sexta-feira, 5 de julho de 2019

Presente real (Conto), de Brito Camacho



Presente real
Por ordem de S. M. El-Rei foi
mandado ao Sr. José Luciano
um dos veados mortos
na tapada de Vila Viçosa.
(Dos jornais)
Estavam todos a postos.
A criadagem fora bater o mato, espantando a caça, e ouvia-se ao longe uma barulheira infernal, em que se confundiam latidos de podengo e gritos de pastor, o rufar em latas, como num carnaval de aldeia, e as notas ásperas de um clarim rachado, em que soprava o chefe, congestionando as bochechas.
Cada qual aguçava a vista, espreitando ao longe, e se uma esteva bulia, tocada pelo vento, logo se apontava para lá, com o dedo no gatilho, pronto a desfechar sobre o que aparecesse — porco, veado ou coelho. E a barulheira infernal ouvia-se ainda longe, aproximando-se sempre, de cada vez sendo mais distintos os latidos dos podengos, a gritaria dos maiorais, o rufar em latas como num carnaval de aldeia, e as notas ásperas de um clarim rachado, que alguém comprara por cinco tostões a uma trupe de saltimbancos. Senão quando, ouve-se um tiro seco, como o estalar de um trovão, e logo um coro de vozes se ergue como numa aclamação triunfal: — Que rico tiro meu senhor!
Era um lindo veado, grande como um novilho de ano, de pele zebrada, calçado das pernas dianteiras, e um traço branco a cortar-lhe o focinho, dando a impressão de um açamo. Rico tiro, não havia dúvida; mas nenhum fio de sangue lhe manchava a pele, e no chão, onde ele caíra, também não havia sangue. Vá então de procurar a entrada da bala, virando e revirando o pobre bicho, cada qual pretendendo ser o Arquimedes daquele problema, gritando o achei! da lenda. E como toda a pesquisa resultasse inútil, um da comitiva, mais esperto, mais sagaz, procurando onde ninguém tinha procurado, fazendo o toque: — Foi por aqui, meu senhor!
E fora por ali, na verdade. Palmas batidas, coro de gargalhadas, celebrando o sucesso raro. E logo uma voz soberana, procurando dar ao burlesco um ar solene:
— Com que então, sem furo! Pois levam-no ao José Luciano.
E foi assim a história do veado.
 
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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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