sexta-feira, 5 de julho de 2019

O voto livre (Conto), de Brito Camacho



O voto livre
Fora assistir ao comício.
Tinham-lhe dito que valia a pena, e como nunca assistira a espetáculos daquela natureza, abalou de cambulhada com outros, como para uma romaria. Esperava se gente de fora, senhores de muita nomeada, figurões de muita fama em toda a redondeza do país. Pouco mais ou menos, pensava ele, havia de ser uma coisa assim como as Endoenças, com uns poucos de pregadores. Habituado a nada entender de sermões, feitos geralmente num português pior que todos os latins, lá lhe parecia que outro tanto havia de perceber dos discursos.
Tratava-se das eleições, ouvira ele dizer na taberna, pela manhã, quando fora matar o bicho. Provavelmente iam obrigá-lo a dar o voto a quem não tinha direito a ele, e então era pela certa que lhe aumentariam os impostos, que lhe encoimariam os três bacoritos que trazia pastando em terra alheia, e talvez mesmo ficasse sem a courela, ao pé do rio, ou lhe aumentassem a renda fora de todas as medidas.
Ainda deu uns passos para trás, com uma desculpa qualquer — vou ali e já venho — resolvido a não sacrificar a uma curiosidade de palerma a felicidade inteira de seus dias.
Bem lhe dissera a mulher, a não querer que ele fosse, que se deixasse de asneiras, que em ele não tendo de comer, ninguém lho daria.
— Diabo viu, sermões num quintal.
E ele tinha um grande respeito pela sua Inácia, criatura de muito bom senso, toda prática, incapaz de se mover por cantigas.
Mas considerou que era uma cobardia fugir, os outros todos, nas condições dele, continuando a sua jornada, saltando e rindo na mais saudável despreocupação do mundo.
Em três saltos apanhou os camaradas, e lá foram todos, bando alegre de trabalhadores em folga, a ver o que seria aquilo.
Armara-se um camarote, como para a música, nas touradas de aldeia, e em cima do camarote via-se uma pequena mesa de quatro pés, alta e comprida. Uma garrafa de vidro, com água; um copo, também de vidro, ao pé da garrafa; um tinteiro de folha prateada; um areeiro à moda antiga; uma folha de papel azul, riscado; um lápis muito aparadinho, e era tudo quanto sobre a mesa havia.
Muito depois da hora marcada para começar a função chegaram os senhores de fora, acompanhados das pessoas mais importantes da terra, as que tinham fama de serem republicanas, e disso não faziam segredo. A multidão acolheu-os com vivas, muitos e calorosos vivas, agitando-se chapéus no ar.
O primeiro orador que usou da palavra, já entrado em idade, disse que era preciso fazer a República, porque a Monarquia, incorrigível nos seus desmandos e nos seus crimes, punha em risco a independência nacional. O que se lhe seguiu, ainda novo, de gaforina ao vento, voz de estentor, áspera e sem modulação, acusou o Regime de todos os embaraços da vida nacional, sem Exército e sem Marinha, sem estradas e sem escolas, o império ultramarino em risco de perder-se, o Tesouro de cada vez mais pobre, a dívida pública de cada vez maior, a Liberdade a sofrer restrições todos os dias e a Reação a ganhar terreno a cada hora. A multidão aplaudia, mas cada um dos espectadores, gente rústica e analfabeta, tinha o ar, entre curioso e simplório, de perguntar ao vizinho mais próximo — o que foi que ele disse? Verificava agora, o nosso homem, o bem fundado das suas apreensões, quando se dispunha a não assistir ao comício, bocarejando-lhe que perceberia tanto dos discursos como percebia dos sermões, e dos sermões, geralmente num português pior que todos os latins, não percebia patavina.
Muito desapontado, muito aborrecido, dispôs-se a furar a mole imensa no meio da qual se encontrava, pedindo licença a uns, metendo os cotovelos ao peito de outros para abrir caminho. Mas eis que a palavra é dada a um orador que lhe faz boa impressão, e que logo às primeiras palavras o empolgou, a dizer coisas que o interessavam e que sem esforço ele entendia.
— O voto, cidadãos, é livre, porque é a expressão da consciência individual. É uma infâmia sem nome obrigar o eleitor a votar por este ou por aquele, e sem a prática dessa infâmia, a que urge pôr termo, a República sairia da boca das urnas em vez de sair da boca das espingardas. Experimente o governo deixar que os cidadãos votem livremente, sem coação de qualquer espécie, e veremos quantas vingam das suas candidaturas.
Rematando a demostênica oração, num supremo arranco de eloquência pulmonar, o orador atira para cima da multidão, esta bomba incendiaria:
— O voto pertence-vos, cidadãos; é o vosso direito e a vossa propriedade, tão vosso como aquilo que adquiristes com o vosso dinheiro ou herdastes de vossos pais.
Estava acabado o comício; a multidão entrou a mover se, a tornar-se permeável, a fragmentar-se como um rochedo que se desagrega.
À noite, de regresso a casa, tinha o ar satisfeito de quem não perdera o seu dia. Molhara as goelas, numa tenda, à beira do caminho, e a pinga caíra-lhe bem no estomago, abrindo-lhe o apetite. Avistou-o de longe a sua Inácia, de modo que foi só entrar e sentar-se à mesa, onde já fumegava uma valente pratada de selcas e grão de bico.
— Então? Era melhor lá não teres ido...
— Cala-te, mulher, não digas asneiras. Estamos a ser roubados há uns poucos de anos com esta léria de termos que dar o voto ao governo.
— Mas sempre ouvi dizer...
— Cantigas! Lá o disseram alto e bom som, nas barbas do administrador, que o voto é livre, e ele não tugiu nem mugiu,
— De modo que...
— De modo que sendo o voto livre... a gente pôde vendê-lo a quem mais der. Pois então como canta?...

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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