quinta-feira, 6 de junho de 2019

Vingança de mulher (Conto), de João Grave


Vingança de mulher

Na doçura da tarde dominical, à sombra de árvores verdes, os três amigos conversavam pausadamente, sentados à volta duma rústica mesa de cortiça, no parque da estância termal em que se encontravam veraneando. Não corria uma aragem e não murmurava uma folha. Pela janela aberta dum hotel próximo saía em ondas o som do Momento Musical, de Schubert, que alguém, de certo uma linda adolescente, apaixonada e sonhadora, com pedrarias de anéis fulgindo na brancura dos dedos afusados e magros, tocava com fino sentimento emotivo, na suavidade da hora evocadora. Ao longe, por entre os arvoredos silenciosos, pairavam e riam ranchos de crianças ou erravam alvuras de vestidos de cambraia.

Houve um instante em que a conversa dos três amigos se animou, derivando insensivelmente para os casos complicados da psicologia feminina; e um deles, Duarte Aragão, moço triste e romântico, de grandes olhos negros, exclamou:

— A alma das mulheres é um enigma. Nenhum psicólogo, desde Balzac a Marcel Proust, passando por Stendhal, ainda conseguiu interpretá-la.

— Eu não sou dessa opinião — atalhou João Damasceno, sedutor profissional que se vangloriava de ter acordado em mais dum coração paixões devastadoras. São excessivas em todos os seus sentimentos, certamente; mas, nada mais simples do que elas.

— Simples, simples!... Não sei o que é a simplicidade para ti — acudiu Duarte, soprando com lentidão o fumo dum cigarro. A não ser que não tenhas deparado até hoje, no teu caminho, mulheres verdadeiramente dignas deste nome. Eu falo, é claro, das criaturas singulares que, ao dom aliciante da beleza, juntam as graças maravilhosas do espírito; e tu, naturalmente aludes...

— Às feias e às estúpidas?

— Não! Às que são unicamente belas pela formosura e não pela inteligência.

— Pois, olha que te enganas... Se eu quisesse consultar as minhas recordações...

— Poupa-nos a esse relatório doloroso — interrompeu Basílio de Menezes, que se mantivera calado durante a controvérsia, riscando distraidamente a areia do passeio com a ponteira da bengala. De resto, já sabemos que tens sido amado pelas mais raras flores do Fatal Feminino e que, se te houvessem conhecido, te pediriam beijos as próprias madames Stael, Récamier, Sevigné, outras extraordinárias damas que têm um nome e uma celebridade na história humana — concluiu com um sorriso irônico.

— Bem! Essa ironia não prova nada! — disse João Damasceno, despeitado.

— Homem, sempre prova que és irresistível — replicou Basílio, rindo sempre... Mas não te irrites! Estamos aqui, apenas matando o tempo e fazendo un brin de causerte, que diabo!...

— Eu afirmava — exclamou novamente Duarte — que a alma das mulheres é um enigma, e que essa alma quase sempre escapa aos entendimentos mais perspicazes. Por exemplo...

— Vamos à demonstração, a que é sempre obrigado quem afirma, neste nosso curioso século de ciência e de análise... — bradou Basílio.

— Por exemplo — continuou Duarte — essas mulheres nunca perdoam aos homens que um dia amaram e que as desdenham... Para se vingarem, serão capazes das maiores "torturas e dos maiores crimes. O que nelas era adoração transforma-se em perversidade, em crueldade.

— Eis um ponto de vista falso!... Falsíssimo — asseverou João Damesceno, levantando-se e dando alguns passos em redor da mesa.

— E por quê? — interrogou Duarte.

— Ora! Porquê! — explicou Basílio. Por isto: — João tem desdenhado muitas e, em vez de vinganças, recebeu sempre os retratos das desdenhadas com dedicatórias delirantes, não é assim?

— E não o digas a brincar!...

— Não brinco com estes casos, que são sérios. On ne badine pas avec Vamour... Mas é que tu, João, és encantador e as borboletas que queimam uma asa na tua chama, ficam a acenar-te afavelmente com a outra... Existem exceções felizes à regra formulada por Duarte, e tu és uma delas Parabéns... No entanto...

Fez-se um momento de silêncio, que maior encanto comunicou à contemplação da paisagem envolvente. A luz, que desfalecia, dourava as folhagens e imprimia mais relevo às formas. A clara, faiscante água duma fonte que corria para um largo*tanque onde se fechavam já as florações dos nenúfares, enchia o ar de murmúrios flutuantes.

— No entanto?... — preguntou Duarte.  Basílio acendeu vagarosamente um charuto, sacudiu para longe o fósforo queimado, e começou:

— No entanto, também eu creio que, desta vez, erraste nos teus juízos sobre a alma das mulheres.

— Oh! senhores, se eu adquiri pela experiência a certeza do que asseverei!...

— Eu possuo, igualmente, com que documentar a minha negativa. Ora ouçam.

João Damasceno voltou a sentar-se à mesa em que estavam abertos e esquecidos os jornais chegados pelo correio e, encostando a face à palma da mão, seguiu a narrativa de Basílio, muito contente por, desta vez, ter alguém a defendê-lo.

— Conheci uma rapariga — e é inútil procurarem saber quem é porque nada revelar...

— Homem, não pretendemos arrombar uma porta trancada — disse Duarte com intenção.

— Conheci uma rapariga — continuou Basílio — que teve por certo homem a mais ardente, cega, alucinada paixão que possam imaginar. Essa rapariga, que à formosura aliava uma admirável e completa educação, uma rara cultura e uma subtil sensibilidade, nunca escondeu o seu amor. Pelo contrário, dava-lhe uma vasta publicidade, orgulhosa em confessar-se diante de todos — por que esta publicidade contribuía para a sua ventura e porque, por ela, mostrava que era capaz de todas as abnegações.

— Ó menino, estamos em pleno romantismo, logo depois do prefácio de Cromwell e do colete vermelho que causava febre a Madame de Girardin!...

— Se querem que eu vá até ao fim, não me interrompam... Digo-lhes que não fantasio. Estou em plena realidade...

— Pois bem. Vamos à história!

— Para sua desgraça, porém, o homem a quem ela se consagrara, tendo encontrado, nos primeiros dias, um certo sabor nessa aventura
lírica e fazendo-lhe crer que também a amava, enfadou-se, por fim, de tão transbordante ternura e começou a evitá-la. Por quê? Porque não queria casar, porque se julgava incompatível com a vida conjugal, porque não desejava enfeudar a liberdade da sua vida de solteiro às responsabilidades dum lar e duma família.

— E quem o mandava casar? — atalhou João Damasceno, inconsideradamente. Estivesse no seu lugar!...

Basílio olhou o amigo com um sorriso indefinido, e quebrando a cinza do charuto na beira da mesa, prosseguiu:

— Devo dizer que este homem era ainda honesto nessa época. A sua queda ocorreu mais tarde... Como era honesto, entendia que só pelo casamento poderia obter a posse duma mulher que lisonjeava a sua vaidade, amando-o, mas que lhe exigia sacrifícios que não estava disposto a fazer. Certamente que ele a levaria, sem resistência, a todas as loucuras. Ela oferecia-se-lhe, entregar-se-lhe-ia confiadamente e sem hesitar. Se assim o quisesse, fugiria com a pobre rapariga, transformá-la-ia em sua amante para mais tarde a abandonar. Uma tal solução, porém, lançaria na vergonha uma família digna de respeito e talvez na morte um coração ingênuo que só por ele batia. Decidiu, portanto, cortar sem piedade um idílio nascente que viria a enchê-lo de remorsos, no momento luminoso e purificado em que nas  consciências se levanta uma aurora, e passou a tratar a mulher que dele se namorara a princípio com frieza e depois com grosseria... Isto, contudo, foi inútil. A sua glacial indiferença ou a sua brutalidade não bastaram para queimar no peito da apaixonada a divina flor amorosa que lá desabrochara; e, quanto mais ele lhe fugia, mais teimosamente ela o procurava. Então, o seu egoísmo inspirou-lhe uma ação na verdade abominável. A mulher que com tanta constância o amava tinha uma amiga íntima. Andavam sempre juntas, eram inseparáveis, não guardavam segredos e reservas uma para a outra... Para humilhar mais sangrentamente a criatura que, com ânsia, lhe estendia os braços, principiou a cortejar a outra e com tanta insistência, tanta hipocrisia, tanto poder de sedução, que conseguiu fazer-se amado com intensidade.

— E ela ainda insistiu?

— Não! Há vilezas a que uma mulher nunca desce, por altivez, por dignidade, por elevação moral. Rompeu com a amiga, sem ruído, sem escândalo, refugiou-se com a dor que a consumia numa tristeza que o seu sonho malogrado alimentou, pediu às lágrimas um desafogo. A afronta, porém, tornou-a rancorosa.

— Aí está! — exclamou Duarte, triunfante. Eis a prova da veracidade das minhas palavras...

— Recalcando o amor no fundo do seu ser, meditou, então, na maneira de vingar-se com uma crueldade igual ao vexame sofrido. Esta ambição transmudou-se na esperança única da sua existência. Mas, como satisfazê-la?...

Os anos foram deslizando uns atrás dos outros e ela, abrasada pelo fogo do ódio interior, mirrava no seu infortúnio. Tinha, no entanto, um irmão que era banqueiro e que, conhecedor desse infortúnio e das razões que o motivaram, esperava o instante de desafrontar a traída. O homem que causara a desventura da irmã levava uma vida de jogo, de crápula, de dissipações. Para obter dinheiro quando acabou de atirar ao vento a fortuna legítima, não recuaria diante das maiores indignidades... Ora, um dia, ao jantar, o banqueiro entrou em casa com uma alegria estranha fuzilando nos olhos e, tendo beijado a irmã, exclamou:

— Há uma providência que sempre pune os que prevaricam.

Ela mirava-o, surpreendida e inquieta.

— Por que falas assim? — preguntou.

— Porque tenho aqui, na minha carteira, uma letra falsificada pelo homem que zombou de ti. É a tua vingança. Hoje mesmo darei parte à polícia e ele será preso como ladrão — e ficará desonrado para sempre...

— Dá-me essa letra! — implorou ela, empalidecendo.

— Não! Nada de comiserações para quem as não teve contigo.

— Dá-me essa letra! — insistiu ela com os olhos rasos de lágrimas. É a minha vingança, segundo afirmaste. Pertence-me...

O irmão passou-lhe o fatídico pedaço de papel, que ela rasgou nervosamente, murmurando:

— Não perderás o teu dinheiro. Eu vendo as minhas joias e pagarei tudo. Mas com uma condição: — é que ninguém — nem ele — saberá
quem o salvou.

E, como o irmão a contemplasse, espantado, acrescentou:

— Não quero que o homem que mereceu o meu amor tão puro seja arrastado pelas cadeias ou tenha de corar por esta falta, quando passar por mim. Eis como me vingo!...

Basílio terminou a narrativa bizarra, atirou o charuto para o chão, ergueu-se do banco em que estava sentado. O crepúsculo, religioso e
sugestivo, baixava.

— Hão de vocês pensar que tudo isto não passa duma banal invenção. Pois garanto-lhes sob palavra de honra que é verdadeiro o que acabo de contar-lhes. Meus amigos, as mulheres que sabem amar profundamente são incapazes de odiar. Admiremo-las...



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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