segunda-feira, 1 de julho de 2019

Duas épocas e dois monumentos ou a Granja Real de Mafra (Ensaio), de Alexandre Herculano


Duas épocas e dois monumentos ou a Granja Real de Mafra
Houve entre nós um rei nascido com uma índole generosa e magnífica: foi D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu ânimo. Durante o reinado deste príncipe as entranhas da América pareciam converter-se em ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o tesouro português, e o nosso primeiro rei do século XVIII pode emular Luís XIV em fasto e magnificência. Há, porém, diferenças entre os dois monarcas: Luís XIV, mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus súditos em conquistas estéreis; D. João V, mais pacífico que tímido, comprou sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturais. Luís XIV levou a altíssimo grau de esplendor as letras e as ciências: D. João V tentou-o; mas ficou muito aquém do príncipe francês. Devemos todavia lembrar-nos de que Luís XIV era senhor de uma vasta monarquia, e D. João V rei de uma nação pequena. Uma literatura extensa e ao mesmo tempo vigorosa só aparece onde há muitos homens. É como a grande cultura, que só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.
D. João V teve como Luís XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com o caráter, não tanto religioso como beato e hipócrita, do seu país naquela época. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o palácio. As duas entidades arquitetônicas compenetram-se aí dum modo inextricável. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com púrpura, e o cetro do rei enlaça-se com a corda de esparto, ao passo que a alpargata franciscana ousa pisar os degraus do trono. Os que sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do século passado, e quão esplêndido e ostentoso foi o culto divino; quão brilhante foi a corte portuguesa nesse tempo, e por quão frouxas mãos andou o leme do estado, não precisam ver Mafra. Mafra é a imagem de tudo isso.
Um grande edifício, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe quisesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de história. Os que nele buscam só um tipo por onde aferir o progresso ou decadência das artes na época da sua edificação, leem apenas um capítulo desse livro. Os castelos, os templos, e os palácios, tríplice gênero de monumentos que encerra em si toda a arquitetura da Europa moderna, formam uma crônica imensa, em que há mais história que nos escritos dos historiadores. Os arquitetos não suspeitavam que viria tempo em que os homens soubessem decifrar nas moles de pedras afeiçoadas e acumaladas a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas inspirações, que eram determinadas pelo viver e crer e sentir da geração que passava. Eles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro de pedra, também como nos daqueles, se podia mentir à posteridade. Por motivo tal foi a arquitetura sincera.
Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como os de Lúculo: é o toucador de uma Laís ou Frine assentado dentro do templo do Deus dos cristãos, e sob outro aspecto, é a beataria duma velha tonta, afetando a linguagem da fé ardente e profunda de Origines ou de Tertuliano.
Sem contestação, Mafra é uma bagatela maravilhosa, o dixe de um rei liberal, abastado e magnífico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal na primeira metade do século XVIII.
Colocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender quanto é clara e precisa a linguagem destas crônicas, lidas de poucos, em que as gerações escrevem misteriosamente a história do seu viver. A Batalha é grave como o vulto homérico de D. João I, Poética e altiva como os cavaleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquila, santa como D. Filipa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota, deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração enérgica, moral, crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma sensaboria de mármore. Ambas, ecos perenes que repercutem nos séculos que vão passando a expressão complexa, e todavia clara e exata, de duas épocas históricas do mesmo povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice caquética.
O caráter de um monumento do tempo presente não pode ser por certo um edifício gigante, um templo, ou um palácio. Onde as crenças religiosas vacilam como a luz que se apaga, o templo seria uma página de história fabulosa: onde a pobreza extrema substitui a riqueza, um tanto estúpida e fastosa com mau gosto, o palácio esplêndido seria um capítulo anacrônico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum desses gêneros de memoradum se acharia representado o atual existir.
Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si própria; porque se revolve no lodaçal onde dormia tranquila; porque, se irrita da sua decadência, e já não sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho não desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paixões pequenas e más que combatem na arena política, deixai flutuar à luz do sol na superfície da sociedade esses corações cancerosos que aí vedes; deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superfície. O sargaço imundo, a escuma fétida e turva hão de desaparecer. Um dia o oceano popular será grandioso, puro e sereno como saiu das mãos de Deus. A tempestade é a precursora da bonança. O lago asfaltite, o Mar-Morto, esse é que não tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas vezes colérico, muitas mais mentecapto e ridículo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do último ocidente era o cemitério de uma nação cadáver. Vivemos: e ainda que semelhante viver seja o delírio febril de moribundo, esta situação violenta, aos olhos dos que sabem ver, é uma crise de salvação, posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome português não foi riscado do livro dos eternos destinos.
Um dos sinais evidentes da restauração social do país, e ao mesmo tempo o caráter mais notável que distingue esta época é o seu movimento industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira entre as diferentes indústrias é a agricultura, e a agricultura tem incontestavelmente sido o nosso principal progresso.
Qual será portanto o monumento que melhor resuma este período de regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundância substituída à escassez na morada do homem laborioso. Arroteai algumas jeiras de terra: em um marco esculpi a data dessa transformação: cobri a superfície de Portugal destes marcos. Eis aí, não um, porém mil monumentos que significarão o espírito do presente.
Plantai o bosque na serrania escalvada: que ele braceje virente para o céu, e enrede as suas raízes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento, a selva com o seu rugir irá contando a cada século que nascer as tendências laboriosas do nosso, que já começam a aparecer. Os cimos das montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações virgens. Santificai a vossa religião de patriotismo pelo culto universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um hino ao Ancião dos Dias: que este hino nos consagre a memória ao amor e gratidão de nossos filhos!
Ao lado dos paços monásticos de Mafra, monumento de uma era de vans grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruído o monumento modesto, mas eloquente e santo, da ideia progressiva da atualidade. Ao lado dessas pedras amontoadas, desses torreões gigantes, maciços, e pesadamente estúpidos, serpeiam já os prados virentes por veigas e vales, cobertos ainda há pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de muralhas caiadas da ocre, que amareleja bestialmente, como um cordão de ouropel enfiado em diamantes, por entre a cor severa dos mármores tisnados pelo tempo, veem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que coroam as alturas ao norte e oriente daquele edifício monstruoso, hibrido, e extravagante como uma composição pseudopoética da Fênix Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas e encostas, várias na cor segundo a altura das cearas, ou conforme a qualidade do solo, nos sítios onde ainda as sementeiras não surgem no começo do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem repartido ao acaso num tabuleiro irregular e imenso.
A vontade real fez aparecer o edifício: outras Vontades Reais fizeram nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a segunda inteligência e amor do país. O cetro foi robusto e potente quando amontoou aquela penedia lavrada e esculpida: o cetro é o símbolo da paz e da beneficência quando em vez de converter pão em pedras, converte gandra bravia e estéril em um nobre exemplo que mostre ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da indústria e o amor do trabalho.
Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos anos os milhões que de contínuo nos entregava a América: o lidar acumulado de cinquenta mil homens consumiu-se em desbastar e polir essas pedras hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa; mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia tal preço era o menos! As maldições submissas dos que foram arrastados de todos os ângulos da monarquia, para esta grande anuduva nacional, e as lágrimas das suas Famílias, não as pode sufocar a adulação cortesã; transudaram até nós nas páginas da história, e caindo sobre o ataúde dourado do príncipe que as fez verter, deixaram a inscrição do seu nome manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.
A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo edifício não custou uma só mealha dos dinheiros públicos; não arrancou uma lágrima. Não são maldições o seu fruto: são bênçãos dos que vivem: serão no futuro bênçãos da posteridade.
O convento-palácio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua juventude e habituado a pompas de longos anos, aí está, ilustre mendigo, assentado hoje num como ermo, onde a vida robusta de séculos que lhe fadara o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez. Inutilmente com a sua grande voz de bronze ele pede que o abriguem das injúrias das estações. As águas do céu, filtrando-lhe por entre os membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento redemoinha através das suas janelas mal seguras, e bramindo naquelas solidões do seu recinto, atira ao rosto das estátuas, aos acantos dos capiteis, à face polida das paredes de mármore, o pó que tomou nas asas passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguém escuta o gemer do gigante de pedra; ninguém se lembra de tirar do pecúlio do estado a mais pequena soma para ele. E por quê? Porque a sua miséria não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as há lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira imensa?
A granja, porém, de Mafra nem teme as águas do céu, nem os raios criadores do sol: povoa os seus agros outeiros de pinhais, a cujo abrigo zombará em breve da fúria dos ventos. Não vai pedir socorros à munificência publica: útil já aos pequenos e humildes, sê-lo-á também algum dia a quem a fez nascer, útil em proveitos materiais, e, o que mais vale, em frutos de verdadeira glória.
Há quatro anos apenas, que os muros da cerca ou tapada de Mafra, estirando-se como serpe monstruosa por três léguas, através de vales e outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde raro se via alevantar uma árvore solitária, curva e pendida pelo açoutar contínuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no meio daqueles matos inúteis. Era um símbolo de barbaria ao pé de um símbolo de opulência. O edifício e o parque pareciam significar no seu conjunto — o orgulho tendo por fundamento o nada.
Há três anos ordenaram Suas Majestades se começassem a desbravar esses terrenos incultos. O atual intendente das cavalheriças reais, o Sr. A. Severino Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias ali estabelecidas, e da direção daquele arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada mais próxima do edifício destinou-se imediatamente para a cultura, e os trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as despesas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realizar o pensamento generoso, nobre, e civilizador dos nossos Príncipes, mas que ninguém por certo o seria mais que o Sr. A. Severino Alves.
O que vamos dizer não é completo; não é a história particularizada de tudo que examinamos com os próprios olhos; porque não queremos ser prolixos. O nosso intento é ver se contribuímos para o verdadeiro progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos proprietários que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam os meios de os tornar mais produtivos, se mostram surdos ao bradar da imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta mal-aventurada nação à atividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o exemplo que lhes dá o trono. Enquanto os governos e os parlamentos ponderam a conveniência, a necessidade do estabelecimento das quintas de estudo, em Mafra, sem ruído, sem verbosos relatórios e discursos, se vai estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperamos faça sentir dentro de pouco à agricultura portuguesa o seu benéfico influxo. Certos de que suas majestades se colocarão à frente do movimento agrícola do país, porque o aumento da agricultura deve trazer a prosperidade aos seus súditos, neste jornal, que se derrama por todos os ângulos de Portugal, daremos notícia das experiências que se forem fazendo, dos melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanágio da Coroa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito exatas informações. A utilidade que daí possa resultar aos agricultores, retribuam-na eles em gratidão aos Príncipes que souberam ser dignos do amor dos portugueses, e entenderam plenamente o grave e progressivo pensamento deste século.
Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar à cultura, dividiu-se aquela parte em oito grandes tratos ou folhas, cujo arroteamento se tem seguido sucessivamente e sem interrupção até hoje.
O sistema adotado para este fim foi o melhor que era possível imaginar. Além da cultura feita à custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos habitantes da vila de Mafra os terrenos que eles querem desbravar. O inteiro uso-fruto destes terrenos fica pertencendo por três anos a quem os converte de maninhos que eram em terras aráveis, e ainda que o solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa cultura tem dado excelentes resultados. A produção da batata, planta tão conveniente para terrenos arroteados de novo, há sido tal, que no ano passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas deste útil solano, cuja introdução na Europa tornou impossíveis as fomes espantosas, que de anos a anos lhe desbastavam a povoação. Nessas encostas e veigas onde, tão pouco tempo há, os olhos esmoreciam alongando-se pelos sarçais, veem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batatais, e nos rostos dos habitantes da vila e dos povoados circunvizinhos, e nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuído, os hábitos do trabalho, e por isso a abastança tem aumentado.
Mais de vinte éguas, mães e filhas, e de quarenta poldros, constituem já uma caudelaria que vai adquirindo rápido crescimento. Cinquenta vacas entre as de casta vulgar, torinas e de uma excelente raça asiática, aí são tratadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na começada caudelaria. Os estábulos e currais, ordenados pelos melhores métodos modernos, e com atenção a importantes considerações higiênicas, seriam um bom modelo para aqueles que pensam reduzir-se o tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa se bom ou mau.
Ainda que na granja de Mafra os animais sejam alimentados, por via de regra, à manjadoura, sistema hoje aconselhado nos países mais adiantados como preferível por graves motivos, nem por isso deixa de haver neste estabelecimento agrícola muitos prados pastáveis, compostos, além da azevém, de uma mistura de certo número daquelas plantas de que separadamente se compõem os artificiais. Estes, porém, merecem com razão os especiais cuidados do Sr. Severino Alves.
As plantas que constituem estes prados, tanto regados como secos, são a luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobriquis (sainfoin), a anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas destas forragens ainda se limita a diminutas experiências, mas a de outras já tem adquirido bastante extensão. Admiramos sobretudo um luzernal, onde o método da transplantação produziu magníficos resultados. Cada pé de luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, forma uma espécie de moita robusta, que produz em cada corte muito maior porção de pasto do que produziria uma superfície igual à que ocupa, semeada de luzerna que não fosse transplantada.
O incremento que estes prados podem ter naqueles, dantes tão pobres e tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é de extrema importância. Duas enormes lagoas, uma das quais é constantemente refrescada e suprida por uma pequena veia d'água perene, foram limpas e vedadas construindo-se canos subterrâneos por onde se hajam de sangrar convenientemente. Estas lagoas, colocadas em certa altura, podem regar um vale extensíssimo, ótimo para o aumento de prados.
A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bela da ciência de agricultar, tem em Mafra um terrível inimigo — o noroeste. Este vento sopra aí com violência extraordinária. Alguma árvore silvestre, que vivia solitária no meio daqueles matos rasteiros, vergada para sueste na altura das arrancas, estende raquítica os seus ramos açoutados pelas ventanias quase paralelos com a terra. Estabeleceu-se porém um sistema de abrigos, que deve dentro de alguns anos tornar não só possível, mas até fácil, a propagação de árvores de floresta e de fruto. Os pinheirinhos bravos (pinus maritima) cobrem já os cabeços escalvados que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e vales, e os castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques, quando crescidos, anularão em grande parte a violência dos ventos, e então será possível o plantio de outras árvores silvestres e frutíferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando extensos e bem ordenados viveiros.
Uma consideração que ocorre naturalmente ao imaginar semelhante extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer progressivamente aumentar. Acerca deste ponto capitalíssimo, daremos brevemente curiosas e interessantes notícias, em um artigo especial. Então teremos ocasião de falar dos diferentes métodos de amanhar as terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.
Os instrumentos aratórios e mais máquinas do serviço agrícola são construídos no mesmo estabelecimento em oficina para isso principalmente deputada. Aí se encontra a charrua inglesa, a araveça grande de uma aiveca, a pequena de duas, o semeador, as grades triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de traçar cevada, carros ingleses, etc., além dos instrumentos próprios do país construídos com perfeição.
Tal é o rápido quadro da transformação que apresenta uma parte desses maninhos inúteis da tapada de Mafra. Importante em si, semelhante transformação muito mais o tem sido pela influência que o exemplo produz naqueles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as vantagens que resultam de um sistema ilustrado de agricultar, vai abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos livros não alcançariam extirpar. Mafra está sendo um foco de luz, uma fonte de progresso agrícola. Entre os benefícios que tem produzido este é porventura o maior. Aquela vasta granja, se proporciona a muitos abastança, o alimento para o corpo, oferece a muitos mais as revelações da ciência — o alimento para o espírito.
O edifício aí está mendigo, abandonado, canceroso já, e inútil, ao lado da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada de esperanças. São dois monumentos de dois séculos diversos, ambos obras de Reis. Que a filosofia julgue um e outro, e julgue também as vontades e as inteligências que fizeram surgir um e outro.

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ALEXANDRE HERCULANO
Escrito em 1843, e publicado em: Opúsculos, 1909.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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