domingo, 14 de julho de 2019

Patriotismo (Conto), de Francisca Júlia



Patriotismo
Eram poucos já os soldados que defendiam a fortaleza, último reduto aonde se foram abrigar para fugir à morte.
Eram os derradeiros homens que restavam.
O exército, que tinha ficado em terra, foi barbaramente destruído pelo ímpeto inesperado do inimigo, superior em número e em armas.
Os destacamentos todos foram atacados ferozmente e aprisionados os míseros soldados. Alguns, passados pelas armas; outros, mais maliciosos, conseguiram fugir sob a chuva das balas; muitos caíram na fuga, mortos, ou arrastavam-se, feridos.
Um vaso de guerra, apesar de sua couraça de aço e que todos julgavam inexpugnável recebeu em pleno costado uma bala e desapareceu nas ondas.
Nada mais restava, pois, de toda a força armada, para resistir ao embate do inimigo, que aquele punhado de soldados heroicos, embriagados de pólvora e de cólera, que, por trás das muralhas s da fortaleza, se abrigavam da fuzilaria inimiga.
A muralha era alta, toda de pedra e cal. As balas que vinham raspavam pelas pedras, arrancando-lhes estilhaços.
Os soldados encolhiam-se por traz do muro. Se algum, imprudente ou curioso, erguia a cabeça, para ver o movimento e a aproximação dos navios, caia imediatamente crivado de balas.
A situação era angustiosa e desoladora.
Mas no centro da fortaleza, erguida no topo do mastro, dominando o mar, ainda se ostentava a bandeira, tremulando ao vento, como último soluço da pátria. Em torno delia gemiam os moribundos 8, choravam os desesperados e estorciam-se os feridos.
Houve um momento em que uma bala certeira cortou a corda a que a bandeira estava suspensa; esta soltou-se, equilibrou-se no ar, desdobrou-se ondulando ao vento, e foi caindo aos poucos.
O capitão agarrou-a, beijou-a repetidas vezes, enxugou com ela o pranto que corria dos seus olhos e o sangue que vertia das suas feridas, e dirigindo-se aos seus companheiros de infortúnio, disse:
— Qual de vós, caros irmãos de armas e valentes camaradas; qual de vós terá a coragem de subir àquele mastro, para prender de novo esta amada bandeira, símbolo da nossa pátria?
Todos gritaram ao mesmo tempo, ansiosos por arriscar a vida, e desejosos de praticar esse tão nobre e perigoso ato.
O capitão tirou à sorte. Coube a um menino a horrível missão.
A pobre criança à primeira impressão empalideceu; mas, depois, sorriu, ergueu os olhos ao céu e chegou à presença do capitão.
O capitão entregou-lhe a bandeira.
Ele tomou-a, prendeu-a à corda e subiu o mastro, heroicamente.
As balas zuniam-lhe aos ouvidos. As granadas atiravam-lhe estilhaços... Amarrou de novo a bandeira no alto, soltou-a ao vento e — caiu morto.


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Francisca Júlia César da Silva Münster (1871-1920)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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