terça-feira, 9 de julho de 2019

Incêndio no Politeama (Conto), de Artur Azevedo



Incêndio no Politeama
Oh! a extraordinária boa-fé, a sublime toleima das esposas honestas!...
O Romualdo – o Romualdo da praia do Flamengo, conhecem? – casou-se há dez anos, e foi até bem poucos dias o modelo mais completo da fidelidade conjugal. Dona Vicentina, sua esposa, não tinha sido até então enganada pelo marido nem mesmo em sonhos.
Ultimamente, o pobre rapaz encontrou no bonde elétrico, em caminho de casa para a repartição uma bonita mulher que lhe atirou uns olhares igualmente elétricos, e tanto bastou para que a sua austeridade fosse por água abaixo.
Nesse dia o Romualdo não assinou o ponto na repartição, coisa que lhe não sucedia há muitos anos. Gastou perto de quatro horas acompanhando na rua do Ouvidor a bela desconhecida; entrou com ela numa casa de leques e luvas, mas não se animou a falar-lhe; esperou-a depois à porta de dois armarinhos e uma confeitaria, e eram quase três horas da tarde quando no largo da Carioca tomou o mesmo bonde que ela –, outro bonde elétrico.
Na rua do Passeio, a desconhecida, que era menos tímida que o Romualdo, convidou-o com um olhar – o mais elétrico de todos — a sentar-se perto dela, e ao mesmo tempo afastou-se para dar-lhe a ponta do banco.
Escusado é dizer que o Romualdo aquiesceu pressuroso ao convite, mas sabe Deus com que susto atravessou a praia do Flamengo, passando pela sua casa ao lado daquela adorável e estranha criatura, que trescalava sândalo. Felizmente dona Vicentina, como toda a boa dona de casa, raramente chegava à janela, e nenhum dos vizinhos o viu passar em tão arriscada companhia.
Não fatigarei o leitor reproduzindo o vulgaríssimo diálogo que se travou entre os dois namorados.
Para elucidação do conto, basta dizer que ela não era casada – mas era como se o fosse – e residia com o seu protetor, um opulento negociante, nas imediações do largo do Machado. A moça confessou-se apaixonada pelo Romualdo, porque o Romualdo era o retrato vivo do seu esposo, que falecera havia quatro anos, deixando-lhe imarcescíveis saudades. Logo que pudesse, concederia ao Romualdo uma entrevista, avisando-o em carta dirigida à repartição onde ele era empregado. Antes disso não procurasse vê-la, porque o aludido negociante era ciumento e desconfiado.
— À toa, acrescentou ela com uma simplicidade adorável; à toa, porque eu sou incapaz de enganá-lo.
— Incapaz?... Pois não acaba de me prometer uma entrevista?...
— Ah! o senhor não se conta: parece-se tanto com meu marido!...
Ao Romualdo não fez muito bom cabelo o papel de “estátua de carne” que lhe estava reservado; entretanto, esperou com impaciência a anunciada cartinha. Esta só apareceu no fim de vinte dias.
Eis o seu conteúdo:
“Ele foi hoje para Petrópolis, e só estará de volta depois d’amanhã. Amanhã 14, às 10 horas da noite, esperar-te-ei à janela; festejaremos juntos a data da tomada da Bastilha.”
O Romualdo ficou entusiasmado por essas letras deliciosas, e tratou imediatamente de inventar um pretexto para ausentar-se de casa na noite aprazada.
Era difícil; não havia memória de haver saído à rua, depois de jantar, sem levar consigo sua mulher...
Era difícil; mas o que não inventa um homem quando uma mulher bonita lhe diz: vem cá?
No dia 13, ao chegar à casa de volta da repartição, o Romualdo aproximou-se de dona Vicentina , deu-lhe o beijo do costume, e disse-lhe:
— Benzinho, quero que me dês licença para uma coisa...
— Que coisa?
— Para ir amanhã ouvir o Rigoletto no Politeama. O meu chefe de seção, o doutor Rodrigues, convidou-me para assistir ao espetáculo do seu camarote, e eu prometi que ia... se te não contrariasses...
— Oh, Romualdo! é a primeira vez que você viu ao teatro sem sua mulher!
— Que queres? Não tenho prazer em ir a qualquer divertimento sem ti... mas aquele doutor Rodrigues é tão susceptível... e convidou-me de tão boa vontade.
— Pois vai!
— Obrigado, benzinho.
— Vai, mas olha que tenho muita pena de não ir também. O Rigoletto é uma das óperas que mais aprecio... O 4º ato... Não é no 4º ato que há o La donna è mobile?
— É.
— O 4º ato é lindíssimo. – Vai...
— Ficas zangada?
— Não fico, mas...

E dona Vicentina interrompeu a frase com um beijo.
— ... mas não quero que fiques no costume de ir ao teatro sozinho.
— Receias que eu te engane?
— Não; nunca me passou pela imaginação que me pudesses enganar; mas não quero...
No dia seguinte, quando, às sete horas da noite, o Romualdo saiu de casa para ir... ao Politeama, dona Vicentina disse-lhe:
— Presta bem atenção ao espetáculo para depois me contares tudo.
Já o Romualdo, que não era tolo, tivera o cuidado de ler o anúncio do Politeama e decorar os nomes dos cantores.
Conquanto o largo do Machado fique perto da praia do Flamengo, eram quase duas horas da madrugada quando o Romualdo entrou em casa.
Dona Vicentina ainda estava acordada.
— Com efeito! acabou tarde o espetáculo!...
— Deixa-me, benzinho! O doutor Rodrigues instou comigo para cear... e eu apanhei uma enxaqueca que não te digo nada!
— Que tal o Rigoletto?
— Assim, assim... O Athos já não é aquele mesmo barítono dos tempos do Ferrari; ainda assim, deu boa conta do recado.
— E o tenor? Que tal o achaste?
— Podia ser pior.
— Como cantou ele o La donna è mobile?
— Com alguma expressão.
— Ah! É verdade, e o quarteto:
Um di, se ben rammento mi?...
— O quarteto também não andou mal. Todo o 4º ato foi regularmente cantado.
— Ora não estar eu lá!
— Naturalmente repetem a ópera; havemos de ir juntos.
— Prometes?
— Prometo, sim... mas deixa-me dormir... Esta enxaqueca!...
— Dá-me ao menos um beijo.
— Toma... e boa noite.
Dona Vicentina ergueu-se da cama primeiro que o marido, e, como de costume, foi logo ler o País.
A primeira notícia que lhe saltou aos olhos trazia este título: Incêndio no Politeama. Viu a pobre senhora que a representação do Rigoletto não passara do princípio do 3º ato. Ficou muito impressionada; mas isso passou depressa, e, quando o marido acordou, disse-lhe, sorrindo:
— Como és bom! Não me disseste nada do fogo em que estiveste metido esta noite... Mentiste, só para me não incomodar! O Romualdo ficou atônito.
— Que... que fogo?
— Não tentes encobrir por mais tempo a verdade... Já sei que não ouviste o La donna è mobile.
— Hein?
— Tolinho! Acabo de ler no Paiz que o Politeama ardeu completamente, e que o incêndio começou no princípio do 3º ato.
— Ah! Sim... sim... foi para te não incomodar... foi para que não perdesse o sono...
— Agora percebo porque vieste para casa com uma enxaqueca, e apenas me deste um beijo... um beijo muito frio...
Oh! a extraordinária boa-fé, a sublime toleima das esposas honestas!


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Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855-1908)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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