segunda-feira, 8 de julho de 2019

O Curupira e o homem infeliz (Lenda), de Barbosa Rodrigues


O Curupira e o homem infeliz

Contam que um homem casado, com filhos, quando ia caçar e pescar nada matava e por isso a mulher se zangava com ele. Um dia foi ao mato caçar e perdeu-se. Alta noite, foi ter com ele o Curupira e o achou dormindo. Chamou-o:

— Oh! meu sobrinho!

Acordou.

— Oh! meu avô!... o que é?

— Então estás dormindo?

Começaram a conversar.

— Ah! meu sobrinho... por que tens cabelos na cabeça?

— Por me ter curado.

— Hein! Deveras? Como te curaste?

— Não custa, meu avô. Mandei outrora pelar minha cabeça; depois lavei-a com pimentas ; depois me vieram os cabelos.

— Hein! Deveras? Então eu quero que me faças a mesma coisa para ter cabelos na minha cabeça.

— Deveras, meu avô? Então vamos fazer o mesmo.

— Então pela minha cabeça para tu curares.

Contam que logo o homem pelou a cabeça do Curupira e depois lavou-a com pimentas. Imediatamente o Curupira enlouqueceu com o ardor das pimentas e correu logo pelo mato, indo-se embora.

O homem voltou, e, medroso, foi logo para casa. Veio a mulher ter com ele. Vendo-o, a mulher logo lhe disse:

— O que vieste buscar, desgraçado?

— Venho ver como estão meus filhos.

— Para que tu queres teus filhos? Onde está o que trouxeste da caça para teus filhos comerem? Eles aqui estão chorando de fome todo o dia.

— Então volto e vou- me embora para o mato.

Demorou-se um pouco e depois foi-se embora para o mato.

— Já vou para o mato, e, se não me perder, eu apareço por cá.

Contam que foi-se logo embora pelo mato. Aí demorou-se e não sabemos quantos dias esteve nele. Depois disso, encontrou aquele Curupira cuja cabeça pelara. Chegando perto, disse:

— Oh! meu sobrinho!

— Oh! meu avô.

— Como passas? Seria você quem pelou minha cabeça?

— Não. Foi outro que já morreu, e lá estão os ossos que foram dele.

— Deveras, meu sobrinho? Então vem comigo e mostra-mos.

— Vamos.

Foram logo. Chegaram e lá acharam os ossos. O Curupira ajuntou-os, pegou
neles e os esmigalhou.

— Agora já me vinguei, disse ele. Meu sobrinho, vem comigo para minha casa.

Contam que foram logo e chegaram à casa. O Curupira entrou primeiro, e ele ficou, fora, de pé. O Curupira lhe disse:

— Meu sobrinho, entre; não tenha medo.

O homem olhou para dentro de casa e viu só mente cobras pondo as línguas de fora. O homem, de medo, não quis assentar-se.

— Sente-se, meu sobrinho.

O Curupira disse às cobras:

— Vocês não mordam meu sobrinho.

Então ele entrou.

— Senta-te.

Ele sentou-se, com medo.

— Agora, meu sobrinho, o que tu queres?

— Não sei. Quero voltar para minha casa; quero que meu avô me dê com que caçar, para levar para meus filhos, porque é por isso que minha mulher briga comigo, quando eu nada levo, e é por isso que ela se zanga.

— Hein! Deveras? Vou dar a você o que tu quiseres. Vamos já. Foram-se logo. Pegou numa corda e deu ao sobrinho.

— Aqui está uma corda para tu levares, para com ela matares a tua caça.

Foram-se pelo mato e acharam pássaros. Consigo levou o Curupira duas flechas. Flechou um pássaro e deu-o ao sobrinho. Depois acharam porcos.

— Sobrinho, queres agora porcos?

— Quero, meu avô.

— Então vou pegá-los.

Dizem que o Curupira foi logo e pegou um bando de porcos. Pegou, ajuntou, embolou, deu um nó, trouxe e deu a ele.

— Aqui está, meu sobrinho, para levares para tua casa para tua mulher. Toma bem cuidado quando desmanchares. Chegando a tua casa, faze um bom curral. Quando acabares, então, desmancha dentro dele para matá-los. Olha que são bravos e mordem-te. Chama tua mulher e outros parentes que estão por perto de ti para matarem os porcos.

O homem foi-se logo embora. Chegou á casa; a mulher veio ter com ele e encarou -o.

— O que vens buscar?

— Nada, minha mulher. Já está aqui, minha mulher.

Logo o homem disse:

— Vamos agora fazer um curral. Vem comigo cortar paus.

— Para que tu queres curral?

— Eu trouxe um bando de porcos que aqui está, para matarmos no curral, para não fugirem.

— Você está certo disso?

— Certo?... Então? Não te engano. Então estou brincando contigo?

— Eu quero ver.

— Olha; não te percas; sê valente.

Fizeram logo o curral e quando o acabaram, ele disse:

— Agora vamos matar e moquear nossa comida.

Foi logo chamar seus parentes. Vieram logo todos armados de cacetes.

— Agora vamos matar, mas olhem que mordem vocês.

— Então, onde estão os porcos? Nada... onde estão?

Levou-os logo para o meio do curral, desmanchou e puxou pela ponta da corda. Dizem que logo apareceram porcos que metia medo, e bravos. Uns subiram, outros pularam para fora de medo. O homem então gritou:

— Venham, meus parentes. Não tenham medo. Matem para vocês. Foram matar e não acabaram porque ficaram muitos.

— Vejam agora vocês. Vejam o que eu contava. Vocês já acreditam!  Foram e levaram a caça.

Contam que depois disso, ela ficou boa e satisfeita com seu marido; ficaram logo bem e já não brigavam.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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