terça-feira, 9 de julho de 2019

Lucrezia Borgia (Crítica), de Martins Pena



Lucrezia Borgia
8 de junho de 1847.


O Conservatório Musical. As senhoras Lasagna e Barbieri, e os mais cantores da "Lucrezia Borgia". O Barbeiro de Sevilha e a censura à Sra. Mugnay. Um lembrete de amigo ao Sr. inspetor de cena. Algumas reflexões.

Há oito meses que em um dos nossos folhetins, falando dos coros e notando os seus defeitos e causas que para isso concorriam, dizíamos: “Como remediar esse mal? Como colocar os espetáculos líricos no grau de perfeição que nossas exigências e gosto requerem, pelo que diz respeito a essa parte?” Lembramos então a criação do Conservatório de Música, para cuja manutenção o corpo legislativo havia concedido loterias; lastimamos a indolência que paralisava as pessoas mais interessadas neste negócio; apontamos as suas conveniências, e concluímos: “Quem sabe que resultado poderemos ainda colher? Com menos de dois anos teremos um corpo de coristas de ambos os sexos, com as habilitações necessárias, e digno de se fazer ouvir em cena; e alguns filhos do país terão com isso lucrado; circunstância esta que não é de desprezar. Ainda mais: dentre os discípulos, um ou outro haverá que, dotado pela natureza de talento e boa voz, possa ainda um dia subir a grande altura e medir-se com vantagem com qualquer artista estrangeiro. Outra vantagem se colherá do estabelecimento do mencionado Conservatório, e é esta a criação da ópera brasileira.”

Se nossas observações e desejos serviram para despertar o adormecido ânimo das pessoas que deviam figurar à frente deste estabelecimento, não sabemos; mas quer-nos parecer que para isso alguma coisa contribuíram. Na conformidade do decreto de 21 de janeiro do corrente ano, e do art. 9º do plano que o acompanhou, contendo as bases segundo as quais se deve estabelecer o Conservatório, foi nomeada pelo governo a comissão diretora que deve zelar e fazer progredir o estabelecimento. Esta comissão é composta dos senhores Francisco Manuel da Silva, diretor interino; padre Manuel Alves Carneiro, tesoureiro, e Francisco da Mota, secretário. Por aviso da Secretaria do Império, de 15 de maio próximo passado, foi concedida uma das salas do Museu para nela se estabelecerem as aulas primárias do Conservatório; e ao Sr. J. P. da Veiga baixou um a portaria ordenando a extração das loterias concedidas por decreto de 27 de novembro de 1841 à Sociedade de Música desta corte.

Em breve pois abrir-se-á nova e honrosa carreira para muitos de nossos patrícios; vê-los-emos em pouco tempo com uma profissão independente; e o caminho do bem-estar, e para alguns o da fortuna, se patenteará diante deles. Coragem! Se a natureza não foi igual na distribuição de seus dons, se não é dado a todos sair da mediocridade e distinguir-se, o estudo regular sempre faz do homem alguma coisa e o torna mais ou menos útil. Aqueles dos discípulos do Conservatório a quem a inteligência for escassa não brilharão na primeira plana, mas terão adquirido, à força de estudo e de aplicação, uma profissão livre; porém aqueles com quem foi liberal a mão de Deus e cujo gênio adormecido só espera o despertar, poderão ter ainda distinto lugar na sociedade. Não há nações privilegiadas; o talento foi por Deus espalhado por toda a terra; e se alguns povos mais se distinguem em certas artes, é pelo desenvolvimento e animação que se lhes dá, e bom método que seguem no seu ensino. É preciso que desapareça entre nó o preconceito de que só italianos podem cantar e compor óperas italianas. O exemplo em toda a Europa tem mostrado o contrário. Porque haveria uma exceção pra os brasileiros? Ninguém conhece os recursos que em si tem; o estudo é que o desenvolve e lhe dá a medida do seu valor; estudem pois os nossos patrícios, tenham coragem e perseverança, que ainda algum dia estas nossas palavras serão lembradas com agradecimento.

Sabemos que são raros esses compositores e cantores de grande nomeada, e que dos conservatórios da Europa poucos são os que adquirem subida fama; mas não é esta consideração de desanimar; antes pelo contrário deve ela despertar a nossa emulação, para merecermos também os favores da distinção e da fortuna.

Quase todas as nações europeias possuem teatro de canto nacional. E por que não o teremos nós? Será o nosso idioma impróprio aos acentos musicais? Todos concordam que depois do italiano é ele o mais próprio para o canto. O que nos falta pois? Cantores, e unicamente cantores. Temos visto alguns dramas e comédias de produção brasileira, e eles nos dizem o que podem fazer seus autores a bem da ó pera-cômica. Entre nós existem compositores que só esperam o momento e animação para nos oferecerem seus trabalhos; o público, que corre ansioso ao teatro da ópera-cômica francesa, para ver um drama que muitas vezes não entende e ouvir música bem diversa da do estilo e gosto nacional, não deixará de sustentar com empenho e aplaudir a ópera-cômica brasileira, que para ele será escrita. Longe não está talvez a realização desta ideia.

Expormos os relevantes serviços que pode prestar o Conservatório às orquestras, dando-nos bons instrumentistas, é inútil, por serem de fácil compreensão. Temos presentemente muitos músicos para bandas militares, mas não assim para orquestra de um teatro de canto, por isso que lhes faltam estudos especiais e sistemáticos. A esta falta só pode para o futuro remediar o Conservatório.

Apelamos para os bons desejos do Sr. Francisco Manuel da Silva, que sem dúvida, compreendendo os resultados da missão de que se acha encarregado, lhe prestará todos os desvelos. Consta-nos que este senhor pretende adotar para os exercícios práticos o método que de Wilhem, aprovado pelo Conselho Real de Instrução Pública de França, e adotado pela Comissão Central de instrução Primária de Paris. Louvamos tão acertada escolha, da qual se colherão sem dúvida imensas e rápidas vantagens. Quanto à parte teórica da arte, ocupa-se o Sr. Francisco Manuel em organizar um compêndio, que será de grande proveito para os discípulos. Para não tornar longo este artigo, o finalizaremos pedindo ao governo que continue a proteger eficazmente o Conservatório Musical Brasileiro, que pode ainda ser muito útil e vantajoso à nação. Pelas artes civilizam-se os povos.

Depois de tratarmos do objeto que fica acima exarado, principiaremos a nossa tarefa semanal dizendo algumas palavras sobre a última representação da ópera Lucrezia Borgia. Vai pela décima ou vigésima vez que ocupamos a atenção do leitor com a análise, apreciação, facécias e motejos da dita ópera, e tanto que já tememos ser fastidiosos; mas o público é bom, muito bom, e assim como atura e paga as sempiternas reformas, ressurreições, enxertos e espeques, e perdoa com magnanimidade à governança teatral que lhas impinge, esperamos que relevará também as nossas repetições. E demais,somos como o satélite que acompanha o planeta em sua rotação: se este toma errada via, forçoso nos é acompanhá-lo, até o dia em que benéfico cometa, abalroando-o, atire-o por esses ares e nos faça gravitar para melhor centro. Assim como há portugueses que esperam por D. Sebastião, ingleses por Artur, crentes pelo Messias, renegados pelo Anticristo, nós também esperamos pelo reformador do nosso teatro. São crenças, e com ela morreremos, legando-a a nossos filhos. Deixemo-nos porém de metáforas, e falemos dos cantores e cantoras em frases comezinhas.

Lucrezia Borgia é a ópera por excelência da Sra. Lasagna, e na verdade faz nela bela figura. Muitas vezes o temos dito e ainda o repetiremos: se tivessem conhecido a especialidade desta cantora, se ela mesma se conhecesse a si, mais conceituada estaria a esta hora. Se depois da Lucrezia tivesse cantado óperas como Nabucodonosor, Gemma de Vergi, Maria de Rudenz e outras do mesmo estilo e força, muito teria ela ganho em sua reputação artística, assim como o teatro nos seus interesses. Com as mil dificuldades que existem para termos cantores de subido merecimento, é necessário que a direção do teatro empenhe todas as suas forças pra acreditar aqueles que o acaso traz às nossas praias, confiando-lhes óperas em que possam ser ouvidos com prazer, e evitando confrontações desairosas; porque do contrário, expondo-os ao desagrado ao público, os compromete e dá provas de incapacidade.

A Sra. Lasagna é sempre ouvida com prazer desempenhando o papel da terrível Bórgia, e ainda nesta última representação, em que muito bem se houve, recebeu justos e merecidos aplausos. Compare-se esta última recepção pública com a que tem tido na Straniera, e ultimamente em Anna Bolena e digam os seus mais fervorosos defensores se temos ou não razão de assim falar. Sabemos que estas nossas palavras vão perdidas; mas perguntaremos: “Quem lucra com o crédito dos artistas, nós ou o teatro?” A resposta é óbvia.

Hoje estamos muito sérios, e falando do Maffio Orsini, não diremos se esteve gamenho e dengoso, se cantou bem ou mal, e se merecia palmas ou pateada; outro é nosso intento: queremos provar que a oposição manifestada pelo público e pela imprensa contra a Sra. Barbieri é toda devida à diretoria. A Sra. Maria Amália Monteiro é atriz de reputação e bem conhecida pelo bom desempenho dos papéis jocoso nas farsas e entremezes; mas se um dia quiser ombrear com a Sra. Ludovina, representando Inês de Castro, Fayelou outra qualquer tragédia, esse mesmo público, de quem é hoje tão querida e aplaudida, seria o primeiro em desfeiteá-la em cena. É esta exatamente a situação da Sra. Barbieri. A diretoria, por proteção, simpatia, acinte ou o quer que seja, elevou esta cantora a uma posição no teatro que não podia ocupar, e concedeu-lhe ordenado quase igual aos das primeiras cantoras; mas o público, que presenciou este disparate, disse mentalmente à diretoria: “Tu podes celebrar com qualquer cantora o contrato que bem te parecer, e conceder-lhe o ordenado que tua afeição marcar; porém, por mais que queiras, não lhe poderás dar um só átomo de merecimento artístico. Iguala na tua fantasia a Barbieri à Candiani e à Lasagna, que nós cá estamos para protestar porque o bom senso ainda nos não abandono u, e nem será dito que ouvimos com teus ouvidos e julgamos segundo tuas afeições.” Assim falou o público, e constante tem sido o seu proceder de desaprovação. Agora acrescentarem os nós: se a Sra. Barbieri se tivesse encarregado somente de segundas partes, as quais podia satisfatoriamente desempenhar, ou ainda mesmo dos primeiros papéis em alguma burleta, porque para isso tem ela graça e gentileza, e que sobretudo se ignorasse a proteção que ela goza e o não proporcionado ordenado que percebe, outra seria a sua posição no teatro, e o público teria tido ocasiões de a aplaudir sinceramente, e nós de a elogiar. “Admira-me, dizia certo acionista, que o público goste mais da Meréa do que da Barbieri, sabendo que esta tem maior ordenado.” Esta brilhante e comercial sentença, que já tivemos o gosto de publicar, confirma o que acabamos de dizer, e dá ideia do apreço universal e onipotente em que algumas pessoas têm o ouro. Responderemos humildemente aos que assim pensam que o ouro dará tudo, menos voz e talento. Disse.

Os demais cantores na ópera de que tratamos fizeram por agradar, e alguma coisa conseguiram, exceto o Sr. Theolier na sua ária. A voz deste cantor é sonora e agradável quando ele não a força demasiado para produzir efeito, porque então perde de seu timbre e fica como embaçada. Esperamos que esta observação será acolhida pelo Sr. Theolier com a mesma sinceridade com que é feita; se, à semelhança porém de alguns de seus companheiros cabeçudos e teimosos, não quiser atender a esta nossa reflexão, só nos restará o sentimento que não possa ele ouvir-se a si mesmo da plateia para convencer-se de uma triste verdade. No terceto canta bem e compreende o papel que representa.

Gennaro, com o andar dos anos e depois que cresceu, está melhor, e ocupa-se agora muito em fazer um estudo profundo sobre o gosto dos brasileiros pelas modinhas, a fim de enternecer todo o seu canto, qualquer que seja o sentido das letras. Com vagar voltaremos a este assunto, agradecendo ao cantor a honra que quer fazer à nossa música nacional.

O Sr. Eckerlin continua a vestir-se bem, e vai tendo mais cuidado no estudar seus papéis. Andar assim! Quando não, lembraremos de novo o Bitu.

Coitatinho! Coitadinho!... Tínhamo-nos até hoje esquecido que havia na companhia italiana um mocinho chamado Tati. Ora, que esquecimento! Estimamos que tenha passado muito bem; e se quer que nos ocupemos com sua pessoa cante mais alto; quando não, silêncio por silêncio.

O Sr. Sicuro continua a representar bem no papel de segundo tenor. Ganhe por aí reputação e dinheiro, que já não é mau.

Como não falta mais ninguém à chamada, damos a ópera como concluída, e passaremos a tratar do espetáculo de sexta-feira, que constou do Barbeiro de Sevilha, de dois espeques e do mais que diremos.

Rosina-Mugnay esteve feiticeira, e interessante na cavatina, no duetto, no... o melhor dizer em tudo, para encurtar a relação. Temos uma censura que lhe fazer, e muito violenta. Diga-nos por que razão, em vez de fazer arremedos e caretas ao seu tutor, que estava cantando tão bem a ária, não as fez, e bem feias, ao Fígaro por trazer a barba tão crescida, e ao conde d’Alma-viva por vestir ainda a ridícula farda de ordenanças? Bem sabemos a razão. É porque um era o seu Mercúrio e outro o seu amante. Está bem servida! Que desgraça para tão gentil pupila!... Falemos sem figura, o Sr. Sicuro cantou muito melhor nesta última representação do que nas primeiras; não esteve tão exagerado nos papéis de soldado bêbado e de mestre de música, e por isso mais agradou. É de lastimar que trouxesse a mesma farda, cujo disparate notamos. Já fizemos a devida censura ao ator, e agora nos voltaremos para o senhor inspetor de cena, ao qual diremos: quando qualquer escritor crítico teatral diz que um artista cantou e representou bem ou mal, pode-se deixar muitas vezes de seguir a sua opinião, por isso que reputa-se esta apreciação negócio de gosto; mas quando ele nota o erro de aparecer em uma mesma ópera atores com vestimentas disparatadas e ridículas, e cuja censura não pode ser contestada, é do rigoroso dever de vossa senhoria, como encarregado da inspeção da cena, o corrigir semelhantes erros, que tanto rebaixam o nosso teatro à vista dos estrangeiros que o frequentam. Tão imperdoáveis descuidos é que dão causa que a nossa cena seja constantemente menosprezada e ridicularizada nas viagens publicadas na Europa por esses estrangeiros que por vergonha nossa presenciam seus desmazelos.

Pedimos-lhe que tenha mais atenção com a dignidade da cena, como lhe cumpre, e com a reputação do primeiro teatro da Corte, e que se não deixe levar por caprichos que de nada servem. Por muitas vezes temos deixado de falar dos anacronismos acerca das vestimentas teatrais, por conhecer as circunstância s do nosso teatro; mas tudo tem limites, e não queira o Sr. Romeiro, que aliás é uma pessoa em quem reconhecemos merecimento, que o tempo de sua inspeção cênica passe em provérbio como a do célebre Manuel Luís do Jacaré. Desculpe-nos estas observações. Como é conveniente não perder a ocasião, chamaremos do mesmo modo a sua atenção sobre a palhaçaria do Sr. Massiani com o navalhão. Fique sua senhoria na certeza que, se deixar os atores em cena fazerem o que bem lhes parecer, os de má índole, quando supuserem que fazem pirraça a alguém dando coices, botarão as mãos no chão com todo o desembaraço e atirarão com os pés melhor do que qualquer asno.

Forma os dois espeques a ária da Scaramuccia pela Sra. Canonero, e a do Burgomaestro pela Sra. Barbieri. A primeira foi-se para dentro, correndo com medo de que o silêncio do público degenerasse em pateada; e a segunda recebeu algumas palmas, que na verdade conquistou.

Quando qualquer banqueiro possui um peixe grande e não lhe acha comprador posteja-o e assim o vende. O teatro conta no seu repertório algumas grandes óperas, e como não as possa vender por inteiro, fá-las em postas e assim as impinge aos compradores. Fizemos esta reflexão ouvindo cantar nesta mesma noite o duetto da Straniera e o terzetto de Anna Bolena, e achamos o sistema engenhosíssimo.

A cobrecolite continua a fazer estragos no teatro.

O apito do Sr. Pessina vai perdendo a voz; parece-se nisso com certa pessoa que não nomearemos.

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Luís Carlos Martins Pena (1815-1848)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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