sexta-feira, 5 de julho de 2019

A senha (Conto), de Brito Camacho



A senha
A senha dos conspiradores monárquicos,
já conhecida da polícia, é esta
— quando casa a Beatriz?
(Dos jornais)

— Estão presos!...
Os dois entreolharam-se, cada um deles tendo o ar compadecido de perguntar ao outro se aquele sujeito estaria doido.
— Estão presos!...
Voltaram-lhe as costas, sem lhe dizerem palavra, mas já ao tempo se formara um grupo, que ia aumentando, e dentre essa multidão de acaso uma voz se ergueu terrivelmente acusadora — são talassas.
Grande balburdia, apitos, sopapos e bengaladas, até que um polícia fardado, abrindo caminho com os cotovelos, disse solenemente — todos presos!
No governo civil, perante o Sr. comissário de polícia, são primeiro introduzidos os dois talassas.
—... Pois saberá vossa excelência que me encontrei ali, por acaso, com o meu compadre, que eu nem sabia que tivesse chegado do Brasil. Rapazes do mesmo tempo, companheiros de escola, ele foi o padrinho da minha filha, e logo no dia seguinte ao do batizado abalou para o Rio. Há uns seis meses, estando ajustado o casamento da rapariga, mandei-lhe dizer que a afilhada ia casar, e que todos estimaríamos imenso que ele assistisse. Escreveu logo, dizendo que não podia vir, para nos fazer surpresa, e na verdade chegou aqui, sem nós darmos por isso. Encontramo-nos há bocado, na Baixa, e estava eu a dizer-lhe que a pequena sempre casa, quando aquele homem, com ares de doido...
— E a pequena chama-se?
— Saberá vossa excelência que se chama Beatriz...
É introduzido o outro, com os olhos esbugalhados, o colarinho numa rodilha, e por baixo do olho esquerdo o sinal de um valente murro:
—... Eu desconfiava dele, e trazia-o debaixo de olho. Há bocado vi-o na Baixa, parado, e calculei logo que ele não estava ali por bom. Daí a nada chegou o outro, e eu aproximei-me sem que eles dessem por mim. Logo às primeiras palavras vi que estavam conspirando. A Beatriz casava por um destes dias, e ele havia assistir à boda. O outro dizia que tem grande necessidade de ir às águas, e que por isso talvez não pudesse assistir, que não, que estava tudo preparado, e a pequena havia de ter uma alegria doida vendo-o no seu casamento. Em presença disto, não estive com mais cerimônias — dei-lhes voz de prisão, e qualquer outro, no meu lugar, faria o mesmo que eu fiz, quando desempenhar com zelo a sua obrigação, que para isso é que nos pagam, creio eu.
Moralidade do caso — as meninas Beatrizes podem casar, mas não devem anunciar o casamento.



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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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