terça-feira, 9 de julho de 2019

Os Diamantes da Coroa (Crítica), de Martins Pena


Os Diamantes da Coroa

17 de JANEIRO DE 1847
Teatro de São Francisco

E era um dia... Não, não comecemos em tom de história da carochinha, porque o fato é verdadeiro como a verdade, épico como a guerra de Tróia, pindárico como um triunfo nos jogos olímpicos; falemos pois com a seriedade que o caso merece. Se não nos podemos guindar à lírica sublimidade ou à grandíloqua eminência da epopeia, fiquemos na rasteira e singela narração da verdade... mas como, se a verdade aqui parece peta?... Como, se a verdade aqui para não provocar indignação, carece de ser auxiliada provocando bom frouxo de riso?

E pois era um dia, e na capital de um vasto império, liberal e ilustrado, que de há muitos anos goza da vantagem do regime representativo e da liberdade, isto é, da vantagem de ler, quatro ou seis meses por ano, discursos demostênicos, cotidianamente discussões e novidades jornalísticas, e de vez em quando o seu trecho de interessante, moralíssima e espirituosa novela; nessa capital, onde, se é solta a língua dos palestrantes, não menos soltas são as penas dos jornalistas de profissão ou dos jornalistas acidentais; nesta capital enfim, que se chama o Rio de Janeiro, havia uma associação mai s ou menos literária, composta de... todo o mundo e de mais alguns literatos de polpa, com o fim de fecundar o solo dramático brasileiro, e fazer crescer e medrar a arte teatral no império. A essa sociedade o governo, protetor das letras, querendo dar um sinal de sua atenção e fazer-lhe honra, cometeu a atribuição policial da censura das composições dramáticas, para vedar a representação de peças imorais, de declamações que solapassem as bases da sociedade civil, religiosa ou política. Querem alguns que o governo não podia fazer isso... Deixemos porém esses chicanistas lá com as suas argumentações: a prova de que o podia é que o fez; fê-lo já lá vão seus bons cinco anos, e fá-lo, e todos se lhe sujeitam; ergo...

Revestida a tal associação do direito de censura, julgareis sem dúvida que compreendeu ela a importância da atribuição que lhe era conferida, e que tratou de corresponder à expectativa do governo, que lhe conferia a missão de vigilante salvadora da moralidade pública nos teatros? Pois não! Era de crer que a sociedade nomeasse uma comissão do seu seio, composta dos seus membros mai s hábeis para exercerem essa censura sobre todas as peças, com igual critério, igual espírito de acertar... Em vez disso, eis aí como se procedeu: o presidente da associação reservou-se o direito de regular esse trabalho, e na lista inúmera dos sócios escolhe, não sabemos se por capricho ou por escala, dois a quem remete a composição dramática para ser revista. Um após outro a examina, cada um dá a sua tenção escrita, na forma dos antigos tribunais de justiça, sem combinar com a opinião do colega, sem saber qual essa opinião nem qual esse colega. Afinal o presidente toma as duas tenções: se estão conformes, lavra a decisão que delas se conclui; senão, examina ele a composição dramática e adota um dos dois pareceres, o que mais lhe apraz.

Desse modo extravagante de exercer-se a censura dramática seguem-se irregularidades esquisitíssimas: aqui um censor mais severo repreende que em uma comédia se dê um beijo. – Um beijo em cena! Exclama indignado, nada de beijos!

...Cela fait venir de coupables pensées,

especialmente se a atriz for bonita e moça. Outro c ensor, porém, em outra peça, outro censor menos erótico ou talvez

...moins tendre à la tentation,

Passa pelo beijo como pela coisa mais comum deste mundo e sem lhe fazer o menor reparo. Daí resulta que temos às vezes peças em que contra a vontade do autor primitivo, os atores jejuam de beijos, outras em que os podem dar e levar a fartarem-se.

A qualidade mais distinta dos nobres censores é um zelo contra o maior e os pecadinhos que ele faz cometer, é um fervor santo pela honestidade do casamento, é uma guerra sagrada contra certos chistes menos discretos; qualidades nimiamente respeitáveis, que poderão em breve dar cabo de todas essas composições graciosas que abundam no teatro moderno, de todas essas composições que despertam o riso, ainda dos mais preocupados; mas que, em compensação, tomando ao pé da letra o extravagante axioma “o teatro é a escola dos costumes”, dar-nos-ão em breve representações teatrais tão divertidas como aí uma aula de lógica em dia em que se defendem conclusões... Se com isso ganhasse a moralidade pública!... Mas esses senhores parecem querer nos fazer voltar ao tempo em que os pais não mandavam ensinar a ler e a escrever às filhas para que não escrevessem cartinhas de namoro nem lessem as gracinhas escritas pelos namorados; belos tempos em que o casamento quase que não existia, em que o concubinato era geral. Nesses tempos, as moças nem podiam chegar à janela senão pelas frestas de uma rótula que devi a resguardar sua beleza dos indiscretos olhares do homem, mas que a nada obstavam, e até aguçavam o desejo pelo espírito de contradição que ditou aos romanos o seu vetita placent, que antes deles levou a primeira das Evas a comer a fruta do bem e do mal, e que ditou às Evazinhas desse belo tempo a que nos referimos o enérgico protesto:

Minha mãe não quê que eu fale a Pedro;
Eu a Pedro hei-de falá,
Se não fô pela p orta da rua,
Há de sê pela douintáq.

Embalde porém tentem os censores puxar para trás o carro da civilização e do progresso; poderão, sim, contribuir para a morte e extinção do teatro em língua portuguesa em nossa terra mas não nos hão de levar a esses belos tempos de hipocrisia e de afetação de moralidade que tão longe estão da verdadeira moralidade.

Nunca porém os exímios censores se mostraram mais chibantes do que por ocasião da ópera francesa – Les Diamants de la Couronne. Aí inflamou-os, não o zelo pelos bons costumes, não o ódio ao amor e a tudo quanto se lhe s segue; porém o zelo ainda mais patriótico e sublimado, um zelo eminente pela monarquia e pela dinastia imperante.

A fábula da peça, assaz conhecida hoje dos nossos leitores, dá uma rainha de Portugal, que, em vésperas de sua maioridade, vendo exaustos os cofres públicos pelas habilidades do conselho de regência, ajusta-se com um chefe de bandidos, contrabandistas e moedeiros falsos, que tem muito jeito para fabricar brilhantes, para que lhe substitua por diamantes falsos todos os diamantes da coroa, e que lhe mande vender pelas praças da Europa os diamantes verdadeiros; assim aproveita essas inutilizadas riquezas em bem de seus súditos, e habilita-se para governar sem empréstimos e sem novos impostos.

Ora, com isso embirraram os censores. Uma rainha e uma ilustre bisavó de Sua Majestade Imperial, cometendo uma ação tão indigna, entendendo-se com gente dessa laia, indo ter com eles, sob um disfarce, pra presidir aos trabalhos que lhes encomendou, e, embora lhes vedasse nesse ínterim o contrabando e o roubo, protegendo-os, dando-lhes desejo de mudar de vida, e fazendo-os sair do reino em vez de entregá-los à justiça!... Não, não, não; isso não se há de representar no Rio de Janeiro, não: porque isso é abater a régia majestade!

Embalde se lhes dizia: – Senhores da censura, olhai que é uma peça de música e em língua estrangeira, e que nessas peças o merecimento dramático desaparece sob o merecimento musical; apenas sobressai por um ou outro dito mais ou menos agudo. – Não! respondiam os censores. – Olhai, senhores, que essa peça foi representada e aplaudida por toda a parte, até mesmo em Portugal, sem que a português algum ocorresse a mais pequena lembrança análoga a essa vossa... – Não! respondiam os censores. – Olhai que essa ação mesma que pratica a rainha da ópera é toda fábula,e que todos a veem e aceitam como fábula para composição da ópera. – Não! respondiam os censores. – Olhai, senhores, que essa ação atribuída à rainha poderá ser um tanto indiscreta e essencialmente inverossímil, mas ao menos honrosa; uma rainha que sacrifica seus brilhantes, que se resigna a adornar-se com vidrilhos para não recorrer a impostos e a empréstimos, isso é até de ótimo exemplo, é até muito consolador para os povos, muito honroso para Maria I, se o houvesse ela feito. – Não, não, não! Temos dito, repetiam os censores.

Em vista de tão firme propósito, a indignação pública despertou-se, e os amantes da cena lírica francesa já amaldiçoavam a absurda severidade que lhes privava de uma das melhores composições do repertório francês... Súbito porém se lhes anuncia: — Os censores enfim aplacaram-se, disseram: Sim... Os Diamantes da Coroa têm de ir brevemente à cena. Então, como foi isso? como se fez o milagre? – Oh! fizeram-se mudanças extraordinárias, cortes profundos! – Mau! Diga-nos porém, com a prosa de Scribe e com algum dos seus versos, cortou-se modificou-se alguma coisa da música de Auber? Houve mão tão sacrílega que nem respeitasse a harmonia? – Não; a música está intacta. – Então paciência, iremos ver.

E em breve foi a peça levada ao palco cênico... Então pôde-se admirar os escrúpulos dos censores. Se não fosse a superioridade da composição de Auber que surriadas não teriam desagravado o bom povo do Rio de Janeiro do insulto literário que lhe havia sido feito pelos censores! A peça se passa na Dinamarca; ainda bem. Não é a coroa da Dinamarca das mais afamadas pela sua riqueza em brilhantes; mas enfim vá essa concessão. Em correspondência a essa mudança, fizeram-se mudanças idênticas nos nomes das personagens; tudo passou a dinamarquesar-se. Santa Cruz passou a ser Turvik, Pedro passou a ser Peters, e assim por diante. Feita essa transformação, Jesus, meu Deus! que espantoso milagre se operou! A ópera cessou de ser antimonárquica, antidinástica; os espectadores puderam, a paz e salvo, e com todo o sossego de suas consciências, divertir-se, dar palmas, passarem algumas noites cheias no teatro de São Francisco.

Nesse dinamarquesamento da peça a atenção não podia ser tão completa que não deixasse alguma coisa aportuguesada, nem a memória dos atores tão fiel que tivesse sempre pronta a substituição: assim, se Santa Cruz chamou-se Turvik, um Sebastião sempre lá ficou para dizer que ação da peça era portuguesa; se dera m à coroa de Dinamarca um diamante de grande valor chamado – a brasileira – em compensação deram-lhe a inquisição, que nunca fez em kopenhagen arder as suas fogueiras; se lhe outorgaram para educação das meninas um convento da Trindade (a um país protestante), também lhe deram soldados que ajoelham diante de uma procissão de penitentes; e enfim, se, mentindo à geografia como a tudo o mais, deram-lhe serras importantes, deixaram-lhe moedas espanholas na circulação, como sejam os maravedis. Ora pois, descansem os manes de Maria I. No céu, onde para sem dúvida a sua alma bem-aventurada, admire o zelo que ainda há nos censores brasileiros pela sua glória, e se, na sua Lisboa, a insultaram com a representação dos Diamantes da Coroa, quais os escreveu Scribe, veja ela que no Brasil antes quiseram que fosse insultado o bom senso com disparates de toda a casta, do que se dissesse que para governar sem impostos nem empréstimos havia ela na sua minoridade (embora o seu reinado não houvesse começado por uma minoridade) tomado algumas vezes o nome de Catalina e o trajar de cigana para vir cantar música divina... em um tablado.

E pois, agradecida a tanto zelo, volva, lá do céu,os seus benignos olhos para os devotos censores, e em paga implore ao Altíssimo que lhes dê... que lhes dê... dois dedos de juízo... Amém!



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Luís Carlos Martins Pena (1815-1848)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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