segunda-feira, 8 de julho de 2019

O Jurupari e as moças (Lenda), de Barbosa Rodrigues



O Jurupari e as moças

Contam que um velho que tinha três filhas, combinara com o tio delas para levá-las a apanhar miriti. Conforme tinham ajustado apareceu de madrugada o Jurupari sob a figura do tio, que ele havia morto em caminho. Saíram as moças com o suposto tio. Depois de muito caminharem, perguntou uma delas se ainda estava longe o miritizal. O Jurupari respondeu que não. À medida que caminhavam, de vez em quando uma delas perguntava se ainda estava longe o miritizal e ele respondia que não. Ao alvorecer, já quando estavam perto da gruta, em que morava o Jurupari, uma delas olhando para os pés deste exclamou: — Kuaá Yurupari! Este é o Jurupari!

Chegando a casa disse-lhes o Jurupari que ali é que era o miritizal. Saiu depois, deixando um papagaio de sentinela às moças para que não fugissem.

Chegando a noite convidou a mais velha para levar-lhe fogo à rede. Ali começou como morcego a chupá-la. De madrugada tornou a sair para o mato.

Logo que ele saiu foram as duas irmãs ver a que dormira com o Jurupari e encontraram somente a sua ossada. À noite chegou o Jurupari e mandou a segunda levar-lhe fogo à rede e quando esta se aproximou agarrou-a e chupou a como a primeira. Pela madrugada foi novamente para o mato. Quando este saiu a mais nova foi à rede e viu a outra ossada. Chorando deitou-se na rede junto dos ossos de suas irmãs. Logo depois viu passar voando sobre a gruta o Carão e gritou:

— Ah! Carão! Carão! Se tu fosses gente me levarias a minha mãe!

Dali a pouco apareceu-lhe o Carão sob a forma de um moço, que lhe disse que tomasse os ossos, um pouco de sal e de cinzas e fosse furtar a milonga do Jurupari.

Logo que ela arranjou tudo partiram.

Apenas saíram começou o papagaio a gritar:

Ce yara, Karan o raçô ana ne yapuruchitá. — (Meu senhor, lá vai o Carão levando o teu caramujo.)

Ouvindo isso correu atrás deles o Jurupari gritando:

U rure Karan ce muyrakytan. (Carão traz o meu talismã.)

Ao aproximar-se o Jurupari, o Carão disse à moça que tomasse um dos ossos das irmãs.

Imediatamente levantou-se uma grande fumaceira que impediu o Jurupari de aproximar-se.

Aproveitaram-se disso e caminharam. Já tinham andado muito quando novamente ouviram o grito:

U rure Karan ce muyrakytan.

O Carão mandou então queimar sal e cinza, o que fez com que se levantasse um grande espinhal. Enquanto o Jurupari se desembaraçava dos espinhos eles avançaram. Já perto da casa da mãe ouviram ainda:

U rure Karan ce muyrakytan!

Mandou então o Carão que queimasse juntos os ossos, o sal e as cinzas, o que fez com que aparecesse um grande rio que o Jurupari não pode atravessar e assim puderam chegar à casa da mãe, que ficou contente por ver as filhas, quando as julgava todas perdidas.


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Fonte:
João Barbosa Rodrigues (1842-1909): "Poranduba amazonense" (1890)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

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