segunda-feira, 1 de julho de 2019

Idílio triste (Conto), de Henrique de Vasconcelos



Idílio triste
(A Eduardo Valério Villaça)

No jardim, a tarde de ouro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas hastes. E, por toda a parte, entremeando-se com os buxos, enroscando-se a uma macieira em flor, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes, uma opulenta floração de rosas de toda a cor, rosas de ouro pálido, rosas róseas, rosas vermelhas a estremecer, como lábios de que vão cair os beijos, rosas escuras, enormes, sensuais e dolorosas, umas ainda em botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas, sem enigma, como as amantes antigas — todas elas misturavam o seu perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e depois partiam em voos curvos, as asas brancas a brilhar ao sol.
Os dois amantes iam calados, ele a olhá-la intensamente, como a querer apreendê-la, como se os olhos fossem bocas e pudessem beijar, braços e conseguissem abraçar — ela um pouco aborrecida, a desfazer entre os dedos longos uma orquídea azul listrada de vergões esverdinhados.
— Pensei em ti sempre, dizia ele. No Prado, diante dos tapetes de Goia, disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão à fonte, as bilhas esguias à cabeça, como as princesas de Homero, não tinham a tua elegância... Às infantas de Velásquez, artificiais, cadáveres de bonecas, em que apenas os olhos atônitos têm vida, faltava a tua beleza. As santas hirtas de Memling não tinham na boca a primavera que ruboresce os teus lábios... Só na curva do braço de Danai, de Ticiano, pude ver uma atitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua imagem, como um cânon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de Rubens, as cigarreiras sensuais e extáticas de Murilo, as enérgicas mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes de ti, delas fugia o meu olhar. Em Rafael havia alguma coisa da tua doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distinção, mas severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quase irreal por seres tão bela, indecifrável, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jucondo? Que segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente, como a água que vai num ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a parte. Levei-te sempre comigo! Talvez o Moro te tivesse pintado...
— Viste bem o museu...
— Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi fugir, num automóvel ligeiro, uma mulher, que se parecia contigo... Era um carro vermelho... Por toda a parte tive a hantise dos automóveis vermelhos. No Retiro e na Castelana, o meu olhar perscrutava, revolvia todos os automóveis, todas as carruagens, a ver se te encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava à tua espera, embora te soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei ver o teu retrato, nalgum quadro antigo. E pus, em muitos, o reflexo da tua beleza, porque numa atitude, num olhar, havia alguma coisa de ti...
— O governo espanhol agradeceu-te a valorização dos quadros?
— Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se num riso, é uma flor de nácar e prata... — A princípio, procurei-te... Depois, como a tortura fosse muita, quis fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor e resplandece. Deixaras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doura a planície e as palmeiras de São Fernando. Levanta cintilações do calado Guadalquivir azul e da cúpula inflamada da Torre del Oro. Enche de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lágrimas. Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquila, escalda. Entre os cravos que guarnecem as grades das janelas, as mulheres olham os seus namorados com um olhar de assalto. Há uma voluptuosidade suspensa no ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Há uma embriaguez de cor. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A Sierpes, à noite, palpita com todo o anseio de tumultuosa cidade... Nos pátios, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilha, pensei no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado...
— Acredita que não foi por minha culpa...
— Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-ma, a envenenar-me de longe... A beladona é doce e envenena... Muito mel embriaga... Tão real a sentia, que, à noite, olhos fechados, queria abraçar-te, e tinha a desilusão de Pan, quando perseguiu a ninfa Seringe... Como quem corre atrás do sol e se encontra encerrado num beco. Nunca mais me escreveste!
Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...
— Depois de uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa do viço. É necessário podar o coração...
— Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...
— Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que a cultura intensiva do Eu tornava impossível um amor sem esperanças... Filósofos!...
— Amar-te, não é para mim uma função: é a própria essência do meu ser. Julgo às vezes que não existes, material e tangível, que existes mais real: nasceste e vives no meu cérebro, tanto se casa a tua figura ao meu sonho de beleza. Pintor, se idealizasse uma mulher, o meu quadro pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu mistério seduz-me, alma que se guarda, ávidamente, sem que ninguém a adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterrâneo sossegado, estudei a onda, sem conseguir conhecê-la. As ondas são graciosas, as suas curvas têm ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva fresca. E desfazem-se em flocos de espuma, quebram-se umas contra as outras com fragilidade de cristais, são leves como leques, e no entanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca asa de abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As mutações rápidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu sem se saber por que...
Nem sequer recrimino. "Não me esqueço", prometeste. E as tuas palavras que guardei, como guardaria uma estrela, ainda cantam nos meus ouvidos. E há tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do passado, como as velhinhas, que foram atrizes, e no asilo se lembram das aclamações quando faziam papeis de rainhas suntuosas com luzidas cortes a segui-las e galãs esbeltos a segredar frases de amor...
Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo não chove..."
Ela cortara e desfolhara as margaridas de uma moita viridente. O sol ia a morrer, numa catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em sangue. Numa fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se na água do tanque.
O amante chorava...

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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