domingo, 7 de julho de 2019

Idílio Roxo (Conto), de Gonzaga Duque



Idílio Roxo

Sara conseguiu um dia feliz. Os cansaços angustiosos, com que a tosse irritante a mortificara, serenaram um pouco nesta clara manhã de equinócio.

Terminado o jantar, às cinco, a sua voz, de citara noturnizando, melodiou aos meus ouvidos:

– Vamos namorar a tarde?... Ela está linda!

Não lhe retorqui. De um salto apanhei a casquette, e pronto! Partamos, Sara. Ela desceu, como sempre, acompanhada, respeitosamente, da velha, da ereta e grave D. Maria, que nós, nas parlendas da serra, para afetar vilegiatura nobre de touristes da nata, da upper criam, carismamos por conta própria, inglesando seu nome na aspereza acre de Mary. Caracterizávamos, por esta forma, o seu tipo esquelético de loira quinquagenária, penteada de bandos românticos, e dávamo-nos, pretensiosamente, ares galantes deuropeísmo na agrestidade daquelas alturas verdes. Demais, para o forçado coquetismo de Sara, era isso uma nota chic um traço elegante de viver superior, porque essa pobre rapariga pálida, de olhos veludosos de uvas negras – turgindo da volúpia morna de um morno quebranto – a cabeleira encaracolada, que lhe esculpia a cabeça com uma cariciosa expressão de criança romântica, possuía o elevado requinte da futilidade numa irradiação moderna e histérica de formas.

O resto de vida que se lhe esvaziava, noite a noite, nos esburgos da gosma pulmonar, dir-se-ia concentrar-se nas preocupações elegantes da sua pessoa, cuja plástica delgada de estátua alegórica movia-se com a coleante flexibilidade das serpentes feridas.

Quando ela aparecia ao sol das dez, na sala de hotel, agitando rendas sobre rendas, numa feliz ilusão de se fazer menos magra, e mais polibétala que uma rosa branca, a encher o ambiente com trescalos fidalgos de crab-apple, não havia pupila que não cintilasse de desejos acesa, nem percepção que se enganasse com a saúde artificial daquela criatura, esvelta e solerte, que siflara, angustiosa, nos acessos da tosse, durante o silêncio pesado das noites.

Foi, também, por um capricho de excepcional, procurando cercar-se de todos os insignificantes detalhes do imprevisto e do esquis, para fosforear o rastro da sua personalidade, que ela, um mês depois de nos conhecermos na diária da mesma locanda, carregou os sobrolhos, aprumando, nervosa, a cabeça, porque eu tivera a criminosa irreverência de a chamar – Mademoiselle – após um cherzo de Beethoven dedilhado, ao acaso, no gasto teclado do piano frouxo, e quando a sua pequenina orelha transparente se inclinara ao pieguismo dúbio do flirt.

– Oh! exijo que me chame. Sara Simplesmente Sara.

Desde esse momento, mesmo diante da gravidade ossuda da respeitável Mary, jamais meus lábios titubearam postiçarias de formalidades.

Sara passou a ser a minha meiga e íntima camaradagem, insexualizada como as Visões, apenas lembrando um vago de mulher pelo aroma de suas cambraias rendilhadas e pela insídia amolentadora de seus olhos, luminosamente negros.

– Para onde seguiremos, Sara? – perguntei.

Ela não respondeu. Tomou-me do braço e descemos para os lados tranquilos do

Sul.

Março extinguia-se numa viuvez serena de quaresmas florescentes e vesperais crepúsculos agoniados de violetas machucadas. À margem do caminho, na ramaria alta das velhas árvores, por onde cigarras, ao mormaço equatorial das sestas, sanfoneavam em pós prelúdios de cicios longos, nevavam pulverizações suaves de ametistas trituradas, como se uma triste flor invisível abandonasse, no desalento dos repúdios, o pólen ressequido e inútil. E esse brando colorido de melancolias vivas derramava-se do céu pela extensão queda dos vales, alastrando-se no círculo enorme de toda a paisagem, distendendo os planos pelo esbatimento das distâncias, envolvendo a longitude num afago dormente de lágrimas ainda não enxutas, e lilaseando a faixa do horizonte, lá-baixo, numa tenuidade de zainfe sagrado, aberto sobre a remotíssima paragem dos prometimentos fugitivos.

Íamos descendo...

Sara descansou mais sobre o meu braço a leveza do seu busto. Muda, pisando serena e certa, pupilas absortas e brumosas das sugestões sentimentais deste vagaroso crepúsculo de endoenças, suas pequenas narinas de nervosa resfolegavam; havia no seu respiro o rítmico siflo, quase imperceptível, do soprar dum fole. Pelo langor do seu corpo percebi que o recolhimento da paisagem a envolvia, possuindo-a, fazendo-a penetrar o seu mistério, alentando-a pela acridade aromática do seu bafo... E silêncio, extensões, hálitos mornos de folhas, emanações da terra, embriagavam-na, excitavam a sua imaginativa, fazendo-a construir, mentalmente, com a nostalgia da hora, o romance de tristezas que as tuberculosas soem compor, tecidos de ilusões e lembranças vagas, como uma música que espira sob a dormência de uma volúpia.

Mary, agoniada pela distância, deixara-se ficar numas lajes da escarpa.

Nós, porém, continuamos a descer, de manso, sem palavras. De repente, ela aspirou forte.

– Sente?... É o aroma dos lírios.

A estrada resvalava em curva, ao sopé da macega baixa da chapada. Estávamos na base do pendor, onde denegria a legendária Ponte dos Suspiros, cujos barrotes repercutiam o rumorejo fresco do córrego, refrangendo-se nos pedregulhos soltos da socava.

Paramos. Sara declarou que sentia fadiga, e queria penetrar-se da solidão que amodorrava o tom viúvo da tarde tristíssima.

Então, amparada pelo rebordo da ponte, ainda braço sobre braço, aí permanecemos sem uma palavra que rompesse o silêncio de um torno, olhos postos na planície violácea, estendida para além, rasa e ampla, até o aglomero tufoso dos matos, já roxeando no fusco das trevas. E nesta quietitude espasmódica de natureza adormecida, pressentia-se que de asas espalmas, plasplaceando ondulantes e esgueiradas, passava teimosa, persistente repassava, a Saudade longa das deserções eternas. Logo, pelos ramalhos pára-solados, pelo emaranhado do mato, no rastejamento das ervas, estremecia o quer que fosse, um desofego de peito cansado, de que o aroma branco dos brancos lírios era o hálito virgem, evolando-se num beijo demorado e intenso, de partida...

Neste momento, Sara falou-me baixo, queixosa e tímida:

– Sabe?... levo um grande pesar da vida...

E depois de uma pausa atalhando-me a pergunta:

– É o de nunca ter experimentado a sensação de um beijo... de amor. Oh! nunca os lábios de um homem tocaram-me nas faces!

Quando a fixei, ela tinha inclinado a cabeça aflita, seu olhar negro e veludoso boiava no alvejamento de Desejos angustiosos, e eram tão súplices os seus lábios! era tão pedinte a sua boca! que eu tive o impulso de lhe dar o consolo desta carícia. Mas, os bizarrismos do seu espírito de enferma crestaram bem cedo os rebentos do meu amor; seria impossível revivescê-los agora só pelo desvario concupiscente de um gozo efêmero e favorecido. Ela, compreendendo meu pensamento, gemeu ofegante:

– Beija-me... Sim?

Mudamente, obedeci. Era a vontade de uma condenada, e eu, por mais que me repugnasse a satisfação desse lascivo desejo, que a impudicícia de uma alucinação trazia boca de uma criança, não tinha energias para a cruel negativa. Ao curvar-me para ela, procurando sua fronte, encontrei a febre de seus lábios sôfregos à espera dos meus. E unimo-los docemente, demoradamente, numa junção noival, premindo as nossas mucosas na umedecência dos mesmos anseios; eu – perdida razão, animalizado pelo contacto ofertante da imácula carne febril; ela – dominada pelo seu gozo, radiando nas faces, esfuziando no olhar, aceso o hálito fremente, que lhe punha no respiro compassado a delonga sugada dos prazeres primeiros...

Por fim, vencida, cerraram-se-lhe as pálpebras, exaustas; uma palidez de luar morrente alastrou-se por suas faces, marmorizando-lhe a linda cabeça de bambina, e um acesso de tosse rouca sacudiu-lhe a escoriada caverna do busto.

A noite despregava-se lenta, lentíssima, de opérculo remoto, franzindo a quietitude roxa do espaço e, no isolamento” estagnado, o balido fanho duma ovelha tardia cavou o silêncio, sonorizando nas quebradas o eco reminiscente do Angelus.

Sara, acometida por outro acesso de tosse, levou rapidamente o lenço à boca, mas, inútil a presteza do gesto! – de seus lábios escapou-se, de jato, uma golfada de sangue, que estalou, surda; no chão, e ficou-se coagulhenta, estriada em lágrimas solidificadas, sulferina e regulgente, na roxidão do dia extinto.

Quando nos pusemos a caminho, ora lentamente, medindo o passo a fugir do esforço, a natureza aerizava-se nesta melancolia quaresmal de março, toda ela roxa, mas, agora, de um roxo turvo, tingindo de saudades tumulares a tristeza imensa da Terra.

Só, infiltrante e dulçoroso, o aroma virgem dos brancos lírios vivia no ar, como se o óleo perfumado e purificador de uma âmbula houvesse escorrido sobre nós para a extrema-unção do nosso noivado sem mácula, e – assim, confundo-se com a Natureza, lembrava de algum modo, na agonia silenciosa da tarde, o hálito de um resignado sorriso à ilusão inefável de um gozo que nunca mais voltaria... nunca mais!... nunca mais!...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...