segunda-feira, 8 de julho de 2019

O Curupira e o Caçador (Narrativa Popular), de Barbosa Rodrigues



O curupira e o caçador
(Narrativa)

Contam que um homem foi caçar. Perdeu-se no mato e já noite meteu-se debaixo de uma grande árvore. Já tarde, ouviu o Curupira dizer:

— Aqui cheira a gente.

O homem respondeu:

— Sou eu, pai.

Dizem que depois o Curupira entrou, foi ter com ele e disse-lhe:

— Ah! Meu filho! Dá-me a tua mão que eu quero comer.

Dizem que o homem cortou a mão do macaco, que o Curupira comeu, e tornou a dizer:

— Corta também a outra banda da tua mão que eu quero comer.

Depois que acabou de comer a mão, disse-lhe também:

— Dá-me o teu coração para eu comer.

O homem deu depois o coração do macaco. O Curupira comeu. O homem então disse logo ao Curupira:

— Pai! Dá-me também o teu coração para eu comer.

— Me dá, então, a tua faca.

O homem deu lhe logo a faca. Meteu-a no coração, caiu logo e logo morreu. Depois de passados alguns meses, lembrou-se o homem do Curupira, e dizem que dissera:

— Vou ainda tirar os dentes do Curupira para contas de minha filha.

Dizem que pegou logo no machado e chegando ao Curupira, olhou, e dizem que estavam os dentes quase azuis.

O homem bateu logo como machado nos dentes. O Curupira então acordou.

— Ah! Meu filho! Agora eu sei que tu me queres bem.

Dizem que ele dissera:  “É verdade”.

Como tu me queres bem, agora eu vou te dar um arco e uma flecha. Quanto tu quiseres pedirás a essa flecha. Flecha para o cerrado sem destino, que ela há pegar a presa, mas tu não flecharás pássaros de bando, porque pode acontecer que eles te matem.

Depois, o homem foi-se embora. Sempre que queria ia caçar, e diariamente era feliz.

Dizem que uma vez se esqueceu e flechou o Aracuã, e que logo os companheiros caíram sobre ele e despedaçaram-lhe as carnes. Morreu.

Depois, então o Curupira foi ter com ele, que aquentou cera no fogo e com ela uniu as carnes.

Dizem que o Curupira lhe dissera:

— "Agora não comas coisas quentes".

O homem caçava todos os dias. Um dia esquecendo-se, dando-lhe a mulher tacacá quente, tomou e derreteu se logo.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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