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7/15/2019

Midas (Mito Grego)


Midas

Por: Alice de Almeida

Midas, rei da Frigia, conseguiu obter de Baco, o maravilhoso dom de transformar em ouro todos os objetos que tocasse. Esse dom tornou-se-lhe em breve fatal, pois os próprios alimentos eram transformados no precioso metal, ao seu contato, vendo-se Midas impossibilitado de comer o que quer que fosse.

No auge da desesperação, invocou o deus Baco, e suplicou-lhe que o livrasse de tão mortal suplício. Baco compadecido da sua desgraça, ordenou-lhe que se banhasse nas águas do Pactolo, para perder o nefasto dom. Midas obedeceu, e o grande rio ficou cheio de palhetas douradas.

Refere também a lenda que, tendo o rei dito que a lira de Apolo era inferior à flauta de Pan, o senhor dos bosques, aquele em castigo à sua irreverência fez-lhe nascer orelhas de burro.

Midas porém ocultava-as cuidadosamente sob os fartos cabelos, e somente um barbeiro conhecia o seu segredo.

Mas o barbeiro após algum tempo, e apesar das ameaças de morte, não se conteve; resolveu então confiar a terra o segredo que tanto o oprimia.

Abriu, pois, uma funda cova, e lá deixou sepultadas as palavras fatais que confirmavam ter o rei orelhas de asno, ocultas sob a cabeleira.

Nesse lugar, passado tempo, brotaram caniços que, ainda verdes, agitados pela mais leve aragem diziam:

— "Midas, o rei Midas, tem orelhas de burro!"

E assim em breve foi divulgado o segredo do rei que caiu no ridículo, e furioso maldisse a hora em que atraíra sobre a sua cabeça a justa cólera do formoso e temível Apolo.

7/09/2019

Como a noite apareceu (Lenda), de Couto de Magalhães




Como a noite apareceu

No princípio não havia noite; havia dia somente, em todo o tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animais; todas as coisas falavam. A filha da Cobra Grande, contam, casara-se com um moço. Este moço tinha três fâmulos fiéis. Um dia chamou ele os três fâmulos e lhes disse: "Ide passear, porque minha mulher não quer dormir comigo."

Os fâmulos foram-se, e então ele chamou sua mulher para dormir com ele. A filha da Cobra Grande respondeu-lhe: "Ainda não é noite". O moço disse-lhe: "Não há noite, somente há dia". A moça falou: "Meu pai tem a noite. Se queres dormir comigo, manda buscá-la, lá pelo grande rio".

O moço chamou os três fâmulos; a moça mandou-os à casa de seu pai para trazerem um caroço de tucumã. Os fâmulos foram, chegaram em casa da Cobra Grande, esta lhes entregou um caroço de tucumã muito bem fechado, e disse-lhes: "Aqui está; levai-o. Eia! Não os abrais, senão todas as coisas se perderão".

Os fâmulos foram-se, estavam ouvindo barulho dentro do coco de tucumã, assim: ten, ten, len… xi… era o barulho dos grilos e dos sapinhos que cantam de noite. Quando já estavam longe, um dos fâmulos disse a seus companheiros: "Vamos ver que barulho será este". O piloto disse: "Não, do contrário nos perderemos. Vamos embora, eia, rema!" Eles foram-se e continuaram a ouvir aquele barulho dentro do coco de tucumã, e não sabiam que barulho era.

Quando já estavam muito longe, ajuntaram-se no meio da canoa, acenderam fogo, derreteram o breu que fechava o coco, e o abriram. De repente tudo escureceu. O piloto então disse: "Nós estamos perdidos; e a moça, em sua casa, já sabe que abrimos o coco de tucumã!" Eles seguiram viagem. A moça, em sua casa, disse então a seu marido: "Eles soltaram a noite; vamos esperar a manhã".

Então todas as coisas que estavam espalhadas pelo bosque, se transformaram em animais e em pássaros. As coisas que estavam espalhadas pelo rio, se transformaram em patos e peixes. Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e a sua canoa se transformaram em pato; de sua cabeça nasceram a cabeça e bico do pato. A filha da Cobra Grande, quando viu a estrela d'alva, disse a seu marido: "A madrugada vem rompendo, vou dividir o dia da noite". Então ela enrolou um fio, e disse-lhe: "Tu serás cujubim". Assim, ela fez o cujubim, pintou a cabeça do cujubim de branco, com tabatinga, pintou-lhe as pernas de vermelho com urucum, e então disse-lhe: "Cantarás para todo sempre, quando a manhã vier raiando". Ela enrolou o fio, sacudiu cinza em riba dele, e disse: "Tu serás inambu, para cantar nos diversos tempos da noite, e de madrugada".

De então para cá todos os pássaros cantaram em seus tempos, e de madrugada para alegrar o princípio do dia.

Quando os três fâmulos chegaram, o moço disse-lhes: "Não fostes fiéis; abristes o caroço de tucumã, soltastes a noite e todas as coisas se perderam, e vós também que vos metamorfoseastes em macacos, andareis para todo o sempre pelos galhos dos paus". A boca preta, e a risca amarela que eles têm no braço, dizem que é ainda o sinal do breu que fechava o caroço de tucumã, que escorreu sobre eles quando o derreteram.

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José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

7/08/2019

Canopus (Lenda), de Barbosa Rodrigues



Canopus
(Lenda dos Macuxi)

Um homem chamado Pechioço casou-se com uma mulher sapo chamada Ueré. Um dia o marido zangado com a mulher por estar sempre gritando: Cuá! Cuá! Cuá!... Aborreceu-se logo dela. Então, contam, que cortou de um lado a perna com a coxa, que estava pintada com jenipapo e pegando ela atirou-a ao rio. Logo transformou-se em peixe surubim, subindo o corpo para o céu a se encontrar com seu irmão Epépim.

O Jurupari e o Caçador (Lenda), de Barbosa Rodrigues



O Jurupari e o Caçador

Um homem foi caçar e encontrou uma veada com filho. Flechou o filho, e pegou no veadinho. A mãe fugiu. Fez chorar o veadinho e a mãe quando ouviu veio. Flechou, então, também a mãe do veadinho. Morreu. Olhando para ela viu que a veada era sua própria mãe.

O Jurupari transformou a mãe em veada para enganar o filho enquanto dormia.

A origem das Plêiades (Lenda), de Barbosa Rodrigues



A origem das Plêiades

(Lenda de Vila Bela)

Havia antigamente um encantado que fugiu da mulher.

— Quando tu quiseres falar-me, irás atrás de mim. Meu caminho são as pegadas dos urubus. Quando achares penas de araras, é porque é o caminho das coisas más.

O pai das Plêiades quando deixou a mulher, esta estava grávida. Indo um dia pelo caminho procurar o marido, os filhos choraram na barriga. Zangando-se a mulher com os filhos, ralhou-lhes e disse:

— Tudo quanto vocês veem, pedem. Por isso não saem já para comer o que querem.

Depois que ralhou, as crianças não falaram mais. Somente foi pelo caminho das coisas más zangada com eles. Chegou à casa da mãe da onça.

— Que vens tu buscar por aqui? Meus filhos são muito maus.

— Eu venho por aqui no encalço de meu marido. Ele me disse que viesse atrás das pegadas do urubu e eu vim pelo caminho das coisas más ou das penas das araras.

— Ah! Minha neta, ali vêm meus filhos chegando e zangados comigo.

Vem para aqui a fim de que eu te esconda debaixo do panelão, para que eles não te vejam.

Chegou um filho:

— Ah! Minha mãe, aqui cheira a sangue real.

— Quem há de chegar aqui, meu filho. Eu estou longe. A mãe perguntou-lhe:

— Que farias tu quando uma mulher aparecesse e viesse procurar-me?

— Que eu faria, minha mãe? Deixava ficar para tua amiga.

Depois disso, chegaram os outros e disseram a mesma coisa, como o primeiro. Um dia, eles nada mataram para comer e zangados mataram a mulher que estava com a mãe. Esta pediu os ovos dela para criar; tomou-os, guardou-os bem e deles saíram sete meninos e uma menina. Depois de crescidos, disseram estes:

— Como vingaremos nossa mãe? Vamos fazer um espeto de paxiúba para espetar naquele fundo que ali está, matá-los, ficando assim vingadores de nossa mãe.

Quando as crianças foram banhar-se, chegaram as onças.

— Meninos, vocês que estão fazendo?

— Nada; estamos nos banhando.

— Eu quero também me banhar com vocês;

— Pois bem. Nós, como criancinhas, saltamos aqui pelo baixo. Vocês, como são grandes, saltem ali para aquele fundo.

Saltaram para a água funda e ali ficaram; morreram todos no espeto.

Foram-se embora as crianças e sentaram-se em uma pedra. Chegou a onça a ter com eles.

— Que é que fazem vocês?

— Nada; estamos brincando.

— Então eu quero também brincar.

— Pois bem. Senta-te na pedra e faz o que estamos fazendo.

— Para quê?

— Para fazer pequeninos os nossos grãos.

— Então eu quero meu grão também pequenino.

— Farás o mesmo que estamos fazendo.

Bateram todos com os grãos na pedra. Ali ela ficou e morreu. Voltaram os meninos para casa da mãe da onça. Depois, foram pela beira do rio, arremedando todos os pássaros. Mandaram também a irmã os arremedar.

Nada para eles era bonito. Mandaram arremedar o carão. Acharam bem bonita a cantiga e disseram:

— Espreita; e quando as Plêiades estiverem saindo, tu sacudirás as asas, porque nunca as tuas penas cairão. Espreita; quando as Plêiades nascerem, tu cantarás.

O carão sacudiu as azas e seus irmãos o mandaram embora. Eles subiram para o céu e tornaram-se as Plêiades.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

Tiri e Karu (Lenda), de Barbosa Rodrigues



Tiri e Karu
(Lenda dos Yurukarés)

Sararumá ou Aymá Sunhé, gênio malfazejo, abrasou a terra não escapando senão um homem que por prevenção meteu-se em um buraco com alimentos para alguns dias. Para ver se o incêndio continuava punha para fora do buraco uma varinha, que durante dois dias retirava queimada, porém no terceiro voltou sem ser queimada e fria. Vendo o incêndio terminado saiu do buraco e viu que a terra estava nua. Sem abrigo e sem alimentos vagava quando se encontrou com Sararumá, que lhe disse:

— Fui eu o causador de todo este mal, mas como tenho pena de ti, toma. Deu-lhe um punhado de sementes e ordenou-lhe que semeasse.

De repente apareceu um bosque, como por encanto, com o que era necessário para o alimento humano.

Depois, sem que se saiba como, este homem tinha consigo uma mulher da qual teve muitos filhos e uma filha.

Na idade das paixões, a filha corria tristemente as florestas, chorando o seu isolamento quando foi dar com uma bela arvore, o Ulè, da qual apaixonou-se, transformando-se esta em homem com o qual passava as noites, desaparecendo ao raiar do dia.

Revelando tudo a sua mãe, esta aconselhou-a que o amarrasse. Com efeito, seguindo os conselhos maternos Ulé ficou preso, e prometendo casar-se foi solto.

No gozo de uma felicidade perfeita estava, quando um dia indo ele à caça não voltou por ter sido morto por uma onça. Indo ela a sua procura soube, pelos irmãos, da desgraça e levada por eles foi ver o seu corpo. Encontrando os pedaços ensanguentados, todos dispersos, uniu-os para ainda uma vez ver suas formas. Contemplava ela o marido quando este ressuscitou e disse:

— Parece-me que dormi muito!

Voltavam alegres quando Ulé tendo sede foi a um córrego beber água e vendo a sua figura refletida, notou que lhe faltava um pedaço da cara, e para não aparecer mais a sua mulher assim desfigurado, deixou-a e dela se despediu, dizendo que voltasse só, mas que nunca virasse o rosto para traz durante o caminho, fosse qual fosse o barulho que houvesse atrás de si.

Durante a volta ouviu diversas vezes ruído atrás de si; mas, não fez caso, porém uma ocasião ouvindo o barulho de uma folha que caía, voltou-se, o que foi bastante para perder o caminho e extraviar-se pelo mato. Errava de um para outro lado sem acertar com o caminho quando foi dar à casa da mãe das onças. Esta recebeu-a afavelmente, porém, vendo que seus filhos quando voltassem a comeriam mandou que ela se escondesse.

Voltando os filhos sentiram que havia gente estranha em casa, e afinal descobriram a moça. Iam comê-la, porém a mãe os impediu.

Obrigaram-na então a catar-lhes as formigas que tinham no corpo e a comê-las. Apesar do medo não pôde comer as formigas, pelo que a mãe lhe deu um punhado de sementes de cuieira, para que iludindo, pusesse fora as formigas e comesse as sementes. Assim iludiu ela a três filhos da onça, porém o quarto, que tinha quatro olhos, viu a esperteza da moça e furioso lançou-se sobre ela, matou-a e tirou do ventre o filho que estava em termo de nascer.

A mãe tendo pelo filho a mesma pena que tivera da mãe, meteu a criança num pote, para cozinhar, porém depois tirou-a, metendo nele outra coisa e assim iludiu o filho.

Às ocultas e aos cuidados da velha onça cresceu o menino e tornou-se homem. Chamava-se Tiri. Um dia disse ela a Tiri que uma paca lhe tinha comido todas as abóboras. Ele foi para a upera, e quando apareceu o animal o flechou, mas tão mal que apenas a flecha arrancou a cauda, por isso dessa data em diante esse roedor ficou sem esse apêndice.

A paca assim ferida voltou se e lhe disse:

— Tu vives em boa harmonia com os assassinos de tua mãe, e porque me queres matar quando eu não te fiz mal?

Tiri pediu à paca que lhe explicasse o que queria ela dizer, porque para ele aquelas palavras eram misteriosas.

A paca levando-o para sua toca, disse-lhe que as onças tinham morto seu pai e sua mãe e que tendo já descoberto que ele vivia queriam escravizá-lo.

Furioso Tiri depois de ouvir as revelações da paca, foi esperar as onças e quando elas voltavam da caça matou três, varadas por suas flechas. A quarta que tinha quatro olhos vendo as flechadas escapou, apenas ferida e subindo para uma arvore exclamou:

— Árvores, palmeiras favoreçam-me! ... Sol, lua e estrelas salvem-me!

A lua atendendo ao seu pedido ocultou-o e desde então, as onças são noturnas e estão representadas na lua.

Tiri tinha um poder sobrenatural.

Vendo a mãe da onça só, sem ter quem para ela trabalhasse fez um instante um grande roçado com plantações.

Aborrecendo-se de viver sozinho, e senhor da natureza, tendo um dia dado uma topada que lhe arrancou a unha do dedo grande, meteu está no oco do pau causador desse desastre. Logo depois ouviu falar atrás de si e viu um homem que se tinha formado da unha. Tiri deu-lhe então o nome de Karu.

Dalí em diante se uniram em boa harmonia sendo Karu seu confidente. Aconteceu, porém, que sendo eles, um dia, convidados por um certo pássaro para almoçar em casa dele, ofereceu-lhes este um vaso cheio de chicha, que nunca se esvaziava por mais que bebessem, e dando Tiri com ele por terra, saiu líquido em tanta abundância que inundou a terra e matou seu companheiro.

Depois de secas as terras Tiri tomou os ossos de Karu e o ressuscitou.

Continuaram a viver sós, porém, aborrecidos desejaram viver em companhia de outros homens e para isso uniram-se à fêmea de alguns animais. De cada uma nasceu um homem e uma mulher, porém como as mulheres nascessem com os olhos abaixo do peito, Tiri teve de mudá-los para o lugar que hoje ocupam.

O filho de Karu morreu e por este foi enterrado.

Tiri, no fim de algum tempo disse a Karu que fosse desenterrar seu filho, mas que não o comesse. Karu cumpriu a ordem de Tiri, e cavando a cova de seu filho só encontrou as raízes de um pé de mandioca. Karu achando-as bonitas comeu-as o que fez com que se ouvisse grande estrondo.

Tiri então disse:

— Karu desobedeceu-me e comeu o filho, e para puni-lo, tanto ele como todos os homens serão mortais, sujeitos ao trabalho e ao sofrimento.

Tempos depois Tiri sacudindo uma árvore caiu dela um pato, que Tiri ordenou a Karu que o cozinhasse e comesse.

Obedecendo Karu, Tiri lhe disse:

— Este pato era teu filho e tu o comeste.

Karu desgostou-se de tal modo, que vomitou tudo quanto comera. Saíram então da sua boca papagaios, tucanos, e outros pássaros.

Tiri e Karu foram visitar a mãe da onça, porém, vendo que estava com os beiços ensanguentados, Tiri, julgou que ela tinha se encontrado com homens e que ela os tinha devorado.

Ameaçou matá-la se não confessasse seu crime, e cortou-lhe o pelo da cabeça.
Quando ia matá-la ela pediu que a perdoasse, porque revelaria tudo.

É verdade que comi uma pessoa, porém esta estava já morta por ter sido mordida por uma cobra, que vive num buraco.

Indicou o lugar.

Essa cobra comia todos que apareciam nesse lugar. Tiri disse à mãe das onças:

Tu, de hoje em diante, só comerás o que os outros matarem, e assim acontecerá aos de tua raça. Transformou-a em urubu.

Por essa razão o urubu tem a cabeça pelada.

Tiri ordenou a um Uacauan que matasse e comesse a cobra.

Depois disso saíram do buraco da cobra os Incas, os Mansinos, os Chiriguanos e outras nações. Foi tal a quantidade de gente que saiu que Tiri amedrontando-se tapou o buraco.

O buraco por onde saíram os povos que encheram a terra, existe perto de uma grande rocha chamada Mamoré do qual ninguém se aproxima por causa de uma grande cobra que guarda a entrada do buraco. Fica perto da confluência dos rios Sacta e Soré, nas nascentes do rio Mamoré.

Tiri disse então a essas nações:

— E preciso que se dividam e ocupem toda a terra e para isso vou lançar a discórdia entre vocês. Imediatamente caiu uma chuva de flechas, com as quais todos se armaram.

Por muito tempo essas nações se bateram até que Tiri as pacificou, porém conservaram-se sempre separadas odiando-se umas às outras.

Terminando sua missão ali, Tiri decidiu-se a procurar outro lugar e para saber qual deveria ser, enviou um pássaro para o Oriente, que pouco tempo depois voltou em parte depenado. Concluiu que o espaço da terra era pequeno. Mandou— o para o Norte, e aconteceu a mesma coisa, porém mandando-o para o Poente no fim de algum tempo, o pássaro voltou coberto de lindas penas. Para lá então dirigiu-se Tiri, para nunca mais aparecer.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

O Princípio do Mundo (Lenda), de Barbosa Rodrigues


O Princípio do Mundo
(Lenda do Rio Tapajós)

No princípio este mundo estava na escuridão.

Da escuridão saíram dois homens um chamado Caruçacahiby e outro que era seu filho chamado Rairu.

Rairu tropeçou em uma pedra furada como uma panela e ralhou com a pedra.

Caru, seu pai, mandou o filho Rairu carregar a pedra com que tinha ralhado.

Rairu cumpriu a ordem do pai, carregou na cabeça a pedra que em cima dele começou a crescer.

Pesando já muito, ele disse ao pai:

— Esta pedra já pesa muito.

Mais crescia então a pedra e já Rairu não podia andar.

A pedra continuou a crescer. Cresceu tanto a pedra em forma de panela que formou o céu.

Apareceu então depois o sol no céu.

Rairu ajoelhou-se vendo seu pai ser o criador do céu.

Caru era inimigo do filho porque sabia mais do que ele.

Um dia Caru flechou a folha de um tucumã e mandou o filho subir no tucumanzeiro para tirar a flecha para ver se o matava.

O filho chegou ao tucumanzeiro, os espinhos viraram-se todos para baixo a ficar bonito: e subiu e tirou da folha a flecha do pai.

Noutro dia mandou o filho adiante para o roçado e contam que cortou todas as árvores para matar o filho.

Derrubou então as árvores em cima do filho, caíram todos os paus em cima, mas ele não morreu e ficou incólume.

Caru arredou-se dali, pensando que o filho tinha morrido.

No outro dia voltou Caru e achou o filho perfeitamente bom.

Quando Caru ia queimar a roça mandou o filho para o meio, para que morresse queimado.

Caru cercou o filho de fogo.

Quando Rairu, depois, viu a fogueira cercá-lo entrou pela terra e quando a roça acabou de se queimar apareceu sem nada lhe ter feito o fogo.

Caru zangou-se muito vendo que o filho não morria.

No outro dia Caru voltou e foi para o mato.

Chegou. Quando no mato fez de folhas secas uma figura de tatu e enterrou deixando o rabo de fora no qual esfregou resina. Chamou o filho e lhe disse:

— Vamos caçar?

— Vamos.

— Aqui está um tatu, vem puxar.

A figura daquele tatu ia cavando: já estava um buraco no chão.

Rairu depois deixou o rabo do tatu, mas não pôde tirar a mão, porque a resina a pegava.

Contam, então, que a figura do tatu o levou pelo buraco pela terra dentro e sumiu-se.

Passava seu pai outro dia por aquele buraco quando viu seu filho sair dele.
O pai pegou num pau e bateu no filho.

O filho lhe disse:

— Não me batas, porque no buraco da terra eu achei muita gente, mais que boa, e eles vêm trabalhar para nós.

O pai deixou-o e não o bateu mais.

Arredondou uma coisinha e atirou no chão que então cresceu transformada em algodão. O algodoeiro cresceu logo, floresceu, dando depois algodão.

Caru apanhou o algodão e fez uma corda, amarrou Rairu e o meteu no buraco do tatu.

Contam que pela corda e do buraco subiu muita gente feia, depois também subiu muita gente bonita, dizem que, então a corda arrebentou e o resto da gente bonita caiu no buraco.

Rairu subiu com a gente bonita.

Contam que Caru quando viu aquele bando de gente mandou fazer uma coisa verde, uma vermelha, uma preta, uma amarela para assinalar aquela gente com as suas mulheres, para quando aquela gente crescesse ser Mundurucus, Muras, Araras, Pamanás, Uinamarys, Manatenerys, Catauchys e assim todos.

Demorando muito a pintar toda aquelas gentes ficaram uns com sono e outros mais do que dormindo.

Aos preguiçosos Caru disse:

— Vocês são muito preguiçosos, agora vocês serão passarinhos, morcegos, porcos e borboletas. Aos outros que não eram preguiçosos e que eram bonitos lhes disse:

— Vocês serão o princípio de outro tempo; noutro tempo os filhos de vocês serão valentes. Depois Caru sumiu-se pela terra a dentro.

Então denominaram aquele buraco Caru-Cupy.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

O Serpentário (Lenda), de Barbosa Rodrigues



O Serpentário

Contam que uma mulher foi um dia à casa de um homem casado e pediu para ali ficar.

Perguntou-lhe o homem:

— Que sabes tu fazer?

— Sei fiar.

— Então, fia.

Dizem que lhe deu algodão. Depois a mulher ficou em casa dele. Deixavam-na só e nada lhe davam para comer. Então, ela ia ao ninho das galinhas e tirava os ovos para chupar, e deixava as cascas inteiras, como se não fossem quebradas. Depois disso o homem voltou do mato com dois ovos de mutum; quebrou um e meteu dentro dele um cabelo humano. Em seguida, a mulher foi chupá-los. Cresceu-lhe tanto a barriga que ela já não podia andar. Voltando do mato, o homem disse-lhe:

— Vamos apanhar sorva que encontrei aqui perto.

Dizem que da barriga responderam-lhe:

— Eu vou contigo, minha mãe. Disseram eles então:

— Que é isto?

— Eu vou contigo, minha mãe.

O homem foi com ela, apesar da barriga grande. Apenas chegaram junto à sorveira, o homem disse:

— Cortamos ou subimos?

— Eu mesmo subo.

Então o homem tirou a maior sorva; tirou dela o conteúdo e encheu-a de saliva. Da mulher que estava sentada saiu uma cobra que subiu para a sorveira. Ainda estava na barriga a metade, já a cabeça estava na ponta da árvore, engrossando ao mesmo tempo. Então, disse o homem:

— Agora, quando acabar de sair, mete a ponta do rabo na casca da sorva.

A mulher meteu-o logo. Então fugiram, levando o homem a mulher as costas para casa. Logo depois, a cobra gritou:

— Minha mãe! Minha mãe!

— Uh! Uh! ...

Chegaram a casa. Imediatamente o homem meteu a mulher num pote e pôs terra em cima. A cobra foi no encalço da mãe, chegou e chamou-a... chamou-a. A mãe não respondendo, saltou a filha ao rio. Procurou o fundo e não o achou. Subiu e foi para o céu.

A cobra grande chamou o homem e disse:

— Meu avô, escondeste minha mãe. Agora vou-me embora para o céu; não achei lugar no rio e quando eu te chamar, me responderás. Quando eu aparecer, capina tua roça, porque será então o princípio do verão.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

As Plêiades (Lenda), de Barbosa Rodrigues



As Plêiades
(Lenda dos Macuxi)

Um homem casado tinha sete filhos, os quais diariamente choravam junto ao pai e à mãe.

— Papai, eu quero comer! Mamãe eu quero comer!

— Ah! Meus filhos, eu dou de comer a vocês e nunca chega. Dizem que choramingaram, pelo que a mãe ralhou com eles:

— Vocês são gulosos!

— Então, minha mãe, não quer nos dar de comer?

— Aqui está para vocês comerem.

— Isto, minha mãe, não chega para nós.

Então o filho mais velho pegou nos irmãos menores e deu a comer a cada um deles um pedaço.

— Aqui está, meus irmãos, o comer ainda não chega para nós. Dizem que eles pegaram e comeram.

O irmão mais velho deles disse:

— Bem, meus irmãozinhos, nós vamos já para o céu para ser estrelas. Pegou, então, nos irmãos pequenos debaixo dos dois braços e dançaram cantando. E dançando foram subindo e foram-se indo embora.

A mãe, saindo, olhou para eles e os viu indo-se embora.

— Ah meus filhos! Para onde vão vocês? Aqui está para vocês comerem!

— É inútil, minha mãe! Deixe ficar, pois já vamos indo para o céu ter com nosso tio para sermos estrelas.

Então, dançando, foram indo dando voltas, como faz o Urubu, e foram sumindo, sumindo, até chegar ao céu.

O Cunauaru (Lenda), de Barbosa Rodrigues


 O Cunauaru

Havia outrora dois homens, um casado e outro que se enfaceirava com a mulher do irmão. Dizem que era pajé o irmão, que pegou no rabo de uma arara e meteu no buraco do pau. Disse depois à mulher:

— Dize a meu irmão para tirar o filho da arara para que tu o cries.

Logo, então, ele subiu e a coisa má o pegou no buraco do pau. Começou a gritar:

— Meu irmão! Meu irmão! Meu irmão! Meu irmão! Anda depressa, meu irmão; anda depressa, meu irmão.

Depois disso virou sapo.

O Jurupari e as moças (Lenda), de Barbosa Rodrigues



O Jurupari e as moças

Contam que um velho que tinha três filhas, combinara com o tio delas para levá-las a apanhar miriti. Conforme tinham ajustado apareceu de madrugada o Jurupari sob a figura do tio, que ele havia morto em caminho. Saíram as moças com o suposto tio. Depois de muito caminharem, perguntou uma delas se ainda estava longe o miritizal. O Jurupari respondeu que não. À medida que caminhavam, de vez em quando uma delas perguntava se ainda estava longe o miritizal e ele respondia que não. Ao alvorecer, já quando estavam perto da gruta, em que morava o Jurupari, uma delas olhando para os pés deste exclamou: — Kuaá Yurupari! Este é o Jurupari!

Chegando a casa disse-lhes o Jurupari que ali é que era o miritizal. Saiu depois, deixando um papagaio de sentinela às moças para que não fugissem.

Chegando a noite convidou a mais velha para levar-lhe fogo à rede. Ali começou como morcego a chupá-la. De madrugada tornou a sair para o mato.

Logo que ele saiu foram as duas irmãs ver a que dormira com o Jurupari e encontraram somente a sua ossada. À noite chegou o Jurupari e mandou a segunda levar-lhe fogo à rede e quando esta se aproximou agarrou-a e chupou a como a primeira. Pela madrugada foi novamente para o mato. Quando este saiu a mais nova foi à rede e viu a outra ossada. Chorando deitou-se na rede junto dos ossos de suas irmãs. Logo depois viu passar voando sobre a gruta o Carão e gritou:

— Ah! Carão! Carão! Se tu fosses gente me levarias a minha mãe!

Dali a pouco apareceu-lhe o Carão sob a forma de um moço, que lhe disse que tomasse os ossos, um pouco de sal e de cinzas e fosse furtar a milonga do Jurupari.

Logo que ela arranjou tudo partiram.

Apenas saíram começou o papagaio a gritar:

Ce yara, Karan o raçô ana ne yapuruchitá. — (Meu senhor, lá vai o Carão levando o teu caramujo.)

Ouvindo isso correu atrás deles o Jurupari gritando:

U rure Karan ce muyrakytan. (Carão traz o meu talismã.)

Ao aproximar-se o Jurupari, o Carão disse à moça que tomasse um dos ossos das irmãs.

Imediatamente levantou-se uma grande fumaceira que impediu o Jurupari de aproximar-se.

Aproveitaram-se disso e caminharam. Já tinham andado muito quando novamente ouviram o grito:

U rure Karan ce muyrakytan.

O Carão mandou então queimar sal e cinza, o que fez com que se levantasse um grande espinhal. Enquanto o Jurupari se desembaraçava dos espinhos eles avançaram. Já perto da casa da mãe ouviram ainda:

U rure Karan ce muyrakytan!

Mandou então o Carão que queimasse juntos os ossos, o sal e as cinzas, o que fez com que aparecesse um grande rio que o Jurupari não pode atravessar e assim puderam chegar à casa da mãe, que ficou contente por ver as filhas, quando as julgava todas perdidas.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

As mulheres da maloca (Lenda), de Barbosa Rodrigues



As mulheres da maloca

Dizem que havia outrora, no Rio Uanauá, moças virgens que guardavam os talismãs e os atributos de Jurupari.

Dizem que uma vez fugiu uma das moças e foi procurar marido.

Chegando ao mato e anoitecendo, ali dormiu. De madrugada estava chorando quando ouviu homens falarem.

Um deles estava dizendo:

— Eu não me hei de casar; se encontrar uma moça bonita então me casarei.

Depois disso encontraram a moça e o homem, vendo-a, achou-a formosa e ela também o achou bonito.

O homem lhe disse:

— Queres te casar comigo? A moça disse:

— Quero.

O homem então levou-a para sua terra.

Aquele homem era da nação Jacamim.

Os pais o casaram e depois de casados foram eles banhar-se ao riacho e ali acharam a erva Jacamim com a qual esfregaram o corpo e se lavaram.

Dizem que então ambos se transformaram em jacamins.

Depois disso sentiu que tinha ovos e a barriga cresceu a não poder mais andar.

Dizem que a mulher dissera:

— Isto não são ovos, isto talvez sejam filhos.

— Meu filho, em tempo algum tu flecharás Jacamins.

A mãe deles nunca os vira quando dormiam; uma noite, porém, foi vê-los dormir.

Olhando para seus filhos assustou-se.

A menina, dizem, que tinha sete estrelas na testa e o menino uma cobra de estrelas enrolada no corpo.

A mãe ficou assustada e chamou o marido para ver as crianças.

Veio o pai delas e assustou-se também. Falou.

— Eu sou ave, como é que tenho crianças?

— Que quer dizer isto, eu sou ave e minha mulher tem crianças? Os pajés disseram-lhe:

— Também são teus filhos. Quando estiveste com tua mulher ela estava olhando para as estrelas e por isso saíram as estrelas neles.

Enquanto o pai conversava com os pajés e a mãe foi também passear, o menino pegou nas flechas e no arco e foi caçar.

Encontrou Jacamins e matou todos.

Depois de ter morto todos, vieram outros que também matou. Depois foi para casa. Depois chegou a mãe.

Ele disse à mãe:

— Minha mãe! Eu matei todos os Jacamins. Vamos ver?

— Vamos.

— Meu filho, tu mataste teu pai e bem assim os pajés; agora ninguém nos dá o sustento. Tu nos estragaste muito.

Então, dizem que o menino respondera:

— Não entristeça o seu coração, mãe, para isso estou eu, o que faltar eu lhe darei.

— Meu filho, como chegaremos à terra de teu avô? Quando outrora de lá saí não tinha filhos, estava virgem. Agora  teu avô há de querer meter-me na casa tenebrosa para que eu não conheça homens.

— Deixe estar, minha mãe, eu verei, quando eu chegar lá eu acabo com essas coisas.

Quando eles chegaram na terra do avô, o menino pegou numa grande pedra e lançou sobre a casa e a achatou; as mulheres todas que lá estavam fugiram. A pedra que caiu pelo seu próprio peso afundou se pela terra.

O avô quando viu aquilo teve medo do menino e toda aquela gente também teve medo dele.

Dizem que, então, o chefe falara:

— Eu toda vida estimarei muito a vocês, mas só quero que concertem o que estragaram e ponham tudo como anteriormente estava.

Disse então o menino ao chefe.

— Eu também gosto de ver todas as coisas em seu lugar.

— Dê para mim minha irmã para eu levá-la e curá-la, porque só eu sei onde está o remédio. Deste modo o irmão levou-a para o céu, por não querer que ela se curasse e é ela que agora vemos e chamamos as Sete estrelas (Plêiades).

Vendo depois disso, a mãe, que eles se demoravam foi-lhes no encalço a procurá-los e quando passava por um riacho a cobra grande a engoliu.

Quando chegou o filho macho não achando a mãe foi também a sua procura.
Foi por todas as terras e por onde foi passando deixou filhos até encontrar sua mãe.

Depois de achar a mãe levou-a para o céu.

Ela é hoje aquela estrela que nós chamamos Pinon ou Cobra grande.

O que eu conto foi no nosso princípio, na origem de nossos avós.

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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)