terça-feira, 9 de julho de 2019

Os espetáculos da semana (Crítica), de Martins Pena



Os espetáculos da semana

17 de março de 1847.

As atenções da diretoria. Nossos desejos a respeito dos Capuleti. Modos de encarar a ópera. A Streaniera pela Sra. Lasagna. O Hino Nacional. Beatrice di Tenda e os seus cantores.

Não são tantas as atenções da diretoria do Teatro de São Pedro para com o público, que, aparecendo alguma, deixe-se de notar com especial menção e se tenha em grande conta e fineza.

Anunciam, por exemplo, os jornais do dia, espetáculo para a noite; porém ao meio-dia chuvisca por algum segundo, e a gente que ainda se fia em letra redonda dirige-se às horas determinadas para o teatro, e aí chegando, tem o dissabor de o encontrar fechado. Isto é costume tradicional e muito seguido nos nossos teatros; venha dinheiro, dizem os diretores, e dinheiro que faça conta; quando não, vão bater em outra porta, que a nossa não se abre assim tão facilmente. Na terça e quinta-feira anunciou-se espetáculo no teatro de São Pedro; porém desde pela manhã que a chuva caiu em torrentes e se m descontinuar; bastava esta circunstância para servir de desculpa à diretoria s e transferisse as representações que prometera: não o quis, e cumpriu com um dever, que por bondade do público será tido em conta de obséquio. 

Feitos os devidos elogios a quem os merece, passemos a falar dos espetáculos. Os Capuleti na terça-feira estiveram aguados com a muita chuva que caía. O narcótico de Julieta causou efeito geral, e, dormindo sonhamos que toda essa gente tinha morrido afogada, e que unicamente se salvara Teobaldo pela sua alta estatura, passando a vau o Largo do Rocio com Romeu debaixo do braço e Julieta no bolso do gibão. Acordamos espantados,  estava-se apagando o lustre, e nada mais pudemos contar senão este sonho. Somos compassivos e prezamo-nos de ter o coração ainda mais sensível do que os ouvidos, e, apesar disso, confessamos sem vexame que entoaríamos com prazer o De profundis no túmulo de Julieta contanto que estivessem dentro todos os Montescchi e Capuleti. Cremos na transmigração das almas, e esperaríamos então ver as de Romeu, Julieta e Teobaldo animando outras personagens, para nossa satisfação e glórias suas. Se a alma do bom Lourenço ficasse no Cocito ou viesse animar alguma sardinha, lhe rezaríamos um Padre-Nosso por tenção, que é tudo quanto se poderia humanamente fazer. Basta, basta de narcótico! De uma até três vezes toma-se sem risco; mas quando em excesso, mata. Piedade para nós todos!

Com um dia de antecedência diziam os cartazes que teríamos a Straniera pela Sra. Lasagna; e para logo acenderam-se e fervera os desejos dos amigos das comparações: mas veio a chuva e pôs-lhe água na fervura. Nós não recuamos assim com quatro goteiras: fomos ao teatro, e como se retardasse o espetáculo, esperando-se que entrassem mais fregueses, divertimo-nos em lançar nas folhas da carteira as reflexões que se seguem. De duas diferentes maneiras encaramos a ópera, segundo a disposição de ânimo em que estamos, e comoções e efeitos que ela nos causa. Se a poesia se apodera de nossa alma e nos exalta o pensamento, e se com esta predisposição temos a fortuna de assistir à representação de uma ópera bem escrita e cujos cantores conscienciosa e artisticamente fazem o seu dever, encaramo-la como o mais belo e magnífico espetáculo que tem cogitado e cogitará jamais o espírito humano. Vemos nela a reunião de todas as belas-artes, da música, da poesia, da pintura, da arquitetura, da ótica e da mecânica, em uma palavra, a grande obra por excelência, com o seu nome indica – Ópera. – É então a música para nós uma espécie de revelação desses influxos divinos e incompreensíveis que se unem misteriosamente às nossas sensações, a voz da alma, as modulações dos pensamentos ocultos, os acentos das simpatias secretas, dom celeste que desperta as sensações de alegria e melancolia. A cena com todos os seus prodígios de pintura e de ótica transporta-nos pelo poder da imaginação aos remotos tempos e lugares que representam, esquecendo-nos completamente do que ela tem de material e mesquinho. Nos atores, perdendo de vista o que na verdade são, vem os personagens históricas, caracteres e tipos reais, e a ilusão dominando a realidade, com eles sentimos e vivemos de suas vidas.

A ópera, quando assim a consideramos, é um enlevo dos sentidos, é o mais digno e nobre passatempo em que se pode gastar as horas, furtadas ao trabalho.

Mas se nossa alma está despida de toda a poesia, se olhamos para o mundo e para as ações da vida com a zombaria que merecem, e se, assim pensando, temos de assistir à representação de uma mal sabida e mal cantada ópera, de diferente modo a julgamos.

Levanta-se o pano, e se a cena, por exemplo, representa uma praça, vemos, quando muito, uma sala de trinta pés quadrados; de um lado e de outro cinco ou seis bastidores com quatro pinceladas, simulando casas feitas em talhadas; no fundo um grande pano com torres e edifícios arruados e pintados, com rasgões aqui ou ali, os quais, vistos de longe, fingem cavernas na terra ou buracos no céu. Se um homem passa por trás deste pano e o toca levemente, principiam as casas e torres a tremerem e a dançarem como se houvesse terremoto na cidade. Meia dúzia de trapos pendurados ao comprido à maneira de roupa a secar e pintados de azul representam o céu. Uma vela de sebo atrás de uma roda de papel oleado é a lua; quatro tiras de paninho azul diante das luzes dos candeeiros fazem o luar; abaixam-se os paninhos, é o sol. Sai de dentro dos bastidores o cantor ou a cantora, com ridículos vestidos bordados a ouropel; o vermelhão lhes afogueia e ilumina as faces, que descoram com o correr do suor; riem-se sem que ninguém as faça rir, e do mesmo modo choram. Fecham os punhos de raiva, deitam a cabeça para trás, incham as veias do pescoço, caem em convulsões, e arrancam dos atormentados pulmões ganidos e regougo s; atiram-se nos braços uns dos outros, beijam-se e afagam-se quando talvez desejassem arranhar e morder; caem fingem-se mortos, espicham-se no chão; e todas estas momices são feitas a compasso! Na orquestra, uns poucos de homens esfregam os arcos nas rabecas com tal rapidez de braço que causa vertigens, ao mesmo tempo que outros assopram nas cornetas e fagotes com as bochechas intumescidas e luzentes à semelhança de querubins de andor. E o público dos camarotes e plateia, velhos e moços, donas e donzelas, olham para tudo isto de boca aberta, riem-se, choram, aplaudem, entusiasmam-se, e à meia-noite voltam para casa calcando lama, e, quando Deus quer, debaixo de aguaceiro.

A ópera, quando assim encarada, é o mais ridículo espetáculo que nos pode roubar as horas de descanso.

Aqui estávamos com as nossas reflexões filosófico-teatrais, quando a orquestra, ouvindo dar nove horas e cansada de esperar debalde pelos fregueses, principiou a tanger.

Subiu o pano e demos logo uma risada sem saber bem o porquê, sendo seu único mérito revelar o estado de nosso espírito. De poesia, nem um ceitil n’alma; de ilusões, nem átomo; vimos o teatro tal qual é: pinho, linhagem e tintas. O que nos pareceriam os cantores?

Esperamo-los e não tardaram. Sem entusiasmo os julgamos e sem entusiasmo falaremos. O frio da noite tinha-nos resfriado até os ossos.

O aspecto e iluminação do castelo de Montolino são coisas muito de ver-se e capazes de conservar acordado até depois de meia-noite o menino mais dorminhoco. Quando se emprega atentamente um dos sentidos, é sempre com prejuízo dos outros: tínhamos os olhos esquecidos nos lampiões, no átrio e na fosforescente fachada do castelo, e a barcarola de introdução roçou tão levemente por nossos ouvidos que não lhe demos atenção. Bom foi isso, porque poupa-nos o dissabor de dizer que esteve detestável. Valdebourgo e Isoleta vieram cantar o seu duetto, e como quem faz o que sabe não é mais obrigado, não os obrigaremos a que o cantem melhor, porque, sofrível, já vai ele. Estavam bem no meio de suas confidências, quando a Straniera,

Qual ombra errante,

atravessou pelo lago em uma canoinha de pescador rápida como um relâmpago. Pega! pega!... Pois não! nem vestígios. O vento estava fresco e a piroga desapareceu: não havia nada mais natural; e no entanto a tímida Isoleta dá um grito de susto e sai de dentro do castelo um poder de gente espantada e arrepiada, como se tivesse visto alma do outro mundo. Ora, o susto é contagioso: um dos trombones assustou-se e deu um berro desentoado; Valdebourgo assustou-se com os berros e deu outro ainda maior; o coro, assustadíssimo, deu prolongado bramido; e o contrarregra deu um assobio e veio o pano abaixo. Isto de pano abaixo nesta conjuntura, e fora de tempo, precisa de explicação. O contrarregra assobiou assustado, não pelos berros que ouviu, mas sim pela falta de gente para fazer a mutação da cena à vista. Chovia a cântaros, e a gente chamada de movimento, ou por outra, os puxa-vistas, deixaram-se ficar em casa. Há pessoas cujas cabeças regulam-se pela chuva como outras pela lua. Sobre regulamentos teríamos muito que dizer; mas não é este o lugar. Veio o pano abaixo, e o contrarregra, vendo-se sem braços para executar as manobras, esteve quase não quase vindo à boca do proscênio a fim de pedir aos poucos espectadores que havia que quisessem ter a bondade de o irem ajudar. Felizmente não foi preciso recorrer a este extremo. Depois de meia hora de espera, em que estivemos todos na plateia como em nossas casas, lá se foi o pano, que tantas coisas encobre, para o ar, e vimos a cabana da Estrangeira. Entrou Artur. “Então, como vamos de voz? – Sofrivelmente; ouça lá. – Não vai mal! Não vai mal! Está mais clara e robusta; mas a respeito de ser tenor... – Já desisti; prometo que não me meterei em outra. – Pois então conte conosco, que seremos seu defensor, quando for barítono”. Este pequeno diálogo tivemos nós com Artur, pela linguagem dos olhos, enquanto cantava ele a romanza.

Não há quem passeando pelas ruas desta cidade não ouça sair de alguma casa de rótula mesquinha, pobre, sons de piano; não é portanto para admirar que os ouvíssemos também dentro da cabana da Estrangeira. Após o prelúdio levantou-se uma voz aguda e estridente que nos fez saltar da cadeira com arrepio; poucos momentos porém depois vieram-nos as lágrimas aos olhos, porque a voz dizia:

Fior caduca é la beltà,

e nada nos comove tanto como ouvir uma mulher lamentar-se pela perdida beleza. É sabido que cada um lamenta-se do seu modo conforme a força dos pulmões que Deus lhe deu: Norma, nessas ocasiões, solta a voz com suavidade, e Alaíde com estridor; uma curva-se à dor, outra revolta-se contra ela. Artur escuta com um pé no ar estes gritados lamentos, e exclama:

Mestra come il suo cor
Son le sue note...

que vem a dizer: — sua voz é triste como o seu coração. – O maganão, ao pronunciar estas palavras, voltou a cabeça e escondeu a cara. Apostamos que foi para rir-se à vontade. No seu lugar faríamos outro tanto. Boa laia de tristeza!

Artur, assim que avistou Alaíde, surpreendido, deu dois passos atrás, cobrou ânimo e avançou seis para diante. Alaíde fez o mesmo, e foi o resultado deste exercício aproximarem-se um do outro. Estes encontros no tablado são muito bem calculados, e, medidos a compasso, nunca falham.

Como estivessem os dois juntinhos, principiou ela a cantar, e... paramos aqui. A pena salta-nos impaciente debaixo dos dedos e parece querer tratar tão asperamente a Sra. Lasagna, assim como ela tratou a romântica e melodiosa parte da Straniera. Sentiríamos deixar-lhe liberdade neste ponto, e esforçamo-nos para contê-la. Fazemos esforços sobre-humanos para tal conseguir, porque também o espírito sarcástico nos domina; mas a Sra. Lasagna nos merece atenções, e atenciosos seremos com ela desta vez. Além disso, havia no teatro nessa noite, quando muito, trinta pessoas; pode-se portanto dizer que a representação foi em família: esperaremos pois por segunda ocasião para prossegui r na análise começada e termos mais testemunhas do nosso dizer.

O dia de domingo amanheceu puro e sereno; o sol brilhava radiante em céu de azul, como que festejando dia tão grato para todos os cor ações brasileiros (14 de março). Tudo a flux concorreu para nos exaltar o pensamento e levar-nos apressado ao teatro, a fim de vermos o brilhante concurso que aí se ajuntaria, e assistirmos à representação da Beatrice di Tenda. O povo nestas ocasiões solenes nunca falta ao incentivo do dever e do prazer. Os camarotes e a plateia acham-se literalmente apinhados; os diverso trajes de gala davam-lhe realce e brilho. Ao abrir-se as cortinas do camarim imperial vivas de entusiasmo repercutiram na sala, grande número de versos foram espalhados pela plateia, e levantando-se o pano, os artistas da companhia italiana entoaram o hino nacional, cujas letras, em italiano e português, e por eles oferecidas ao motivo do dia, foram conjuntamente distribuídas pelos espectadores. As estrofes foram cantadas pelas senhoras Candiani, Lasagna, Mugnay e Barbieri, sendo excluída a Sra. Meréa. Sentimos que assim tivessem procedido com esta última cantora, afastando-a de tomar parte nessa demonstração de gratidão e respeito. On de canta a Sra. Barbieri pode muito melhor cantar a Sra. Meréa. Em certas ocasiões seria muito de desejar que desaparecessem as proteções. Tratemos da ópera. Havia-se anunciado I Puritani; adoecendo porém o Sr. Fiorito, foi esta ópera substituída pela Beatrice. A Sra. Candiani, que a devia cantar, achava-se debilitada pelo seu estado de saúde e pelo seu estado de fraqueza, como textual e luminosamente anunciou-se. Prevenidos pelo farol, já de antemão a desculpávamos se cantasse mal; graças porém à sua boa estrela, ou antes à sua bela voz, não foi preciso grande soma de indulgência para lhe revelarmos algumas imperfeições. Fraca e debilitada esteve a Sra. Candiani, como ela mesma já o previa, em todos os allegros e stretta do primeiro ato; porém nos adágios e andantes o suave timbre de sua voz deu encanto à música. A cavatina foi bem desempenhada; o largo do dueto com Filippo foi dito com sensibilidade e arrancaria aplausos se a solenidade do dia os não embargasse; no quintetto, quando a sua voz se une à de Orombello, que se queixa dos tratos que sofrera, causou geral comoção.

Há nesta ópera uma inspiração poética e melancólica; queremos falar da preghiera de Beatrice junto da estátua de Facino Cane; tomada porém no movimento agitado que lhe deu a orquestra, perde muito de seu efeito. Cremos que na partitura está marcado allegro-moderato, e isto desculpa um pouco o mestre do canto; mas tão frequentemente se alteram os andamentos designados pelos maestros, que seria de desejar que este o fosse para maior beleza e expressão do canto.

A Sra. Mugnay na parte de Agnese, e o Sr. Mugnay na de Orombello, pouco trabalham nesta ópera: à exceção da romanza daquele, e no duetto, que andaram sofrivelmente, nada mais merece particular análise. Não deixemos de notar a maneira expressiva e bem sentida com que o Sr. Mugnay executou o quintetto. Pálido, fraco, nos braços dos guardas que o conduzem, sua voz melancólica e quebrada como que s e ressente dos tratos que sofrera o corpo; pouco a pouco, lembrando-se do seu amor e dos iníquos tormentos por que passara, olvida as dores que o prostram, seus acentos vão gradualmente crescendo, um brado de imprecação forte e enérgico solta-se-lhe dos lábios, os olhos se lhe avivam, e torna de novo a cair em abatimento. Quiséramos ver sempre o Sr. Mugnay cantar e representar com tanta inteligência.

É de grande satisfação para nós podermos mostrar que as nossas censuras não são filhas de indisposições pessoais, e que somente aos artistas se dirigem, segundo entendemos que desempenham as partes de que se encarregam. Dissemos que o Sr. Massiani havia desempenhado mal a parte de Torquato, porque assim o pensamos; e decorreram apenas oito dias, que já temos a satisfação de fazer-lhe os merecidos elogios pela maneira por que compreendeu o papel de Filippo. O primeiro papel estava inteiramente fora de seu caráter e voz, e o segundo perfeitamente adequado; daí as censuras e os louvores, para o que nada mais concorreu.

Na romanza do primeiro ato e no duetto, modificou a voz, soltou-a com a necessária vibração, sem esforço, caretas, e agradou a todos: ele mesmo devia ler nessa multidão de olhos que o encaravam que neles havia um sentimento de prazer, e não de susto e repugnância, como das mais vezes que canta a estalar. A ária do segundo ato, quando assina a condenação de Beatrice, foi dita com expressão de arte. Repetiremos ao Sr . Massiani o que acima dissemos ao Sr. Mugnay: quiséramos vê-lo representar e cantar sempre assim. Fácil é o segredo: escolher papéis apropriados e domar a voz em seus justos limites.

Em consequência do incômodo da Sra. Candiani, a ópera não chegou ao fim, suprimindo-se o lindo terzettino e o rondó final. O espetáculo já ia extenso para dia de gala; mas a diretoria, que tem às vezes a consciência timorata, julgou que assim ganharia mal o dinheiro do público, e ordenou que se cantasse no intervalo dos atos a cavatina de Belisario pela Sra. Lasagna, e a da Straniera pela Sra. Meréa. Nada diremos sobre estas duas peças de música, por não apresentarem particularidades notáveis além das que temos apontado em outras ocasiões, limitando-nos somente a pedir a M. Maugé que sustente com mais fôlego e ligação o seu acompanhamento de flauta, obrigada no andante da última cavatina. A exceção das pessoas que lhe estão a quatro braças de distância, ninguém percebe o que diz a flauta nesse tão bem imaginado acompanhamento. Assopre e não se escandalize conosco.

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Luís Carlos Martins Pena (1815-1848)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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