sexta-feira, 19 de julho de 2019

Eça de Queirós e o humorismo (Resenha)



Eça de Queirós e o humorismo

Os gêneros literários procedem por evolução. Sucessivos tentames se vão acumulando, sobrepondo, completando, até que, de período em período, surge o que se fica chamando um "molde". Obtido esse molde, vazam-se nele centenas, milhares de obras, até que o molde envelheça, se transforme e nos apareça completamente outro à primeira vista.

Há quem acredite em moldes novos e fale neles. Eu partilho a opinião de que, à semelhança das luas novas, que, segundo diz o poeta, são feitas de bocados de luas velhas, os moldes, que marcam transições no caminhar da literatura, têm sempre inspirações remotas. Estou convencido de que não há nada de novo debaixo do sol da literatura e cada vez mais me convenço à medida que vejo caminhar as letras no sentido da simplificação. O que há são expressões novas, condizentes com o tempo em que aparecem e harmonizadas com a moda das ideias. Foi sempre um passatempo erudito encontrar a filiação longínqua dos fatos literários, que mais modernos e originais se nos afigurem. Já leram o artigo de Pawlowsky em que se demonstra que a ideia e a filosofia do Boubouroche de Courteline estão na Bíblia?

Eça de Queirós fixou um molde no romance português, pois os seus livros não se assemelham — creio eu — nem ao Arco de Santana, nem ao Amor de Perdição, nem à Morgadinha dos Canaviais. Esse molde, novo na nossa literatura, não era novo afinal. Se não buscou a sua inspiração nos escritores da nossa terra, não nega Eça, nem o negam os espíritos do seu convívio, a influência sobre ele exercida pelas novas escolas francesas da sua época. Mas o que lia de extraordinário em Eça e é um dos aspectos mais admiráveis do seu gênio, é que, enquanto em França se hesitava, se apalpava terreno na fixação de uma fórmula, que em absoluto não se chegou a formar, ele sem um embaraço, nem um recuo, encontrou uma adaptação portuguesa, perfeita, completa, caracteristicamente nacional ao ponto que podemos esquecer sem rebuço as influências estrangeiras, tanta originalidade na sua assimilação, se nos é permitido exprimir-nos assim.

Eça criou um molde no romance português. Esse molde permanece o último que tenhamos tido. Ainda se não avançou um passo. As razões são várias, além da medida do talento dos autores; mas a superioridade absoluta do Mestre, não só sobre os que se confessam abertamente seus discípulos, mas ainda sobre os que têm tentado frouxas imitações de esboços de fórmulas importadas do estrangeiro deriva, a meu ver, de um fato simples: Eça de Queirós era um humorista e os que os seguiram não o são.

Faço a justiça a todos que me leem de supor que têm uma ideia nítida do que é o humorismo. Se estas linhas caírem sob os olhos de alguém que ainda julgue, nestas épocas de Anatole France e de Jules Renard, que um caixeiro viajante contando anedotas de padres à mesa de um hotel de província ou um mancebo alegre escrevendo uma farsa para o Ginásio são humoristas, dir-lhe-ei respeitosamente que se ilude com palavras, que deve aprender a fazer a distinção entre bom humor e humorismo, que o primeiro é uma questão em grande parte fisiológica e dependente do bom funcionamento do estômago, dos intestinos e do fígado e o segundo uma feição moral do espírito, não sendo, aliás, incompatíveis.

Conheço entre nós vários escritores de bom humor. Hesitaria muitíssimo se me mandassem citar um humorista. Perdoem-me falar de mim quando devia falar de Eça de Queirós; mas verão que o que vou dizer se aplica como exemplo e portanto, é mais natural que eu seja desagradável a mim próprio do que ao meu confrade do lado. Não posso deixar de protestar muito amável e reconhecidamente contra os que me têm chamado humorista, quando, a par de umas peças alegres, tenho publicado alguns livros de anedotas literariamente apresentadas, e não assinalaram para justificarem a sua classificação as tentativas de verdadeiro humorismo, que noutras páginas esbocei ou que deixei vincadas em detalhes dos trabalhos que o público e a crítica aceitaram em globo como humorísticas.

Humorista não é quem faz rir: é quem faz pensar. Note-se que digo pensar e não sonhar. O humorismo chama os espíritos à realidade da vida sem todavia ter também o amargo dos pessimistas. Entre estes e os floricultores de ilusões, que são os poetas e os prosadores descendentes das escolas românticas e anexas, há o verdadeiro lugar do humorista. A vida não é tão feia como aqueles a descrevem, nem tão linda como estes a pintam. É — como os humoristas a apontam — uma série de equilíbrios entre o mau e o bom, entre o vício e a virtude, entre a alegria e a tristeza, entre o azar e a sorte. O homem não é um monstro, nem um santo; a mulher não é uma víbora, nem um anjo. Somos um pouco de tudo, andamos guiados, ou — para melhor dizer — impelidos, desde o berço até à cova, por forças resultantes de concorrentes várias que vão desde os nossos instintos morais e físicos até às leis inegáveis das convenções, dos hábitos, das tradições. É essa vida que os humoristas observam sem acrimônia e sem condescendência e nos indicam umas vezes com sorrisos que são tristes, outras com mágoa que não exclui a malícia. Porque o humorismo é a verdade dentro da Arte da escrita, a sua forma de expressão tem de ser clara, límpida, exata, despida dos artifícios da literatice e dos pré-históricos clichês que vêm de mão em mão há séculos e que são sempre os mesmos por mais que os disfarcem.

O humorismo — na nobre acepção e amplo significado do termo — há de vir a ser o fundo definitivo da literatura. Não sou eu que o digo: é a lógica de toda a história literária. Quando, passados os dias tormentosos em que se está regenerando a humanidade à custa da dor e do sangue, decorridos os períodos de transformações sociais que lhes vão suceder, a literatura caminhará direito para exprimir o espírito desses tempos futuros, como é a sua eterna função, o humorismo, ainda hoje mal compreendido em meios de restrita intelectualidade e boa boca literária como o nosso, impor-se-á definitivamente. A literatura deixará de ser o logro da imaginação que tem sido, e, com o brilho de forma a que tem tendido os esforços dos estilistas, voltará no seu fundo às normas de rígida sinceridade, que respiraram as fórmulas primitivas e são a base do humorismo.

***

Eça de Queirós encontrou, no seu tempo, um molde de romance, que ainda ninguém melhorou entre nós e que pode sofrer sem receio comparação com os estranhos. Mas devemos admirá-lo mais porque soube ser um humorista na época em que o humorismo se ignorava ainda um pouco a si próprio e se chamava no boulevard a ironia e o paradoxo. Eça foi-o de um só jato, ainda hoje o é e sê-lo-á sempre, pois não vejo que muito se possa ganhar de futuro sobre o que ele fez.

Se não confiasse na Eternidade que há de dar à humanidade infindáveis milhares de anos, e dado o galopar de cágado com que a vida portuguesa caminha, quase me atreveria a dizer que Eça é definitivo.

Em verdade não podemos pasmar da concepção dos romances de Eça de Queirós. Posta de parte A Relíquia, que até na sua essência é humorística, o entrecho dos outros, especialmente dos primeiros, roçando às vezes pelo melodrama, entra no caso como a espinha necessária e a carcaça indispensável. O que prende em Eça é o detalhe, o desenho das figuras, a minúcia das peripécias, o diálogo e as ideias expostas no correr da ação sem serem as determinantes dela. E isso — digo-o, repito-o e sinto não ter o talento de o demonstrar como o penso — é admirável porque é deduzido, é exposto, é rematado dentro do que se pode tomar como regras e princípios do humorismo.

Com ele deu um formidável relevo às figuras cômicas dos seus livros— o Acácio, o Raposão, o Alencar, e foi ainda guiado pelos seus processos de observação, de análise e de expressão, que encontrou a maneira de tornar vivas e, portanto, imortais todas as outras figuras. Há nos romances de Eça, à margem das principais personagens, criaturas que passam um instante por necessidade de ação. Sob a pena de outros escritores seriam baças, apagadas como a sua função. Eça, com dois toques de humorismo, com um detalhe de vestuário, com um dito, põe-nos de pé. Elas saem; mas já não esquecem.

Não há nos livros de Eça, que eu admiro como Victor Hugo admirava Shakespeare — comme une brute— uma página que soe a oco, a inventado, a contrafeito, a desnecessário, a encaixado. Toda a sua obra de romancista é de uma espontaneidade, de uma sinceridade, de uma honestidade que só podem provir de um verdadeiro humorista. Os seus romances são a vida bem contada e tanto assim que a gente deles nós conhecemo-la e os entrechos quase que iríamos dizer que assistimos a eles.

Há anos desembarcou em Lisboa um rapaz de letras, brasileiro. Escuso de lhes revelar que no Brasil se ama apaixonadamente Eça de Queirós. Pois à porta de uma livraria da Rua do Ouro dizia-me o nosso hospede recentemente desembarcado: — “Sabe o que estou aqui fazendo há duas horas? Estou vendo passar os romances de Eça de Queirós. Tenho visto desfilar aqui o Basílio, a Luísa, aquele Dr. Margaride incomparável em questões de saborear o grandioso, esses padres a quem o Mestre votava uma tão justificada fobia... Olhe: repare! Além vai a Juliana.” E, no outro passeio, efetivamente, passava a criada imortal.

Quem tenha bem presentes ao espírito os livros de Eça não vê decorrer um dia da sua existência sem que uma peripécia da vida comum, uma atitude, um gesto, um dito de um amigo ou indiferente lhe não façam recordar qualquer pormenor da obra do grande morto.

Isto explicava-se e ainda hoje se explica dizendo-se que ele foi um grande observador. Mas uma máquina fotográfica não se recomenda apenas pela limpidez da objetiva. Necessita que a placa e os cuidados que se lhe deem sejam perfeitos. Observar, é evidentemente indispensável a um escritor do gênero, mas é pouco. O que completou e fez grande Eça de Queirós foi o seu temperamento intelectual e foram os seus processos de expressão. E estes, como aquele, eram os de um grande humorista.

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É possível que eu não deixasse o caso claramente demonstrado nestas linhas que sou forçado a escrever à pressa. É provável mesmo que, como o macaco da fábula, eu gabasse a luz da lanterna e me esquecesse de a acender. Alguns espíritos me terão compreendido em absoluto, suprindo a deficiência da minha exposição. Aos outros, rogo que dividamos as causas da incompreensão em dois quinhões: um muito maior que tomo sobre mim e sobre as falhas do meu talento. O outro recairá sobre a resistência muito grande que tem encontrado o humorismo para se impor. Há quem o ame sem saber como ele se chama.

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ANDRÉ BRUN
"Eça de Queiroz: In Memoriam" (1922)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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