sábado, 6 de julho de 2019

O advogado Romalino e a astúcia do seu colega rival (Conto), de José da Silva Coelho


O advogado Romalino e a astúcia do seu colega rival

Quem, dez anos atrás, tivesse alguma demanda ou dependência nos tribunais, conheceria certamente o Romalino, então escrevente dos cartórios e solicitador dos mais manhosos.

O Romalino não tinha estudos: após a instrução primária, apenas passara três classes do inglês. Mas como lidara muito com bombaístas e africanistas, que nas suas demandas recorriam aos seus préstimos de solicitador, tinha prática do inglês, que falava sofrivelmente.

Poderia ter sido da mesma forma um sofrível ajudante de escrivão se, com a prática dos cartórios, tivesse adquirido alguns conhecimentos jurídicos e literários privativos do foro. Mas o Romalino só se dedicava ao culto da chicana e, além das formalidades e termos do processo, em que estava calejado, só era mestre em toda a espécie de tricas e trocatintices.

Quando chegava um novo magistrado, o Romalino – que às vezes não punha os pés no cartório, ocupado em solicitações e diligências extrajudiciais – era solícito em levar-lhe processos, prestar informações, oferecer-se a fazer recados, a ir às compras e a todos os serviços, até os mais humildes e inconfessáveis, só para captar as suas boas graças, tornando-se indispensável, e estudar-lhe as manhas. E, quando houvesse alguma demanda indecisa – que não tivesse probabilidades nem contra nem a favor da parte de quem solicitava a causa – o Romalino puxava a sardinha para a sua brasa por meio de empenhos.

Era esta a sua especialidade. Conhecia todos os métodos, sabia todas as vias e não conhecia escrúpulos: o ponto era chegar-lhe com massas, que a tudo se prestava e a tudo se atrevia.

***

Desde há uns dois anos que o Romalino apareceu feito advogado provisionário: teve sua promoção.

O solicitador é uma espécie de subadvogado: corresponde ao praticante da ambulância do médico da aldeia. O praticante avia as receitas que o médico lhe passa, recebe as suas instruções e arrecada as massas. O solicitador vai aconselhar-se ao advogado, contrata com ele honorários, informa-se do que as testemunhas precisam depor, para as preparar, e discute com ele as chicanas e contra-chicanas a empregar.

Alguns advogados são também solicitadores. Então discutem e contratam eles próprios com os clientes e adestram as testemunhas tão bem que só um advogado de igual força as pode fazer cair.

Há honrosas exceções na classe, como não podia deixar de haver, mas conheço vários assim.

O Romalino não se sabe bem onde é que prestou exame de direito, nem para onde teve carta; mas um belo dia apareceu de toga no tribunal e a notícia nos jornais de que tivera provisão para advogar. Como, porém, não podia ter préstimos para ser só advogado, passou a ser advogado-solicitador, mas mais solicitador que advogado, e sendo sempre ajudante de algum colega, a quem confiava o papel principal.

***

Viera um novo juiz na comarca, e o Romalino, que não lhe chegara a estudar as manhas – agora que, deixando de ser escrevente de cartório, não podia levar processos à casa dos magistrados nem prestar-lhes serviços – começou a sair mal em todas as questões que patrocinava.

Cartas de recomendação, pedidos, saguates diretos e indiretos, tudo era inútil. Quanto mais recomendado era o seu constituinte, mais segura e fatal era a condenação.

Parecia que a desgraça o perseguia desde que envergara a agourenta toga. Para mais, nenhum dos saguates mandados ao juiz chegava sequer a subir os degraus da sua escadaria, e ainda que fossem mandados o mais veladamente possível – em nome dos seus parentes e amigos e sem mesmo serem acompanhados ou precedidos de pedidos – eram de longe farejados pelo íntegro magistrado e imediatamente rejeitados.

O Romalino estava sucumbindo. As suas proverbiais habilidades, a sua grande perspicácia, a sua tenacidade de ferro, tudo naufragava de encontro a esse escolho terrível que era o novo juiz.

***

O Romalino não era orador, nem escritor; não minutava, articulava ou alegava por si, mas por intermédio de colegas, aos quais expunha as questões e dava ideias. Não sabia falar nem escrever o português corretamente, mas tinha fé na sua astúcia e na sua argúcia. E, por isso, como supunha que nelas só o excedia um colega – que, como ele, era fraco orador e deixava barbicha – nutria por ele secreta inveja e nunca recorria aos seus serviços quer como consultor quer como ator do papel principal.

Mas um dia o Romalino, que tinha uma causa importante a defender, forçado pelas circunstâncias, não teve remédio senão ir consultar esse colega rival, e, muito contrafeito, foi procurá-lo a casa e expor-lhe a questão e o estado das coisas.

O rival do Romalino ouviu tudo atentamente e ficou a pensar no caso, maduramente, cofiando a barbicha. E, depois de muito matutar, disse, gaguejando:

– É um caso muito bicudo! E continuou a pensar.

Também o Romalino ficou a pensar, mas em coisa diferente: se seria pura fantasia tudo o que se dizia da argúcia e da astúcia do seu colega e se daquela cachola não sairia nada, absolutamente nada.

O colega continuava pensando.

Então o Romalino atreveu-se a uma pergunta:

– Não seria bom pedir a alguém para falar ao juiz, arranjar-lhe alguma carta de recomendação ou mandar-lhe algum saguate?

– Asneira! – respondeu o colega, largando num gesto brusco a barbicha que afagava – Este juiz condena sistematicamente todos os que lhe mandam saguates ou metem empenhos!

O Romalino ficou derrotado na sua presumida rivalidade. Ele, que tantas vezes experimentara aquilo, como é que não dera com o caso? Mas o colega acabou de o aniquilar e mais a sua pretensiosa rivalidade, dando-lhe o seguinte conselho:

– Mande, antes, falar-lhe pela parte adversa, ou mande-lhe um saguate em nome da outra parte, e vencerá infalivelmente a demanda.

***

Tempos depois, o Romalino patrocinava uma acusação. Mas ficando de fora: o papel principal era feito por um colega que era o orador. Nenhuma prova se conseguira fazer; todas as testemunhas, arranjadas e adestradas pelo Romalino, tinham decaído; o advogado da defesa era forte e desmanchara-lhe a igrejinha.

O Romalino estava fulo. Tanto trabalho tomado, tanto dinheiro gasto, e afinal tudo estragado em algumas horas! Subitamente, lembrou-se do conselho dado pelo colega que o tirara uma vez de embaraços. Mas já não havia tempo; o julgamento estava para terminar. Porém, uma dessas sortes, frequentes na vida forense, veio em auxílio do Romalino: o juiz suspendeu a audiência por causa da hora adiantada e, deixando a sentença para o dia imediato, foi-se embora.

Então, o Romalino aproveitou a ocasião: deitou a correr e foi esperar o magistrado ao caminho de casa.

O juiz retirava-se fatigadíssimo, pensando ainda nas peripécias do julgamento, quando o Romalino se acercou dele e, dando-lhe as boas noites, perguntou, com muito interesse, se o réu fora absolvido.

– Ainda não dei a sentença que ficou para amanhã, – respondeu o magistrado, aborrecido.

– Pareceu-me, pareceu-me – gaguejou o Romalino, fingindo-se atrapalhado. – Pareceu-me, porque soube agora mesmo, dum ourives, que o réu lhe mandara fazer um anel para oferecer a vossa excelência!

O juiz ficou furiosíssimo e retirou-se apressadamente.

No dia imediato, voltou ao Tribunal e leu a sentença, com pasmo da acusação e da defesa, condenando o réu a uma pena fortíssima.

O Romalino aproveitara bem a lição do mestre na astúcia...

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(José Francisco da Silva Coelho - Goa: 1889-1944)
Texto-base:
Da tese de: João Figueiredo Alves da Cunha, sob o título: "Entre melindres e espertezas: personagens malandras, nos contos de Lima Barreto e José da Silva Coelho". Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2016.

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