sexta-feira, 5 de julho de 2019

O prato de lentilhas (Conto), de Brito Camacho



O prato de lentilhas
Quando lhe disseram — você também entra, sentiu passar-lhe uma nuvem pela cabeça, e encostou-se à estante para não cair.
Ministro!
Mas para o ser, renegara todas as afirmações do seu espírito audacioso, recalcara as aspirações gene rosas da sua alma juvenil, pusera de banda o pudor intelectual, amachucara como um lenço de algibeira a sua independência cívica.
Ministro!
Quis então que lhe escrevessem aquilo num papel, muito claramente, muito explicitamente, por forma a não deixar dúvidas. Um compromisso assim tomado, sucedesse o que sucedesse, havia por força cumprir-se.
Ministro!
Agora não havia dúvidas, estava ali escrito — tu Marcellus eris — e coisa alguma podia já arrancar das suas mãos aquele bocado de papel, em que estava a realização de todos os belos sonhos do seu passado, e em que ele revia já todas as glórias do seu futuro.
Deitou-se com o papel na mão, a doerem-lhe os olhos de o ter lido mil vezes, como se lê a primeira carta da mulher amada, depois de o ter beijado loucamente, em crises de enternecimento, como se beija o retrato de uma noiva, que nos enche o coração.
Tamanha felicidade pôs uma vibração dolorosa em todo o seu organismo débil, e como as fortes comoções provoquem movimentos peristálticos, acordou como se lhe dessem uma facada no ventre, e desatou a correr mesmo às escuras. Quando voltou a meter-se na cama, muito quebrado, todo o corpo moído, nem se lembrou de que ainda conservava na mão, como o tesouro de um avaro, aquele bocado de papel em que estava a realização de todos os belos sonhos do seu passado, e em que revia já todas as glórias do seu futuro — tu Marcellus eris.
Ministro!
Pela manhã, quando acordou, vendo que tinha na mão um papel amarrotado e sujo, fazendo caretas, deitou-o fora numa sacudidela de nojo, dizendo por entre dentes — que porcaria!
Para aquilo renegara ele todas as afirmações do seu espírito audacioso, recalcara as aspirações generosas da sua alma juvenil; pusera de banda o pudor intelectual, amachucara como um lenço de algibeira a sua independência cívica.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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