domingo, 30 de junho de 2019

Chiara Lilian (Conto), de Henrique de Vasconcelos




(A Vicente de Aarnoso)


Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas águas que se agitam em pequenas ondas, águas-fortes de mastros a distância, toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores! Há dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até a florescência de um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e os fardos, e as pipas, como uma delgada flor de prata...
Para além da cinta da doca, ao rês do mar, o céu toma tons brancos que se esbatem e degradam na ascensão, acentuando-se na cúpula um azul fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões para Barcelonete.
Para além da formidável estátua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos verdes dos plátanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado.
— É amanhã o vapor para Malorca, informam-me.
Volto para trás, deixando o ruído dos guindastes e das sereias, a bulha dos catraieiros e descarregadores, para entrar noutro bulício tão grande, o zumbido dos milhares de bocas que cruzam a Rambla, as campainhadas dos transvias, a buzina dos automóveis, com gritos diversos, pragas, pregões, injúrias guturais dos catalães furiosos.
Sentira desejos de ver Palma de Malorca em que me falara Teixeira Gomes, as suas igrejas caladas, os seus palácios antigos. Por ele sabia que a cidade conservara-se imóvel, típica, como no princípio do século XIX. E a sua conversa luminosa e pitoresca acirrara-me o desejo de visitar uma terra que, na convulsa marcha do século industrial, imobilizara-se nos seus antigos sonhos de pedra.
Aborrecera-me já Barcelona, comercial, trabalhadora, respirando pelas mil bocas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus teatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario; mas em toda a parte o comercio abria ruas, estendia fazendas, cruzavam-se os camions.
Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer numa agonia de ouro! As saudades que tive da paz das suas ruas bordadas de igrejas e de palácios, das catedrais suntuosas e desertas, das pequeninas paróquias, onde se descobrem ainda, através dos vandalismos, curvas de arcos românicos, flores de capitéis graciosos; de Santo Estevão e o seu claustro que a hera invadiu, do balneário, antigo claustro de convento e do Monterrey maravilhoso, da Universidade quase sem estudantes!
Aborrecia-me Barcelona, toda entre árvores, Barcelona e o soturno Monjuich com a lenda dos suplícios dos anarquistas.
Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir à Gran Via e ir ao tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas entre uma multidão compacta que espairece, ver as caras angustiosas dos operários, sempre na véspera de uma revolta, e os pobres que nos perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se oferecem, num xale roto.
Ao entrar no "Paseo de la Aduana" para esperar um transvia que me levasse ao Parque, vi passar numa carruagem, fresca, toda vestida de branco, como um ramo de goivos brancos, Chiara Lilian, a cantora italiana que meses antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeara no Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a cantar, não as operas transcendentes com que regalava os suíços e ingleses, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua boca uma voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas.
Ah! Chiara Lilian! As tardes límpidas e serenas em que vimos a paisagem doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheados das inglesas de Cook, de dentes monumentais e canotiers ridículos! E as noites frias, em que deixávamos o Kursaal e os petits chevaux e íamos, costeando o cais iluminado, num pequeno bote que o ruivo barqueiro conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia ter em si um pouco da neve do Monte Branco!
Lord Carnehan, o seu amante, acompanhava-nos. A tristeza da sua face, de todo o seu corpo cansado! Parecia ter sentido, aquele rapaz de trinta anos, todo o travo da vida, visto desfolhar-se, uma a uma, todas as ilusões, as ambições murchar, como quem assistisse ao incêndio de todos os seus haveres e dos próprios castelos no ar que a sua mente criara.
Nem alcoólico, nem eterômano, abominando a morfina e a cocaína, tomando uma leve taça de café, apenas, resignara-se na vida, "deixava-se morrer", dizia.
Andava com Chiara, porque era preciso ter uma amante, como uma ecurie, um palácio em Londres, um castelo na Escócia e uma vila na Riviera, decorada por Burne Jones.
Chiara Lilian era a sua vontade. Ia para onde ela quisesse, para fazer alguma coisa e não ficar, no hall do Metrópole Hotel, de olhos pasmados para os decotes largos das ladies, que liam jornais.
Mas nenhum amor, nem mesmo sabia, talvez, se era macia a pele da cantora. E assim viviam, ela feliz pela liberdade, risonha como um galho d'eglantines, ele, com uma razão de viver: acompanhar Chiara.
Chiara, que viu o meu cumprimento, mandou-me subir para o trem.
— Venha comigo ao parque... se não tem melhor...
— Ia justamente para lá aborrecer-me...
— Então venho a propósito...
Perguntei-lhe por lord Carnehan.
— Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um vidro negro que me punham nos olhos para eu ver a vida. Nada me parecia claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro de um poço seco. Essa criatura estragou-me alguns meses de existência. A princípio ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso desapareceu. Sempre aquele sonolento homem que só abria a boca para perguntar pelas horas, como se tivesse pressa de alguma coisa, ele que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aforismo de Schopenhauer ou de alguns dos fulminantes católicos, à maneira espanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a ver se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrair a boca; parecia-me de pedra os lábios, ao querer abri-los num sorriso. Quis mortificá-lo, fazer com que, atrás de mim, os amorosos corressem; empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei todo o artifício de mulher e de atriz. Nada. Sempre lord Carnehan indiferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me periodicamente: — Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde ia, deixava-o todo o dia; às vezes, aborrecida, nem ia à rua. Ficava no meu quarto, as lágrimas nos olhos, a ver o movimento dos bateaux-mouches a atravessar o Leman; os raros automóveis que passavam pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agências. Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que à esquerda se curva, límpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado e limpo, como um desenho do concurso. E era ali, à direita, a árvore que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarquista matara a Imperatriz Isabel. Pensava no fim trágico que ali procurara, sob um pequeno plátano viçoso, a alma aventureira e poética, a dama de todas as viagens, que vira tantos céus ensolados e tantos mares em procela... Quando voltava, de propósito despenteada, com muito rouge na face, a fingir corada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento:
— Que horas são?
Eu era o relógio, para ele! Nessa terra fria, geométrica, regular no andamento como uma máquina — a alma de Genebra é um relógio — eu não era nada mais do que um cronômetro em que se tem confiança. Um dia, furiosa, comprei um relógio e ofereci-lho. Imagina que acabou a história? Não. Comecei a fazer-lhe cenas, a dizer-lhe impropérios em calão dos bairros ínfimos de Londres — uma artista conhece tudo e o resto — frases de marujo; ele ouvia, ouvia, e depois tirava o relógio da algibeira e dizia-me:
— Por força que este relógio atrasa! Que horas são?
Quis matá-lo. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo em penumbra. Até a dormir tinha o ar cansado. Levava uma máscara de clorofórmio... Conhece o conto de Lorrain sobre as máscaras de Londres? foi nele que me inspirei... Ia para lha por na cara e acabar com ele. Tropecei numa cadeira. Carnehan acordou sem sobressalto. Olhou para mim:
— O quê? já manhã? Que horas são?
Não! Não era possível! Pensei em atirar-me da janela abaixo. Não podia mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escritura com o empresário, perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan — a cara que ele fez! — e meti-me num comboio e vim para a Espanha, onde há sol, há muito sol e não quero nunca saber que horas são!"
A sua face parecia uma flor de perola, e na boca fortemente pintada um sorriso brilhou...


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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