quarta-feira, 3 de julho de 2019

Os egressos (Ensaio), por Alexandre Herculano



Os egressos
(Petição humilíssima a favor de uma classe desgraçada)
Não sei se todos aqueles que passam os largos serões do inverno, não nos teatros, nem nos banquetes profusos, nem nos bailes esplêndidos, mas em aposento de poucas varas em quadro, rodeados de alguns livros e a sós com o seu pensar silencioso; não sei, digo, se a todos esses acontece o mesmo que a mim, quando o som do chuveiro súbito, o silvo do vento, e o bramido do mar, quebrando lá ao longe nos rochedos da marinha, lhes vem toldar a serenidade do tão suave calar noturno e as imagens que transitam lentas no caleidoscópio da imaginação. Aqueles brados da natureza, que parece gemer angustiada, nem uma só vez deixam de despenhar-me do meu tão formoso universo das ideias no mundo das realidades. A vida atual obriga-me então a tomar por uma das suas estradas dolorosas, e como ao pobre judeu errante, esse bradar da natureza, envolto no fustigar da chuva, no sibilar da ventania e no rumorejar longínquo das ondas, repete-me de contínuo: — Avante! avante!"
O que nesses caminhos muitas vezes se encontra é o clarão que ilumina e o clarão que deslumbra; é a ciência que se entrevê, separada de nós pela insuficiência das forças do espírito; são profundezas enevoadas em que a razão se precipita e vai revoluteando até se incrustar num maciço de trevas quase tangíveis; é o desconsolo de trocar, de noite a noite, o crer pelo duvidar, o duvidar pelo descrer; é aprender laboriosamente pouco, desaprendendo dolorosamente muito; é substituir pela observação e pelo raciocínio oprimidos no finito, no existente, a poesia que nos leva mansamente embalados através das suas criações infinitas; é consumir a brevidade da vida em esforços não raro ineficazes para alcançar a verdade, que além da morte, nos espera tranquila nas amplidões do tempo sem fim.
Foi numa destas noites procelosas, enquanto eu buscava a verdade do passado, que a imaginação insofrida, como que a furto, me transportou das realidades que foram para uma triste realidade que é.
Aproximava-se a meia-noite. Tinha acabado de ler uma das bulas do violento Inocêncio III contra o não menos violento Sancho I de Portugal, inserida nos registros daquele digno sucessor de Gregório VII, volumosos registros, onde há muito que aprender acerca da vida social de nossos maiores e das obscuras lutas da liberdade burguesa, tronco antigo das modernas revoluções populares, que também tem as suas árvores de costado, como a aristocracia de berço.
Ao anoitecer o céu estava toldado, a terra úmida, e o ar tépido com o bafo vaporoso do sul. Mas era mais tarde que a tempestade, como o ladrão noturno, queria fazer o seu giro por entre as habitações dos homens.
Era, pois, já bem tarde. Subitamente a chuva fustigou as vidraças: o primeiro bofar do vento fez ramalhar as árvores meias calvas; e senti-o que se abismava debaixo das arcarias de pedra.
Por momentos imaginei que uma espécie de demônio Familiar me batia à porta. Dir-se-ia que viera assentado no dorso eriçado do tufão. Pareceu-me que me afundia diante dos olhos as visões do passado, e que, entre risadas, me chirriava aos ouvidos. —Avante pelos caminhos do presente; avante, sonhador de abusões".
Obedeci: o meu espírito caiu no mundo presente, presente na sua mais rigorosa data, uma noite péssima do mês de novembro do ano do Senhor de 1842.
Lá fora passava o temporal desfeito. Afigurou-se-me que, levado nas asas dele, corria por agra e longa estrada das nossas províncias do norte. Os robles baixos e reforçados, cuja vida, contraída ao cepo pela mão do homem, lhes converte os topos em hidrocéfalos monstruosos, assemelhavam-se aos renques de dólmens druídicos da Bretanha. Quando as nuvens, no seu curso precipitado, abriam alguma fenda passageira, por onde a lua golfava instantâneo clarão na terra, via-os fugir para trás de mim negros, hirtos, nus, como cadáveres tisnados de coisa que já vivera. Parei. Ao longe, a fita alvacenta da estrada, coleando por entre os linhares e milharais, refrangia de quando em quando o luar fugitivo da superfície alagada das baixas, e depois, alçando-se, como o colo do cisne, sobre um outeiro, sumia-se no viso dele, ao curvar-se para o pendor oposto. A dilatada fileira dos robles era o que unicamente se alevantava da terra por um e outro lado. Pareceu-me, porém, que um vulto distante vinha pela estrada do lado do outeiro: era um vulto humano, que ora se encobria na sombra de nuvem negra que passava chuvosa, ora se desenhava na claridade transitória do céu. Aproximou-se vagarosamente, e chegou ao pé de mim: passando, os seus vestidos roçaram-me por uma das mãos: eram frios e molhados. Seguiu avante, sem reparar em mim, que não podia despregar os olhos dele. Os seus passos eram arrastados e trêmulos, vergado o corpo, a fronte nua e calva. E eu olhava para ele fito. A chuva começou de novo a cair cerrada e escura. O vulto encostou-se então a um dos robles da estrada, como buscando abrigar-se; e na cerração da saraiva que sobreveio, ouvi-lhe um gemido.
Foi um gemido inexplicável de desalento e agonia.
"É mentira: — dizia comigo, tentando quebrar o feitiço daquele pesadelo de homem acordado.
E quebrei-o: e era mentira. "Girei num círculo vicioso — pensava eu — Parti do ideal para chegar ao ideal através da realidade."
E de feito, como o leitor facilmente acreditará, estava no meu gabinete, com um tinteiro e algumas folhas de papel diante de mim, tendo do lado esquerdo o segundo tomo das epístolas de Inocêncio III, e da direita o terceiro volume da Monarquia Lusitana de Fr. Antônio Brandão; isto é, da esquerda um papa ao mesmo tempo intratável e astucioso; da direita um frade modesto e sincero; e como personalizados neles, o mau e o bom anjo, que nos seguem sempre e por toda a parte.
De resto, a chuva caía, mas era lá fora. Eu estava enxuto e seco, tanto, quase, como a alma de um Político: estava bem, agasalhado, comodamente. Só a luz do candeeiro é que se tornara escandalosamente mortiça.
Ergui o braço para a espevitar, e a cabeça para ver se a minha obra era boa. Não sei se nestas palavras abuso das reminiscências bíblicas. Os teólogos o dirão.
O meu fiat lux foi cumprido. O candeeiro despediu um clarão brilhante, que alagou todo o aposento.
Nunca eu tivera praticado este ato de onipotência! Numa porta fronteira, que dava para outro aposento desalumiado, estava o vulto que vira no meu devaneio de homem acordado; estava aí, imóvel, triste, aflitivo, como a imagem do inocente supliciado que aparecia todas as noites sobre o bofete do célebre autor da Ulisseia.
E a figura avultava lá: e eu olhava para ela sem pestanejar. Oh que se vós a víreis!
Era um ancião venerável: tinha a fronte suave e pálida sulcada profundamente dessas rugas horizontais, que são como as ondas que vem morrer nas margens exteriores do oceano tempestuoso dos pensamentos: o seu olhar era esse olhar manso, agasalhador, indulgente, que em certos velhos nos fascina e subjuga, e que nos faz dizer a nós os moços: — Quem me dera ser teu filho!" Nas faces cavadas aninhava-se-lhe a fome ou a penitência...
"É a fome! — bradei eu, pondo-me em pé; porque, correndo a vista ao longo da barba branca do ancião, vi que esta lhe caía sobre o escapulário negro de monge beneditino.
Mas a visão desaparecera de novo: e apenas me pareceu ouvir soar ao longe uma voz cava e débil, como a que sai de peito consumido por febre pulmonar, que recitava estas palavras do Salmista:
Judica me Deus, et discerne causam meam, et a gente non santa et ab homine iniquo et doloso erui me.
O meu círculo vicioso não existia. Caíra das idealidades do passado no mundo real, e aí, numa das realidades mais torpes, mais ignominiosas, mais brutais, mais estúpida e covardemente cruéis do século presente, que diante de Deus, que o vê e o condena, ousa gabar-se de grande e generoso e forte; mas em cuja campa o cristianismo e a filosofia escreveram algum dia unicamente este letreiro:
— Aqui jaz a última era dos mártires.
E pus-me a cismar.
Erui me! Erui me! — O Senhor te resgatará, pobre monge; porque não tarda a bater a hora em que durmas tranquilo na terra fria e úmida, fria e úmida como a estamenha que te cobre. Queiras tu de lá perdoar-nos!
E lançando os olhos em volta, perguntava a mim mesmo: — Por que possuo eu os cômodos da vida, o pão do corpo e o pão do espírito, e por que perdeu ele tudo isso? Que bem tenho eu feito ao mundo? Que mal lhe havia ele feito?
À fé, que a minha consciência não achou uma única resposta cabal a tão símplices perguntas.
A lembrança do frade velho atormentou-me toda a noite. A imaginação não mo pintava já na passagem escura, onde surgira pela segunda vez: via-o na ideia, e aí, encostado ao roble, procurando conchegar os membros inteiriçados na cogula encharcada, e resguardar a cabeça calva ao abrigo do robusto madeiro. Errante e mendigo como o rei Lear, o monge não tinha, como ele, para o guiar na solidão e na procela a caridade de um truão.
É que hoje não há truões. Este século é um grave, sério e cogitador assassino.
De quantos anciãos veneráveis será a história a história do meu beneditino?
"Mas eles têm pão: os socorros públicos..." Olé, homens grandes, silêncio!
Qual é o juro legal de cem milhões? São cinco.
Quanto dizeis vós que atirais dos vossos balcões dourados aos hilotas da ciência e do sacerdócio? Uma quota diminuta dessa quantia.
Caiu também a aritmética debaixo das ruínas do passado? Se é assim, dizei-o. Suprimamos a aritmética. O que não fica suprimido é a palavra — mentira!
Mentistes; porque a soma de que falais existe apenas em palavras mais torpemente hipócritas que as da serpente tentadora de nossa primeira mãe, as que se escrevem nas páginas de um orçamento.
E a realidade? A realidade é a minha visão; é que o monge, o sacerdote, se converteu em mendigo.
Silêncio, outra vez, homens grandes! Também eu nasci nesta terra, e o sangue ainda me não esqueceu o caminho das faces.
E se nós, geração do progresso e da filosofia, nos envergonharmos de ser desonestos, e dissermos: — Dê-se uma fatia de pão ao que morre de fome!" Mais; se dissermos: — Pague-se um juro modico dos valores que nos apropriamos?"
Se o fizermos, em lugar de sermos mil vezes uma coisa, cujo nome não escreverei aqui, sê-la-emos só novecentas e noventa e nove; porque teremos restituído a milésima parte do que loucamente havemos desbaratado.
O homem não vive só de pão. Di-lo um livro que vós nunca lestes, mas que nem por isso tem deixado de ser por dezoito séculos o abrigo, a doutrina, a crença e a consolação de inumeráveis milhões de indivíduos.
Calculastes jamais quanto é insolente, atroz, diabólico, chegar a um velho, tomar-lhe nas mãos todas as suas afeições, todos os seus hábitos de largos anos, todas as suas esperanças mais queridas, e despedaçá-las e calcá-las aos pés, e dizer-lhe depois: — Dar-te-ei um bocado de pão?" Prometer pão aos setenta anos!... Feita a quem esperava morrer abraçado com o passado; que reportava a ele o presente e o futuro; cujo viver íntimo era só de memórias, essa promessa materialista e de escárnio bastaria para desonrar-vos. Que nome, porém, se dará aos que nem essa mesma cumpriram?
Quais podiam ser as afeições de antigo monge habitador de um desses mosteiros solitários espalhados pelas províncias, e afastados do tumulto das grandes cidades? As suas afeições existiam todas dentro dos muros do claustro: era a cela caiada e limpa; era a enxerga do seu catre; era a banca de pinho em que meditava e lia; era a poltrona tauxiada em que se assentava; era a estamenha do seu hábito; eram as suas sandálias de peregrino; era a árvore da cerca, fronteira da janela, onde o rouxinol cantava na madrugada; era o crucifixo do seu oratório; era a lájea da crasta, debaixo da qual dormiam seus irmãos mais velhos, aqueles que antes dele haviam seguido o caminho do Calvário, e donde pareciam chamá-lo para o seio de Deus, quando os seus passos vagarosos soavam por cima da pedra. Nisso, e em mil coisas como estas estavam postos o seu amor, os seus afetos, as suas saudades, os seus desejos. Era o seu mundo esse; e a vida, serena, calada, melancólica, balouçava-se-lhe suavemente nessas afeições do retiro. Por que lhe despedaçastes tudo isto? Quanto vos renderam a enxerga, as sandálias, a lájea do sepulcro e o crucifixo?
Pobre velho! Pobre velho!
"Mas nós, acudireis, não podíamos calcular essas coisas, nem cremos em afetos morais. Temos cabeça, mas falta-nos coração, como convém a homens Políticos. Os frades eram um elemento da sociedade antiga que cumpria anular. Fizemo-lo. E então?"
Então roubastes Satanás.
Pois Satanás era um demente, que vos desses palácios, carruagens, banquetes, prostituições, embriaguez, poderio, a troco de uma alma inteiramente morta para os afetos; que não compreendesse nem a dor moral, nem as harmonias suaves que há entre o universo e o homem? Uma alma sempre em noite, e na qual nunca penetrasse a saudade misteriosa do céu? De que lhe serviria para convosco a sua terribilíssima herança de uma eternidade de tormentos?
Ah... deixai-me dizer tudo isto; porque a imagem do velho beneditino está gravada na minha alma como um remorso; e sinto lá fora a chuva que lhe açouta as faces ardentes de febre, o tufão que lhe revolve as cãs venerandas, a torrente que lhe alaga os pés descalços. As lágrimas do sacerdote, só, mendigo, nu, esfaimado, são uma tremenda maldição contra nós, maldição que há de cumprir-se.
A arte moderna parece ter achado os mais poderosos meios de excitar a compaixão e o terror: tudo quanto a arte antiga tinha patético e terrível sentimo-lo hoje frouxo e pálido. Se hoje, porém, houvesse engenho capaz de traduzir em palavras humanas o drama horribilíssimo das últimas agonias da vida monástica em Portugal, aquele que lesse uma só vez esse livro monstruoso e incrível poderia depois, ao deitar-se, conciliar o sono com o Leproso de Aosta, com o Fausto, com o Manfredo, ou com os Últimos dias de um sentenciado.
Quando em 1834 se extinguiu o antigo e célebre cenóbio de Santa Cruz de Coimbra, aconteceu aí um fato que pode, até certo ponto, dar uma ideia das primeiras cenas do negro drama que há oito anos começou a passar ante os olhos daqueles que ainda não abnegaram de todo a humanidade e o pudor. Expulsos os cenobitas, e inventariados os bens do mosteiro pelos comissários desta obra brutal, quase por toda a parte brutalmente executada, ainda uma cela daquele vasto edifício ficava ocupada por um dos seus antigos habitadores. Era um velho de oitenta anos, a quem o trôpego, o quase morto dos membros embargavam o caminhar, e que por isso não podia seguir seus irmãos. Entrando no aposento, encontraram o cenobita deitado no seu catre humilde, em cujo topo pendia o crucifixo que, talvez por sessenta anos, tinha visto a seus pés consumir-se na meditação, nas preces e na penitência aquela dilatada vida. Estava só o ancião, e o silêncio que o rodeava apenas era interrompido pelos gorjeios de uma avezinha, que pulava contente ao sol numa gaiola pendurada da abóbada. O velho parecia pensativo, como se adivinhasse que era chegada para ele a hora do martírio.
As passadas dos que entravam moveram-no a volver os olhos: correu-os por aqueles rostos desacostumados: depois tornou-os a abaixar. Que lhe importavam os homens do século? Ele não os conhecia.
Disseram-lhe então que era necessário sair dali.
— "Por quê? — perguntou o cenobita.
"Porque os frades acabaram: — replicou o mais eloquente e discreto dos verdugos, como se exprimisse a ideia mais simples e trivial deste mundo.
"Porque os frades...: repetiu em voz baixa o velho, sem concluir. Os lábios não podiam levantar de cima do coração o resto daquela frase monstruosa: ela lho havia esmagado.
Um sorriso estúpido passou pelas faces estúpidas de alguns dos circunstantes. No gesto espantado do cenobita liam eles a grandeza do esforço com que associavam o próprio nome à obra prima do século.
E com razão. O triturar assim um coração de oitenta anos era feito que excedia em heroicidade todos os que haviam praticado dois cavaleiros portugueses, que, lá embaixo na igreja, continuavam a dormir nos seus leitos de pedra um sono de muitos séculos, e que se chamavam Afonso Henriques e Sancho Adefonsíades.
Os olhos do ancião ficaram enxutos. Só acrescentou: — Mas para onde hei de eu ir?"
"Para casa dos vossos parentes: — acudiu o filósofo.
O cenobita correu a mão pela fronte calva, e respondeu: —Já não tenho parentes na terra: todos me esperam no céu".
"Então ireis para a de algum amigo."
"O único amigo meu que ainda vive é aquele!"
E apontava para a avezinha.
"O frade irá pois morar na gaiola do pintassilgo: — rosnou por entre os dentes um dos algozes, que tinha fama de gracioso. Não quis, porém, comunicar aos outros tal ideia. Tudo estouraria de riso.
Alguém, que estudava aí perto esta cena de progresso moral, não pode, todavia, continuar os seus graves e terríveis estudos. Precisava de ar, de luz, de ver o céu. Atravessou ligeiro o longo dormitório, e desceu a quatro e quatro os degraus das extensas escadarias. As lágrimas rebentavam-lhe como punhos.
À portaria de Santa Cruz as primeiras palavras que ouviu foram, que a municipalidade acabava de fazer um calvário no fundo de uma petição, escrita em vasconço por certo doutor afamado, na qual pedia ao governo lhe atirasse aquele osso do mosteiro de sete séculos, para o roer até os fundamentos, e construir no sítio dele, não me lembra ao certo se um espojeiro, se uma sentina.
Era o estudo do progresso artístico após o estudo do progresso moral.
Quantos destes fatos dolorosos se passaram naquela época por todos os ângulos de Portugal! Poderia contar-vos mil, e cada um deles fora uma nova cena de agonia. Os mártires primitivos morriam nos ecúleos, nas garras das feras, nos leitos de fogo; não eram, porém, condenados a assentar-se em cima das ruínas de todos os seus afetos, clamando ao Senhor durante anos: Erui me! Erui me!
Fizestes uma coisa absurda e impossível: deixastes na terra cadáveres vivos, e assassinastes os espíritos.
Ao menos que esses cadáveres não sintam traspassá-los o vento que sibila nas sarças, a chuva que alaga as campinas, o frio que entorpece as plantas e os membros dos animais.
Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos sábios, dos nossos homens virtuosos, do nosso sacerdócio! Pão para os que foram vítimas das crenças, minhas, vossas, do século, e que morrem de fome e de frio!
Cumpri aos menos a vossa brutal promessa. Podem nessas almas ser profundas as trevas, e todavia respeitardes as regras mais triviais de uma probidade vulgar.
Senão, que os pobres monges inclinem resignados a fronte na cruz do seu martírio, e alevantem uma oração fervorosa ao Senhor para que perdoe aos algozes, que nela os pregaram. É este o exemplo que na terra lhes deixou o Nazareno.
Mas que se lembrem os poderosos do mundo de que a oração de Jesus na hora suprema da agonia foi desatendida do Eterno. E contudo, Jesus era o seu Cristo.
Que olhem para essa nação que flutua há dezoito séculos no pego da sua infâmia, maldita de Deus, e apupada pelo gênero-humano, sem nunca poder submergir-se nos abismos do passado e do esquecimento.
Que se lembrem do próprio nome, do nome de seus filhos, de que há justiça no céu, e na terra a posteridade.
Se nos seus corações restam vestígios de crenças humanas, que meditem uma hora, um minuto, um instante nisso tudo. Das profundezas de tal meditar surgirá uma ideia, que lhes fará manar da fronte o suor frio da morte; porque será uma ideia tenebrosa e terribilíssima.

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ALEXANDRE HERCULANO
Escrito em 1842, e publicado em: Opúsculos, 1909.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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