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7/14/2019

O sabiá doente (Conto), de Francisca Júlia



O sabiá doente
Era pequeno ainda o sabiá, quase implume, quando caiu do ninho onde nasceu. Curioso, invejando o voo de outros passarinhos menores que ele, tentou também voar: — abriu as asas mal empenadas, fez um esforço e caiu. Ao cair, foi resvalando pelos galhos, pelas folhas da árvore, de modo que a queda foi pequena e não o magoou.
Quando caiu na grama, começou a ensaiar o voo para subir de novo até ao ninho, arrependido de o ter deixado, piando, piando de medo.
Um homem, que passou, levou-o consigo.
O passarinho cresceu preso na gaiola.
À tarde, quando os outros pássaros cortavam o ar em busca do repouso, ele sonhava com a tepidez do ninho escondido num galho, perdido no meio do bosque. Léguas em redor tudo era verde, coberto de folhagens que o vento agitava.
Além, escorregava entre fileiras de murtas, seixos. O ar livre do campo, a frescura das manhãs, o marulho das folhas, tudo acudia ao seu espírito, o fazia sonhar por muito tempo, arrancando-lhe da sonora garganta as mais angustiosas queixas.
E com a cabecinha no ar, os olhos cerrados, os nervos agitados de comoção, traduzindo a tristeza que o invadia, cantava, cantava horas inteiras, às vezes triste, alegre às vezes, executando escalas e gorjeios ou prolongando numa nota toda a amargura de sua alma.
Os que lhe ouviam o canto, paravam a escutá-lo, encantados.
Assim viveu o sabiá por muitos anos, sempre preso, sem conhecer a liberdade de que gozam os outros pássaros que ele via através da grade, a uma vertiginosa altura, espalhados pelo azul.
Voar! Quem lhe dera também um dia em que a porta da prisão amanhecesse aberta, fugir, e, de asas entendidas, voar, voar, ir muito alto, muito alto, e gozar, até à embriaguez, da vertigem de luz que deve haver lá em cima!.
E o pobre pássaro sentia no corpo estremeções de ânsia, agitações de desejo, e abria as asas; mas a ilusão desfazia-se e ele fechava-as de novo, recolhendo-se à sua tristeza de encarcerado.
Então pensava que, quando ficasse velho e sua voz se tornasse rouca, haviam de apiedar-se dele e dar-lhe a tão desejada liberdade. Vivia dessa esperança.
Envelheceu. Sua vista foi-se escurecendo aos poucos. O sabiá estava cego.
Uma manhã, passeando pelo chão da gaiola, aproximou-se da porta, como de costume, a sentir se estava aberta.
Estava aberta a porta.
Pôs a cabecinha de fora, aspirou o ar, agitou o corpo, sacudiu as asas entorpecidas pela velhice e quis voar. Mas, como já estava cego, teve receio de bater-se contra a parede, no ímpeto do voo, em vez de tomar a direção do campo; então recolheu-se de novo e chorou abundantemente .
Daí em diante nunca mais da sua sonora garganta saíram os gorjeios de outrora.

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Francisca Júlia César da Silva Münster (1871-1920)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O senhor cura (Conto), de Francisca Júlia



O senhor cura
O senhor cura era o homem mais caritativo e generoso que havia na aldeia.
Velho já, os cabelos brancos como a neve, quando o viam atravessar as ruas, a cabeça trêmula, o passo incerto, a velha batina de pano grosseiro cheia de rasgões e remendos, os aldeões acompanhavam-no com olhar respeitoso e cumprimentavam-no, sorrindo.
As crianças corriam a tomar-lhe a bênção. Ele afagava-as, alisando-lhes os cabelos; perguntava pela saúde dos pais e dava-lhes moedas em cobre. Todos o amavam.
Quando uma rapariga se ia casar, partia o cura a visitá-la, a dar-lhe bons conselhos, como si fosse pai. Se a moça era pobre, o cura ia de casa em casa angariando esmolas e presenteava-a com o enxoval e objetos úteis.
À cabeceira do doente, era, ao mesmo tempo, médico e enfermeiro: — preparava as tisanas e aplicava-as. No leito do agonizante era confessor e amigo: — aconselhava ao arrependimento, ensinando o caminho do céu, e chorava aos primeiros anseios da agonia.
Nas horas vagas, depois de haver rezado e feito as suas obras de caridade, ensinava às crianças a doutrina cristã e dava-lhes gulodices.
À noite, quer nas chuvas do estio ou no frio do inverno, ia visitar a miséria da aldeia. A este dava o azeite para a lamparina, àquele um pedaço de pão, e a todos, em geral, bênçãos, conselhos e carinhos.
E no entanto, quanta vez a velha criada que o servia não o ia encontrar sentado à beira da estrada, morto de fadiga e quase moribundo de fome! Ralhava-lhe então com palavras afetuosas e amargas:
— Isto já não tem jeito! Viver por aí a socorrer a pobreza, a pedir esmolas para dar aos outros e não se lembrar de que é pobre também, que está com a batina em trapos, o calçado roto e que em casa não há nem uma côdea de pão para a nossa boca! É de mais! Vamos, saia daí, apoie-se em meu braço e vamos para casa! Até parece que Deus vira seu santíssimo rosto!
E lá iam os dois, estrada fora, de braços dados, como dois mendigos.
Era assim o pobre cura — bom até à dedicação, caridoso até ao sacrifício.
Houve um dia em que uma febre contagiosa e mortal atacou os habitantes do lugar.
Os ricos fugiram; alguns abandonaram suas casas; muitos, porém, preferindo morrer da febre a sofrer miséria em terra estranha, ou, talvez, na esperança de ser protegidos pela providência, deixaram-se ficar na aldeia, a trabalhar.
Quem passava pela rua ouvia no interior das casas gemidos de dor e gritos de desespero.
O cura, então, saiu, foi de casa em casa em socorro dos doentes, consolando os aflitos, confessando os agonizantes, sempre solícito, sempre carinhoso, sem se importar com o cansaço que lhe invadia o corpo e nem com a fome que lhe devorava as entranhas.
Houve um instante em que, não podendo mais sofrer o cansaço e a fome, se deixou cair no chão, e, tirando do bolso um pedaço de pão duro, dispôs-se a comer.
Um mendigo, que passava, pediu-lhe a bênção e disse-lhe:
— Senhor cura, estou quase morto de fome e mal posso sustentar-me nas pernas. Socorrei-me.
— Toma, pobre homem, este pedaço de pão. É o único que me resta, mas a minha fome está satisfeita. — Toma.
O mendigo comeu e partiu.
Minutos depois o velho cura tinha morrido.


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Francisca Júlia César da Silva Münster (1871-1920)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Avarento (Conto), de Francisca Júlia



O Avarento
Compareceu perante o juiz um avarento e queixou-se, com expressões de lastima, de que um homem, há muitos anos, lhe devia uma certa soma da qual só tinha pago os juros.
— Vai chamá-lo, disse o juiz, traze-o à minha presença. Quero saber por que é que ele te não pagou ainda, e não posso condená-lo sem ouvi-lo.
O avarento saiu e, logo depois, trouxe o devedor pelo braço, insultando-o e maltratando-o com crueldade.
— Ei-lo aqui, senhor juiz. É um mau homem, um péssimo vizinho, que não tem nenhuma compreensão do dever, que não respeita as leis e que não me pagou ainda o dinheiro que lhe emprestei generosamente.
— Fala agora tu, devedor, ordenou o juiz. Por que é que não pagaste a este homem o que lhe devias?
— Senhor! balbuciou o homem humildemente, eu devia-lhe cem sequins que ele me emprestou. Paguei-lhe a metade. Depois, como não lhe pudesse pagar o resto, ele cobrou-se por suas próprias mãos, apropriando-se das minhas terras, vendendo os meus frutos, roubando o meu camelo e despojando-me x das minhas roupas. Hoje nada mais tenho senão estes andrajos que cobrem o meu corpo e estas mãos para pedir esmolas.
Então o juiz, compadecido pela miséria daquele pobre homem e revoltado contra a avareza do credor, voltou-se para este e perguntou-lhe;
— Que mais queres deste homem? Já o reduziste à mais negra miséria. Sê um pouco piedoso, desperta na noite de tua alma algum sentimento generoso. Deixa-o ir em paz.
— Não, senhor juiz.
— Mas de que modo queres que ele te pague?
— Quero que ele venha para minha casa, para servir-me como escravo, até pagar os juros que me deve.


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Francisca Júlia César da Silva Münster (1871-1920)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Patriotismo (Conto), de Francisca Júlia



Patriotismo
Eram poucos já os soldados que defendiam a fortaleza, último reduto aonde se foram abrigar para fugir à morte.
Eram os derradeiros homens que restavam.
O exército, que tinha ficado em terra, foi barbaramente destruído pelo ímpeto inesperado do inimigo, superior em número e em armas.
Os destacamentos todos foram atacados ferozmente e aprisionados os míseros soldados. Alguns, passados pelas armas; outros, mais maliciosos, conseguiram fugir sob a chuva das balas; muitos caíram na fuga, mortos, ou arrastavam-se, feridos.
Um vaso de guerra, apesar de sua couraça de aço e que todos julgavam inexpugnável recebeu em pleno costado uma bala e desapareceu nas ondas.
Nada mais restava, pois, de toda a força armada, para resistir ao embate do inimigo, que aquele punhado de soldados heroicos, embriagados de pólvora e de cólera, que, por trás das muralhas s da fortaleza, se abrigavam da fuzilaria inimiga.
A muralha era alta, toda de pedra e cal. As balas que vinham raspavam pelas pedras, arrancando-lhes estilhaços.
Os soldados encolhiam-se por traz do muro. Se algum, imprudente ou curioso, erguia a cabeça, para ver o movimento e a aproximação dos navios, caia imediatamente crivado de balas.
A situação era angustiosa e desoladora.
Mas no centro da fortaleza, erguida no topo do mastro, dominando o mar, ainda se ostentava a bandeira, tremulando ao vento, como último soluço da pátria. Em torno delia gemiam os moribundos 8, choravam os desesperados e estorciam-se os feridos.
Houve um momento em que uma bala certeira cortou a corda a que a bandeira estava suspensa; esta soltou-se, equilibrou-se no ar, desdobrou-se ondulando ao vento, e foi caindo aos poucos.
O capitão agarrou-a, beijou-a repetidas vezes, enxugou com ela o pranto que corria dos seus olhos e o sangue que vertia das suas feridas, e dirigindo-se aos seus companheiros de infortúnio, disse:
— Qual de vós, caros irmãos de armas e valentes camaradas; qual de vós terá a coragem de subir àquele mastro, para prender de novo esta amada bandeira, símbolo da nossa pátria?
Todos gritaram ao mesmo tempo, ansiosos por arriscar a vida, e desejosos de praticar esse tão nobre e perigoso ato.
O capitão tirou à sorte. Coube a um menino a horrível missão.
A pobre criança à primeira impressão empalideceu; mas, depois, sorriu, ergueu os olhos ao céu e chegou à presença do capitão.
O capitão entregou-lhe a bandeira.
Ele tomou-a, prendeu-a à corda e subiu o mastro, heroicamente.
As balas zuniam-lhe aos ouvidos. As granadas atiravam-lhe estilhaços... Amarrou de novo a bandeira no alto, soltou-a ao vento e — caiu morto.


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Francisca Júlia César da Silva Münster (1871-1920)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Isabel (Conto), de Francisca Júlia



Isabel
Isabel era uma menina de dez anos mais ou menos.
Desde a mais tenra a infância já mostrava o seu caráter vaidoso, um desejo de aparecer, de realçar, sobressair entre as demais.
Nessa idade tinham-se aguçado tanto as suas más qualidades e se acentuado a sua tendência para o aparato, que toda a vez que lhe faltava um enfeite ao seu vestido ou uma fita ao seu chapéu, revoltava-se, batia o pé, e, apesar de bonita, graciosa mesmo, e de um aspecto agradável, nesses momentos de cólera parecia feia e só inspirava repulsão e antipatia.
Sua mãe, mulher de costumes simples e de boa alma, educada na escola do carinho e da religião, tinha um grande desgosto com isso, e muitas vezes surpreendiam-na com o rosto entre os joelhos, chorando, afogada em soluços.
Chamava a filha para junto de si, sentava-a no colo, anediava-lhe os cabelos, num gesto bom de maternal ternura; dava-lhe bons exemplos, ensinava-lhe o caminho do bem, com uma paciência e resignação x de que só são capazes as mães extremosas.
Certo dia, Isabel aproximou-se de sua mãe e disse-lhe:
— Mamãe, há já alguns dias que resolvi abandonar todas as minhas amigas atuais, porque elas me parecem tão insignificantes!
— Fazes mal, minha filha, falou a mãe com tristeza. Entre as tuas amigas e companheiras há algumas de bons costumes e dignas da tua amizade. Não as abandones.
— Vou deixá-las, sim. Conheço uma menina que é melhor que todas elas. Chama-se Marieta. É elegante como nenhuma, graciosa, espirituosa, veste-se à última moda, e é o alvo da inveja no círculo das minhas colegas. Quero andar em companhia delia, para que todo o seu encanto reflita sobre mim e eu seja invejada também.
À mãe umideceram-se-lhe os olhos de lágrimas. Envolveu a filha com um olhar de censura e, antes que uma repreensão violenta lhe saísse da boca, chamou a menina para junto de si e falou-lhe com brandura:
— Certa vez uma semente de arbusto, na aproximação da primavera, ainda estava solta sobre a terra, sem coragem de aí deitar suas raízes, receando crescer ao relento ou sob os ardores do sol. Então deixou-se rolar ao vento, e foi indo, foi indo, até chegar-se ao pé de uma pequena árvore, que ostentava sua galharia verde e exuberante à margem de uma cisterna.
Debaixo de sua folhagem havia uma sombra fresca onde crescia um viçoso musgo que se espalhava em feitio de veludoso e macio tapete.
Foi aí o lugar em que a semente resolveu plantar-se.
Plantou-se, criou raízes e cresceu.
Foi crescendo pouco a pouco. Dia a dia iam-lhe rebentando novas folhas, novos brotos, novos galhos, até que, quando a primavera veio, e invadiu a campina inteira, encontrou o arbusto numa florescência bonita, sorrindo numa radiação de mocidade.
O arbusto, como era muito débil e não tinha forças para lutar contra a violência da ventania, foi estendendo os braços e agarrou-se ao tronco da arvorezinha, que lhe servia de arrimo.
Aconteceu, porém, que numa noite de tempestade e de trovões, um raio maligno caiu com grande estrondo e cortou a árvore. O arbusto encolheu-se de medo, mas salvou-se.
No outro dia rompeu o sol, e o seu calor era tão intenso que crestou as folhinhas da pobre planta, lhe queimou o tronco, lhe secou a seiva e a matou.
— Aí está a minha história, minha filhinha; ela servirá de exemplo para te corrigires. Nunca procures ter o valor que te emprestam os grandes, porque si eles morrem ou decaem do poder e da grandeza, tu cairás também como o pequeno arbusto, humilhada pelo desprezo de todos. Será melhor, pois, que tenhas o valor que te dão as tuas próprias qualidades, tuas próprias virtudes, e faças por sobressair por teu próprio esforço.
Daí em diante Isabel corrigiu-se e hoje é uma excelente menina, querida e simpatizada por todos.


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Francisca Júlia César da Silva Münster (1871-1920)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/30/2019

As duas moças (Conto), de Francisca Júlia



As duas moças
Duas moças viviam em casa dos seus pais, numa aldeia quase deserta onde todos eram igualmente pobres. Cada um era proprietário do seu próprio terreno donde tirava o sustento para a sua família.
Os habitantes, ignorantes na sua simplicidade, não conheciam a riqueza nem a miséria. Se lhes falavam em palácios de arquitetura custosa, em luxo, carruagens e aparatos de riqueza, eles riam-se, como se de fato estivessem ouvindo contos de fada ou novelas do outro mundo; quando lhes falavam em miséria, em horrores de fome, sorriam também, e diziam que não há jeira de terra sem couve e couve que não alimente.
Este povo era tão simples, que dormia com as portas abertas, sem receio aos ladrões e malfeitores, porque não acreditava na existência desta gente.
Estas duas moças é que estavam incumbidas do trabalho da casa, plantio das hortaliças, criação das aves, porque seus pais já eram velhos e inaptos para qualquer serviço.
Uma delas, Rosa, quando toda a família estava reunida ao redor da mesa, conversando sobre assuntos domésticos, como as próximas chuvas, a surribação da terra, a peste das galinhas, ergueu-se e falou assim:
— Meus velhos pais e minha boa irmã, vou deixá-los por algum tempo; estou cansada desta vida monótona, sem futuro, desta pobreza geral, em que cada qual tem de trabalhar para comer; eu nasci para uma existência mais luxuosa e de mais conforto, onde tenho carruagens para exibir a minha formosura, palácios para mostrar minha elegância e leitos de seda e púrpura para afogar minha preguiça. — Adeus.
Todos começaram a chorar, as faces escondidas nas mãos, sufocados pelos soluços.
O velho falou com amargura:
— Ingrata filha, vai; sê feliz; que os teus desejos se cumpram e que a fortuna espalhe riquezas pelo teu caminho, como um semeador lançando grãos sobre um terreno fértil; porém que as saudades de teus velhos pais, que abandonaste, e da pobre aldeia, em que nasceste, arranquem lágrimas aos teus olhos, suspiros ao teu peito e ofegos ao teu coração.
Então a boa filha, que tinha ficado, depois de abraçar os pais, prometeu-lhes com amor que nunca havia de abandoná-los, que havia de ficar sempre na companhia deles, como um consolo à sua velhice.
Os tempos passaram. Um dia um rico lavrador, moço ainda e extremamente belo, passou por essa aldeia, enamorou-se desta pobre rapariga e pediu-a em casamento.
Os velhos consentiram. Era a felicidade esperada por tanto tempo, que lhes entrava em casa. Enriqueceram.
E Rosa, que fora tentar fortuna, voltou mais pobre ainda, coberta de andrajos, os pés descalços.
Os pais, quando a viram, abraçaram-na chorando, sensibilizados pelo aspecto humilde das suas roupas e da sua fisionomia.
E perguntaram-lhe:
— Onde está tua riqueza, Rosa?
— Na experiência, meus bons pais, na miséria que sofri, na fome que me devorou as entranhas. Se eu soubesse dos sofrimentos por que havia de passar, não vos abandonaria e deixava-me ficar convosco. Os meus sofrimentos datam da minha partida: a riqueza das donzelas está no carinho dos seus pais.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Os dois mendigos (Conto), de Francisca Júlia



Os dois mendigos
Caminhava pela estrada real um moço de aspecto nobre, feições agradáveis, e trajava de maneira modesta, porém distinta.
Tinha os cabelos enrolados em anéis que lhe cobriam o pescoço, e um ar simpático que condizia bem com a graça natural da sua pessoa.
Seu principal encanto estava com certeza nos olhos claros, de uma expressão infantil, penetrados da mais encantadora doçura.
Caminhava distraidamente, os olhos fixos no chão.
Em sentido contrario vinham dois mendigos maltrapilhos, as roupas esburacadas, animados aos bordões, a cabeça caída para a frente, como vergados ao peso dos anos. A idade e os sofrimentos tinham-lhes arrancado os cabelos, cavado grandes rugas na face e enfraquecido todos os músculos.
Como tivessem caminhado muito, tinham os pés inchados e umedecidos do sangue que vertiam; sentiam fome; estavam extremamente pálidos, os passos trôpegos, os lábios trêmulos, de modo que nem podiam falar, mas apenas balbuciar como as crianças.
O vento impiedoso impelia-os para a frente, forçando-os a andar depressa e fazendo-os tropeçar nos calhaus da estrada.
Quando se aproximaram do moço, caíram de joelhos, mais por cansaço do que por desejo de implorar a piedade, e gemeram ao mesmo tempo:
— Uma esmola, senhor.
O moço sentiu as lágrimas empanar-lhe a vista e, penetrado de compaixão, apalpou os bolsos; mas, como encontrasse apenas uma moeda, e a justiça divina manda que se distribua a esmola em partes iguais, disse com malícia:
— Perdoai-me, pobres velhos, a vossa miséria sensibilizou minh'alma e acordou soluços em meu peito; porém não tenho um real para consolar vossos sofrimentos.
Os velhos levantaram-se.
O primeiro olhou o rapaz com mal contido rancor, os olhos intumescidos de cólera, e gritou brandindo o bastão com a pouca de forças que lhe restavam:
— Maldito sejas tu e malditos todos os teus; que o fogo devore a tua propriedade; que as águas engulam a nau em que embarcares; que teus afetos pereçam e que um vento de desgraça passe sobre a desolação da tua existência!
E partiu.
O outro velho fitou com ternura a face do jovem, e falou-lhe:
— Se feliz, mancebo, que as minhas mãos tremulas possam tirar de sobre tua fronte as pragas do meu companheiro; que a tua propriedade seja firme, que as águas sejam mansas na tua viagem e que a bênção do Senhor esteja sempre suspensa sobre tua cabeça.
Então o moço tirou do bolso a moeda de ouro e deu-a ao mendigo.
Assim devemos praticar sempre: nunca devemos dar esmola, principalmente quando o nosso dinheiro é escasso, sem observar se a pessoa que nos pede é merecedora da nossa piedade.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Açude (Conto), de Francisca Júlia



O Açude

Viviam duas velhinhas em duas cabanas vizinhas, construídas num campo extenso e cobertas de um colmo tão verde que, de longe, se confundiam na cor geral da vegetação.
Ali passavam elas sua existência humilde, longe de toda a convivência importuna,, preocupando-se apenas com o cultivo da sua horta e com o trato dos seus bacorinhos.
À tarde sentavam-se juntas à soleira da porta, com o fuso na mão para distraírem-se, e conversavam horas inteiras sobre a sua vida passada, rememorando episódios antigos, velhas recordações da mocidade.
Eram felizes na sua miséria; não lhes faltavam ervas para a alimentação do corpo e orações para a purificação da alma.
Uma delas. porém, a que parecia mais moça, tinha um defeito — a preguiça. Abandonava-se durante o dia à preguiça, dormindo pelos cantos, esquecida do trabalho, de modo que muitas vezes era a sua vizinha quem lhe trazia o sustento.
Suas casas tinham sido feitas por elas mesmas numa planície rasa, muito plana, por onde os ventos passavam livremente, refrescando a atmosfera.
Do lado do poente havia uma coluna de certa elevação, regada por um arroio fresco e límpido, que nascia no alto e escorregava pelo dorso da colina em pequenas catadupas.
Do lado oposto, um rico proprietário tinha construído um grande açude, onde se acumulavam as águas de um rio próximo, cercado por uma represa de pedras. Essas águas serviam nas secas do estio para a rega das plantações.
Um dia um caminhante que atravessava a campina veio abrigar-se dos ardores do sol numa das cabanas onde as duas velhas estavam reunidas, a fiar.
E ele disse-lhes:
— Minhas velhinhas, é urgente que mudeis vossas habitações para o alto daquela colina, porque o açude está-se esboroando aos poucos, pode partir-se a represa e a água inundar este campo, matando-vos. Fugi daqui, velhinhas.
A mais velha, que era solícita e prudente, respondeu:
— Amanhã me mudarei.
A outra, que era, preguiçosa, contentou-se com sacudir os ombros, incrédula, e disse:
— Veremos.
De fato, no dia seguinte, mal a manhã tinha despontado, já a velhinha estava tratando da sua mudança, arrancando os batentes das portas, a palha do telhado, e pouco a pouco ia levantando, não sem pequeno esforço, sua nova habitação sobre a colina.
Depois de colocado tudo em seus lugares, feita a cerca grosseira que prendia as suas aves e bacorinhos, instalou-se descansadamente, livre de todo o perigo.
A outra, apesar das instâncias da primeira, deixou-se ficar em baixo, e, preguiçosa como era, ia adiando a mudança.
Uma tarde, quando o crepúsculo descia e espalhava um aspecto de tristeza religiosa sobre a verdura dos campos, a velhinha, que estava sentada na soleira da sua casa, no alto da colina, viu com espanto a represa de pedras que segurava as águas do açude romper-se com estrondo, cair, dando passagem a uma enorme massa d'água. A água caiu. desceu e veio galopando pelo campo, espumando e roncando, com uma força e ímpeto a que nada poderia resistir. Tudo que encontrava na frente ia torcendo e arrancando.
A velhinha preguiçosa deitou a correr, os cabelos soltos, gritando de desespero. Coitada!
A água alcançou-a logo, envolveu-a com a sua espuma, arrastou-a nas ondas e levou-a, morta já, até à outra extremidade do campo.
Sua companheira, que tinha ficado ao abrigo do perigo, por ser cuidadosa e prudente, elevou as mãos ao céu num resignado gesto de súplica.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Rei Fantasma (Conto), de Francisca Júlia



Rei Fantasma 
(Balada alemã)

Quem é que cavalga a esta hora, na escuridão da noite, sob a chuva que cai e o vento que uiva? As árvores agitam a folhagem descabelada, arrepiadas do terror da noite.
O velho passa apressadamente, apertando nos braços o filhinho amado, fazendo-lhe com o rosto e com as mãos um carinhoso abrigo.
— Oculta-me o rosto, pai.
— Para que queres que te oculte o rosto, filho?
— Não vês o rei envolvido em seu manto de púrpura, brandindo o cetro como um louco?
— Não tenhas medo, filho, é uma nuvem e mais nada; é uma nuvem que estremeceu à fúria do vento e se desfez em água.
"Linda criança, vem comigo! vamos gozar as riquezas do meu reino, embriagar a vista no esplendor do meu ouro, correr os meus campos onde há flores perfumadas e árvores vergando ao peso dos frutos".
— Pai, pai! não ouves o que o rei me promete em voz baixa?
— Não é nada, meu filho; é o vento brando que murmura nas ramas e que resvala nas folhas, e mais nada. Filho, não tenhas medo.
" Criança linda, queres vir comigo? As minhas filhas são claras como a neve e têm cabelos louros como o sol; elas te conduzirão à dança noturna em companhia das fadas do bosque; elas te ensinarão brinquedos nunca vistos e te farão passear numa barquinha azul sobre as águas do lago. E tu hás de adormecer ao seu canto e sonhar sob seus afagos".
— Pai, pai! Não vês as filhas do rei dançando lá em baixo na planície, vestidas de branco, com os rostos escondidos nos cabelos?
— Meu filho, meu filho, eu vejo bem: são os salgueiros distantes, embranquecidos de neve, que o vento agita e balança, e mais nada.
"Amo-te, bela criança; gosto do teu rosto pálido, dos teus olhos azuis como o céu e dos teus cabelos negros como a noite; vem! quero levar-te comigo para deslumbrar-te nas riquezas do meu reino. Se tentas resistir, arranco-te dos braços do teu pai".
— Pai, pai! o rei me leva, o rei me arranca, o rei me mata. Livra-me, pai! ele é tão mau, ele é tão grande, ele é tão feio!
O pobre pai treme; fustiga o cavalo; atravessa a escuridão da noite sob a chuva que cai e o vento que uiva; aperta tanto o filho contra o peito que o sufoca.. Muito tempo depois, quando entrou em casa, tinha nos braços a criança morta.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Anacreonte (Conto), de Francisca Júlia



Anacreonte
Em Téos, na Grécia antiga, havia um poeta que se chamava Anacreonte.
Era velho, tinha os cabelos inteiramente brancos e as barbas aneladas e longas, que lhe cobriam o peito e lhe davam um aspecto simpático e venerando.
Era o homem mais feliz que havia. Como todos o amavam e o distinguiam com uma admiração sem limites, nada lhe faltava.
Sua habitação ficava à beira do mar, cujas ondas, na enchente, vinham até à sua porta, quebrando-se em espumas alvas.
Pela manhã, mal a aurora tinha nascido, as camponesas de Téos vinham em grupo trazer ao poeta o sustento do dia. Uma trazia um cântaro de barro cheio de leite gordo, outra um púcaro de saboroso vinho espumante e frutas de todas as qualidades; outra ainda um vaso de água pura para as abluções matinais do poeta. Depois untavam-lhe as barbas e cabelos com óleos aromáticos, perfumavam-lhe os pés com mirra sândalo, e esperavam, sentadas no chão, os agradecimentos do velho.
Anacreonte ficava em pé, majestoso na sua inspiração poética, e, com largos gestos e voz grave, ia cantando as odes que tinha composto durante a noite, fazendo-se acompanhar a uma lira de prata, cujas cordas desferiam os mais melodiosos acordes.
As raparigas subiam em seguida e atravessavam o campo em direção às suas casas, cantando as odes do poeta com suas vozes juvenis. Os camponeses, que não podiam ir fazer ao velho a visita matinal, porque os impedia o trabalho da lavoura, a criação das ovelhas e o fabrico do vinho, contentavam-se com vir ao encontro das moças, para ouvir dos seus lábios as últimas composições de Anacreonte.
Assim vivia ele, absolutamente feliz, querido e admirado por todos, preocupando-se apenas com seus versos, indiferente a outros afazeres.
Policrato, porém, tirano de Samos, curioso por conhecer o poeta, ouvir-lhe dos próprios lábios a poesia das suas odes, mandou chamá-lo.
Anacreonte, uma bela manhã, sobraçando a sua lira de prata encordoada de novo, com sua túnica de púrpura presa aos ombros, uma coroa de pâmpanos e heras em torno à fronte, embarcou numa galera, e partiu mar fora.
Policrato tinha ordenado que se preparasse um banquete real para festejar-lhe a recepção. Anacreonte apareceu.
Todos os que estavam ao redor da mesa, onde se ostentavam as mais extraordinárias iguarias, levantaram-se com as taças transbordantes e gritaram:
— Evohé! — que era o grito de satisfação dos gregos.
Anacreonte, então, em pé no meio dos convivas, admirável na sua roupagem de púrpura, empunhou o instrumento sonoro, arrancou um acorde e começou a entoar um hino de louvor a Policrato. Seus versos eram tão belos, tão inspirados, sua voz tão clara, que todos estavam suspensos de admiração, embriagados de poesia. Policrato aproximou-se do poeta, curvou-se em sinal de admiração ao seu gênio, deu-lhe uma bolsa cheia de moedas de ouro, e disse-lhe:
— Toma esta bolsa; é tua; contém uma fortuna. Quero que sejas o homem mais poderoso de Samos. Amanhã cantar-me-ás uma ode igual a essa.
Anacreonte agradeceu. À noite, quando se retirou para os seus aposentos, começou a pensar na fortuna que lhe pertencia, nas terras que havia de comprar à beira mar, plantadas de vinha, nas ovelhas brancas pastando pelos outeiros, no cortejo de escravos que havia de ter, na felicidade, enfim, que lhe dariam aquelas pesadas moedas de ouro. E não pode dormir, tal era a satisfação de que se achava possuído.
Pela manhã tinha um aspecto doentio, os olhos amortecidos.
Procurou Policrato e disse:
— Senhor! aqui está a vossa bolsa e o ouro que ela contém. Não a quero. Desde que a poesia bafejou minh'alma, ainda se não passou uma noite em que não compusesse uma ode; ontem, porém, a riqueza que me destes preocupou tanto minha imaginação, que não consegui dormir nem compor a ode que me pedistes. Adeus. Quero partir para Téos, pobre como vim, porém feliz na minha pobreza. Para que servem fortunas? Nada me falta: tenho o bom leite, o excelente vinho, a água fresca para as minhas abluções e a amizade dos meus vizinhos. Esta é a minha riqueza. Adeus.


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O sino que anda (Conto), de Francisca Júlia



O sino que anda 
(Imitação de Goethe)

Era um dia uma criança tão inquieta e travessa, tão amiga dos brinquedos e da ociosidade, que não tinha paciência de estar por muito tempo ajoelhada na igreja, aspirando o perfume do incenso, sob a luz dos altares.
Quando chegava o domingo, à hora de ir fazer suas orações, achava sempre um pretexto para correr até ao campo, à procura das borboletas e de ovos de passarinhos.
Disse-lhe a mãe um dia:
— O sino chama-te, meu filho, o sino toca, o sino fala-te, o sino prescreve-te os deveres da religião e obriga-te a assistir às missas; e se continuares a fugir para o campo, um dia o sino há de descer da altura em que está e correr atrás de ti.
Mas a criança pensou:
"O sino está tão alto, badalando lá em cima, preso nas paredes da torre!..."
E seguiu adiante, correndo pelos atalhos e devesas, ávido de ar e de liberdade.
Mas que medo, meu Deus! que terror lhe arrepia os cabelos e lhe empalidece o rosto. Numa curva do caminho o sino aparece, andando como se tivesse pernas, a ralhar como se tivesse boca. A pobre criança, desesperada, corre de um lado para outro, tropeçando nas pedras, rasgando-se nos espinhos.
E o sino cai. O pobrezinho corre, corre sempre, toma a direção da igreja e entra, mal acordado do susto. Desde esse dia, quando chega o domingo, ou algum dia de festa, ele é o primeiro a ir à igreja, obedecendo ao primeiro toque do sino, sem ser preciso que ninguém o convide.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Maníaco (Conto), de Francisca Júlia



O Maníaco
Viam-no sempre por montes e vales, exposto à chuva que lhe encharcava as roupas, ou ao sol que lhe queimava a pele, curvado, com os olhos fixos no chão, como quem procura um objeto perdido.
Na primavera, quando os rosais da cerca estavam floridos, os campos verdes e os passarinhos alegres, cruzando-se no ar numa revoada feliz, o pobre rapaz passava, atravessava as campinas, subia as montanhas, indiferente à beleza da paisagem, os cabelos voando ao vento.
Quando se sentia muito fatigado, sentava-se na ponta de uma pedra e adormecia.
Alimentava-se de frutas silvestres, bebia água á nascente dos ribeiros, e, à noite, abrigava-se debaixo de uma árvore ou no fundo de uma gruta, como um animal selvagem.
Um camponês, que o conhecia, chamou-o um dia e perguntou- lhe com curiosidade:
— Ó rapaz! que é que andas fazendo pelos campos e bosques, todos os dias, exposto ao sol e à chuva?
— Procurando tesouros.
— E tens alguma esperança de achá-los?
— Sim, afirmou o moço com convicção, correndo os olhos pela extensão das campinas.
— É melhor, disse o campônio em tom de conselho, que mudes de vida; tu, nesta faina de procurar tesouros, tornas-te um homem completamente inútil, inapto para o trabalho. É melhor, pois, que te esqueças dos tesouros, que os não há, e procures outro gênero de vida em que aproveites a tua inteligência e o teu trabalho.
— Não, disse o maníaco, se há muitos anos dediquei minha existência à procura de tesouros, é porque tenho certeza de encontrá-los.
— Mas como?
— Uma noite, era eu pequeno ainda, estando adormecido em meu leito, apareceu-me uma fada em sonho, que me falou mais ou menos assim: "Tu estás destinado pela sorte a ser o homem mais rico do mundo, e cuja fortuna te facilitará os meios de vencer os maiores soberanos da terra, de conquistar reinos e mares e dominar sobre tudo com o poder do teu cetro. Legiões inteiras de soldados, vestidos de couraças e armados de lanças, te acompanharão nas conquistas; sobre os mares terás navios embandeirados, infindáveis domínios em terra, e um exército de lacaios, ricamente vestidos, que se hão de curvar, submissos, á voz do teu mando. Para isso, porém, é necessário que, logo que fiques homem, vás por campos e montanhas, planícies e vales, sem medo às tempestades nem às noites, em procura de um incalculável tesouro que a sorte destinou para enriquecer-te". Assim me disse a boa fada, com uma voz firme e segura, inspirada pela fatalidade do Destino.
Hoje sou um homem; cumpre-me obedecer-lhe; e, em quanto não encontrar a fortuna que se acumulou para o meu gozo, irei caminhando sempre, mundo fora, os olhos no chão, as roupas apodrecidas de uso, como um mendigo de estrada.
Dito isto, levantou-se, passeou a vista em torno, curvou a cabeça e partiu.
A noite tinha cabido. A lua, muito clara, apareceu entre as nuvens e inundou os campos com sua luz argêntea.
O maníaco foi seguindo.
"Infeliz rapaz!" pensou piedoso o camponês, acompanhando-o com os olhos. Quantos também não há no mundo que atravessam uma existência inútil, tão inútil talvez como esta, incapazes de trabalhar, esperando que a felicidade os venha procurar no sonho, como este louco que pensa encontrá-la no solo.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A Ovelha (Conto), de Francisca Júlia



A Ovelha 
(Fábula)

A ovelha, um dia, muito triste por não ter forças para lutar com os cães que a mordiam, ou armas de defesa contra a ferocidade dos lobos, dirigiu-se a Júpiter e expôs-lhe suas queixas:
— Pai, todos os animais que vivem sobre a terra, desde o inseto ao paquiderme, têm meios de defender-se contra os ataques; e coragem para provocar as lutas. Eu, porém, sou tímida e indefesa: tudo me causa medo. Queria, pois, que me désseis uma arma qualquer.
Júpiter, tocado de piedade, perguntou-lhe:
— Queres um veneno oculto nos dentes, para dar a morte aos que te fizerem mal?
— Oh! não! respondeu a ovelha. Os animais venenosos são nojentos e causam medo a todos.
— Queres ter na boca duas fileiras de dentes afiados, como os leões e os lobos?
— Oh! não! Os animais carnívoros são tão odiosos e antipáticos!
— Queres saber arremeter, como os touros, com duas pontas na cabeça?
— Oh! não! Eu causaria terror aos outros animais, e não seria acariciada pelos pastores.
— Que queres, pois? gritou Júpiter, impaciente.
— Nada, senhor, nada quero. Prefiro viver assim, tímida e fraca, porém estimada e afagada por todos.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Monge (Conto), de Francisca Júlia



O Monge
Uns mercadores, com suas malas às costas, caminhavam em direção à cidade, para vender suas mercadorias. Mas a viagem tinha sido longa e eles estavam cansados.
Tinham atravessado campos, galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga, que resolveram sentar-se sobre a relva para descansar. Mas o sol estava muito ardente e eles seguiram adiante. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas, iluminada de alvas estalactites.
Penetraram, não sem algum receio, cautelosos, porque podia ser um covil de malfeitores.
Tudo estava às escuras. Mas, logo que se habituaram às trevas s da gruta, viram um monge de joelhos, as mãos postas, a fronte erguida, absorvido nas suas preces.
— Monge, disse um deles; perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. Entramos em tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol.
— Entrai, viajantes, respondeu o monge mal desperto das suas contemplações místicas Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemências do sol e contra as tempestades da noite.
Os mercadores agradeceram, e, como sentissem fome e sede, falaram:
— Na nossa longa e perigosa jornada a fome devorou nossas entranhas e a sede secou nossas gargantas; mas tu deves estar tão acostumado ao jejum, que em tua habitação nada pode haver.
— Nada há, de fato, pobres viajantes; mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites. Então, de um gesto, fez jorrar de uma fenda da rocha um grosso fio de água clara, onde eles beberam até à saciedade; e, arrancando do chão uns calhaus que se transformaram em pães, entregou-os aos peregrinos, dizendo:
— Tomai; cumpriu-se a divina vontade.
Os mercadores, homens materiais e rudes, tremeram de susto, receando algum sortilégio diabólico; mas, ao mesmo tempo, diante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge, comeram.
E um deles falou:
— Monge, se tu estás revestido de tanto poder e podes, com um gesto apenas, fazer brotar a água e transformar em pães os calhaus brutos, por que não fabricas também o ouro para gozares as delicias da riqueza? E por que vives oculto nas trevas desta gruta, como uma fera, emagrecido pelos jejuns e cilícios?
— Que errada e falsa compreensão tendes da vida, meus amigos! Sabei que o ouro serve somente para corromper os sentimentos, envenenar a alma, e não poderá dar-me os gozos a que eu aspiro. Ao menos, na pobreza em que vivo e que desprezais, sem as preocupações que acarreta a fortuna e os pecados que ela desperta, posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade.
Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento, beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Curandeiro (Conto), de Francisca Júlia



O Curandeiro
Cristo andava passeando em companhia de São José pelas ruas de uma aldeia, parando diante de cada porta a observar o trabalho de cada um.
Viu um ferreiro que dirigia imprecações contra o céu, porque o fogo da forja não era bastante forte para abrandar o ferro; um mercador sentado em uma pedra a contar o dinheiro ganho com usura; um ladrão que passava, de ar humilde de mendigo do templo, esfarrapado e imundo, ocultando sob os andrajos o produto do seu roubo; viu com horror alguns garotos apedrejando um velho estropiado; cães sem dono, magríssimos, uivando de fome pelas ruas, e lazarentos raspando as chagas com cacos de telha.
— Que gente ímpia! disse Jesus ao seu companheiro. São José abaixou o rosto, sem dizer nada, como se se sentisse envergonhado diante de tanta impiedade.
E foram caminhando, devagar, pelas tortuosas ruas da aldeia.
— Cada homem destes, falou Cristo, tocado de compaixão, se é rico, é perverso e cruel; se é pobre, é um revoltado da sorte, que vive a maldizer a pobreza. Parece que um gênio mau ou que a cólera divina derramou sobre esta miserável terra o aluvião de todos os pecados. Pobre gente!
— Bem difícil seria arrastá-la ao bom caminho.
— Impossível quase, murmurou Jesus; mas, enfim, para que se não diga que a nossa visita foi inútil e sem proveito, vamos ensinar a virtude com o bom exemplo ao primeiro que aparecer.
Nesse instante eles tinham passado diante de uma porta onde um curandeiro se anunciava com grandes gritos, dizendo-se milagroso.
Pararam.
Cristo ouviu o seu pregão e perguntou-lhe:
— Em que consistem as vossas curas milagrosas, e por que é que vos apregoais como o primeiro curandeiro do mundo? Que virtudes têm os vossos remédios e a vossa ciência? Que mágico vos ensinou tanta sabedoria? Mostrai-me vossas virtudes todas, para que eu vos acredite.
O homem começou a enumerar, com orgulho, as curas que praticara:
— Com óleo de oliva, a que misturei umas preparações, de que eu só guardo o segredo, curei um leproso em poucos dias; concertei a perna a um estropiado; dei vista a um cego e voz a um mudo; uma pobre mulher, que há muitos anos gemia no fundo do leito, ergueu-se e está hoje sã com os remédios que lhe dei. Tenho bálsamos para as feridas, óleos para as queimaduras, alívio para as dores, pós para as lepras e colírios para todas as doenças de olhos.
— Sois, na verdade, muito sábio; porém, por mais prodigiosas que sejam as vossas curas, nunca vos esqueçais de que o mundo é grande e nele devem haver homens de sabedoria igual ou superior à vossa.
— Igual, talvez; mas superior, não, afirmou com a natural soberba.
— Vejamos, pois, disse Cristo. Aqui está um homem (e apontou para o seu- companheiro) que, desde a infância, tem uma enorme chaga que lhe cobriu a perna inteira e o faz estorcer-se de atrozes dores. Vede se podeis curá-lo.
São José, que já estava prevenido ou tinha adivinhado a intenção do Mestre, ergueu a ponta do manto que o cobria e mostrou a perna, muito inchada e toda coberta de chagas vermelhas e roxas.
O curandeiro olhou com repugnância e untou a perna de São José com uns óleos frescos e perfumosos.
O Santo começou a gemer de dor, e grossas lágrimas lhe molharam as barbas.
O homem falou:
— Impossível curá-lo. Essas feridas são tão velhas que se radificaram por todo o corpo. Podeis seguir o vosso caminho, infeliz peregrino, que não encontrareis cura em parte alguma.
Cristo, então, disse-lhe:
— Vós nunca soubestes curar. O que não puderam fazer os vossos óleos, faço eu com um gesto.
Passou a mão de manso sobre as feridas de São José, e curou-as imediatamente.
O curandeiro caiu de joelhos, assombrado.
— Quem sois vós, senhor, que sabeis obrar tão grandes prodígios e milagres como estes?
— Um pobre peregrino, respondeu Cristo, com sua evangélica modéstia e religiosa humildade, que anda pelo mundo a aliviar as dores e sofrimentos humanos.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)