domingo, 21 de julho de 2019

Dois improvisos de Eça de Queirós (Ensaio)




Dois improvisos de Eça de Queirós

De que em Eça de Queirós houvesse o dom da poesia, no sentido artístico do vocábulo, só poderão duvidar os insensíveis, rebeldes ao encanto da sua prosa, que em certos trechos de A Relíquia, e sobretudo nesse extraordinário cântico do nascimento de S. Frei Gil, deixa de ser primor escrito, para se tornar, pelo perfume, pelo sabor e pelo aveludado, a flor pulquérrima duma cantante roseira de luz e de mel.

São um “suave milagre” do estilo estas páginas derradeiras. Nunca me dou ao dever de as reler, sem recordar, levado da simpatia do joalheiro pelos feitos da santidade, um milagre viçoso do hagiológio, dantes conseguido anualmente, numa ermida montesina, por São Luís de Tolosa.

Seja o Padre Manoel Conciência a reportá-lo na sua Academia Universal, que não a minha pena descrente de moderno! “De tempo imemoriável a esta parte em todos os dias da sua mesma festa, quando se canta a Missa principal, e na presença da muita gente que ali concorre, começam a florescer as pedras das paredes, os secos madeiros do teto, os ladrilhos do chão, e até a fechadura, e ferrolho da mesma Ermida, coalhando-se tudo de umas florezinhas brancas, as quais por serem milagrosas como Relíquias de muita devoção, e estima, levam os que as podem colher”.

Igualmente, das carunchosas traves e dos emperrados ferrolhos da língua, escravizada ao lugar-comum, fez o nosso elegante São José Maria, renovando-lhe os modelos, brotar uma fecunda primavera. Que lhe atire a segunda pedra — a primeira trazia gravado o grande nome de Fialho— aquele dos escritores de Portugal ou do Brasil que não tenha ido buscar à obra dele alguma maneira de ver ou de dizer as coisas!

Poeta também na acepção formal, são do autor da chácara de Santa Ireneia, de A Ilustre Casa de Ramires, algumas produções metrificadas, como a Serenata de Satã às estreitas, rica de imagens novas:

Mas vós, estreitas, sois o musgo velho
Das paredes do Céu desabitado.

Julgo ser de Eça de Queirós a versão da Bailada do Rei de Thule que figura no Mistério da Estrada de Sintra:

Houve outrora um rei de Thule
A quem, em doce legado.
Deixou a amante ao morrer
Um copo d'ouro lavrado.

Lendo-as em separado, ninguém atribuiria ao novelista de Os Maias a paternidade das seguintes quadras, tirantes a populares:

Queria ter uma camisa
Dum tecido bem fiado,
Feito de todos os ais
Que o teu peito já tem dado.

Quem depena um rouxinol
E rasga uma triste flor,
Mostra que dentro do peito
Só tem farrapos d'amor.

Quando estudante em Coimbra, o futuro ironista de O Mandarim gostava de poetar improvisadamente sobre os mais disparatados assuntos. Ao iniciar em Lisboa a sua carreira literária, não perdeu o costume, com o qual talvez pretendesse apenas exercitar, em funambulescas acrobacias, a sua opulenta fantasia verbal.

Jaime Batalha Reis, que na Introdução das Prosas Bárbaras alude à mania versificante do seu dileto camarada, declarou-me possuir, entre os seus numerosos papeis, alguma versalhada da autoria de Fradique Mendes: pseudônimo não exclusivo de Eça de Queirós, mas que ele usou para a sua estreia na Revolução de Setembro. Felicidade seria que, no farto arquivo da Quinta da Viscondessa, existisse cópia de A Tentação de São Jerônimo, poemeto inédito, que, a outro contemporâneo do harmonioso hagiógrafo do São Cristóvão, mereceu a classificação de “tragédia cor de sangue-de-boi”.

Por os considerar interessantes, quero dar notícia de dois improvisos de Eça de Queirós; preciosos documentos, cujo conhecimento devo à muita amabilidade da família Mayer, por intermédio do meu bondoso amigo Dr. Ruy Ennes UIrich.

Ambas as composições são de Paris, e dirigidas a Carlos Mayer, como é sabido, o mais calvo e espirituoso dos “vencidos da vida”.

Consta a primeira, escrita em papel timbrado com os dizeres: Grand Hotel - Boulevard des Capuccines, 12, Paris, de quatro oitavas em português, encimadas pela data de 3 Avril 1896 e pelo vocativo — Mayer!

Eça fora procurar o amigo. Não o tendo encontrado, increpava-o pela ausência, nesta bem humorada maneira:

Saíste? Por quê? Decerto,
P'rá papança no Paillard,
Ou luxos no Boulevard,
Ou ganância em Moçambique!...
Só para contentar a carne,
P'ra crescer nos bens do mundo,
P'ra sulcar o mar profundo
Onde a alma vai a pique!

Nas outras três estrofes, refere-se Eça a Mounet-Sully, a Jules Claretie, aos seus propósitos de regenerar o amigo e ao seu desgosto por o reconhecer incorrigível, terminando por se despedir dele com esta profissão de fé bibliofilística:

Que em quanto o Demo te assa
Nesse báratro onde cães
Eu cá vou direito ao Cães
Ao nobre e puro alfarrábio!

Escrita em francês, a segunda composição não tem data. Está assinada, ironicamente, por Jozé-Maria (De l’Academie Portugaise), e intitula-se Simples Questions, sendo endereçada A Mr. Le Dr. Charles Mayer.

Eis os primeiros versos:

Voilà bien trois longs jours que je crie, sur mon aire,
Regardant vers la Ville: — “Oú, donc, est ce Mayer?”

Depuis le doux soir à la Maison Dorée,
Quand, nourrie de morue et parfumée de pêche,
Ta verve s'envola dans des ors de fusée,
Racontant la Patrie, sa grandeur et sa dèche,

Depuis ce doux soir, aux douceurs par trop brèves,
Qu'as tu fait, oh! mon Charles, en ce vaste Paris
Où, parmi les Brissons, les complots et les grèves,
Tourbillonent les Jeux, les Graces et les Ris?

Couvert de ton Rapport comme d'une bannière,
Et tenant ton crayon comme on tient une pique,
Harangues-tu toujours, de façon très altière,
Ces messieurs assemblés pour sauver Mozambique?

Seguem-se cinco quadras com alusões a financeiros e suas manobras, e vem logo esta, cujo último verso é engraçado:

Peut-être, chez Paillard, et de blanc cravatê,
Oubliant la Beirá et la baie de Thongá,
Tu verses, oncle joyeux, de l’esprit et da thé
Au Comte de Olivaes e de Penha-Longá!...

Nas três quadras restantes, deplora Eça o não saber que é feito do amigo querido, nem mesmo se ainda vive, ou se algum deus, seduzido pela calva famosa:

Descendit doucement, déguisé sous des voiles,
Et t’enleva, Mayer, pour mêler dans la nuit,
La blancheur de ton crâne aux clartés des étoiles!

Para um tão lento e escrupuloso estilista, é muito curiosa a espontaneidade desses dois improvisos, um deles em língua estranha, e ambos repassados da penetrante ironia que foi o aspecto primordial da bondade de Eça.

Não conheci, por meu mal, o prosador notável. Estou certo, porém, que ele, sem querer, pensava em si ao tracejar Um gênio que era um santo para o In Memoriam de Antero de Quental. Pela confissão unânime dos seus mais íntimos, Eça também possuiu “uma alma, onde, na meiga e intraduzível expressão de França — Il faisait très-bon”.

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MANOEL DE SOUSA PINTO
"Eça de Queiroz: In Memoriam" (1922)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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