessão; sentia-lhe a vozinha de choro chamando-a mãe; via-lhe o pequenino rosto, que idealizava duma pureza de linhas que só igualariam os anjos das pinturas rafaelescas; tremia com a ideia de que podia uma doença cruel arrebatá-la sem que a tivesse uma vez sequer acalentado nos braços.

Já não rezava como dantes, mas ainda passava no coro as melhores horas da sua vida, ajoelhando-se de preferência diante duma grande Virgem que a lenda dos seus milagres tornava célebre em toda a cidade.

Dizia a crônica: — que essa imagem viera de Candia com destino a Espanha e fora por milagre trazida à cidade. Recebida entre música e fogos de artifício, foi levada em procissão e confiada às freiras que tinham fama de mais virtudes entre todos os conventos da terra. De tal maneira se avigorou a fé nos milagres da formosa imagem que raro era o dia em que a irmã rodeira não recebia, de pobres criaturas sofredoras, bilhetes e cartas implorativas dirigidas à Virgem para serem colocadas sob a sua guarda. A crença no milagre, o último refúgio dos fracos que não podem resistir à dor, fizera da bela Senhora uma consoladora permanente como dispensadora desse benefício inestimável para a maior parte dos seres humanos: a ilusão.

Também Manoela se afervorava na devoção pela milagrosa imagem; mas o motivo que a arrastava até aos seus pés e a prostrava agora em êxtases era mais humano do que místico. É que diante dessa Virgem, que era uma mulher que a escultura traçara com toda a verdade, sustentando nos braços um pequenino Jesus, filho humano e verdadeiro, que ela, humanamente mãe, acariciava com a doçura do seu olhar veludoso e a carícia dum sorriso angelical, sentia a sua alma pacificada, sentia-se irmanada no mesmo sentimento.

Essa mulher, mãe dum Deus, não a perturbava, porque era bem mulher, bem maternal, para compreender o sobressalto do seu coração, a saudade que a sufocava por esse pequenino corpo adorável, leitoso e macio, que apenas poderá ver e beijar à nascença. Aspirava pela carícia dos seus braços roliços e da sua boquinha perfumada; morria de paixão por esse entezinho dealbante, que lá longe ia crescendo e vivendo rudemente entre camponeses, que mal a saberiam amar.


CAPÍTULO 4

Num inverno úmido e triste em que o claustro, a igreja e o palratório chegaram a sofrer uma inundação que muito assustou a comunidade, Manoela tremia arrepiada sob o manto curto das recolhidas, e pensava com horror no frio que arroxearia as pequeninas mãos da filha que se aninharia ao canto da lareira fumarenta da miserável casa onde se criava, por essa invernia inclemente que tudo abafava sob a nevada deslumbrante.

Sentia o pavor da sua almazinha trêmula, quando os lobos esfomeados rondassem o povoado, acossados da montanha pela neve, e as ovelhitas tímidas se aconchegassem no curral balando tristemente.

Ah, ela não podia acostumar-se à ideia de que a filha, a sua querida filha, viveria assim eternamente sem conforto nem os mimos que para ela sonhava.

Já por vezes tinha tentado convencer a mãe, levá-la ao esquecimento e à tolerância pelas suas humildes súplicas, mas nada até aí a tinha demovido do seu propósito de conservar em mistério a existência daquela criança que a seu ver não era do mesmo sangue que das suas veias tinha passado às da filha, e da filha à neta, na continuidade fatal da natureza.

Manoela insistia, pedia ainda; mas a força instintiva do amor maternal, que a impulsionava agora, começava a fazê-la admitir a revolta contra esse poder que a natureza naturalmente afrouxa, porque assim o acha necessário para a conservação da espécie, embora os homens o tenham querido fortalecer com as suas leis e costumes antinaturais.

Sóror Angélica, como superiora e como amiga, continha-a e aconselhava-a a conformar-se com a vontade de Deus...

—Depois, — dizia-lhe ela, um dia, aspirando deliciada a flor perfumosa duma angélica que se abria num vaso colocado na varanda da sua cela de superiora, mimo gracioso duma das suas amigas da cidade — depois, Sóror Manoela, de que lhe serve ir contra a vontade de sua mãe?!... Não é ela a senhora da casa?... Não é ela que tem só o poder do dinheiro?

—É a senhora, porque nós, os filhos, assim o queremos; mas não sabe, Madre Angélica, que temos direito a puxar pela herança de meu pai e exigirmos a nossa parte?... Por pouco que seja, dar-me-á o bastante para viver com a minha filha...

Por menos que Manoela soubesse das leis que governam os homens, sabia o bastante, pelas relações mundanas entretidas entre o convento e a sociedade, para conhecer o direito que a tornava senhora da sua pessoa e da sua fortuna.

—Revoltar-se, Sóror Manoela, cuida que isso lhe daria felicidade?!... Santo Deus! Os pais representam na terra a autoridade divina. Triste daquele que no pecado procura a coragem bastante para lhe fugir!...

—No pecado?... —murmurou Manoela, limpando as lágrimas. — E não será maior pecado o meu se deixar morrer ao abandono a minha filha, esse pobre anjo que não tem culpa nenhuma de ter sido chamada à vida?!...

—Sim, é uma grande culpa que sua mãe levará ao tribunal supremo, mas quanto maior não seria a sua, minha pobre filha, se levasse a de rebeldia e de orgulho filial!... Não chore! Tenha resignação; se soubesse quantas lágrimas têm chorado outros que... que... que por fim se resignaram a não viver senão com a esperança na morte!...

E Sóror Angélica desviou-se um pouco, abafando no lenço um soluço que não pude vencer.

—Madre Angélica?!... — interrogou ansiosa a recolhida. — Por que chora? Também, como eu, sabe o que é sofrer o peso duma vontade alheia, que esmaga o coração?

—Ah, minha filha, se sei!... Não queira, Sóror Manoela, sofrer como eu sofri... como nós sofremos... a tirania duma ordem, que despedaçou duas existências!...

A freira, que tinha sido uma das últimas professas, não era ainda muito velha, mas o seu rosto, amargurado agora pela recordação, evocava um tal passado de dores e sacrifícios, que Manoela, inconscientemente, curvou-se para lhe beijar as mãos, que juntava num gesto de imploração extrema, numa prece em que ia toda a sua alma de mística e de sofredora.

Depois, mais sossegada, sentando-se junto da mesa de trabalho, convidou a recolhida a sentar-se num pequeno escabelo e disse:

—Sóror Manoela, o que lhe vou dizer julgava-o para sempre sepultado no fundo da alma, tão esquecido e longínquo como se o lera duma outra infeliz, num desses livros da nossa santa casa. Mas Deus Nosso Senhor inspirou-me a ideia de lho contar para que nesse exemplo Sóror Manoela encontre força para resistir à tentação diabólica que a impele à revolta contra a vontade de sua mãe. Sóror Manoela, houve numa terra linda do Alentejo uma família que juntava aos seus pergaminhos de fidalguia uma grande fortuna em terras e dinheiro. Era pai e filho no tempo em que... em que os conheci. O pai era o tipo acabado da nobreza altiva e autoritária; o filho a bondade, a inteligência e a docilidade numa só criatura humana reunidas. Em pequenino ficara órfão de mãe, entregue aos cuidados duma velha parenta que o educara e cuidara como um perfeito cavalheiro.

O seu gosto e a sua alegria estavam só nos livros que folheava sem descanso e na pena com que se servia para versejar... às escondidas. Só uma pessoa sabia do seu crime, como ele lhe chamava, a rir... — e Sóror Angélica sorriu tristemente para esse fantasma saudoso da mocidade. — Era uma pupila, do pai, órfã e morgada como ele. Oh, Sóror Manoela, se soubesse como se compreendiam e se amavam aquelas duas almas que o destino parecia impelir uma para a outra!... Ambos novos, ambos sem um coração de mãe que lhe tivesse sido refúgio e consolação, ambos ricos, ambos filhos únicos e ambos sentindo os mesmos prazeres, e tendo os mesmos gostos simples e modestos. Oh! deixassem-nos ler as lindas histórias de cavalaria que a velha prima alinhava com amor na biblioteca do seu quarto; deixassem que ele lhe recitasse as suas poesias enquanto ela matizava um bordado, sob a proteção carinhosa da velhinha, que lhes queria como a filhos gêmeos do seu coração... e eram felizes. O que lhes faltava? Apenas a idade para que o pai consentisse no casamento, que via também com olhos complacentes.

—E casaram?... —perguntou Manoela, seguindo com vivo interesse a linda história de amor que lhe rasava os olhos de lágrimas, a ela que do amor tivera apenas uma fugaz e mentida visão.

—Não, não casaram — respondeu a freira, sorrindo, apesar da dolorosa contração da sua face marfínea. — Não lhe disse que o morgado era um homem ainda novo e belo, apesar dos seus quarenta anos? Pois era... Ao contrário do filho, montava com garbo um cavalo andaluz, que ninguém domaria como ele, só com a pressão dos joelhos e a firmeza da sua mão de rédea; sabia aprumar-se numa sala diante dos cavalheiros e curvar-se, como ninguém, num requinte de gentileza, diante das senhoras; jogava como um verdadeiro fidalgo, sem que ninguém podes-se perceber-lhe no rosto se perdia ou ganhava... enfim era querido e procurado por todos e convidado com o maior empenho pelas famílias aristocráticas da província e da capital. A quantas formosas raparigas não teria sorrido a ideia de o terem por marido e quantos pais o não teriam desejado para genro? Ele ria-se dessas pretensões e estava bem convencido de que o seu destino estava traçado em ver a felicidade do filho e receber os netos para herdeiros e continuadores do seu nome. Mas, um dia, o morgado viu uma senhora que se apoderou do seu coração, e desde logo deixou de se pertencer. Era uma mulher formosíssima e igualmente rica, mas dum orgulho que nada havia que pudesse igualar. Apaixonou-se tão loucamente que desde a hora em que a viu até que a morte o levou nunca mais teve vontade nem pensamento que não fosse a dela ou por ela inspirado. Apresentou-se como pretendente à mão da orgulhosa fidalga, e, apesar da sua idade e da concorrência de muitos outros candidatos, foi aceite.

A ambiciosa calculava o valor das fortunas reunidas e optara pela pretensão do morgado, que lhe dava margem a viver na opulência e grandeza que sonhara. Mas... o morgado tinha um filho, o herdeiro da casa, o futuro morgado e senhor, que mais tarde, morto o pai, a esbulharia dos seus direitos de posse, nada deixando para os filhos que pudesse vir a ter.

—O que fez então?

—Oh, a desventurada sabia bem conciliar as coisas; só não soube conciliar a felicidade própria com a dos outros!...

—Casou com o filho?

—Não, que horror! Pôs como condição para o casamento com o morgado que o filho... se fizesse padre.

—Oh, que sacrilégio! E o morgado aceitou?!

— Assim foi. Em vão o filho e a pupila lhe pediram, de joelhos, que os deixasse casar; em vão ele ofereceu a sua desistência ao morgadio. Ricos seriam os dois — com o seu trabalho e a fortuna de... da pupila do pai. Tudo debalde! Ele foi implacável, porque ela o foi também. A lei só lhe garantia a posse do morgadio para os filhos se o verdadeiro morgado fosse frade ou padre...

— Que desespero! Que mulher tão má! E depois, Madre Angélica?...

— Depois... ele foi padre!

— Oh!... E ela?

— A noiva?

— Sim, a noiva do rapaz.

— Essa cuidou morrer de desgosto, mas deu-lhe o Senhor coragem para resistir à doença do corpo e à da alma e... professou também.

— Freira? Resignada, resignados ambos?... Que almas eleitas, meu Deus? Mas... morreram?

— Ele morreu. Dorme há muito na paz de Deus. O seu corpo ficou, a seu pedido, no claustro do convento que fundou quando ficou herdeiro da fortuna...

— Como?! Então sempre foi morgado?

— Sim. A maior dor foi essa!...

Sóror Angélica encostou a cabeça à mão e as lágrimas escorregaram-lhe por entre os dedos, uma a uma.

— Mas por que não fugiram? Para que se sujeitaram a essa lei odiosa?!

— Porque ele era o pai. E os filhos não podem ir contra as suas ordens terminantes. Sujeitou-se, sacrificou-se, pela felicidade paterna. Mas... pouco tempo depois a nova morgada, apesar de rica, autoritária e feliz, não pude resistir à fatalidade. Logo ao dar à luz o primeiro filho morreu, cheia de pavor do castigo, consolada e amparada pelo homem que sacrificara ao seu orgulho e ambição. Meses depois, o filhito que ficara o herdeiro da fortuna morreu também deixando o pai consumido de remorsos, envelhecido e triste, e herdeiro de toda a casa. E aqui tem porque, sendo padre o filho mais velho, sempre este ficou o infeliz herdeiro de toda essa fortuna maldita.

— Então não acha, Madre Superiora, que foi absurda, que foi até um crime essa obediência que destruiu duas vidas?

— Sóror Manoela — e a voz da freira tinha uma entoação grave, que nunca lhe conhecera, como se fosse o eco apenas duma alma pairando muito alto — esse absurdo não deixou remorsos nas almas que se irmanavam e se amavam até ao infinito. Ele morreu sorrindo e perdoando; ela... vive na esperança duma vida melhor, sem que — graças a Deus! — tivesse sentido ainda a dor amarga de ter causado o mal alheio.

— Amarem-se dessa maneira, terem diante de si a vida, e matarem por suas próprias mãos toda a esperança de felicidade, Senhor! Como tiveram coragem? Eram decerto duas almas santas — não se podem tomar como exemplo... E não posso, não posso seguir o seu conselho, Madre Superiora! Se os velhos são egoístas e impiedosos, os novos têm direito a reclamar a sua parte de felicidade na terra.

— Faça o que entender, minha filha. Mas fique certa que, volvidos tantos anos e choradas tantas lágrimas, ainda não trocaria a paz da consciência e a doce consolação da minha saudade por uma alegria construída sobre as ruínas doutra existência...

— Pois era a Madre Superiora?!...

— Eu, sim, que não tive nenhum mérito, porque ele e só ele foi o inspirador da nossa conduta, ele o filho heroico que sacrificou, sem um protesto, a felicidade própria à felicidade de alguns anos de seu pai!...

As duas calaram-se, entristecidas e como que suspensas, ouvindo uns gritos lancinantes que vinham da outra extremidade do corredor.

— Pobre Sóror Claudea!... — lamentou Manoela — Anda agora tão louquinha!

— Aí tem, Sóror Manoela, uma que se não pude resignar de boamente...

— O quê? Ela não foi sempre assim?

— Oh, não! Era a mais alegre, a mais encantadora, a mais viva de quantas têm vindo a esta casa procurar o repouso e a felicidade... que nunca pude encontrar entre nós. Se a visse!... Sóror Claudea nunca teve vocação para freira e nunca pensou que o poderia ser. Se entrou para o Convento das Bernardas foi na ideia de que de lá seria fácil fugir à tirania do pai, que a queria fazer professa a todo o transe.

— Meu Deus! Mas por quê?!

— Porque a fortuna da casa era pequena e era preciso que ficasse toda reunida nas mãos do filho mais velho, o representante da família.

 As irmãs e irmãos de Madre Claudea espalharam-se, resignadamente, por vários conventos e foram homens e senhoras muito respeitados na religião. Ela é que se revoltou sempre, porque, para seu castigo, desde pequenina que queria, com um amor profano e intenso, a um moço de modestos recursos, filho segundo como ela, que se desesperava por a não poder furtar ao poder despótico do pai.

 Começava nesse tempo a falar-se nos liberais que se juntavam no desterro para conspirar, os quais, dizia-se, eram recebidos de braços abertos pelo imperador, desde que mostrassem ser homens de valia e de coragem. Se a causa liberal triunfasse, dizia-se, esses ficariam ricos e cheios de dignidades. Na esperança de por esse meio conquistar a fortuna que lhe asseguraria a felicidade sonhada, o rapaz emigrou e voltou mais tarde com as tropas liberais pondo em todos os atos de coragem da sua brilhante carreira militar o único fito de libertar a mulher que amava, presa num convento e obrigada a professar, embora protestasse sempre e chorasse sem descanso durante toda a cerimônia.

— Assistiu a essa cena, sem lágrimas, Madre Angélica?

— Felizmente não foi no nosso convento que a fizeram professar, mas, embora as freiras chorassem e a lamentassem, o que lhe podiam elas fazer?... O Sr. bispo era parente da família, e o Sr. bispo é que aprovou a profissão.

— Pobre mulher!...

— E bem desditosa! Quando o namorado chegou a Portugal soube da sua profissão violentada, mas não desanimou. Combinou as coisas de modo que se pude corresponder com ela e... combinaram a fuga.

— Sóror Claudea fugiu?

— Sim, chegou a sair do convento, descendo por uma corda da altura dum segundo andar. Quando chegou à rua onde ele a esperava tinha as mãos em carne viva, tão feridas que ainda hoje conserva as cicatrizes e ficou com as articulações presas...

— Sim, já tinha reparado que mal pode trabalhar com desembaraço...

— Fugiram... mas na guerra não há felicidade possível. A morte foi tão cruel para o sacrílego como a família o tinha sido para a desditosa...

— Infeliz mulher! E depois?

— Depois, abandonada de todos, aceitou este pobre refúgio, apesar de não ser professa da nossa Ordem. É desde então que Madre Claudea sofre as crises aflitivas que Sóror Manoela conhece... Pobre Madre Claudea! Não soube conformar-se, e não foi por isso mais feliz fugindo à obediência filial...

— Oh, Madre Angélica, sempre o pior é ter nascido mulher! Terá sido sempre assim? Será eternamente a mesma coisa?!...

— Quem o sabe?!...

— Que grande culpa a minha em ter dado vida a uma criatura que há de, como nós, ser uma sacrificada!... — E Manoela torcia as mãos chorando numa crise de nervos, que a velha freira tentava aplacar.

— Tenha esperança, minha filha; quem sabe o que será o futuro?!... Houve sempre mulheres que escaparam ao destino comum e foram felizes.


CAPÍTULO 5

Manoela foi-se resignando a esperar, cedendo sempre, adiando de mês para mês a realização do projeto que acariciava no seu coração, e que importava o ato público de rebeldia, que Madre Angélica tanto condenava.

Os anos foram decorrendo e ela assistindo, com o espírito dolorido e a vontade embotada, aquele fim miserando de vidas que se iam extinguindo, num bater de asas lúgubres que enregelava.

O convento ia-se despovoando a pouco e pouco, como que tornando-se maior, à medida que as velhinhas, uma a uma, iam saindo, para não mais voltar, a tomar o seu modesto lugar no cemitério público.

Manoela era agora a cabeça que por todos pensava, a alma e a energia que sustentava aquele resto de vida conventual, dando-lhe uma aparência de coesão, que não tinha.

Sentia-se apossada de todo esse vasto casarão, que parecia crescer a cada nova baixa que a morte marcava, com a sua fatalidade cega de força inconsciente, na comunidade já tão diminuída.

Era a herdeira natural e incontestada dos santos que lhe iam deixando as pobres velhinhas, como recordação, e na vaga esperança de que assim viveriam mais na sua memória, único abrigo às suas almas exauridas.

Das freiras que ao entrar a tinham enchido de blandícias e amimalhado como mães carinhosas, já poucas existiam. Iam-se mirrando e fenecendo, seguidamente umas atrás das outras, quase sem doença e sem sofrimento, num descair e murchar de vontade que nenhum ideal sustenta.

Apenas três ou quatro velhinhas entorpecidas pelos anos, Madre Angélica ainda enérgica apesar da sua idade e da sua dolorida existência, e Madre Claudea cada vez mais difícil de aturar, fugindo endoidecida do convívio dos outros, seguindo apenas automaticamente as devoções obrigatórias do coro, que eram como que um farrapo de lucidez a alvejar no seu triste espírito entenebrecido. Chorava dias inteiros, com gritos dilacerantes, os pecados do mundo, que queria carregar sobre os seus miseráveis ombros, mais do que os dos outros pecadores, sem esperança de perdão. Tinha visões que assustavam as meninas do coro, e apavorava as criadas narrando-lhes: como na igreja do convento fora uma vez enterrado um grande fidalgo da cidade cuja alma em pena o diabo veio buscar com medonho barulho. Ela não se lembrava, Sóror Claudea não era desse tempo; mas ouvira contar bastas vezes às santas freirinhas que tinham assistido a essa luta homérica do diabo, querendo levar uma alma abrigada pelas paredes santas daquela virtuosa casa. O fidalgo durante toda a vida não tivera uma palavra de justiça nem de piedade para ninguém, nem se lembrava de minorar a miséria alheia, a não ser por orgulho e fama. Assim, logo que morreu e que o trouxeram com pompas principescas ao carneiro de família, feito na igreja por deferência especial a quem muito protegera a comunidade, um verdadeiro e espesso nevoeiro se levantou logo do chão escurecendo a vista às freiras, que nem podiam distinguir o padre oficiando no altar. E, à noite, o ruído era tanto pela nave majestosa, que as freiras atemorizadas deixaram de abrir as grades do coro para as rezas noturnas. Era impossível resistir ao pânico que se apoderou daquele rancho de mulheres, que viam e ouviam tudo quanto diziam ver e ouvir por um fenômeno vulgar de sugestão, que tanto milagre tem feito no mundo.

Madre Claudea descrevia e pormenorizava, então, a festa do exorcismo que fora feita por santos monges arrábidos auxiliados por todas as outras comunidades dos arredores, que de cruz alçada entraram na igreja. Aberta a sepultura e aspergido o cadáver, uma nuvem negra saiu da cova espalhando-se pela igreja e saindo pela porta entreaberta com fragor. Depois tudo caíra no silêncio, tudo se pacificara, ouvindo-se apenas as orações dos frades prostrados de joelhos num santo respeito por tão grande castigo.

E quando foram ver a cova... não continha mais do que um punhado de cinza!

Madre Claudea benzia-se murmurando exorcismos e orações, e as ouvintes entreolhavam-se sentindo pela espinha um arrepio de pavor.

E não era só isto o que ela sabia. Uma ocasião — isso já fora talvez há séculos, mas o Livro da fundação lá o tinha escrito — aparecera um rapazinho trazendo um feixe de varas ressequidas que ofereceu à irmã rodeira para plantar na cerca. Se ela as plantasse veria como dum instante para o outro, por milagre do Senhor, cresceriam logo e se tornariam em belas e frondosas árvores. A irmã rodeira ralhou com o garoto e despediu-o; mas como nessa ocasião passasse uma noviça, criança e amiga de brincar, disse-lhe com empenho: — deixe-me experimentar, irmã rodeira; não faz mal nenhum e sempre a gente se rirá da lembrança do rapazinho.

Assim foi. Pegou numa das varas e foi a correr enterrá-la na cerca, seguida por outras noviças em recreio.

Imediatamente — Santo Deus, os malefícios que faz o mafarrico! — a vara engrossou e cresceu desproporcionadamente e tornando-se numa árvore magnífica encheu de assombro as pobres noviças, que viam, sobre ela, uma multidão de macacos fazendo-lhes negaças. Foi o inferno na casa! Todas as que olhavam a árvore maldita ficavam possuídas do espírito imundo e faziam os maiores desacertos e gritarias. Como toda a comunidade corria a ver a causa de tal alvoroço, toda ela sofreu do mesmo mal, e ter-se-iam perdido todas, certamente, se não fosse a Madre Superiora, que, antes de mais nada, mandara chamar pela moça de recados os senhores capelães e confessores para por termo àquele inferno com as suas preces e esconjuros.

Madre Claudea sabia mais e mais, mas já se não lembrava bem e a sua memória fraquejava ao recordar tantas coisas idas... Apertava a cabeça com as mãos e chorava, num choro desfeito e infantil que enchia de lágrimas todos os olhos.

Só Manoela podia apaziguá-la e por assim dizer chamá-la à realidade e, com a sua voz persuasiva e grave, fazê-la sossegar e adormecer confiada como uma pobre inocente. E olhando-a esquálida e apenas com os ossos cobertos por uma pele ressequida e empergaminhada, Manoela pensava com amargura na linda rapariga que ela fora, segundo lhe contara Madre Angélica, amada com paixão, amando com loucura, vítima de interesses e preconceitos alheios, um dia rebelde e desvairada rompendo com todas as peias, logo humilhada e cheia de remorsos, entrepondo-se voluntariamente à vida que enjeitara, num terror atávico de escravo que não sabe o que há de fazer à liberdade, com sacrifícios heroicos.

Também Manoela teve um dia, e quando menos a esperava, depois de tantos anos de sujeição, a sua alforria, e também, como ela, a não soube usar, porque a sua vontade longamente oprimida não se fortalecera e definira.

Ao princípio, quando chegou, a notícia da morte repentina da mãe, não se compenetrou bem do que essa morte representava para a sua existência e apenas se sentiu surpreendida — não tendo a pretensão de querer sofrer, por costume, o que de fato não sentia, por afeto.

Mas, relendo melhor as cartas do irmão e da Ama-Rita, compreendeu por fim que era rica e senhora absoluta da sua pessoa. Isto não lhe podia de pronto dar a sensação da liberdade que por vezes pensara deveria sentir, porque o hábito lhe dera uma nova servidão, que os tímidos e os prisioneiros conhecem.

Mas, a pouco e pouco apossando-se de si mesma, resolveu fazer prontamente o que havia tanto desejava com ânsia: mandar buscar a filha, reconhecê-la como tal, e conservá-la junto do seu coração e até à morte, triplicando em carinhos os anos de amargurada saudade em que a tinham conservado.

Foi ter com Madre Angélica, que era ainda a Superiora venerada e querida, que anos antes a acolhera no seu coração maternal.

Parecia outra, galgando lestamente as escadarias e correndo pelos corredores que levavam até à cela da Superiora, que já quase nunca saía do seu cantinho cheio de sol. Com os seus trinta e quatro anos vividos numa vida quase vegetativa, os traços finos do seu rosto, que fora duma formosura discreta de morena, conservavam, apesar de tudo, a delicadeza e a graça ingênua que foram o grande encanto da sua mocidade, quando a tinham trazido para ali.

Nos momentos — raros momentos que eles foram! — de perfeita felicidade para o seu coração, toda a sua pessoa irradiava uma alegria confiante, que a tornavam singularmente encantadora.

Quando Madre Angélica levantou os olhos do livro de orações para dar a licença que ela lhe pedia à porta, foi já com o assombro que causa uma grande mudança numa pessoa querida, porque a própria voz da recolhida era outra — um novo timbre de alegria a fazia desconhecível.

— O que é, Sóror Manoela?!... Alguma novidade lá por baixo?

— Não, Madre Angélica, a novidade é só minha... é uma coisa que eu pensei e que lhe venho participar...

E Manoela explanou, diante da pobre freira sobressaltada, o projeto, que tão simples se lhe afigurara.

— A sua filha para aqui, Sóror Manoela, pensou isso?!... — perguntou apavorada.

— Sim, para aqui, então não há de ser para aqui?!

— Oh, meu Deus, meu Deus! Para que estou eu guardada, santo Deus?! — lamentava a Superiora.

— Mas eu não compreendo o seu espanto, Madre Angélica! Então não sabia o motivo porque estou aqui há dezoito anos? Não foi a Madre Angélica que me levou à obediência a minha mãe adiando até agora a realização do meu desejo?!...

— Sempre imaginei morrer antes de ver esse escândalo!... Meu Deus, meu Deus! Então a minha filha quer dar a essas meninas o público espetáculo da sua antiga culpa?!... Quer ser o riso e a fábula de toda a cidade?! O que dirão de nós?! Com tanta má vontade contra as casas religiosas, com tanta calúnia que se tem levantado, se Sóror Manoela vai agora apresentar publicamente a sua filha, o que não dirão?!...

— E que me importa tudo isso?! — não sou eu livre porventura?!

— Oh, livre, livre!... Ninguém é livre de alardear os seus pecados — respondeu a freira, impacientada.

— Não é isso o que nos diz a nossa religião, Madre Superiora. Esconder um pecado ou culpa é uma prova de orgulho que Deus condena.

— Mas não neste caso, em que a sua publicação trará descrédito e vergonha para a nossa santa casa. O que dirão, sabe, Sóror Angélica?... Dirão que nesta casa a imoralidade chegou ao ponto de se apresentarem publicamente as filhas das freiras!...

— Dirão uma mentira, que eu própria desfarei contando a verdade. Bem sabe, Madre Angélica, que se não fiz isto há muitos anos foi por seguir os seus conselhos, nos quais me mostrou que devia obediência a minha mãe. Por ela, por esse respeito de que me falou para com uma pessoa que me afastou da casa de meu pai, que me expulsou como a uma criminosa, sofri dezoito anos dum silêncio que considero uma covardia hoje... Ah, dezoito anos de saudades por uma filha que se não conhece e pela qual se morre de amor!... Ah, Madre Angélica, como foram cruéis comigo! A culpa, se a houve, se uma criança, como eu era, a pode ter por se deixar iludir por um homem da sua casta, um amigo de seu irmão... essa culpa bem a tenho lavado com lágrimas de um coração ansioso por conhecer a sua própria filha. Ah, a Madre Superiora é cruel: foi-o comigo, quando me fez recuar ante a minha justa vontade; é-o agora ainda, porque não compreende este meu sentir!... Mas agora sou livre; quero a minha filha — e hei de tê-la!...

Manoela, sempre tão delicada no dizer e tão submissa, chegava nesse momento à voluptuosidade das almas sacrificadas quando uma vez chegam à consolação de poderem articular a verdade, que lhe saía em palavras que pareciam golfadas, num atropelo de quem esteve encarcerado largos anos e vê por acaso uma porta escancarada.

— E seus irmãos, o que dirão eles desse ato? — arriscou a Superiora tentando dissuadi-la.

— Meus irmãos!?... Que lhes devo eu, Madre Superiora? Há dezoito anos que me viram partir de casa, um amaldiçoando-me, os outros nem perguntando a causa dessa saída, e só agora me escrevem porque apesar de tudo a lei me confere o direito de partilhar com eles a herança de nossos pais. Meus irmãos!? Quase os não conheço... Nem lhes devo amizade, nem respeito. À minha filha, sim, a essa devo todo o meu amor, todos os momentos do resto da minha existência.

— Sóror Manoela, pense bem. Será um escândalo! O que dirão essas meninas do coro, as criadas, as senhoras que nos protegem e nos dão a sua amizade?!... Para que estava eu guardada, Senhor!? — E a freira levantava as mãos e os olhos ao céu, num gesto implorativo, murmurando: — Ah, se Madre Gertrudes fosse viva!...

— Sim, —volveu a outra com vivacidade, tão pouco do seu costume — tem razão! Se minha tia fosse viva, ela seria a primeira a chamar a si essa pobre criança que tem sido escorraçada de todos como um cão tinhoso. E já que a não posso trazer para esta casa que me foi abrigo nas horas tristes da vida, sairei daqui. Irei viver com minha filha livremente...

— O que diz, Sóror Manoela, deixar-nos!? Quer deixar-nos agora que estamos com os pés para a cova, e é a única pessoa que aqui temos para nos ajudar a bem morrer, acabando em paz na nossa santa casa?!...

Os soluços sufocaram-na. Também ela sofria com a dor da sua pupila; também dos seus olhos, que já deveriam estar esgotados, por tanto terem chorado, caíram lágrimas que Manoela recolheu no coração angustiado.

Sóror Angélica abriu-lhe os braços, e por largo tempo ficaram chorando juntas o desespero dessa primeira desinteligência em tantos anos de confiada e doce amizade. Foi a freira que quebrou o silêncio:

— Sóror Manoela, mande vir a menina; mas, se lhe merecem alguma consideração as suas velhas companheiras, não a reconheça desde já publicamente. Deixe que a morte feche as portas do nosso convento, e então será completamente livre para fazer a sua vontade.

— Mas que nome dará à amizade por uma criança que tão empenhadamente mando vir para junto de mim?

— Não poderá ser uma afilhada?...

— Afilhada?!... — Manoela hesitava, pesando-lhe muito aquela fraqueza como uma verdadeira covardia. Mas as velhas companheiras de toda a sua existência de expulsa mereciam alguma consideração... Cederia.

Tinha de ser — mais uma vez sacrificando ao descanso dos outros os seus sonhos, as suas revoltas, as suas alegrias, a sua vontade.


CAPÍTULO 6

Alguns dias depois chegava Cristina, acompanhada pela Ama-Rita, que chorava de comoção só com o pensamento de rever a sua querida menina.

Manoela foi esperá-las à portaria, escondendo a custo a ansiedade da sua alma que tumultuava em desejos loucos de tomar a filha nos braços e gritar bem alto a sua paixão.

Toda ela tremia, sorrindo contrafeita às conversas e perguntas das outras senhoras, amparada pela Madre Superiora, que extraordinariamente saíra do cantinho da sua cela para a fortalecer naquela suprema prova.

Veio por fim a hora da chegada; abriu-se a portaria, e Manoela pude ver pela grade entreaberta a Ama-Rita, muito velhita e trôpega, acompanhada por uma mulher, uma verdadeira mulher forte e desempenada, que olhava com visível curiosidade essas paredes enegrecidas que iam ser o seu novo abrigo — saída dum convento, onde a mãe pagara para a educarem, para entrar naquele como recolhida.

Manoela, à medida que a filha se ia aproximando, subindo a escada para entrar no palratorio, ia recuando espavorida, sentindo um frio de morte no coração, que a asfixiava. É que diante dos seus olhos estava, não a filha que amava e chamara febrilmente durante anos de paixão estéril em que se consumira, mas a imagem viva do homem que, na retidão do seu caráter, apenas poderá desprezar como um ser ignóbil e asqueroso.

Cristina não era nada, nada do que ela tinha idealizado. Não era a sua filha, era a filha dele, que a natureza, inconsciente na fatalidade da sua força, lhe punha nos braços.

Vencendo a repugnância instintiva que essa semelhança lhe inspirava, foi sorrizonha e meiga que recebeu a afilhada, mas Cristina não correspondeu também a esse apelo. Os seus olhos garços ficaram frios e dominadores, como eram habitualmente; a sua boca não se desdobrou além do sorriso escarninho que lhe errava habitualmente nos lábios.

Foi tristemente resignada que Manoela a acompanhou ao dormitório cheio de luz onde ela dormia, e onde, com amoroso cuidado, lhe arranjara a cama velada com cortinados de inexcedível brancura, fresca como um berço de criança.

Ama-Rita seguiu-as falando muito, abraçando de quando em quando a sua querida menina, que ainda era capaz de reconhecer entre muitas apesar de tão mudada e tão triste.

Cristina não despertou a simpatia viva que a mãe inspirara a toda a comunidade logo ao entrar no convento.

Pagava com sorrisos contrafeitos os carinhos que lhe faziam, e mal atentava nos mimos com que a mãe a rodeava. Aborrecia-se e impacientava-se com as pobres velhinhas, que procuravam nessa mocidade a alegria que as aquecesse e lhes reflorisse as existências a extinguirem-se. Como à mãe, outrora, todas abriram o coração a esse coração, mas este permaneceu fechado e frio, afastando-as descaroavelmente.

Tinha revoltas bruscas, respondia secamente, e queixava-se à Ama-Rita de que a queriam sepultar entre quatro paredes e que a tinham tirado duma prisão para a fecharem noutra pior. Manoela sofria com todas essas pequenas coisas, que se iam avolumando, tornando-a odiada por todas as outras companheiras; mas temia fazer-lhe qualquer observação receando o seu gênio, que pressentia violento e áspero...

Até que um dia Cristina, de combinação com uma menina do coro que levou à rebelião, pôs uma verdadeira nota de escândalo no meio conventual, subindo com ela ao telhado para ver o que se passava no largo apinhado de gente para a feira.

Manoela foi obrigada a proceder, advertida pela Madre Superiora, que a acusava, com a sua voz doce, de falta de energia para com a filha.

— Cristina — dizia-lhe meigamente — para que me obriga a admoestá-la? Para que faz coisas... que não ficam bem a uma menina?...

— Mas o que fiz eu, minha senhora? Foi algum crime subir ao telhado para tomar um pouco de ar, para fugir um instante desta sensaboria?!

— Mas a Cristina não está bem, não gosta de estar no convento?

— Não, minha senhora, não gosto de estar nesta prisão.

— Mas ouça: há de sair, tenha paciência um pouco. Isto não pode durar muito; são apenas duas as freiras que ainda existem, e quando elas morrerem sairemos ambas. Continuará aqui a sua educação; a Cristina sabe tão pouco que mal se poderá apresentar no mundo, onde há muita exigência para as senhoras da nossa classe.

— Ah, sim!? Conselhos, conselhos tenho ouvido muitos. Eu já tenho educação bastante, não preciso mais...

— Cristina!?

— Minha senhora!?

— Então não está bem ao pé de mim?... — E querendo-a convencer, com a sua voz dum carinho maternal: — Não diga que não, que é ser ingrata. Se soubesse como sou sua amiga!...

— Minha amiga?! Se o fosse, não me prendia aqui como uma criminosa. Se o fosse, não me chamava afilhada — quando eu sei muito bem que tenho outro nome...

Manoela interrompeu-a com um grito desvairado:

— Cristina, Cristina, cala-te! Tu não sabes, tu não podes compreender nada do tormento da minha vida!...

— Ah, sim, um bom meio de me obrigar a calar, quando eu posso falar porque sou sua filha — respondeu brutalmente.

Manoela empalideceu; aos seus ouvidos soou uma zoeira congestiva e o seu coração quase a sufocou na onda de sangue que lhe atirou à cara.

— Sua mãe!? Está enganada, menina! Nem sequer é minha afilhada. Mandei-a criar e educar por dó, e é por dó que a tenho comigo.

Conhecendo o orgulho da filha, pagava essa afronta com afronta maior. Também ela se sentia ferida; também ela tinha necessidade de revoltar-se contra a crueldade alheia. Também ela tinha um temperamento violento, que a extrema sensibilidade e o prematuro infortúnio tinham enfraquecido mas não aniquilado.

— Quer sair?! — e o seu peito era sacudido por uma gargalhada nervosa, que tornava ásperas as palavras — quer sair?! Pois saía! Que me importa!? Recolhi-a por dó... não a obrigo a receber um beneficio que não merece.

Mas Cristina, como todos os egoístas, tinha a covardia das resoluções rápidas. Diante da indignação da mãe, queria recuar, submetia-se, desejava tudo conciliar...

— Sair, minha senhora?! Mas para onde?

— Para onde estiver melhor, para onde quiser. Que me importa a sua vida?! E é melhor fazê-lo já, já.

Manoela, com todos os nervos retesados numa crise dolorosa, tinha-se tornado duma palidez esverdeada, os beiços trêmulos e descoloridos, o coração a afogá-la numa galopada infernal após uma como rápida suspensão de movimento.

Ante aquela ordem e o gesto de repulsa que a acompanhava, Cristina não resistiu, dirigindo-se para a porta, de cabeça baixa, contrafeita, unicamente arrependida de ter provocado uma cólera que a privava, dum instante para outro, de todo o bem-estar material a que se afizera.

A mãe olhava-a tristemente: — era afinal aquela a filha que tanto amara e tanto desejara!... Um resto de piedade venceu ainda a indignação e o desgosto.

— Ouça — disse-lhe quando estava quase ao fundo do dormitório, fazendo-a voltar rapidamente a cabeça numa ânsia de esperançada.

— Minha senhora, chamou?

— Sim, venha cá. —E, sem a fitar, num repelão de mágoa que lhe causava a atitude tão diferente da filha, agora de cabeça baixa e ar hipócrita. — Custa-me abandoná-la para aí, sem família nem proteção... Vou pedir a meu irmão para a receber em sua casa, como afilhada... Se ele consentir, ficará contente?

— Sim, minha senhora; seria uma felicidade para mim. Quanto lhe devo, madrinha!

— Não, não me deve nada. Vá à sua vida, e tenha paciência alguns dias mais.

— Mas... eu queria pedir desculpa...

— Não; não me ofendeu. Pode ir.

Tinha pressa de se encontrar só. Dizia bem: o seu coração não estava ofendido; estava despedaçado, calcado aos pés, por aquela que tinha sido o encanto da sua existência antes de a conhecer e depois não fora senão motivo para desilusões e evocações pungentes.

O desespero da sua alma contrastava com a serenidade da lua, em crescente, que se erguia manso e manso num céu translúcido, ainda tingido de ourenta púrpura no poente, e era como um alfanje de ouro pronto a vibrar-lhe o último golpe.

Soluçava; já não podia mais.

Pela janela gradeada, os olhos nublados de lágrimas mal distinguiam as linhas dessa paisagem, revista em cada dia durante anos, e que umas vezes lhe parecia grandiosa no seu aspecto cenográfico, outras banal e triste, conforme as impressões do seu espírito, tranquilo ou perturbado.

Sentia um agro prazer em chorar, e em soluçar como uma criança, numa desconsolação de abandono e de desespero. O que fora o seu passado? Apenas uma existência sacrificada ao convencionalismo ou ao egoísmo alheio. O presente era essa amargura de se sentir desamparada das suas próprias ilusões — as últimas companheiras dos que mais sofrem.

O futuro... Santo Deus! o que lhe traria o futuro se não lhe trouxesse o hábito de viver para si mesma?!...

Madre Angélica, prevenida pela Ama-Rita que vigiava sempre a sua menina, veio ter com ela, arrastando-se vagarosamente ao longo do dormitório, como uma sombra que o luar fazia destacar.

— Sóror Manoela, o que tem, o que lhe fizeram para estar assim agoniada?!...

— Ai, Madre Angélica!... Estava aí? Ainda bem, ainda bem que a tenho junto de mim neste momento. Julguei-me olvidada de todos —até de Deus!...

— Sóror Manoela... — tornou a velha freira com severidade, adoçada pela sua muita estima à reclusa — veja o que diz, minha filha. Deus é pai e um pai não esquece nem aflige propositadamente os seus filhos. Ele ama os mais amargurados — e serão esses os que mais perto estarão da sua eterna glória.

— Ah, mas custa muito chegar até lá, pelo caminho da vida...

— Tenha resignação, Sóror Manoela; aprenda no exemplo dado pelo nosso Salvador: olhe para a sua santa imagem, coberta de chagas e coroada de espinhos! E tudo quanto sofreu, inocente e bom, foi para remir o mundo, para salvar aqueles que o flagelavam.

— Tem razão... terá razão — soluçou Manoela, humilhada. Mas logo, numa revolta subitânea que toda a sua devoção não pude evitar — mas ele era Deus, sofreu por sua vontade, e morreu logo!! O seu martírio não foi uma longa vida arrastada na dor e no suplício! Mas eu que vivo, eu que tenho vivido anos e anos para sofrer em cada hora mais do que a morte...

— Sóror Manoela!... — reprimendou a freira.

— Perdão, perdão! Meu Deus, se o sofrimento enlouquece!...

E de joelhos, aflita, soluçante, apavorada com a sua própria heresia, foi-se arrastando até ao crucifixo que se destacava no fundo, tremulamente alumiado por uma lâmpada de cobre, e ali ficou agarrada aos pés chagados da grande imagem, num choro convulsivamente desfeito e trágico.

Madre Angélica apiedou-se, ela que era o único coração capaz de compreender e estimar a misera criatura, e tentou levantá-la com as suas poucas forças, e disse-lhe baixinho, numa voz que era uma consolação para essa alma torturada e desgraçada:

— Vamos, Sóror Manoela, diga-me o que assim a faz sofrer. Conte-me a sua mágoa — que verá como ela diminui...

— Ai, Madre Angélica, morro de saudades pela minha filha. Trocaram-ma. Não é esta! Como fui castigada, Santo Deus!

E a freira, sinceramente surpreendida na sua credulidade ingênua:

— O que me diz?! Então a Cristina não é a sua filha?... Será possível?!...

— Não é! — volveu Manoela, sobre-excitada, não reparando sequer na dúvida da velha Madre. — Não é, não é a minha filha, que alimentei do meu próprio sangue, que saiu do meu corpo como a flor sai da planta. É uma estranha, é uma alma gelada, que não compreendo nem estimo. Veja-a, veja-a bem, Madre Angélica; veja-lhe bem os olhos frios e cruéis, os seus olhos metálicos como os do outro! Veja-lhe o riso escarninho, que é dele... Consulte-lhe a alma soberba e impiedosa, como a da avó... Avalie a minha desgraça, Madre Angélica! Tenho uma filha que não tem nada, que não é nada de mim!... E despreza-me, a criaturinha!... — terminou num riso cascalhado, que era uma derivação do choro histérico que a tomara.

— Sossegue, minha irmã. Então!?... Isso não é próprio de si...

— Sim, tem razão! Eu não devo sofrer assim, mas que fazer?! Não posso, não posso habituar-me a esta desolação; querer amar a minha filha tal como é e não como a sonhei, e não poder, não poder!...

Falou longo tempo, num soluçar entrecortado que a esfrangalhava e alucinava, e só muito tarde, conseguindo levá-la para a sua cela, onde estavam mais à vontade, Madre Angélica lhe pude insuflar um pouco de coragem e resignação para vencer aquela crise dolorosíssima.


CAPÍTULO 7

O irmão de Manoela respondeu afirmativamente à carta muito digna que ela lhe escrevera, consentindo em receber Cristina como se fosse uma filha.

A morte da mãe deixara-lhe um vácuo imenso no grande casarão, onde só de quando em quando os irmãos, já casados e cada um em sua terra, o visitavam por cerimônias.

 Cristina pode vir — dizia na sua carta à irmã — quando quiser, e na certeza de que já a estimo como filha.

Sentia-se só, e estava na idade em que uma nova amizade é um pouco de vida nova que se insufla na alma amortecida.

 Manoela, que fosse também; dezenove anos de penitência teriam por certo depurado toda a mácula...

Esquecia o passado; talvez um pouco de inconfessado remorso o estivesse a magoar, agora que se sentia tão só e inclinado à vida serena duma família a refazer.

Mas a irmã não ia; agradecia-lhe muito, tanto a prontidão da resposta como a aquiescência ao seu pedido e o desejo de a rever... Mas não iria. Tinha ali uma triste missão a cumprir; não abandonaria, no fim da vida, as companheiras de tantos anos de angústia.

Cristina partiu alegre, numa ansiedade de prisioneira que reentra no mundo por que tem suspirado durante longos dias irresignados.

Manoela ficava sem saudades dessa filha que fora durante anos a sua razão de viver; antes sentia, ao despedir-se, uma vaga sensação de alívio, não isenta de cavada amargura.

— Adeus, Cristina, — disse-lhe na hora da despedida — diga a meu irmão que resolvi fazer o meu testamento deixando-a herdeira do que me pertence. Ele que administre a casa nesse sentido, pois só quero dispor do usufruto por causa destas pobres criaturas que me rodeiam.

— Deixe-me agradecer-lhe, madrinha... — e tentava beijar-lhe a mão.

— Para quê?... —respondeu sorrindo com ironia e encolhendo os ombros à sincera alegria de Cristina.

Era com um profundo desdém que atirava essa fortuna, que lhe era indiferente, para o poder da filha que não a soubera amar nem reconhecera o presente inestimável que lhe dera antes, tendo-lhe dado o seu amor.

Partiu, acompanhada de Ama-Rita, que apenas levava o encargo de a entregar ao tio e voltar logo, pois essa é que, decididamente, não abandonaria mais a sua menina.

Para ela a menina era Manoela, que nunca deixava de rever como fora: a filha adotiva do seu coração, a estranha que tomara na sua alma o verdadeiro lugar da filha morta à nascença.

Mas bastante mudara nos últimos tempos, apesar dela se não querer convencer do que via: a mulher que pouco tempo antes ela encontrara, senão a linda rapariga que vira partir, lavada em lágrimas, crucificada de dores, pelo menos uma mocidade ainda florescente, estendendo-se por um outono que se anunciava formosíssimo.

Em poucos meses Manoela fez uma diferença que saltava aos olhos e afligia toda a comunidade, que só nela fundava as suas esperanças e as suas alegrias. O cabelo embranquecia-lhe nas fontes; a pele amarelecida, enrugava-se imperceptivelmente a princípio, mas visivelmente nos últimos dias em que umas olheiras inchadas lhe davam no rosto o aspecto desolador da doença que lhe fizera do coração uma pobre máquina sem regulamento.

Podia dizer-se que ia morrendo aos poucos, das feridas incuráveis que nele sentira, durante toda essa existência de eterna sacrificada, em que a alma se lhe esfacelara pelos agudos e impiedosos espinhos do egoísmo alheio.

Com a doença de Manoela, entrou o desânimo em todas as almas e a morte encontrou fácil caminho entre aqueles organismos depauperados e sem resistência moral.

Todos os meses havia mortes no convento: ora as freiras, ora as velhas criadas e recolhidas, lá se iam, umas atrás das outras, em debandada desoladora. E para ela, a morte que rodeava agora como companheira inseparável a velha casa conventual, tão suavemente serena e risonha, era um aflar de asas sinistro que lhe deixava na alma o luto de toda essa querida família espiritual, a única que verdadeiramente estimava agora.

O convento acabava dia a dia, hora a hora, — sentia-se, numa alucinação de pressentimentos e presságios tétricos, avisos sobrenaturais e fatos estranhos que causavam a perturbação e o pânico de todas aquelas criaturas enfraquecidas e mais ou menos doentes, senão do corpo pelo menos da alma.

Assim, a sineta que no claustro de cima apenas era tocada quando alguém na casa entrava na agonia, para que as almas se recolhessem com Deus e na sua ânsia de bem merecer auxiliassem a que estava para partir, a desligar-se, sem pena nem pecado, desta vida defeituosa e amarga, começara uma tarde, à hora calma do Ângelus, a tocar freneticamente conclamando toda a comunidade, que se olhava espavorida e convicta do trágico aviso. — Era certo: aquela sineta, que uma só vez tocara assim, segundo constava, anunciando a morte de duas freiras em cheiro de santidade, anunciava agora a morte, o fim da santa casa que fora abrigo de tanta pobre alma de mulher revoltada ou submissa, mas todas crentes numa eternidade de venturas de que não tinham tido na terra a compensação.

E todas elas, velhas e novas, míseras sombras duma outra idade ou raparigas que a educação conservara afastadas do tempo em que vieram ao mundo, todas curvaram a cabeça à convicção de que a campa as chamava, de que era a morte que as libertaria em breve. Sim, elas estavam prontas, mas quanta tristeza nesse fim de existências que já mal se arrastavam, numa vida que não compreendiam já!...

Outro dia era um reboliço enorme nas casas desabitadas, que as fazia tremer de apavorante susto, pensando nas irmãs mortas ultimamente e em tantas que descansavam sob as lajes frias do claustro.

E eram vozes misteriosas vindas da terra, perfumes deliciosos e estranhos que se espalhavam pelos casarões vazios, fantasmas silenciosos de freiras mortas havia séculos e que deslizavam sorridentes como que a animarem as pobres irmãs que assistiam ao fim da sua casa tão amada!...

Manoela, apesar de todo o seu bom-senso, não resistia ao contágio e, como as outras, vivia numa atmosfera de prodígios e de medos que mais ativava o progresso do mal que a consumia.

Mas não abandonava por esse motivo as velhas companheiras, que só nela achavam conforto para bem morrerem.

Foi Sóror Claudea a última a deixar a vida, que tão dolorida lhe fora; foi ela, a pobre louca, quem fechou, como um ponto final simbólico, mais um período de história feminina, tecida de sacrifícios e servidões e ilusões profundas, e sem um fecundo e nobre e belo ideal de vida!

Ali ou na família, no claustro ou no mundo, a existência feminina pouco diferia; pouco mais era que esse decorrer estirado de anos partilhados entre pequenos deveres, insignificantes trabalhos, apagadas alegrias e supliciantes sacrifícios a que ninguém prestava atenção, tão naturais são aos servos e aos inferiores...

Morta Madre Claudea, e participado o caso às autoridades, teve Manoela que aceitar o depósito da casa para fazer a entrega legal.

Acabada a clausura e o convento, por assim dizer franqueado ao público, começou um novo martírio para Manoela, que se não podia furtar à indelicada e faminta curiosidade de toda a gente da cidade, que já depois fazia da visita ao convento uma distração a quebrar a monotonia da vida provinciana.

A querida casa tão recatada e fechada a todos os olhares indiscretos, foi uma coisa pública escancarada e esquadrinhada por todos os indiferentes, uns sob a capa amável da simpatia e da piedade, outros rancorosos ou hostis, desrespeitando as suas crenças ingênuas ou troçando com as suas alardeadas superioridades as infantis preocupações daqueles seres inúteis...

Manoela afetava uma serenidade que lhe custava anos de vida, não querendo dar aos indiferentes o espetáculo duma dor que era apenas sua e das suas pobres companheiras, as recolhidas, as meninas do coro e as criadas, que em breve seriam arremessadas para o mundo como folhas inertes e sem vida, e dispersadas ao sabor do acaso, que as levaria sabe Deus a que dores e a que misérias! — tão mal preparadas como estavam para a luta de cá fora, quase todas pobres e sem amigos ou família que as tivesse como suas...

Já que não podia furtar a casa e as coisas à profanação dos olhos estranhos, fechava a sua alma num silêncio orgulhoso que a tornava respeitada, e conservava uma certa distinção naquele acabar de comunidade que sem ela seria um levantar de feira sem grandeza nem simpatia.

O inventario feito, a pilhagem executada por ordem superior, viu com profunda amargura os preciosos Grão-Vascos desprendidos das paredes seguirem, com os azulejos hispano-árabes que foi possível arrancar, a pouca mobília rica que havia, os livros e as tapeçarias de valor, encaixotados, segundo diziam, para os museus de Lisboa... Eram livros velhos aos cantos, pelos corredores, baús e caixões devassados e esvaziados...

E ainda lhe foi preciso assistir, sem que a desligassem do triste encargo de testamenteira, à invasão dos operários que vinham transformar a casa, para novo destino mais em harmonia com a época.

Portas escancaradas, divisões deitadas abaixo, montes de caliça pelos pátios e claustros, deslocadas as fontes murmurosas, mortas as plantas que eram o seu encanto — aquilo afigurava-se-lhe uma ruína completa, um desabar de todo um passado que morria sem ter criado raízes, como morre sem seiva, inutilizada, a planta nascida em terreno pobre e rochoso.

Libertada, por fim, foi acabar de viver para uma pequena casa de campo que a Ama-Rita descobriu escondida entre tufos de verdura tenra e uma doce paz idílica a rodeá-la.

Sentia-se de mal a pior, e sem esforço deixava-se morrer, desligada da vida, sem afeições ou deveres que a prendessem.

Além do amor humilde da simples camponesa que a criara e a cumulava de carinhos e ternuras na morte, como a rodeara na infância, nada lhe restava.

Cristina, muito prática, muito à sua vontade, talhara para si um lugar amplo na vida. A última carta do irmão de Manoela pedia-lha em casamento, e a dela, que vinha junta, pedia, pró-forma, o consentimento da madrinha.

Manoela sorriu: era a sua vingança, uma como reabilitação do seu sangue, da sua própria carne expulsa outrora como coisa imunda da casa e da família.

Era a vida onipotente readquirindo os seus direitos, a natureza triunfando dos preconceitos, que desprezava as convenções e entrava como senhora donde fora expulsa como réproba.

Cristina, na sua cega e egoísta caminhada para a vida, fora a força invencível da razão e da justiça, fora a suprema e triunfante palavra do futuro.

A mãe, amorável, generosa e submetida, dera a existência aos pedaços para satisfazer as outras.

A filha, egoísta e revoltada, e sem exageros de sentimentalidade que só provocam a dor, recebia uma por uma transformadas em alegrias as lágrimas da mãe.

Manoela sorria: era a sua reabilitação, era, saboreada com infinito gosto — tão certo é que nenhum sacrifício se perde, aproveitando quase sempre a quem menos o merece.


CAPÍTULO 8

Em toda a noite Manoela não pudera dormir, angustiada, sentindo sobre o peito um peso esmagador, sufocada e aflita.

Com a manhã, que rompera radiosa empoeirando de ouro todo o campo e dourando as montanhas que se destacavam no fundo róseo do céu, serenava um pouco.

Sentia-se mais aliviada e quis arrastar-se até à janela aonde se sentou na cadeira de braços, que era o seu pouso habitual. Olhava atenta a bandada de pombas brancas que saía do pombal em voos estonteados e incertos, embaraçando-se nos ramos das laranjeiras que floriam de branco e perfumavam delicadamente a atmosfera.

— Ah, como era linda a natureza, sempre renovada e sempre a mesma, — e como era bom viver!...

E a pobre doente ouvia, num encanto de esperança, nunca extinta no coração humano, as palavras de consolação que a boa Ama-Rita lhe ia dizendo.

— Por que não iam passar uns tempos a casa do Sr. Morgado?... Havia de fazer bem à senhora...

— Sim, iriam — concordava Manoela — mas não já, a primavera começara apenas, e a Ama-Rita bem sabia como eram ainda invernosos e frios esses meses de primavera lá na terra.

Oh, se sabia! Quantas noites enregeladas passara acalentando nos braços a sua menina; quantos dias fechada em casa porque a neve e o frio não dava licença, até maio, de se sair da lareira...

Manoela, sorrisonha às recordações da boa velhota, prometia fazer essa viagem—em vindo o bom tempo.

— E o menino, quando nascerá? —perguntava a Ama.

— Já tens pressa de o chamar teu, não é assim?...

E comparava, com um certo sorriso irônico a aflorar-lhe aos lábios descorados, a ansiosa espera em que se andava pela vinda do primeiro filho de Cristina e os transes porque ela passara para que a mãe chegasse a este mundo, onde era agora uma triunfadora. Recordava... e recordar era tornar a sofrer as horas de desânimo e desespero que por milagre a não tinham atirado para um hospital de doidos ou para o cemitério.

Tornava a ver a casa em ruínas, onde a criança nascera como um animal bravio, que anda a monte, para não ofender com os seus gritos de filho ilegal as consciências sossegadas...

Como isso já ia longe e como tudo tinha mudado! Quem lhe diria então que Cristina, a sua filha, essa vergonha viva, essa nódoa na família fidalga de que descendia, anos volvidos seria a senhora morgada a quem todos adivinhavam os desejos e amaciavam o caminho para que desse sem percalço o novo herdeiro da casa?!...

E tão desemelhante destino só porque uma tinha um pai que legalmente reivindicava os seus direitos, enquanto a outra era filha dum homem, que na sua inconsciência de bruto apenas cuidara do prazer material e passageiro, com tanta mais perfídia quanto era maior o seu conhecimento da indulgência da sociedade para com as leviandades do homem transformadas em crimes para as mulheres.

E Manoela, meditando e revendo toda a sua existência naquela hora de passageiro repouso, que a doença lhe dera, pensava com amargurado remorso no que chamava agora a sua covardia:

— Sim, Cristina, no impulso do seu egoísmo e da sua ânsia de viver, é quem estava na verdade!

 A transigência, a covardia, a fraqueza, mesmo quando são filhas do sentimento, acarretam consigo o triste prêmio da sua inferioridade. E assim, pela covardia a que tinham dado o bonito nome de bondade, ela ali estava sem família, sem amigos, sem uma alegria que a prendesse à vida que a ia abandonando como fardo inútil, que já não presta para nada.

 Não, não se deve transigir, não se deve esconder uma ação que em nossa consciência não é um crime, embora a sociedade na sua hipocrisia a mostre, ferozmente, como tal!

 A sociedade acostuma-se a respeitar os fortes e só pede contas severas aos fracos, aos que transigem, aos que a ela se não adaptam ou a não dominam, as duas únicas formas de a vencer.

 Cristina tivera razão: ela não fora uma boa mãe, não soubera desempenhar o seu nobre papel, ferindo implacável porque fora ferida, cobrindo com a sua revolta o destino da criança que chamara a uma vida que lhe não pedira. Não tinha desculpa. Fora necessário que a filha, no seu bom-senso de bastarda, soubesse encontrar a desforra no sacrifício do próprio corpo procurando nesse casamento sem amor o nome que ela lhe negara.

 E valia muito o amor?... Ah, ela sorria, com dó de si mesma, recordando como se entregara toda inteira a esse sentimento, o corpo palpitante, a alma fremente, sem uma reserva, sem um pensamento mesquinho de dúvida, com a pureza duma criança, cuja alma não fora maculada pela desconfiança — e o que lhe deram em troca?!...

 Pois bem, ia reparar a sua falta.

E, chamando a Ama, que dava uma certa ordem ao quarto, respeitando a sua meditação, Manoela pediu a escrivaninha portátil que estava sobre a mesa de cabeceira, pegou num papel e ia a escrever...

Depois suspendeu-se, sorriu com amargura, e pôs a pena de parte. O que ia fazer com essa declaração a juntar ao testamento?!

Cristina já não precisava do seu nome, mais amplamente coberta com o do marido que a tomara como filha de pais incógnitos, e a sua declaração extemporânea apenas lhe traria vergonha inútil e dissabores...

Não a fazia — era já tarde para isso.

Recostando-se às almofadas que a Ama-Rita lhe ajeitava na cadeira, sentiu-se agoniada, pediu água, depois fechou os olhos, franziu frouxamente os lábios descorados, e a cabeça tombou-lhe para o lado sem vida.

—Deixou de sofrer! — dizia a velha, soluçando alto, para a criada e para a mulher do quinteiro que chamara aflita na primeira impressão de inevitável surpresa. E alisava-lhe os cabelos sobre a fronte, juntava-lhe as mãos numa atitude de prece. Deixou de sofrer, coitadinha! Toda, toda a vida — uma sacrificada!...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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