sexta-feira, 5 de julho de 2019

Insígnias (Conto), de Brito Camacho



Insígnias
Era muito mais velho do que ela, mas não parecia ter tanta idade.
Escorreito, ágil, bem-posto, se quisesse dizer que tinha apenas cinquenta anos facilmente o acreditavam. E, contudo, já ia para além dos sessenta, bastante para além, a menos que lhe tivessem trocado o assento do batismo e mentisse a certidão de idade.
Senhor de uma grande fortuna, poderia ter casado como quisesse se não fora a profunda repugnância que lhe inspirava o casamento. Tinha a paixão das viagens, e amava a liberdade com um fanatismo de selvagem- As ligações episódicas que tivera, à força de numerosas, mais o tinham disposto para se conservar livre, tanto mais que nenhuma delas fora fértil, mercê das inteligentes preocupações que tomava.
Repetia invariavelmente este conceito agrário, formulado com certeza por um solteirão de sua força:
— Um boi só, lambe-se todo.
A verdade é que entrara na casa dos sessenta, sem encargos de família, sem cuidados de ménage, tão livre como um galo na capoeira ou como um coelho no mato.
Encontrou-a por acaso, um dia, na quinta de um amigo, e logo o empolgou uma paixão doida, que lhe pôs a cabeça à roda. Foi verdadeiramente o coup de foudre, o fosforo aceso que cai num monte de lenha seca, no pino do verão, e logo ateia um incêndio voraz e indomável. Aparecia, casualmente, em toda a parte onde ela costumava aparecer, e se era forçoso chegarem à fala, quase lhe pedia desculpa de estar ali, não fosse imaginar que a procurava. Os seus olhares desmentiam as suas palavras, e disso se apercebera ela desde a primeira hora.
Fez-lhe uma corte discreta, que a nada o obrigaria se viesse a reconhecer que não era aquela a metade que lhe destinara o criador no dia em que partiu as almas ao meio, espalhando as pelo mundo, para que se procurassem.
Colheu informações e veio a saber que a menina fora educada em família, com rigores de severidade.
Fazia todos os serviços domésticos, melhor que a mais perfeita das criadas, e sabia conduzir-se numa sala como qualquer fidalga vieille roche, superiormente distinta. Ainda se lhe não conhecera um namoro, não obstante ser requestada por muitos rapazes, uns de posição, outros de fortuna, entre os quais facilmente encontraria um marido que a tornasse feliz, e bem merecia a felicidade uma pessoa tão excepcionalmente dotada.
O demônio era a diferença de idade, ele já na casa dos sessenta, embora o não parecesse, e ela ainda longe dos trinta, tão fresca, tão louçã, tão menina, que dir-se-ia uma virgem de colégio. Ainda pensou numa viagem larga, com demora de três ou quatro anos, esperançado em que no regresso a encontraria já casada, pelo menos já comprometida num flirt dos que levam ao pé do altar. Mas sentia-se preso, irremediavelmente preso àquela mulher, que além de ser um modelo de encantos físicos, era a virtude na sua expressão mais pura e mais alevantada. Ainda teve coragem para lhe falar dos seus projetos in mente, mas ela desarmou-o com um olhar, que era uma súplica, e com um sorriso, que era uma promessa.
Tinham de cumprir-se os fados.
Botou declaração, que ela aceitou, e daí a pouco ofereceu-lhe a sua mão de esposo e a sua fortuna — a sua mão, que era limpa, e a sua fortuna que era enorme, avaliada em muitas centenas de contos, uma parte da qual estava no Brasil, representada em prédios.
Sorriu aquela promessa de luxo à sua miséria negra, a viver na estreiteza dum rendimento que mal dava para o trivial passadio, tudo fazendo por suas mãos, os vestidos e os chapéus. Felizmente tinha saúde, uma florescente saúde, capital por demais precário, única e eficaz garantia do seu viver modesto, em- quanto durasse.
Pode-se lá contar, em qualquer altura da vida, com o dia de amanhã?
Tendo pedido alguns dias para pensar, para refletir, acabou por aceitar.
Fazia bem? Fazia mal?
Sentia-se capaz de ser uma esposa dedicada, uma companheira amorável, sendo preciso uma enfermeira solicita, prodigalizando ao seu marido doente aqueles cuidados que a Medicina recomenda e tem como auxiliares da sua eficácia curativa. 
Dada a diferença de idade, uma diferença de mais de trinta anos, a não ser que morresse primeiro do que ele, ficaria viúva um dia, ainda bem conservada, porventura hábil para ter filhos, doida por crianças, a ponto de chamar, algumas vezes, as que brincavam na rua, perto de sua casa, para lhes fazer carícias, lavando-lhes primeiro o focinhito lambuzado.
Casava por interesse?
Sem dúvida; mas era também por interesse que a pediam em casamento, e a sua mocidade, a sua beleza, a sua frescura, a sua virgindade sem mácula, valiam bem o punhado de libras com que o marido entrava na sociedade conjugal à procura de um afeto que desse amparo e calor à sua velhice enregelada.
De resto, ela não procurou aquele noivo, não o atraíra primeiro, cativando-o depois, mercê dum jogo hábil e complicado de seduções, que são uma espécie de anzol com que as raparigas pobres e ladinas pescam os velhos ricos e solteiros. Preocupava-a o futuro, e no casamento que lhe propunham via a segurança de uma existência sem embaraços, a garantia duma vida sem dependências, e para obter esta situação não precisara humilhar-se como quem pede esmola, sequer ao menos mostrar-se reconhecida como quem recebe um favor.
Casaram.
A natureza é inexorável; nunca renuncia aos seus direitos. Se lhos ignoram, lembra-os, e se lhos negam, reivindica-os com firmeza, às vezes de forma clamorosa e desabrida, a roçar pelo escândalo. O largo tributo que pagara à mocidade, desfalcara-lhe, mais do que ele supunha, as energias vitais, e disso não se apercebera, em semelhante coisa não pensara guando definitivamente resolvera contrair matrimonio com uma linda mulher — linda e em todo o vigor da mocidade.
Encheu-se de resignação, a amorável esposa, na sua quase viuvez de mulher casada, e porque era de uma extraordinária delicadeza de sentimentos, vendo que ele a amava loucamente, dava-lhe a ilusão de um amor correspondido, se não com muito fogo, ao menos com muita sinceridade.
Como fosse homem da Corte, afidalgado por motivos eleitorais, recebeu convite para a cerimônia de investidura do Tosão de Ouro em Sua Majestade El-Rei, graça que espontaneamente lhe conferira o governo espanhol. Foi uma festa de estrondo, à altura da rara distinção conferida ao Monarca. Não faltou ninguém do corpo diplomático, com o Núncio à frente; estiveram as pessoas mais graduadas da Magistratura, do Exército, da Armada, os Pares do Reino au grand complet, e dos senhores deputados só faltaram os que nem de aluguer nem por empréstimo tinham conseguido obter uma casaca. Nunca em Palácio se tinha visto tanto luxo e tanta beleza tantos e tão apetitosos frutos de carne, oferecendo-se às gulodices dos olhos, quase a roçarem pelos lábios daqueles Tântalos tirés à quatre épinglés.
Na volta, muito correto na sua casaca preta, os bigodes muito retorcidos, mais corado que de costume, escorreito e ágil, parecia que tinha remoçado de uns poucos de anos.
Ela esperava-o no gabinete de costura, com a sua blusa à jour, de manga curta, pondo em relevo pontuações de carne fresca e rosada, que pediam beijos de fogo.
De cada vez lhe parecia que ela era mais bela que nunca, mas naquele instante pareceu-lhe a própria Beleza, capaz de acender desejos no mais casto santo do calendário.
— Muito interessante, filha, a cerimonia do Tosão. Um deslumbramento!
— Que pena não seres também investido...
— O que, filha? A mesma insígnia que Sua Majestade!...
— Não digo a mesma, mas parecida...
E ofereceu aos seus lábios secos a infinita doçura dos seus lábios úmidos como as duas metades dum morango.



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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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