terça-feira, 9 de julho de 2019

Marinangeli (Crítica), de Martins Pena



Marinangeli

20 de janeiro de 1847
Teatro de São Pedro de Alcântara

Lindíssimo fogo de vistas, em benefício do Sr. Marinangeli.

Benefício do Sr. Franchi. Algumas observações.

Lia-se, há dias, nos jornais da Corte, nos anúncios de espetáculos, o seguinte: Lindíssimo divertimento da companhia italiana, em benefício do primeiro tenor Marinangeli. Haverá o Barbeiro de Sevilha, com os competentes recheios para fazer o lindíssimo divertimento mais digno do respeitável público, a quem se promete muito agradável noite com o concurso dos amadores; e fazendo apêndice a tudo isto uma história de Columella no meio dos doidos, que tocarão em instrumentos fingidos as melhores ouvertures dos grandes maestros, etc.

Ao depararmos com semelhante anúncio, veio-nos à lembrança os dos senhores De-Vecchy e Yorck, quando dizem: haverá no Tivoly um lindíssimo fogo de vista. Nem outra ideia podíamos ter ao ler semelhante destampatório. Pois, na verdade, o Sr. Marinangeli não teve uma única pessoa a quem consultar sobre o anúncio do seu benefício antes de o mandar publicar do modo por que estava redigido? E a pessoa no teatro a quem estes anúncios são submetidos antes de publicados não o podia corrigir por deferência à nossa pobre língua e bom senso público? Mas dizem os espertos na matéria que os anúncios de benefícios devem ser esdrúxulos; que daí é que lhes vem o mérito e os cobres da récita. Se tal foi o pensamento do Sr. Marinangeli, podemos lhe assegurar que andou avisado no negócio e que sabe muito bem arranjar a sua vida; assim soubesse ele não se deixar adivinhar como certo planeta do nosso conhecimento!

Não é nada: o lindíssimo fogo de vistas e os doidos que fingiam, levaram uma torrente de povo ao teatro, que o encheu de alto a baixo. Sinceramente damos os parabéns ao Sr. Marinangeli pelo brilhante benefício que fez, assim como ao teatro, que foi de meias com ele.

É coisa muito séria na época presente fazer passar o dinheiro de tantas algibeiras para uma só, cujo dono ainda em cima é aplaudido. Isto é milagre que fazem só as gargantas; porque, se outro tanto quisessem fazer as mãos, chamar-lhe-iam  ladroeira.

Vamos ao lindíssimo fogo. Deu princípio a ele o Sr. Ribas e os seus ajudantes, atacando a ouverture; levantou-se o pano, e foram aparecendo as diversas peças de que se compunha, por sua ordem e tempo. Em primeiro lugar, viram-se alguns foguetes formando uma girândola ou coro conduzido por um traque da China. Estas girândolas pegaram bem. O traque da China esteve espertinho, tanto na qualidade de condutor de serenata como de cabo da guarda. Veio depois uma grande roda-viva embrulhada em capa branca. Esta roda ia falhando umas poucas de vezes; cremos que a pólvora estava molhada ou que o estopim era de má qualidade. Foi milagre não gritarem os moleques: “Fora o fogueteiro!” Em algumas ocasiões a roda-viva girou com rapidez, mas o fogo era descorado e não fazia vista. Deve-se porém levar em conta a boa vontade, figura e esforços que fez para brilhar. Teve suas palminhas, o que não é de desprezar, principalmente por ser coisa com que muito poucas vezes se tem benzido.

Depois desta roda, causa primordial de todo o fogo, apareceu o barbeiro, o qual trazia, em vez do rebolo tradicional, um violão a tiracolo. Vinha gamenho e folgazão, as pernas lhe não pesavam, e girando de um lado para outro, preencheu muito bem a sua parte, com boa vista e soído. Algumas vezes desmentiu o que dizia de si, que era um barbier di qualità, espirituoso como ele dizia ser, não se abaixa tanto a caricaturar o seu papel para fazer efeito. O modo por que fez a barba e o tamanho da navalha são mais próprios de figurar em fogo de aldeia do que diante do tão conspícuo auditório da capital.

De todo o lindíssimo fogo, incontestavelmente a melhor coisa foi a boneca. Vestida com gosto e garridice, viva, espirituosa e animada, com aqueles olhinhos a cintilarem, despertou as simpatias e os aplausos. O seu primeiro rodar foi indeciso, como que receosa por tantos olhares que nela se fitavam, e talvez duvidosa da substituição que ia exercer de uma antiga boneca de fogo que já havia colhido grandes aplausos deste mesmo público. Mas esta desconfiança foi desaparecendo pouco a pouco e a bonequinha fez prodígios. Com aquela fisionomia viva em que se lia o ardil que o amor desperta até nas mais ingênuas, corria com gentileza ora para o barbeiro, a fim de que lhe desse este novas do amante, ora para o próprio amante, a queimar-se no fogo, ainda que franco, de sua roda. Ou então, fugindo à bomba do Tutor, desaparecia, deixando a todos com desejo de a tornar a ver. Em todos os fogos de artifício, desde tempo imemorial, foram as bonecas as que mais mereceram do público e suscitaram prolongados aplausos; ainda uma vez foi este costume observado, e com muito boa razão. A pirotecnia teatral está aperfeiçoada, e um fim diverso e mais humano deu à linda boneca. Todos sabem como costumam acabar estas no campo de Santana e no Tivoly, arrebentadas e incendiadas. Esta cá não, e seria de lastimar se assim fosse. Intacta ficou, e pronta para nos abrasar outra vez em suas chamas.

O contraste é um dos segredos da arte que mais fazem sobressair o belo. O fogueteiro teve este preceito em vista quando colocou junto da gentil boneca, para a perseguir como um tutor cioso, uma bomba impertinente. De todos os fogos é este o mais incômodo ao ouvido e menos agradável à vista. Em todas as rodas e mais artefatos da pirotecnia há sempre uma bomba final cujo estouro faz piscar os olhos a todos; esta de que falamos não só causou isso, como obrigou-nos a abanar a cabeça, assim como quem diria: isto não vai bem. Alguns estouros estiveram sofríveis, e o modo por que atrapalhou a boneca e se deixou apagar pelo barbeiro amolador não deixa de ter tal ou qual merecimento. De boa vontade preferimos o ruído desta bomba ao zunido do vento do Tirol.

Não deixaremos de mencionar uma longa pistola envolta em guita preta, que principiou piano-piano e acabou com un colpo di canon. Esteve boa; gostamos da apropriada figura que fazia e do descarnado do todo. Há bem tempo que não vemos pistola que excitasse mais hilaridade e deitasse menos lágrimas.

Seria injustiça se nos esquecêssemos da fragata, que fez tão bonito fogo. Não tinha castelo a combater, mas salvou com primor. Fez a sua parte muito bem, e se não estivesse tão velha e não metesse tanto de proa, arriscava-se a levar alguma abordagem; porém, graças a Deus e às diligências que fazia para fugir ao perigo com panos largos, não sofreu avaria. Ainda bem! Que esta fragata, segundo nos dizem, tem sido maltratada pelos pilotos da costa, o que deu causa a não ser vista há muito tempo por estas paragens. Damos-lhe de conselho que para se vingar atire uma banda, que tem artilharia e força para isso.

Acabada a primeira parte do lindíssimo fogo, em que figuraram, em dois diversos atos, as peças que deixamos mencionadas, ora sós, ora em diferentes encontros, tivemos a terceira parte, na qual apareceram uma rodinha da sécia, um foguete do ar em forma de cartucho de amêndoas, a bomba e as girândolas . Sem muito exigir, pode-se dizer que a rodinha girou com suavidade, que mereceu distinção pública, e que nas suas delicadas proporções houve-se com graça. A bomba que a acompanhou, cremos que estava desta vez carregada com algodão-pólvora; porque não fez tanto fumo inútil, e melhor mostrou ao que tinha vindo. O foguete do ar... ah! que foi um gosto vê-lo na sua ascensão!... Enfeitado de veludos e sedas vistosas, não quis subir às nuvens sem levar flutuando ao lado as cores brasileiras em quatro longas fitas, para assim mais merecer. Este foguete teve, entre outras manias, a das cores nacionais. Já houve quem o visse atravessar o céu do Tirol com as cores francesas, e agora aparece com as brasileiras. A rapaziada patriótica ficou entusiasmada com a lembrança, e querem ataca r o foguete para que ele suba até as nuvens, e de lá paire orgulhoso sobre todos. O desejo é louvável, e a ascensão, ainda que falhada, vai sendo brilhante; mas cuidado com a volta da flecha, que descerá com mais rapidez do que subiu, para cair por aí algures, e sabe Deus onde! Isto é uma moralidade em que os foguetes deviam meditar, se os foguetes pudessem meditar. Querem subir sem se lembrarem da queda; mas lá vem um dia que chove ou que acendedores não têm fogo, e adeus foguete!

A peça final é, como de costume, uma alegoria. Aparece em um quadro iluminado, que mostra uma casa de doidos, um homem cantando: Femine! femine! femine! que quer dizer: ó mulheres! mulheres! diabos!... Este homem representa a diretoria do teatro arrepelando-se por causa das cantoras, e dando-as ao demo e suas pretensões. Momentos depois uma súcia de doidos assaltam ao homem, tocando em instrumentos fingidos as melhores ouvertures dos mais acreditados maestros. Cada um dos doidos quer obter a atenção do pobre homem, que, vendo-se atrapalhado e atormentado, quer deitar a fugir; mas não foge por amor-próprio e presunção de ensinar a doidos, n o que muito se engana. Estes doidos com seus instrumentos fingidos representam os cantores do teatro com suas vozes fingidas ou engasgadas, executando as melhores óperas dos mais acreditados maestros, e atropelando e atormentado a diretoria para os contratar, a qual pretende às vezes fugir deles; mas certa ideia oculta a retém no seu posto, apesar dos embates e descomposturas com que aguenta.

Com tão engenhoso transparente dá fim o lindíssimo fogo de vistas, que custou a nós todos não sei quantos mil-réis, e que por algumas horas nos trouxe entretidos.

A semana foi toda de beneficência. Depois do benefício do Sr. Marinangeli, logo na noite seguinte tivemos o do Sr. Franchi. O anúncio deste nada apresentava de notável, e por isso não lhe ocorreram tão bem os abençoados cobres . Obsequiou-nos com a Lucrezia pela décima ou duodécima vez, e mais alguns entremeios,de que iremos falando.

Da Lucrezia já muito se tem dito, e voltar à carga seria fastidioso. Nela estreou a Sra. Lasagna, como todos sabem, e desde então a sua reputação tem ido em aumento.

Cabe aqui uma observação digna de se fazer e ficar em memória. Nos primeiros tempos da companhia italiana todos os elogios e aplausos eram poucos para as tenutas e notas suaves e amortecidas dos sopranos, ao mesmo tempo que se exigia dos tenores violência e vibração de voz. Presentemente o caso é outro: quer-se que os sopranos tenham força como a Sra. Lasagna, desprezando-se a voz da Sra. Candiani, dizendo-se que só é própria para modinhas, e que os tenores cantem falsettino ou com surdina, e com tanta suavidade que só eles se ouçam a sim mesmos. Entendam essas mudanças de gosto e digam se é isso negócio de fé ou de cisma.

De todas as músicas cantadas no teatro pela Sra. Lasagna, o rondó final da Lucrezia é sem dúvida nenhuma o em que ela emprega com mais vantagem a sua voz vibrante e poderosa. Agrada-nos ouvi-la nesta e em outras ocasiões análogas; mas como não somos amigos dos privilégios exclusivos, dizemos que muitas vezes a aspereza da sua voz nos faz lembrar com saudades a Sra. Candiani. Serve cada um para o que serve, e o mais são partidos.

O Sr. Sentati parece que só foi contratado para fazer de Gennaro. Julgamos que a diretoria, em vista do seu físico, hesita em confiar-lhe outro papel. Não sei quantas vezes tem morrido envenenado e ressuscitado qual outra Fênix,e para dizer eternamente: son un Borgia! Parece que o veneno da querida mãezinha, em vez de o matar, abre-lhe a voz cada vez mais.

Veja se reparte um pouco do tal veneno com os senhores Tati e Marinangeli, que será obra de caridade. Tínhamos curiosidade de saber a como tem saído à empresa cada nota do Genaro. Ajuntar dinheiro em santo ócio, e passar vida folga da e divertida como os cantores do Rio de Janeiro, só no reino de Cocagne. Não há nada melhor: o exército cantante é numeroso e as folgas extensas; só os miserandos coristas... Pobre gente!

Deixando de parte estas irregularidades de serviço que à diretoria pertence equilibrar, e que só notamos de passagem, prosseguiremos na análise do espetáculo.

A Sra. Barbieri vai se tornando uma potência no teatro; os seus entusiastas, a quem se pode disputar bom ou mau gosto, por depender isso de opiniões, são incontestavelmente os primeiros palmistas do mundo... Que palmas!... Este mérito ninguém lhes rouba; assim escolhessem melhor as ocasiões. Porém a inveja, que se persegue sempre o mérito, responde com pateada às palmas do entusiasmo. É isto muito malfeito, porque Deus, quando concedeu mãos a certos homens, foi para darem palmas a torto e a direito. Lá se avenham; mas por caridade deixem que as pessoas pacíficas que vão ao teatro gozem do espetáculo em paz e sem perturbações extemporâneas.

Entendamo-nos: não pareça a alguém que temos a menor indisposição com a Sra. Barbieri; não: nem com ela, nem com nenhum artista da companhia. Bem longe está de nós a animosidade pessoal. Fazemos nossas observações par a o fim que já deixamos apontado no folhetim transato. Seremos sempre os primeiros a fazer elogios aos artistas que os merecem, sem distinção de pessoas, e teremos por muito agradável esta ocupação.

Cantou o Sr. Tati a ária debaixo da Parisina, e justos e merecidos aplausos recebeu. O Sr. Tati parece que já vai compreendendo que não pode sustentar a posição de tenor, que quis tomar no teatro. Se este cantor, impelido pelo desejo de escriturar-se, não se tivesse dado como tenor e se contentasse em ser barítono, não passaria por tantos embaraços e dissabores, e seria hoje o mais conceituado da companhia, porque mérito, e muito tem ele. Na nossa humilde opinião julgamos que a diretoria dará passo acertado escriturando-o como barítono; valiosos serviços pode prestar nessa qualidade, e todos o ouvirão em cena com prazer.

Estamos convencidíssimos que o Sr. Tati pensa como nós, e, se o não confessa, é por vexame.

Pois fará mal.

Quem viu o Sr. Franchi no Elixire pode fazer ideia do que ele é em todas as óperas. Com aquelas pernas curvas e andar trôpego, torna to das as personagens que representa como que semelhantes, o que é grave defeito, principalmente em um cantor bufo. Com a boa pronúncia que tem e voz sofrível, variando o jogo de cena, será cantor aproveitável.

Para finalizar, permita a Sra. Lasagna que lhe façamos uma censura. Foi falta de delicadeza da sua parte cantar o dueto da Linda de Chamounix depois de ter sido ele cantado pela Sra. Meréa. Uma prima-donna de reputação e mérito foge de vexar a uma companheira que ocupa o modesto lugar de segunda dama e que não tem pretensões. A ação não foi bonita.

Que o Sr. Franchi quisesse cantar o mesmo dueto que o Sr. Vento, bem: estão em confrontação e tratam dos seus novos contratos; mas ela!... O Sr. Franchi já teve o troco. Se cantou melhor que o Sr. Vento no dueto, três dias depois o Sr. Fiorito, apesar de não ser baixo-cômico, cantou também muito melhor a ária de D. Gherardo. Ninguém as faz que não as pague.

Até para a semana.

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Luís Carlos Martins Pena (1815-1848)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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