sexta-feira, 14 de junho de 2019

Virgínia (Conto), de João José de Souza e Silva Rio



Virgínia
Maldito o seu furor, porque obstinado,
e maldita a sua ira, porque inflexível.

Gênesis

Prostrada ante uma imagem da Virgem, banhada em pranto o rosto, soltos os cabelos, e a mais viva aflição pintada no semblante, orava Virgínia, a inconsolável Virgínia, esperando a cada momento a infausta notícia da morte de seu amante, que nas trincheiras barateava a vida pela pátria, pelejava contra holandeses, defendendo a cidade de São Salvador.

Em vão buscava a mãe tranquilizá-la; em vão; as palavras da velha não podiam levar a seu dilacerado coração a consoladora esperança, que perdida a tinha ela; mas, e ainda mal, mais e mais aumentavam-lhe a dor, mais e mais tornavam insuportáveis os seus sofrimentos.

Ah! Que ela, moça e tão linda, tinha visto partir do Recôncavo da Baía o seu querido Eugênio, na véspera desse dia em que lhe devia dar a mão de esposo, e firmar ante o altar os seus protestos de amores, em uma tarde do mês de maio.

Tão depressa ouvira o jovem brasileiro dizer que poderosa armada holandesa sulcava os mares da Baía, que esqueceu seus amores, seus dias venturosos e risonhos que seriam passados junto de uma consorte cheia de encantos e virtudes; esqueceu para se lembrar do eminente perigo que corria a pátria; e lá se partiu rapidamente a ter seu quinhão de gloria na defesa da capital do Brasil, ameaçada por inimigo poderoso.

Numeroso exército de veteranos afeitos à peleja, que haviam afrontado a morte em muitas batalhas, e a cuja frente marchava o intrépido Mauricio de Nassau, apresenta-se ante as muralhas da cidade; mas ali estão outros soldados não menos valentes que lhe disputam o terreno. Embalde milhares de pelouros, açoutando os ares, derramam a morte nas fileiras dos defensores de São Salvador; embalde os contrários redobram de intrepidez e valor; Bagnuolo e o valente Pedro da Silva conseguem repelir os invasores.

Irritado Nassau por uma resistência que não esperava encontrar, reúne todas as forças de que pode dispor, ataca de novo as trincheiras, apodera-se do fosso e busca vingar a afronta feita às suas armas. Chuva de metralha, nuvem de balas ardentes, que sibilam o hino da morte, lá rompem pelos ares, lá caem sobre brasileiros e portugueses. Mas que importa? Não desanimam os sitiados, que lançam e arremessão de cima das trincheiras sobre o inimigo enormes e pesadas pedras, robustas e fortes vigas, e panelas inflamadas; correm a reforçá-los o bravo Barbalho, o valoroso Henrique Dias, e o invencível D. Antônio Felipe Camarão.

A batalha tornara-se geral.

Não pôs a noite termo ao furor dos lidadores e o horror das trevas veio realçar o horror do conflito; já tomam os sitiados a ofensiva, investem o inimigo com arremesso terrível; atacam pelos flancos, pela retaguarda; envolvem, derribam, matão quantos resistem... Mas pouco e pouco começa de enfraquecer o retinir das espadas, o trovejar das bombardas, o bradar dos guerreiros... e pouco depois nada mais se ouvia, que o gemer e o arquejar dos moribundos, como o gemer e o arquejar do oceano após a tempestade!...

O inimigo tinha desaparecido.

Surgiu o sol no seguinte dia, e seus raios brilhantes vieram esclarecer esta cena de desolação. Centenares de mortos, de feridos, de estropeados entulhavam o campo, cobriam o campo da peleja; e cem prisioneiros eram conduzidos, como troféus da vitória, à cidade de São Salvador.

Quarenta dias se passaram desde o terrível combate, quando uma esquadra numerosa deu à vela, deixando após si as águas da Baía; levava Nassau a bordo de seus navios para mais, que não para menos, de seiscentos feridos, e lamentava a perda de três mil de seus esforçados guerreiros.

Jurou ele porém pela sua espada vingar-se do brioso povo que com tento valor defendera o seu território.

Pequenas embarcações, carregadas de soldados, exploraram o Recôncavo, levaram a todos os lugares, ainda os mais remotos, o incêndio, o saque e a morte. Fugiam tímidas as donzelas diante da ferocidade brutal desses terríveis inimigos, e com elas os inocentes meninos e os inermes velhos; e por toda a parte faziam os fugitivos ouvir o seu grito sinistro:

— Nassau! Nassau!...

Pequenas cabanas foram entregues às chamas, seus moradores varados pelas espadas; a nada se respeitou; sexos e idades, tudo padeceu a mesma sorte, que tudo se confundiu.

Tal a desolação que se originou da odiosa vingança dos holandeses!

E dois meses decorreram depois do triunfo brasileiro; e como visse Eugênio que nenhum novo perigo ameaçava a cidade, pediu licença para acolher-se a seus lares, onde o amor e o zelo de suas propriedades de há muito tempo o chamavam.

Consegue-a; volta ao Recôncavo. Ah! Que cena de lastima para os seus olhos! Convulsivo temor lhe agita os membros, e o coração se lhe aperta de dor! Por toda a parte os vestígios da mão do inimigo cobarde e vingativo... por toda a parte a desolação, sangue, ruína e morte!...

Em vão, porém, procura ele pela sua choupana; olhos erradios nada mais encontrão que destroços... Lá cinzes dispersas lhe indicam o lugar que ocupava no abaulado da montanha a habitação de sua amada... e mais adiante uma pedra e uma tosca cruz!...

Quem será que ali repousa?

Aproxima-se... crava nela os olhos... que dor para o coração de um amante! Sobre o braço da cruz havia uma inscrição, e essa inscrição era o nome dela... O infeliz estava contemplando a sepultura de sua querida Virgínia.

Que despertar tão duro!

Quantos sonhos de felicidade não se desvanecerão em um momento! Quantas sonhadas doçuras não se trocaram em amarguras! Era um sorriso irônico do infortúnio que o atraiçoara!

No dia seguinte vagava pelo Recôncavo um jovem que tinha perdido a razão; sempre taciturno, sempre triste; pálido como o semblante da desgraça; com os cabelos desgrenhados, como as palmas dos coqueiros açoutadas do tufão; caminhava ao acaso, como uma avezinha ferida pelo raio do caçador; e se por ventura desprendia os lábios, era para bradar frenética e dolorosamente:

— Nassau! Nassau!

E tornava a cair no seu abatimento e taciturnidade.

Encontraram-no uma manhã sentado sobre uma das pedras lançadas em torno da tosca cruz da sepultura de Virgínia; tinha a cabeça encostada ao tronco anoso de árvore copada; a esquerda mão de encontro ao peito, apertava um anel de louro cabelo; a direita segurava numa vara com que tinha traçado na areia:

Nassau!

Ah! Já não era ele que não mais sofria. Era o seu cadáver frio e gelado de morte que ali estava.

Sua alma tinha ido reunir-se à de Virgínia.



Jornal das Famílias, 7 de abril de 1869.

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