segunda-feira, 1 de julho de 2019

Clara (Conto), de Henrique de Vasconcelos



Clara
(A Júlio de Sousa)

Friorenta, encolhida no fundo do coupé, tudo era indeciso na figurinha que passou rapidamente, na tarde a escurecer.
Nascia da penumbra, sem precisão nos contornos, como certos retratos de Columbano e de Hener. E entre o chapéu preto e a face branca, o cabelo louro punha uma esmaecida aureola como uma tênue poeira de âmbar. A boa, de renard bleu, ainda aumentava o indeciso, o flutuante dessa mulher; os olhos claros não brilhavam; o vermelho da boca desmaiava... Figurinha de cera e de seda, que passava, olhando para a rua sem atentar talvez em ninguém, levando o nosso desejo de decifrar enigmas, indiferente, graciosa, impressionou-me... Ao amigo que me acompanhava recorri para saber dela. Quando me voltei para perguntar, vi que Roberto se pusera pálido; parecia que à boca se lhe afivelara uma boqueira de pedra, mascara trágica a emudecer.
Seguiu com os olhos a carruagem que trotava pela Avenida até se perder entre as árvores em Vale de Pereiro.
— Quem é? gaguejou. Alguma aventureira cosmopolita que veio faire le Portugal. Um pastel de Antônio de la Gandara, maquilada como uma infanta de Velásquez, mais artificial que uma boneca de Nuremberg, sem vício, talvez, amante enternecida de algum croupier de Cercle ordinário... Sei lá!... encolheu, impaciente, os ombros, a concluir.
Houve um silêncio. Raras carruagens passavam. Estava triste a Avenida. Descemos. Abriam, simultaneamente, as grandes flores geladas e luminosas das lâmpadas elétricas. Rápidos, fulgiam os americanos. Outra vez a mulher passou, mais indeciso o vulto, apenas distinto o palor da face branca no coupé escuro.
— Por que teria vindo cá, essa mulher? perguntou Roberto, colérico.
— Conhecê-la?
— Se a conheço?! Tenho querido arrancá-la de mim, como se arranca de um boi uma farpa — violentamente. Tenho querido fugir de mim, para a esquecer! E quando estou quase a consegui-lo, quando a tortura da sua lembrança é em mim apenas uma cicatriz, ei-la que aparece a reavivar a chaga antiga, a torná-la mais dolorosa! Clara veio aqui só por minha causa, ouves? Para fazer-me sofrer!0
Agarrava-se-me ao braço, a apertá-lo violentamente. Na boca acentuava-se-lhe, áspero, o vinco da amargura.
— Foi esta mulher que me fez fugir de tudo, perder o amor a tudo, desterrar-me para esta passividade, eu que amava a vida dolorosamente, gozando com tudo, intensamente!
"Conhecia-a em Espanha! Num inverno úmido deixei Lisboa e acolhi-me a Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gozei pelas margens do Guadalquivir azul! Andava ébrio de tanta luz que enchia de ouro e de triunfo a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me com os trigais e com as flores. Ia ao parque ver o sol fulgir nas caudas abertas dos pavões orgulhosos; descia ao cais para ver brilhar na água incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a barulheira dos carregadores, o chiar áspero dos guindastes, o estridulo das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade maravilhosa mesmo à noite, as lâmpadas incendiavam a Sierpee brilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janelas dos cassinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham chapadas de luz. Misturava-me a toda aquela vida insolente, ria com todos os risos, todos os lábios frescos me chamavam, rodeavam-me todas as cabeleiras fartas, cheias de flores. O donaire das andaluzas de olhar de volúpia fazia-me achar mais bela a Vida. Era como um poema a enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma.
Comprei o sineiro da Catedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu sangue que pulsava por mim nas suas artérias; aquela resplandecência, brilho de joias com que cobria a nudez. Os transvias iluminados, cortando em mil direções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para além se acender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos amorosos. Ela, embaixo, abria os seus braços, entregava todo o seu corpo, a morena Sevilha, ofegante e lasciva!
"Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardíaca, o sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci Clara. Ela passava pela Sierpes, junto ao Credit, enigmática, como a viste. A elegância do seu porte, última florescência da moda francesa, quase imaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ela e lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a glória de viver ao sol nos campos fecundos. Regressei à hipercivilização; segui-a e alegre entrei, atrás dela, para o seu e meu hotel.
"Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vê-la um dia no salão da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para fumar. Apesar da resposta seca, insisti e entabulamos conhecimento.
"Doces foram para mim os dias, em que visitamos Sevilha. A casa de Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o pátio claro de mármores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante das Assumpções do Murilo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto, contei-lhe o poema do meu desejo; na Caridad, a mostrar-lhe a estatua de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a ver Sevilha dourada, deitada na planície que ondulava, até perder-se no horizonte circular, ofereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida. Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de comoção: muitas vezes a boca se apertou para a florescência dos beijos e seus olhos verdes se encheram de luz; mas rápido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes.
O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcáçar, à porta dos banhos de Maria Padilha, passou por mim o corpo delgado, ágil, pela cara roçou o cabelo que tinha um perfume penetrante; falou-me do seu corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para mostrar o tornozelo fino e a meia ajourée, que deixou ver a pele branquíssima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as folhas murchas que o vento sacode dos ramos secos.
Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque saíam de um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, caíam da boca vagarosamente. Às vezes os cílios de ouro abatiam-se sobre os olhos, como num espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca!
Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava da glória da natureza; das apoteoses do sol sobre as águas azuis do rio. Só pensava nela, só vivia dela.
Um dia, porém, eu soube! Alguém, com palavras que julgou caridosas, veio por no meu coração as sete espadas! A criaturinha delicada e deliciosa, princesa de balada de hoje, urna de perfume, a quem me entregava como um colegial, era uma aventureira das que frequentam a Riviera no inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha viera atrás de um clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de gargalhadas... Ao seu mórbido encanto me prendera, e atrás dela me fui a soluçar, flor de lameiro em que pus todo o perfume suave... Fora nas mãos dela um saxe frágil como que se brinca!
Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puseram mãos assassinas a estrangular-me! Num ímpeto, como uma aura que se nos levanta do peito e nos atira para o ataque epiléptico, decidi-me. Levei-a num trem para o campo, para além da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E ali, desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas — parecia, nua entre os trigais verdes, uma magnólia enorme! — e o seu corpo cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lágrimas empastavam a maquiagem; via-a sórdida, enrolando-se para escapar às chicotadas, e fugi, ébrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado que me meteu no trem e me levou a Sevilha.
— Señorito, la navaja era mejor, aconselhou-me.
Parti. Nunca mais soube dela. Trouxe-a dentro de mim como um espinho. A dor que lhe causei aumentou a minha pena. De ter visto o corpo magro e branco, ficou-me a ânsia de o beijar. Andei de noite, pelas ruas, a correr sem forças para fugir de mim e dela, porque a figura surgia diante dos meus olhos, bela de toda a perversidade e de toda a lascívia, como uma invencível tentação, a que o maior santo sucumbe.
Às vezes conseguia distrair-me; de repente ela surgia, sentava-se na minha frente, mostrava os vergões das chicotadas, todo o corpo impudico perfumava e brilhava, e a boca sorria a escarnecer de mim!
Foi algum filtro que me deu.
Ia a esquecê-la e ei-la que novamente me aparece, a prender-me, a levar-me, outra vez para a alucinação, a atiçar o incêndio que me queimava!
Talvez queira vingar-se! 
Não. Não queria vingar-se. Clara veio a Lisboa, soube-o mais tarde, atrás de um comprimário de São Carlos, seu amant de coeur.

---
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...