terça-feira, 9 de julho de 2019

Uma amiga (Conto), de Artur Azevedo



Uma amiga
Dona Ritinha Torres, a mais ingênua e a mais virtuosa das esposas, adquiriu há tempos a dolorosa certeza de que seu marido namorava escandalosamente uma senhora, vizinha deles, que exercia, ou fingia exercer, a profissão de modista.
Havia muitas manhãs que Venâncio Torres - assim se chamava o pérfido - acordava muito cedo, tomava o seu banho frio, saboreava a sua xícara de café, acendia o seu cigarro e ia ler a Gazeta de Noticias debruçado a uma das janelas da sala de visitas.
Como Dona Ritinha estranhasse o fato, porque havia já quatro anos que estava casada com Venâncio, e sempre o conhecera pouco madrugador, uma bela manhã levantou-se da cama, envolveu-se numa colcha, e foi, pé ante pé, sem ser pressentida, dar com ele a namorar a modista, que o namorava também.
A pobre senhora não disse nada; voltou para o seu quarto, deitou-se de novo, e a hora do costume simulou que só então despertava.
Tivera até aquela data o marido na conta de um irrepreensível modelo de todas as virtudes conjugais; todavia, soube aparar o golpe: não deu a perceber o seu desgosto, não articulou uma queixa, não deixou escapar um suspiro.
Mas às dez horas, quando Venâncio Torres, perfeitamente almoçado, tomou o caminho da repartição, ela vestiu-se, saiu também, e foi bater à porta da sua melhor amiga, D. Umbelina de Melo, que se mostrou admiradíssima.
- Que é isto?! Tu aqui a estas horas! Temos novidade?
- Temos... temos uma grande novidade; meu marido engana-me!
E deixando-se cair numa cadeira, D. Ritinha prorrompeu em soluços.
- Engana-te? perguntou a outra, que empalidecera de súbito.
- E adivinha com quem?... Com aquela modista... aquela sujeita que mora defronte de nossa casa!...
- Oh, Ritinha! isso é lá possível!...
- Não me disseram; vi, vi com estes olhos que a terra há de comer! Um namoro desbragado, escandaloso, de janela para janela!
- Olha que as aparências enganam...
- E os homens ainda mais que as aparências. O pranto recrudescia.
- E eu que tinha tanta confian... an... ça naquele ingra... a ..to!...
- Que queres tu que te faça? perguntou D. Umbelina, quando a amiga lhe pareceu mais serenada.
- Vim consultar-te... peço-te que me aconselhes... que me digas o que devo fazer... Não tenho cabeça para tomar uma resolução qualquer!
- Disseste-lhe alguma coisa?
- A quem?
- A teu marido.
- Não; não lhe disse nada, absolutamente nada. Contive-me quanto pude. Não quis decidir coisa alguma antes de te falar, antes de ouvir a minha melhor amiga.
D. Umbelina sentou-se ao lado dela, agradeceu com um beijo prolongado e sonoro essa prova decisiva de confiança e amizade, e, tomando-lhe as mãos, assim falou:
- Ritinha, o casamento é uma cruz que é mister saber carregar. Teu marido engana-te... se é que te engana...
- Engana-me!..
— Pois bem, engana-te, sim, mas... com quem? Reflete um pouco, e vê que esse ridículo namoro de janela, que o obriga a madrugar, sair dos seus hábitos, é uma fantasia passageira, um divertimento efêmero que não vale a pena tomar a sério.
— Achas então quê?...
— Filha, não há no mundo marido algum que seja absolutamente fiel. Faze como eu, que fecho os olhos às bilontrices do Melo, e digo como dizia a outra: — Enquanto andar lá fora, passeie o coração à vontade, contanto que mo restitua quando se recolher ao lar doméstico.
— Filosofia no caso!
— Vejo que não sentes por teu marido o mesmo que sinto pelo meu...
A filósofa conservou-se calada alguns segundos, e, dando em D. Ritinha outro beijo, ainda mais prolongado e sonoro que o primeiro, prosseguiu assim:
— Se fizeres cenas de ciúmes a teu marido, apenas conseguirás que ele se afeiçoe deveras à tal modista; o que por enquanto não passa, felizmente, de um namoro sem conseqüências, poderá um dia transformar-se em paixão desordenada e furiosa!
— Mas...
— Não há mas nem meio mas! Cala-te, resigna-te, devora em silêncio tuas lágrimas, e observa. Se daqui a oito ou dez dias durar ainda esse pequeno escândalo, vem de novo ter comigo, e juntas combinaremos então o que deverás fazer.
— Aceito de bom grado os conselhos, minha boa amiga, mas não sei se terei forças para sofrear a minha indignação e os meus ciúmes.
— Faze o possível por sofreares. Lembra-te que és mãe. Quando um casal não vive na mais perfeita harmonia, a educação dos filhos torna-se extremamente difícil.
Alentada por esses conselhos amistosos e sensatos, D. Ritinha Torres despediu-se da sua melhor amiga, e foi para casa muito disposta a carregar com resignação a cruz do casamento.
***
Logo que ficou sozinha, D. Umbelina que até então a custo se contivera, teve também uma longa crise de lágrimas.
Mas, serenada que foi essa violenta exacerbação dos nervos, a moça correu ao telefone, e pediu que a comunicasse com a repartição onde Venâncio Torres era empregado.
— Alô! Alô!
— Quem fala?
— O Sr. Venâncio está?
— Está. Vou chamá-lo.
Três minutos depois D. Umbelina telefonava ao marido de D. Ritinha que precisava falar-lhe com toda urgência.
Ele correu imediatamente à casa dela, onde foi recebido com uma explosão de lágrimas e imprecações.
— Que é isto?! que é isto?! perguntou atônito.
— Sei tudo! bradou ela. Tua mulher esteve aqui e contou-me o teu namoro com a modista de defronte!
Venâncio ficou alterado.
— A idiota veio perguntar-me, a mim, que sou tua amante, o que devia fazer! Eu disse-lhe que fechasse os olhos, que se resignasse...
E agarrando-o com impetuosidade:
— Ah! mas eu é que me não resigno, sabes? Eu não sou tua mulher, sabes? Eu amo-te, sabes?...
— Isso é uma invenção tola... Eu não namoro modistas.
— Olha, Venâncio, se continuares, tudo saberei, porque incumbi a tua própria mulher de me pôr ao fato de tudo quanto se passar! Se persistires em namorar essa costureira, darei um escândalo descomunal, tremendo, nunca visto... — Afianço-te que te arrependerás amargamente! Tu ainda não me conheces!...
Venâncio tinha lábias: desfez-se em desculpas e explicou, o melhor que pôde, as suas madrugadas.
D. Umbelina, que ardia em desejo de perdoar, aceitou a explicação. Entretanto, ameaçava-o sempre:
— Olha que se me constar que... Não te digo mais nada!...
E os dois amantes celebraram as pazes do modo mais definitivo possível.
Pouco antes da hora em que devia chegar o dono da casa com o seu coração intacto, Venâncio, que descia a escada, parou, e retrocedeu três ou quatro degraus para dizer a D. Umbelina:
Queres saber de uma coisa? Essa história da modista é bem boa: serve perfeitamente para desviar qualquer suspeita que minha mulher possa ter da sua melhor amiga...
E desceu.
***
Oito dias depois, D. Umbelina de Melo recebia um bilhete concebido nos seguintes termos:
"Minha boa amiga. — Parece que tudo acabou, felizmente. Depois que estive contigo, nunca mais Venâncio se levantou cedo nem foi à janela. Deus queira que isto dure! Como sou feliz!
 Tua do coração, Ritinha Torres."
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Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855-1908)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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