terça-feira, 2 de julho de 2019

Monumentos pátrios (Ensaio), por Alexandre Herculano



Monumentos pátrios
Diz-se que uma das mais belas missões da imprensa é defender a boa razão, a arte, e a honra e glória da Pátria. Imagina-se ampla colheita de renome, de bênçãos, de vantagens de toda a espécie para o escritor que alevanta a voz a favor do bom, do justo e do belo, se a voz do que escreve é assaz poderosa para se esperar que mova os ânimos dos seus concidadãos. E com efeito, indicar a estes o reto caminho, quando transviados; tentar afeiçoá-los a nobres e puros sentimentos; fazê-los amar o solo natal; despertar-lhes afetos pelo que foi grande e nobre na história do país, parece que deveria produzir frutos de bênção para o escritor que o tentasse. Não é, todavia, assim. Há para isso um obstáculo quase insuperável; a superstição pelas ideias e tendências do presente, mais cega que a superstição pelas crenças do passado. As paixões são mais enérgicas do que as reminiscências, as aspirações que as saudades. Glória, lucro, respeito, bênçãos são para aquele que afaga com palavras mentidas as preocupações populares; para aquele que, sem discrime, louva, adorna ou repete como eco as opiniões que ao redor dele, talvez por cima dele, esmagando-lhe a consciência, passam como torrente. Tumultua o gênero humano correndo ao longo dos séculos: o louvador, às vezes o promotor do tumulto, se a natureza lhe concedeu imaginação e talento, vai adiante como capitão e guia da geração que corre ébria: incita-a, arrasta-a, deslumbra-a. As coroas voam-lhe do meio do tropel sobre a cabeça. Verdade é que ao cabo do tanto lidar ele se despenhará com essa geração no abismo do passado; verdade é que o abismo se fechará para ele com o selo da reprovação de cima, e que, porventura, não tardará que o futuro passe por aí a sorrir, ou se afaste com tédio do sepulcro dealbado do erro ou da vilania. Mais isso que importa? O homem que vendeu ao século a consciência e o engenho, que Deus não lhe deu para mercadejar com ele, foi benquisto e glorificado enquanto vivo; foi antessignano do progresso, embora este seja avaliado algum dia como progresso fatal!
Mas que pode esperar aquele que, nessa longa e ampla estrada do tempo, por onde o gênero humano corre desordenado, quiser vir, do lado do futuro e em nome do futuro, dizer à geração a que pertence: — parai lá? — Embora a sua voz troveje: embora as suas palavras devam fazer vibrar todas as cordas do coração e despertar todas as convicções da alma: não espere ser ouvido. As multidões continuarão a passar desatentas. Escarnecido, amaldiçoado talvez, dormirá esquecido na morte, e os sábios e prudentes cultores de uma filosofia corrompida e egoísta dirão, com insultuosa compaixão, ao passar pelo que jaz no pó: — Pobre louco, recebeste o prêmio de querer contrastar o século!
O que havemos dito é crua verdade; mas é a verdade. Há nesta época dois caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem precipícios, mas que conduz à prostituição da inteligência; outro, vereda estreita, tortuosa, malgradada, mas que se dirige ao aplauso da própria consciência. Aqueles cujas esperanças não vão além dos umbrais do cemitério e que aí veem, não o termo da sua peregrinação na terra, mas o remate da existência, que sigam a fácil estrada. Nós, porém, que guardamos para além da vida as nossas melhores esperanças, tomaremos o bordão do romeiro e iremos rasgar os pés pela vereda de espinhos. Resignar-nos-emos nos desprezes e, como os soldados do eremita Pedro, que, pondo a cruz vermelha no ombro para irem morrer na Palestina, clamavam—"Deus assim o quer! Deus assim o quer!"— diremos também: —"soframos o menoscabo e o vilipendio: soframos que assim o quer Deus."
É contra a índole destruidora dos homens de hoje que a razão e a consciência nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo eremita, todos os ânimos capazes de nobre esforço para nova cruzada. Ergueremos um brado a favor dos monumentos da história, da arte, da glória nacional, que todos os dias vemos desabar em ruínas. Esses que julgam progresso apagar ou transfigurar os vestígios venerandos da antiguidade que sorriam das nossas crenças supersticiosas; nós sorriremos também, mas de lástima, e as gerações mais ilustradas que hão de vir decidirão qual destes sorrisos significava a ignorância e a barbaridade, e se não existe uma superstição do presente como há a superstição do passado.
A mais recente quadra de destruição para os monumentos, tanto artísticos como históricos, de Portugal, pode dividir-se em duas épocas bem distintas. Acabou uma: a outra é aquela em que vivemos.
A última metade do século XVIII e os anos já decorridos deste século tem sido um período de reforma ou antes de revolução. A revolução não é de ontem. Quase sempre as manifestações ruidosas e, digamos assim, externas das épocas de grandes transformações vem muito depois de iniciadas estas. No seio da fórmula social que vai fenecer há a gestação da fórmula social que surge. Quando as labaredas rompem pelas janelas do edifício, há muito que o incêndio lavra pelo interior dos aposentos.
Entre nós, as reformas começou-as um homem grande, mas que era homem do seu tempo. Gênio positivo e mui pouco especulativo, ministro de um rei absoluto, e sabendo que, se não caminhasse depressa, ficaria no caminho, o marquês de Pombal fez ressurgir de salto ciência, artes, indústria e administração. A maioria do país obedecia às reformas, mas sem as compreender. O círculo dos indivíduos que alcançavam o valor delas e o influxo que deviam ter no futuro, era assaz limitado. A iniciação estava feita, mas o fogo tinha de lavrar muito tempo debaixo da cinzas. Exteriormente, a maior parte das reformas, destoando de hábitos inveterados, repugnando não raro a opiniões vulgares, devendo ter resultados remotos, que o comum dos espíritos não sabiam antever, nem podiam apreciar, definharam-se ou morreram logo que se quebrou o braço de ferro que as realizara e mantivera, sorte ordinária de todos os cometimentos sociais que antecedem a difusão das ideias que representam. O conde de Oeiras, pondo os estudos ao nível dos do resto da Europa, fez aceitar o movimento científico desta; mas as inteligências reconduzidas de salto ao bom caminho, sem transições graduais, aceitaram mais as formas do que compreenderam o espírito.
O que sucedeu na ciência sucedeu na literatura. Acabaram os acrósticos, os restos do gongorismo, os sermões de antíteses e argucias, os elogios e conferências palavrosas e retumbantes da Academia da História, onde o próprio reformador também pecara: ficamos, porém, com a literatura à Luís XIV, cuja influência em Portugal começara a despontar no horizonte desde o começo daquele século e que, depois, os nossos inocentes Árcades aceitaram como emanação legítima da arte grega e romana. Pior do que na ciência, a regeneração literária, desprovida de nacionalidade, alheia às tradições portuguesas, nascia, digamos assim, morta. O mau gosto desaparecera, mas em lugar dele ficava coisa que pouco mais valia; a inspiração pautada, o estro convencional e a vacuidade da ideia escondida debaixo da opulência da forma.
Se, em parte, as ciências e a indústria foram introduzidas, ou como inventadas, no reinado do marquês de Pombal, as artes plásticas, e principalmente a arquitetura, cuja história, mais do que a de nenhuma arte, neste momento nos importa, já anteriormente existiam. A época de D. João V foi uma época de luxo e riqueza lançados sobre um país miserável, como alfombra preciosa em pavimento carunchoso e podre. Esse luxo e riqueza, que brotavam das minas da América, foram favoráveis aos artistas. As obras magníficas do nosso Luís XIV, ou antes do símia de Luís XIV, e mais que tudo a edificação do fradesco palácio de Mafra fizeram aparecer estatuários, escultores, arquitetos. Achou-os o conde de Oeiras, e deu aos seus talentos nova aplicação. Ao gosto corrompido da arquitetura italiana, que era a seguida em Portugal, fez substituir um gosto mais severo, mais útil e mais mesquinho. Era o homem Político, o homem da vida prática dirigindo as artes: eram as artes reduzidas pura e simplesmente a um ramo de administração. Compare-se o caráter geral do convento de Mafra com o das grandes obras do marquês de Pombal, o plano da nova Lisboa, o Terreiro do Paço, a Alfandega, o Arsenal da Marinha, a parte moderna dos edifícios da Universidade de Coimbra. Em Mafra, achar-se-ão a exageração de ornatos e os primores do cinzel, mas nenhuma inspiração verdadeiramente nobre e grande; achar-se-á o desmesurado suprindo o sublime: nas obras do marquês, só se encontram largas moles desadornadas, edifícios monótonos, posto que úteis ou necessários, uma praça magnífica, onde campeiam monólitos enormes e que seriam admiráveis se não estivessem cobertos de remendos e parches, e cujas paredes se pintaram de ocre para poupar alguns palmos de silharia, alguns palmos de mármore numa colina de mármore. O plano de qualquer obra pública desta época dir-se-ia sempre traçado na mente de um negociante holandês. O despotismo ignorante e presumido estragara a arte com a puerilidade; o despotismo ilustrado estragou-a com a razão. Mafra é um poema da Fênix Renascida: a Lisboa do marquês de Pombal um soneto de Diniz ou uma ode de Garção. A cidade depois do convento é o Novo-método do padre Pereira expulsando das escolas latinas a gramatica do padre Álvares.
Morreu D. José I, fato insignificante em si, mas grave pelas suas consequências. Com a morte desse homem desapareceu da cena política o forte espírito que reinara em vez dele. Portugal soçobrou então; apenas sobre o seu vórtice de perdição boiaram por algum tempo as letras e a ciência sustentadas ao de cima pelo braço do duque de Lafões. A arquitetura, que num país pequeno e pobre, como o nosso, depende quase exclusivamente do governo para existir, não descaiu porque estava já decadente: o que fez foi retroceder das formas mesquinhas, mas graves e simples, que adotara, para os fogaréus e burriés e repolhos e espirais e grinaldas da época anterior. Quereis saber o que ela foi daí avante? Olhai para o mais notável edifício do subsequente reinado, para o convento do Coração de Jesus. Como o pensamento único do governo era desmentir o bom, o mau, o indiferente, tudo, em suma, quanto se fizera no antecedente reinado, buscou-se restaurar a arquitetura de Mafra, menos a vastidão, menos a opulência. Caricatura de caricatura. Aqueles portais microscópicos, aquelas colunas disformes e deformes, encostadas à portada da igreja, espécie de pólipos de pedra, guardados ali para servirem de pilares em outro monumento que deles viesse a carecer; aquele átrio que recorda o vomitorium dos anfiteatros romanos; aquelas torres onde não se pouparam nem colunemos inúteis, nem franjas e avelórios de mármore; tudo isso é amostra do gosto da época, gosto que tem durado e que ainda campeia nas fachadas de vários armazéns ao divino construídos nos últimos sessenta anos e batizados com a pomposa denominação de templos.
Tal foi em Portugal a arquitetura durante século e meio. O renascimento, que condenou em peso, como bárbaras, as origens das nações modernas e especialmente o que desdizia das diversas manifestações da civilização grega e romana, envolveu nesta condenação, em muitos casos injusta ou inepta, os admiráveis monumentos de arte que a Idade Média legara aos tempos modernos. As gerações subsequentes, educadas numa adoração irreflexiva de tudo quanto viera da Grécia e de Roma pagãs, não podiam compreender a sublime majestade e, digamos assim, o espiritualismo da arte cristã. Os paços, os castelos, as pontes, os cruzeiros, as galilés das praças, as portas, as torres, os pelourinhos das cidades e vilas, construídos desde o XI até o XV século quase que desapareceram. Conservaram-se alguns mosteiros e santuários, algumas catedrais e paróquias, não por serem obras da arte, mas por serem lugares consagrados a instituições religiosas, e talvez por terem faltado os recursos para os substituir por novas edificações.
Ainda assim, restar-nos-iam hoje em mosteiros, em catedrais e em outros edifícios consagrados ao culto inestimáveis monumentos, se nesta terra, desamparada de Deus e da arte, tivesse havido sequer um vislumbre de gosto e de veneração pelo passado, e não fosse justamente entre o clero, isto é, entre os guardadores naturais desses mesmos monumentos, que surgissem os seus mais funestos adversários. Porém os bispos sabiam teologia e direito canônico; os cônegos e párocos, alguns sabiam latim; os frades, pelo menos os membros das antigas ordens monacais, eram eruditos e homens de letras; mas nem os bispos, nem os cônegos e curas d'almas, nem os frades entendiam de arquitetura. Entregaram tudo aos arquitetos e mestres de obras, que estragaram tudo. Quase que escasseava a pedra para se converter em cal. Os bate-folhas não tinham mãos a medir. Colunas, capiteis, abóbadas, torres, portais, arcarias, claustros, tudo foi caiado, dourado, enfeitado, estragado. Procurai na maior parte das nossas sés, das nossas colegiadas, das nossas velhas paróquias, um desses pilares polistilos, desses capiteis e cimalhas rendadas, desses bocetes e pendurões variados, dessas gárgulas às vezes insolentes, às vezes terríficas, às vezes finamente epigramáticas, e nada achareis do que foi. Aqueles livros de pedra, complexos como os poemas de cavalaria, ingênuos como os poemas do Cid ou dos Nibelungen, converteram-se em palimpsestos donde se raspou a história das crenças, dos costumes, dos trajos, das alfaias de antigas eras; onde se apagaram os vestígios de sucessos notáveis, de dramas populares, de lendas Poéticas, e até retratos únicos de varões singulares. Nesses livros preciosos, em vez do seu primitivo conteúdo, só achareis as rasuras que mãos ineptas aí fizeram e os caracteres que sobre essas páginas, outrora eloquentes, traçou a pior das barbarias, a barbaria pretensiosa e civilizada. Passou por lá o picão do reformador, a colher do estucador, o mordente do dourador. Paredes, pilares, capiteis, laçarias, ogivas estão rebocados, alvos, polidos, dourados. A luz do sol já não bate no pavimento do templo convertida em luz baça e saudosa pelos vidros corados das frestas esguias, dos espelhos circulares: agora alaga em torrentes essas paredes brancas e lisas, que fingem às vezes absurdamente pedras impossíveis estendidas pela colher do alveneu sobre a face rugosa, mas secular e veneranda, da verdadeira pedra. O templo de Deus é como a sala do baile, como a sala dos legisladores, como a sala do teatro, como a praça pública, sem mistérios, sem tradições, sem saudades.
Mas se a culta barbaria dos nossos avós e de nossos pais forcejou por cobrir com remendado véu os monumentos dos primeiros séculos da monarquia, deixou em muitos deles ao menos, os seus formosos e ideais perfis, as suas linhas arquitetônicas. O pensamento que inspirou essas concepções grandiosas como que se alevanta dentre as devastações perpetradas pelo camartelo, pela picareta e pelos boiões de cal delida, e apesar de se haverem dirigido sem tino, sem gosto, sem harmonia as restaurações dos edifícios que as injúrias do tempo em parte haviam arruinado, resta ainda muito que estudar e admirar nesses monstros. Até, em alguns deles, é possível suprimir, pela imaginação, o moderno e pôr em lugar deste o antigo. A poesia ainda não desamparou de todo o mutilado monumento.
Mas durarão por muito tempo esses restos da mais formosa e magnífica de todas as artes? Não o esperamos; mas lavraremos aqui, ao menos, um protesto contra o vandalismo atual. Nossos pais destruíram por ignorância e ainda mais desleixo: destruíram, digamos assim, negativamente: nós destruímos por ideias ou falsas ou exageradas; destruímos ativamente; destruímos, porque a destruição é uma vertigem desta época. Feliz quem isto escreve, se pudesse curar alguém da febre demolidora; salvar uma pedra, só que fosse, das mãos dos modernos hunos!
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Falamos da decadência da arquitetura durante século e meio; porque as manifestações dessa decadência foram sempre as mesmas em tão largo período. Vê-se a arte na sua lenta agonia rodeada de curandeiros que se propõem sará-la, mas que a transfiguram, sem alcançarem qual é o achaque íntimo que a devora: vemos acumular colunas a propósito e desprositadamente: vemos gesso, ouro e talha: vemos converter os velhos monumentos em monstros de Horácio; por ao lado da torre ou do coruchéu gótico zimbórios à Buonaroti ou portadas à Barrósio; enxertar a capela do século XVIII na parede de nave do século XIV semelhante a um viveiro de cogumelos, nascidos por entre as fisgas úmidas da pedraria, a favor da meia obscuridade daquelas profundas arcadas: vemos altear edifícios que representam o gosto arquitetônicos do mercador de retalho, e erguer templos cujo indecente e ridículo elogio é o de serem bonitos: vemos as grandes praças de Lisboa, bem esquadriadas, bem simétricas, bem prosaicas: vemos igrejas, como a da Encarnação ou a dos Mártires, caiadas, polidas, alindadas, onde não mora um só pensamento de Deus. A arte entendeu-se assim por largos dias. Ao passo que se imprimia a Poética do padre Freire, que se coroava a Osmia, e que se publicavam por ordem superior as poesias, assim chamadas, de Ribeiro dos Santos, encostavam-se colunas disformes pelas paredes de um pio armazém, conhecido vulgarmente pelo nome de igreja de São Domingos, ladeavam-se com elas os portais dos edifícios públicos e as frestas do átrio tisico do convento do Coração de Jesus. No meio daquelas sensaborias arquitetônicas parecia sentir-se uma tendência instintiva para a regeneração; mas essa tendência, que buscava uma solução ao problema nas tradições da arte romana ou antes grega, não podia lá encontrá-la. Fora o renascimento; fora a admiração dessas tradições, até certo ponto justa, mas exagerada depois, que dentro de pouco mais de cem anos chegara, de modificação em modificação, até a arquitetura do século XVII, à arquitetura da Sé nova de Coimbra, do Seminário de Santarém, à arquitetura jesuíta. Não só a regeneração literária e a política, mas também a da arte devia consistir em considerar o renascimento, não como fase, mas como lacuna na vida das nações cristãs, das sociedades novas; em descer logicamente do crer e sentir da sua idade viril. Embora a arte seja uma só; embora seja sempre e em toda a parte a expressão sensível do ideal, tanto este como as suas manifestações é que são diversos nas diversas épocas e em sociedades diferentes. Naquele dilatado período de decadência o que sobretudo faltava à arquitetura era a luz, o horizonte, a atmosfera respirável, em que pudesse viver e produzir.
A decadência, porém, na época em que vivemos é outra, e mais profunda. Já não há a corrupção do gosto, o inaplicável das teorias, o erro do entendimento. Agora é o instinto bárbaro, a malevolência selvagem, a filosofia da brutalidade. Dura há poucos anos; mas esses poucos anos darão maior número de páginas negras à história da arte do que lhe deu século e meio. O picão e o camartelo só há bem pouco tempo que podem dizer — triunfamos. Até então escaliçavam-se paredes, roçavam-se esculturas, faziam-se embrechados; mas agora derribam-se coruchéus, partem-se colunas, derrocam-se muralhas, quebram-se lousas de sepulturas, e vão-se apagando todas as provas da história. Faz-se o palimpsesto do passado. Corre despeado o vandalismo de um a outro extremo do reino, desbaratando e assolando tudo. Cômico perfeito, desempenha todos os papéis, veste todos os trajos. Aqui é vereador, ali administrador de concelho: ora é ministro, logo deputado: hoje é escritor, amanhã funcionário. Corre na carruagem do fidalgo, faz assentos de debito e crédito no escritório do mercador, dá silabadas em latim de missais, prega nos botequins sermões de economia política e do direito público, capitaneia soldados, vende bens nacionais, ensina ciências; em suma, é tudo e mora por toda a parte. Atento ao menor murmúrio dos tempos que foram, indignado pela mais fugitiva lembrança das gerações extintas, irrita-se com tudo que possa significar uma recordação. Assim excitado, argumenta, ora, esbraveja, esfalfa-se. O eretismo dos nervos só pode afrouxar-lho, como as harmonias melancólicas de harpa eólia, o ruído de algum monumento que desabe.
Apesar da ferocidade nervosa do vandalismo, não se creia, todavia, que ele é desalinhado no vestuário, carrancudo na catadura, descomposto nos meneios. Nada disso. O vandalismo é aprimorado no trajo, lhano e grave a um tempo no porte, pontual na cortesia. Encontrá-lo-eis nas salas requebrando as damas, dançando, tomando chá; no teatro palmeando com luvas brancas os lances dramáticos. Entende francês e leu já Voltaire, Pigault-Lebrun e os melhores tratados do wist: quase que sabe ler e escrever português. O vandalismo é culto, instruído, civil, afável. Tirem-lhe de diante os monumentos; será o epílogo de todos os dotes e boas qualidades; será a mansidão incarnada.
Mas, infelizmente para ele, o velho Portugal estava coberto de recordações do passado. Cada fato histórico tinha uma igreja, uma casa, um mosteiro, um castelo, uma muralha, um sepulcro, que eram os documentos perenes desse fato e da existência dos indivíduos que nele haviam intervindo. Encontrando tantas injúrias mudas à decadência presente, o vandalismo irritou-se, ergueu-se e falou em feudos, em dízimos, em corrupções fradescas, em maninhádegos, em servos de gleba, em direitos de osas, em superstições; catou, em suma, todas as vergonhas e desonras do passado que pode e soube, entressachando-as com sentenças e lugares comuns do catecismo Político de Ramon Salas e, por uma lógica incompreensível, por uma lógica sua, chamou os homens do alvião e da picareta e começou a derribar, vitoriado pelo povo. Só ele, imóvel no meio da mobilidade do nosso tempo, no meio das opiniões encontradas, das lutas, das comoções, tem apontado constante ao seu alvo, a demolição indiscriminada do passado. Assim, pertence a todos os bandos Políticos, aceita todos os princípios, curva-se a todos os jugos, contanto que o deixem roer os testemunhos da história e da arte; que o deixem fazer-nos esquecer da glória nacional e de que somos um povo de ilustre ascendência. Este pensamento é o seu pensamento único, perpétuo, inabalável.
Há pouco que que da vila de Peniche nos escreviam o seguinte: "Tendo havido quem ousasse revolver e desfazer o túmulo em que jazia o cadáver de D. Luís de Ataíde, na igreja do extinto convento do Bom-Jesus desta vila, o fato excitou nos que concorreram a observar os despojos mortais daquele herói vivos desejos de ouvirem falar da sua vida e feitos." Não nos falecem cartas em que se contenham notícias de análogas profanações. De todos os ângulos do reino se alevantam brados de homens generosos, que lamentam a ruína dos velhos edifícios, a profanação das sepulturas, a destruição de todas as memórias da arte e da história. Quem hoje quisesse escrever as biografias dos nossos homens ilustres, talvez já não pudesse dizer onde atualmente jazem os restos da maior parte deles. O braço onipotente do vandalismo estendeu-se para os sepulcros; as campas estalaram e os ossos de nossos avós lançaram-se aos cães e rolam pelo pó das estradas e pelas imundícies das ruas. As inscrições lapidares vão-se enterrando por alicerces e paredes, não à face destas, porque aí alguém ainda poderia lê-las; mas no fundo dos cavoucos ou no âmago dos muros. Sem isso, não nos vangloriaríamos com inteira justiça de ter completamente renegado de nossos maiores.
Referiu-nos um respeitável viajante espanhol que, entre os entulhos do convento de São Domingos de Lisboa, vira uma lájea onde se lia o epitáfio de Fr. Luís de Granada. Solicitou dos demolidores que a tirassem do meio das ruínas, porque essa pedra era valiosa memória. Provavelmente os economistas da alavanca, os filósofos da picareta riram a bom rir do desvario daquele espanhol fanático. A lápide sepulcral de um dos homens mais sábios e eloquentes que a Península gerou lá jazerá a estas horas nos fundamentos de algum edifício, cujo rendimento, abatidos décima e concertos, o vandalismo e o dono acharão decerto preferível à glória de Fr. Luís de Granada.
Oh, civilização!
Levaram-nos a Coimbra em 1834 obrigações de serviço público. Residíamos aí quando foi suprimido o mosteiro de Santa-Cruz. Correu então a notícia de que se pretendia pedir ao governo que esse belo edifício fosse doado ao município. Mas, para quê? Para a câmara o arrasar e fazer uma praça. Não se realizou o nefando alvitre; mas os bons desejos não faltaram. Uma praça no lugar onde estivera Santa-Cruz; uma praça calçada com os fragmentos dos rendados umbrais do velho templo, com as lájeas quebradas dos túmulos de Afonso Henriques e de Sancho I e dos demais varões ilustres que ali repousam! Há aí, porventura, quem avalie a sublimidade de tal pensamento e meça a incomensurável distância que vai dum edifício monumento, onde apenas há história, arte, poesia, religião, a um terreiro amplo, bem amplo, onde a vadiagem possa estirar-se regaladamente ao sol? Infelizmente; a cidade literária, a alma mater, ficou privada deste documento inelutável da sua ilustração.
Pelas largas que tem tomado o vandalismo, podemos assegurar que dentro deste século não haverá em Portugal um monumento. O México ufanar-se-á do seu templo de Palenque, da sua pirâmide de Tehuantepec; a Índia dos subterrâneos de Elora e de Elefanta, e até, os habitantes bárbaros da Austrália terão que mostrar aos estrangeiros os morais dos seus antigos deuses. Só nós os portugueses não lhes poderemos dizer: —"eis os testemunhos indubitáveis de que fomos uma nação antiga e gloriosa".
Correi as principais cidades do reino; buscai os mais veneráveis edifícios. Ou jazem por terra ou foram aplicados a usos que lhes estão produzindo a ruína. A bela e grandiosa igreja de São Francisco do Porto, único monumento importante do século XV que possuía aquela cidade, foi consagrada a armazém da alfandega. O mosteiro dos Jerônimos em Belém, obra prima da arquitetura média entre ao neogótica e a da chamada do renascimento, edifício magnífico de uma época de transição na arte, como Santa Sofia de Constantinopla o é de uma época análoga, foi deturpada, não nos importa por quem, e o seu maravilhoso claustro ludibriado com tapumes caiados e convertido em dormitórios forçamente úmidos e malsões. A Batalha, Alcobaça, o convento da ordem de Cristo em Tomar caem em ruínas, e diz-se —"que importa?" Bárbaros! Importa a arte, as recordações, a memória de nossos pais, a conservação de coisas cuja perda é irremediável, a glória nacional, o passado e o futuro, as obras mais admiráveis do engenho humano, a história, a religião. Vós, homens da destruição, dos alinhamentos, dos terreiros, da civilização vandálica, é que importais bem pouco; porque, semelhantes a vermes, roeis e não edificais; porque não deixareis rasto no mundo depois de apagar tantos vestígios alheios; porque nada valendo, menoscabais os que valeram muito; porque se um templo, um mosteiro, um castelo duraram seis ou oito séculos e durariam, sem vós, outros tantos, as vossas picaretas, as vossas alavancas, os vossos camartelos estarão comidos de ferrugem e informes antes de vinte anos, e são essas as únicas e tristes memórias da vossa ominosa passagem na terra.
Desprezar os monumentos é brutal; persegui-los é ímpio e sacrílego. Os que os desprezam fazem o que faziam os lombardos, apoderando-se da Itália, às formosas obras da arquitetura greco-romana. Deixavam-nas perecer; porém não as destruíam. Os que as arrasam ou mutilam são adeptos de uma velha heresia que ressurge; são iconoclastas redivivos.
Procurai hoje, por exemplo, em Lisboa as antiquíssimas igrejas paroquiais de Santa Marinha e de São Martinho: achareis os lugares onde estiveram, e achá-los-eis, porque aos hunos encapados em lemiste não é dado suprimir um fragmento do orbe terráqueo. Os homens desta Liliput da inteligência estão desentulhando aqueles terrenos para fazerem casas. Onde haviam eles de morar, senão fizessem ali mais umas casas? Santa Marinha encerrava memórias anteriores à monarquia, e a paróquia de São Martinho prendia-se com a história da grande crise por que Portugal passou nos fins do XIV século. Mas de que momento é essa consideração, se atendermos a que lá, onde estiveram os dois templos ricos de idade e de tradições, se podem construir duas moradas bem pintadas, bem alvas exteriormente, com sua beirada vermelha e seu rodapé amarelo? Que importa que se dispersem os ossos do conde Andeiro ou se desfaça a sepultura do conde de Alvor? As cinzas dos mortos podem jazer tão tranquilas debaixo do balcão de uma taberna, como aos pés de um altar, à sombra da eterna cruz. Bendita sejas tu, geração filosófica, geração arrasadora, geração camarteladora! O futuro, está certa disso, há de fazer-te justiça.
Uma das mais notáveis obras do século XIV foi, sem dúvida, a muralha com que el-rei D. Fernando cingiu Lisboa. Todos julgavam impossível a sua edificação, dizem os cronistas, porque supunham que levaria cem anos a construir: aquele príncipe soube, porém, acabá-la em dois. Os povos foram chamados de grandes distâncias a trabalhar nela, fazendo-se aliás, todas as prevenções para suavizar aquela espécie de anuduva extraordinária. A esta muralha deve hoje Portugal não ser uma província de Espanha, porque salvou Lisboa de cair nas mãos del-rei de Castela. Se isto se tivesse realizado, o reino estava perdido. Considerada a semelhante luz, a muralha de D. Fernando era, talvez, o nosso mais importante monumento histórico. O progressivo acréscimo da capital tinha-a em grande parte destruído; mas restava ainda, além de outros, um lanço importantíssimo. Era o ângulo que fechava a cidade pelo lado do bairro dos judeus. Por este ângulo, onde houvera uma porta e onde ainda restavam os vestígios de uma torre que a defendia, a torre de Álvaro Pais, se podia delinear quase exatamente a direção que seguiam os dois lanços de norte e de oeste. Era, assim, uma espécie de padrão que indicava os limites setentrionais e ocidentais da povoação, e uma relíquia que demonstrava a grossura e solidez da antiga muralha, mui superior à de outras posteriormente construídas em épocas mais ricas e mais civilizadas.
Este ângulo, este fragmento, testemunha do período mais glorioso da nossa história, lá se está derribando para se fazer uma praça quanto possível ampla. Homens gigantes, como nós, não cabem onde couberam nossos avós, pigmeus conquistadores da África e da Índia. Far-se-á pois uma praça, que, se não prestar para mais nada, poderá servir de mercado de hortaliça. Uma pirâmide de repolhos substituirá o adarve, por onde, em noite sem lua, se viam a espaços cintilar as armaduras dos escudeiros ou cavaleiros idos em sobrerrolda a vigiar as roldas dos besteiros do conto da cidade, quando pela terceira vez no reinado de D. Fernando os castelhanos a acometiam com grande poder. Ali, no sítio daquela porta, por onde o, depois tão célebre, Nuno Álvares sairia muitas vezes nessa conjuntura a espalhar o terror e a morte entre os homens de armas inimigos, venha a lide incruenta sobre o preço da couve, sobre o viçoso ou murcho das favas, substituir o grito clamoroso de São Jorge, que chamava nossos avós, os rudes burgueses do século XIV, aos combates em defesa da Pátria.
O que estes netos de Átila, de colarinhos e peitilhos engomados, são, sobretudo, ridículos.
Vergonha é confessá-lo: os estrangeiros têm mostrado maior veneração pelas antiguidades do nosso país do que os portugueses. Um estrangeiro salvou no convento dominicano de Benfica a antiga capela de D. João de Castro. Há pouco ouvimos outro, em cujos olhos chamejava a indignação, clamar altamente contra a barbaria com que se deixavam estragar no mosteiro de Belém vários quadros magníficos de escola portuguesa, nos quais os pássaros, entrando pelas frestas mal reparadas do edifício, vão amontoando as imundícies. Mas estes estrangeiros são homens que sabem qual seja o valor dos monumentos da arte e da história. Nós é que temos perdido o sentimento e a inteligência para apreciar essas coisas.
Se com a nossa incúria agressiva e com a nossa raiva assoladora desmentimos o passado, para darmos em tudo documento de insipiência desmentimos, até, essas mesmas opiniões e tendências do presente, a que recorremos para condenar em nome do progresso, sem distinção nem juízo, o mau e o bom de eras antigas. É a economia política a ciência do nosso tempo: todos falam em capitais, em indústria, em riquezas sociais, em valores. Mas que serão os monumentos? Que serão essas admiráveis agregações de mármore ou de granito? São o resultado ou produto da concepção, da aplicação e da execução: vem a ser, portanto, uma riqueza social. E por quê e para quê anulais vós essa riqueza? Dado que representasse um capital improdutivo, com que intuito o deitais fora? Não o são, porém, na sua máxima parte, os monumentos. Quando a arte ou os fatos históricos os tornam recomendáveis, convertem-se em capital produtivo. Calculai quantos viajantes terão atravessado Portugal neste século. Decerto que não vieram cá para correrem nas nossas cômodas diligências pelas nossas belas estradas, ou navegarem nos nossos rápidos vapores pelos nossos amplos canais; decerto que não vieram para aprenderem a agricultar com os nossos agricultores, nem a fabricar com os nossos fabricantes; mas para admirarem os mosteiros da Batalha, de Alcobaça e de Belém, a sé velha Coimbra, a catedral, a igreja de São Francisco e o templo romano de Évora, a matriz de Caminha e a colegiada de Guimarães, os castelos da Feira e de Almourol, e enfim, tantas obras primas de arquitetura que encerra este cantinho do mundo. Credes que esses romeiros da arte voltam da romagem aos seus lares sem dispender muito ouro, e esqueceis que esse ouro ficou por mãos portuguesas? E falais de economia política, e aniquilais o capital dos monumentos? Adoradores do camartelo, por qualquer lado que se observe a vossa obra, não se descobre senão o absurdo.
Quiséramos que os homens deste país que tem coração português fizessem uma associação, cujo trabalho de patriotismo ligasse os seus membros dispersos por todo o reino; que os residentes em Lisboa constituíssem uma espécie de junta, à qual os das províncias, logo que à sua notícia chegasse a demolição de algum monumento da história ou da arte, remetessem uma breve nota, individuando as circunstâncias do edifício destruído e o nome do arrasador, quer este fosse magistrado ou funcionário público ou municipal, quer fosse indivíduo particular. Quiséramos depois que essa breve nota, sem reflexões, sem afrontas, estampada em todos os jornais, se legasse à posteridade. Nenhuma lei proíbe que se narre, singelamente e sem o qualificar, um fato que o século julga indiferente. Ninguém, por certo, teria a queixar-se de semelhante publicação. Eram simplesmente fatos que se transmitiam à apreciação da posteridade; era apenas um trabalho histórico.
"Mas isso provocava as maldições dos vindouros. — E que importam as maldições dos vindouros ao que não cura nem da arte, nem do passado, nem do futuro, nem da glória nacional, nem da memória de seus avós, nem dos sepulcros, nem das tradições, nem sequer, enfim, dos interesses materiais que resultam e hão de resultar da conservação dos monumentos? Que importa isso àqueles para quem os horizontes da vida são exclusivamente os horizontes da terra? Nada. Ririam desse corpo de delido de terrível processo. Mas, talvez, seus filhos e netos não rissem, vendo-se obrigados a renegar de um nome, no qual gerações mais alumiadas e mais nobres haviam forçosamente de imprimir o ferrete de perpétua desonra.
***
Os xeques da tribo árabe de Bka estavam um dia, pela volta da tarde, assentados junto das colunas de um templo, na extremidade oriental da acrópole de Balbek.
Daqui, pondo a mão sobre os olhos para os resguardarem do sol que os deslumbrava, os chefes da tribo de Bka alongavam a vista para a banda do poente.
E o sol, que descia rápido, mandava a sua luz suave através daquelas arcarias gigantes e imensas; daquelas colunas monolitas, a menor das quais os braços de dez mil árabes não valeriam a erguer.
A hora era de meditação e de melancolia, e os xeques olhavam com aspecto carregado para a ossada grandiosa da erma cidade, que é como um olhar de desdém com que o mundo antigo contempla o mundo moderno, e é ao mesmo tempo demonstração solene da vaidade disso a que se chama poderio e glória, cuja duração se confunde na eternidade com a duração de um dia.
E por entre aquelas rumas de mármores e de sienites viam-se passar, buscando as suas leves e móveis habitações, dispersas entre as ruínas, os árabes do deserto, semelhantes aos gusanos que refervem no cadáver meio apodrecido do elefante abandonado pelos caçadores nas margens solitárias do Zambeze.
E depois de largo silêncio, um dos xeques abaixou os olhos e, com voz presa de furor íntimo, disse para os companheiros:
"Por que consentiremos nós, os filhos do Profeta, que estes gigantes de pedra estejam continuamente assoberbando a tenda humilde do árabe, que passa livre no mundo?
Se a nossa vida é um instante, o homem não deve construir edifícios destinados a transpor séculos. É quase blasfêmia revestir o transitório com o trajo da eternidade. A eternidade não é da terra; é do paraíso. Por que haviam de querer os que já não são imobilizar no deserto para os seus últimos netos esse arraial quase interminável de tendas de pedra?
Para que semearam as gerações passadas uma seara imensa de abismos pelos pendores do Ante-Líbano, arrancando dele pedreiras maciças, como se fossem os grãos de areia, com que ergue colinas movediças o sopro do Simum quando varre o deserto?
Que temos nós com os tempos que já passaram, para que eles venham increpar-nos com a muda insolência dos monumentos o nosso livre e solto viver, e instituir paralelos ofensivos entre a decadência atual e o esplendor das artes e a magnificência laboriosa e incômoda daquelas eras de grandeza e poderio?
Que importa que então saíssem da Assíria os conquistadores da Ásia e as frotas que descobriam novos céus e novos mares, ou que os poetas de então tivessem para cantar lendas de façanhas quase incríveis?
Em vez das conquistas, a liberdade. Hoje não há ato que seja defeso ao árabe do deserto. Corremos livres por livres descampados. Embora o reluzir do sabre de um spai de Ibrahim faça fugir aterrados cem cavaleiros nossos, e o frangue do ocidente nos despreze como bárbaros. Saboreamos quietamente o pão esmolado ou arrebatado ao que o cultivou para nós. Da bolsa do viandante o ouro cai-nos aos pés com seu dono. O nosso trabalho é apenas erguer aquele quando este cai. Depois de uma vida sem sacrifício, sem amarguras, que nenhum monumento contará aos vindouros, dormiremos na paz do esquecimento, porque não deixaremos vestígios da nossa jazida. Não se revolvem os ossos dos mortos, quando o seu último abrigo é a amplidão do nosso oceano de areias, que não consente nem lápides, nem inscrições, nem edifícios na sua face tristemente pálida.
Porque, pois, continuarão eternamente erguidos estes templos, estes palácios, estas muralhas, repreensão ou antes injúria perpétua ao nosso viver?
Que se ajuntem os filhos das profundas solidões do deserto, e que, dia a dia, vão esboroando uma parte, mínima que seja, desses panos de muros de cem côvados, formados de poucas pedras; dessas colunatas, sobre cujos frisos e arestas pousa à noite o abutre, como costuma pousar sobre a cumeada de longa serrania, a que essa obra de homens se assemelha."
Calou-se o xeque. Os outros abaixaram as cabeças com lento meneio, como quem aprovava o dito.
Se eu, se vós, chegássemos neste momento ao pé do velho templo de Balbek e ouvíssemos o discursar do beduíno, o que diríamos no primeiro ímpeto de justíssima indignação?
Diríamos que o xeque era uma víbora, que, esmagada debaixo de vinte séculos, queria voltar contra a história os dentes envenenados, como se a peçonha da sua cólera pudesse aniquilar a história.
E antes que a nefanda obra que ele traçava e os demais aplaudiam começasse a ser executada, falaríamos assim àqueles loucos:
"Vós outros quereis derribar a memória das gerações que foram, porque a majestade do passado pesa mais sobre a vossa consciência do que pesam sobre esse chão que parece acurvar-se e gemer debaixo de tantas grandezas, os pilones maciços, as esfinges gigantes, as arcarias profundas, as pedras de dez côvados inseridas em muralhas indestrutíveis. Melhor fora que forcejásseis por ser também grandes, convertendo-vos à virtude antiga, e que, em vez de constituir um bando de miseráveis, vos tornásseis numa nação ilustrada e forte, capaz de legar à posteridade monumentos como estes, quando lhe chegasse a sua última hora; porque a morte abrange todas as sociedades, todas as civilizações, como abrange todos os indivíduos.
Credes que a luz do sol ocidental, batendo nas colunas avermelhadas do velho templo, vos reflete nas faces envilecidas o rubor que as tinge? Não sentis o sangue que estas palavras vos fazem subir do coração ao gesto? É o sangue e não o mármore; é que, malgrado vosso, elas foram despertar uma voz que não podeis sufocar, a da consciência, que vos repreende da atual decadência. A vermelhidão que surgiu nessas faces crestadas não reflete da pedra lisa; reflete-se das almas que se rebelam contra si mesmas."
Ousaríamos nós, em verdade, dizer isto aos beduínos, sem que também o rubor viesse tingir-nos as faces?
Não; porque somos como eles; porque, bem como eles, nos persuadimos de que, varrendo todos os vestígios do Portugal antigo, poderemos esconder aos estranhos a nossa decadência atual; porque, além disso, cremos que para ser deste século, é preciso renegar dos antepassados.
Todavia, ainda há quem deplore a destruição das memórias venerandas de melhores tempos; ainda há quem lute contra a torrente de barbaria que alaga este país tão rico de recordações, recordações que tantos ânimos envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de indignação acham eco em muitos corações. Temos visto e recebido cartas acerca deste assunto escritas com a eloquência da convicção e de profundo despeito. São protestos solenes de que nem todos os filhos desta terra venderam a alma ao demônio da devastação. Provam elas que o ruído dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão, da consciência e do amor pátrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias contra essa ideia fatal que entrou na maioria dos espíritos, de que tudo quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a pior coisa que há é essa ideia, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais detestável a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua infância a inscrição que o ateísmo decreta para os sepulcros: — aqui é a jazida do nada.
É singular, por exemplo, a história das recentes vicissitudes por que tem passado a colegiada de Santa Maria da Oliveira em Guimarães. Guimarães parece fadada para vítima desta espécie de escândalos. A igreja da colegiada de Guimarães era um dos mais belos monumentos de arquitetura ogival. O seu teto de grossas vigas primorosamente lavradas constituía com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza de Portugal neste gênero, porque, durante a idade média, empregava-se geralmente a abóbada de pedra nas edificações suntuosas. Além disso, as bem proporcionadas arcarias, os capiteis adornados de esculturas variadas e subtis, as três naves majestosas divididas por elegantes colunas, inspiravam em subido grau aquele respeito melancólico e saudoso que é um segredo das igrejas chamadas góticas. Os anos não tinham deslizado em vão por cima do monumento: arruinado em partes, carecia de reparos. O cabido ajuntou para isso grossas somas. Chamaram-se obreiros, e há sete ou oito anos que estes lidam por apagar todos os vestígios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capiteis e cornijas: substituíram-se com pedras lisas: estas pedras cobriram-se de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do Mestre de Aviz lá está alindado; lá está coberto de arrebiques. Os que deviam manter-lhe a majestade das cãs; os que deviam dispender seus tesouros acumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o venerando aspecto e as rugas dos séculos, fizeram da casa do Senhor uma velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flacidez do gesto. Blasfemaram de Deus, não com blasfêmias de palavras, mas com a blasfêmia das obras. Deram enfim documento indubitável de que não havia ali quem soubesse a harmonia que existe entre a arquitetura e a religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dois tipos sensíveis, dois verbos que inspiram, um diretamente ao espírito, outro simbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escrito, mas que também é ímpio rasgar o livro de pedra.
E que disseram os habitantes de Guimarães durante oito anos em que os vermes andaram a roer naquele cadáver?
Louvaram o bonito da obra. O longo tasquinhar do cabido despertou-lhes, até, o apetite. Alguns lembram-se já de demolir as muralhas da vila reconstruídas por D. Diniz. Talham ainda banquete mais lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique; dos paços onde Afonso I nasceu. A glória dos cônegos de Santa Maria da Oliveira, tão dispendiosamente conquistada, ofuscar-se-ia, assim, por pouco dinheiro, como a luz pálida da lua nos esplendores do surgir do sol.
Arrasados, pois, os muros reconstruídos pelo rei lavrador, apagados os últimos vestígios dos paços dos nossos primeiros monarcas, raspado e sarapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trair, lhe restará uma ruga na face: o frontispício da colegiada. Mas se a picareta do município pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita, o colherim, as tigelas de ocre e vermelhão e as broxas canonicais, vingue-se o ilustríssimo cabido arranjando mais alguns vinténs, e mandando à custa deles picar e caiar aquele frontispício. Depois, para esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triunfantemente a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado.
Mas haverá um governo que tolere tantos desvarios, tantas devastações brutais? Pode haver, e ha. Não seria difícil encontrar ministros e administradores gerais, que, se não fora o defeito de lerem sem soletrar, sintoma altamente suspeito para os eleitores, dariam excelentes vereações aos concelhos desta terra, onde o sangue dos conquistadores suevos parece ter ficado predominando nas veias dos seus habitantes. Mais de um governo tem disputado às câmaras municipais primores de barbaridade. Já aludimos à igreja de São Francisco do Porto convertida em armazém da alfandega; ao claustro de Belém convertido em dormitório; ao abandono dos conventos de Tomar, da Batalha e de Alcobaça. Há, porém, mais. Vede essa igreja de São Domingos de Santarém. As suas velhas e grossas portas estão fechadas e o convento está vazio dos seus antigos habitadores. Não é, todavia, provável que o templo mandado edificar pelo malfadado Sancho II e de cuja primitiva fábrica ainda resta inteira a capela mor, ficasse deserto de culto, como o convento ficou ermo de frade. A supressão das ordens monásticas não foi a abolição das solenidades religiosas. Vede, pois, o templo, que, se agora está fechado, não tardará a ecoar com orações e salmos. Transportai-vos pela imaginação para o interior da igreja na hora em que os cânticos e o incenso se alevantam ante o altar; em que o órgão solta a sua voz melancólica; em que a nave está cheia de povo e o sacerdote ora por ele e com ele; na hora em que o sol coado através das esguias janelas reflete pelas pedras que o tempo amareleceu uma luz suavemente pálida; imaginai essa hora, e vereis que, se o convento se despovoou, nem por isso ficou despovoado o templo. A oração do dominicano não é necessária nas solenidades da igreja. Não o abandonou à solidade a pia solicitude dos fiéis. De noite, as lâmpadas, penduradas ao longo da nave, ou brilhando na escuridão das capelas, como estrelas engastadas em céu profundo, despedem frouxos raios que vão quebrar-se por cima de campas onde se divisam, em caracteres confusos e gastos nomes de varões ilustres que ali vieram repousar das lidas da vida à sombra da cruz. Lá estão os sepulcros de Gil e de Martim de Océm, cuja voz exprimia a suma razão e a suma ciência nos conselhos dos reis; lá alveja o jazigo do infante D. Afonso, filho de Afonso IV, e o de Fernando Sanches, a quem Fr. Luís de Sousa chama bastardo querido de D. Dinis. Por aí dormem muitos pobres frades, cuja vida obscura, mas cuja morte foi invejada. Misturam-se ali os ossos dos que foram grandes na terra com os dos que reputamos grandes no céu; e uns e outros são como testemunhas que tornam mais solene o culto, esse laço que liga ao céu a terra. Mas as portas do edifício sagrado rangem nos quícios de ferro, para se abrirem de par em par. Ondas de povo vão precipitar-se pelo estreito adito e espraiar-se até junto do altar. O sacerdote vai começar o sacrifício incruento, e o órgão acompanhar as orações com as suas harmonias. Entremos.
Não! Refuljamos! Orações, salmos, harmonias, luzes, incenso, sacerdotes, povo, nada disso há aí. Há só as trevas da nave pesando sobre as trevas dos sepulcros. O velho templo é um palheiro do Comissariado...
E quem fez isso? Foi o vereador boçal de um concelho obscuro? Não. Foi o governo de uma nação que se diz civilizada, ou que pelo menos toma assento no convívio das nações da Europa.
Quase contíguo à igreja palheiro existe outra, modelo em muitas coisas da mais elegante arquitetura ogival. É a do extinto convento de São Francisco. Lá, na parte da nave sobposta ao coro, o túmulo da infanta D. Constança, cujos lavores se vão diariamente quebrando e obliterando, serve de cabide a selins e arreios de cavalaria. Aplicação igual e igual fim vai tendo o del-rei D. Fernando, que anteriormente os frades tinham transferido da nave para o coro.
Com estes exemplos do governo não é de admirar que aí mesmo em Santarém se derribem as portas das velhas muralhas para calçar as ruas, ou que na antiga vila da Torre de-Moncorvo, hoje Moncorvo só, a antiquíssima torre que dera origem e nome à povoação, fosse deitada por terra com o mesmo intuito; que, enfim, se trate de dar às muralhas da Guarda idêntico destino. Aqui o vandalismo confunde-se com a demência. Na Guarda, ninho d'águias, colocado no cimo de um cerro de granito, a pedra vai calçar a pedra. Dantes, no inverno, o viver ali era bem duro, quando os edifícios estavam abrigados atrás da sólida cerca. Agora, o vento gelado que passa pelas cumeadas da serra da Estrela virá precipitar-se rugindo por aquelas ruas meio desertas e tornar inabitável a povoação. A Guarda, que em si própria é um monumento, e que encerra uma catedral magnífica, estará no decurso, talvez, de poucas décadas convertida num covil de feras.
Dos males que os séculos passados legaram ao presente nenhum foi tal fatal como a ignorância em que deliberadamente se conservavam as multidões. Essa ignorância que há de levar anos, talvez séculos, a dissipar, era incomparavelmente menos nociva em épocas de servidão, quando o poder absoluto, concentrado em poucas mãos, podia facilmente reunir num foco as luzes intelectuais do país e aproveitá-las desassombradamente na solução das questões de administração. Hoje que o vassalo se converteu em cidadão; hoje que os erros e preocupações das inteligências incultas se despenham de todos os lados na torrente da opinião pública e se confundem de modo inextricável com as ideias sensatas; hoje, finalmente, que é necessário não afrontar essa torrente, nem querer fazê-la refluir à força, os resultados fatais da ignorância são incomparavelmente mais difíceis de evitar e remediar. Se as portas dos ministérios estivessem fechadas para os arrasadores professos, e fosse exigível dos pretendentes a pastas uma justificação de que, nem pelo lado paterno, nem pelo materno, descendiam de algum soldado de Gensérico, ainda assim, dada a competência dos magistrados municipais, e o valor moral que resulta para os seus atos da sua origem eletiva, um governo ilustrado, mas que não quisesse ultrapassar os limites da própria autoridade, não poderia talvez reduzir completamente ao silêncio o fragor das demolições que reboa por todos os ângulos do reino. O camartelo é o enlevo, o bezerro d'ouro, o Moloque, o Baal da nossa burguesia. Um camartelão deitado sobre uma ara de pedra em frente dos paços do concelho deveria substituir os seculares pelourinhos (também já, em parte, roídos ou despedaçados), como símbolo do poder municipal.
Imaginemos, de feito, cinco, seis, ou mais figurões assentados ao redor duma banca, falando sem juízo, às vezes sem decência, sempre sem gramatica, sobre a administração do município, e ponderando os proveitos e aformoseamentos que para este hão de resultar da destruição de um monumento da arte ou da história. Lá pede a palavra um deles, lojista gordo, ensebado, vermelho, quase-virtuoso, e cujas unhas e cuja barba estão acusando a tesoura e a navalha de vergonhoso desleixo no desempenho das respectivas funções. É o Demóstenes do conciliábulo. Aprendeu a ler pela História de Carlos Magno e dos Doze Pares, e é assinante das traduções de Paul de Kock, para se exercitar. Um palácio, um muro, uma igreja de eras remotas fazem-no estremecer de horror. Ao lado de cada ameia do castelo ermo lhe parece enxergar um cavaleiro coberto de armas ferrugentas; em cada torre crê ouvir soar as badaladas da campa feudal. Escutam com assombro os outros cidadãos vereadores o Mirabeau lojista. Os ânimos comovem-se: os cabelos arrepiam-se. A sentença contra o monumento vai ser fulminada. Há um instante de terrível silêncio. O presidente pede votos. —"A terra": — diz o homem gordo. —"A terra": —vão repetindo com voz solene os outros membros do Sanedrim. Então o secretário lavra o fatal acordam. Por entre aquelas letras, logo à nascença amarelas, e escritas com pena de duvidosa classificação ornitológica, surge majestosa no meio de cada palavra uma letra capital, como que protegendo as que a precedem e seguem. Acabou-se enfim a magistral composição: o erudito secretário estende o papel ao presidente, que, enlevado na voz melodiosa da consciência a asseverar-lhe que fez desmarcado serviço à Pátria, o recebe às avessas, e lhe lança no topo, com ademã desdenhoso, a cruz de seu sinal. Passa aos outros juízes a ata fulminante. O lojista que, por incessantes exercícios ginásticos nas páginas de Paul de Kock, já soletra com rapidez vertiginosa, e conhece num relance o erro do presidente, cujo pundonor literário não ousa, aliás, ferir advertindo-o do lapso, escreve o próprio nome, em menos de dez minutos, no seu devido lugar, e debaixo da garatuja do Mirabeau burguês, os outros magistrados municipais vão plantando as respectivas cruzes num devoto calvário. Enfim, o secretário assina, e o crime está consumado.
Torre, muro, paço, ou o que quer que sejas, cuja ruína foi decretada, para ti já não há salvação. Amanhã, nos teus lanços desconjuntados, no teu cimento desfeito, nas tuas pedras estouradas, nos teus fundamentos revoltos, estará escrito à ponta de picareta e de alavanca a palavra fatal —"a terra!"— extraída do calvário municipal.
Mas — dir-se-á — que quereis que se faça acerca dos monumentos? Que queremos que se faça?! Que se deixem em paz. Não pedimos museus; porque estes não são, digamos assim, senão necrópoles, em relação à arquitetura. Depois, em muitos casos, os monumentos não se transportam, nem cabem lá. Os fragmentos de um edifício, tirados do seu lugar, sem destino, sem união, são mortos; são cinza e pó de cadáveres. Reúnam-se em bibliotecas e em galerias os livros e os quadros que não foram roubados, estragados ou abandonados por ignorância crassíssima; mas as pedras só pedem repouso. Que os representantes do país lhe salvem os seus títulos mais nobres. Haja no seio do parlamento uma voz que se alevante enérgica a favor do passado. Essa voz achará eco em todos os distritos do reino, porque em todos eles há homens sisudos e peitos generosos. Apareça uma lei acerca do assunto, eficaz pela sanção do castigo, já que, num século corrompido e de decadência, as palavras — pundonor e glória —vão insensivelmente passando para o glossário dos arcaísmos. Entenda-se, enfim, que nenhum monumento histórico pertence propriamente ao município em cujo âmbito jaz, mas sim à nação toda. Por via de regra, nem a mão poderosa que o ergueu regia só esse município, nem as somas que aí se despenderam saíram dele só, nem a história que transforma o monumento em documento é a história de uma vila ou cidade, mas sim a de um povo inteiro. Se, por exemplo, aos habitantes de Guimarães, de Coimbra, do Porto ou de Lisboa não importa que desapareçam as mudas testemunhas dos fatos que aí se deram, dos homens que aí passaram; se não lhes importa que o viajante vá examinar os monumentos que os livros dizem existir aí, e que, achando-os convertidos em pavimentos das ruas, fuja espavorido temendo alguma frechada ou azagaiada, supondo-se, por ilusão momentânea, nos sertões ínvios da Cafraria; se não curam da própria reputação, consentindo que os seus eleitos vão assentar praça póstuma nas extintas legiões de Átila, e que o seu clero se filie na seita dos modernos iconoclastas, ao menos que o governo e o parlamento não deem ao mundo documento de igual ignorância e barbaria, mas acudam ao que ainda resta. Que uma lei salvadora aposente de vez os picões e alviões e alavancas que tantas esculturas tem roçado, tantas campas profanado, tantas colunas quebrado e tantas torres, muros, ameias, campanários, arcarias, galilés derribado e desfeito.

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ALEXANDRE HERCULANO
Escrito em 1838, e publicado em: Opúsculos, 1909.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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