sexta-feira, 5 de julho de 2019

Quem porfia... (Conto), de Brito Camacho



Quem porfia...
Condescendeu em recebei-o naquele dia, o último do ano.
Foi uma doidice.
Havia quanto tempo ele ansiava por aquelas horas felizes, de uma ventura sonhada em longas noites de febre, sentindo nos braços aquela mulher ideal, duma beleza estonteante! Acreditava no seu amor, mas por isso mesmo se via constrangido a respeitar a sua honestidade, que ela defendia sem frases, com a simplicidade e a firmeza de quem se devotou ao cumprimento do dever.
Tinham-se namorado em crianças, andava ela no último ano do Colégio, andava ele no quarto ano do Liceu. Muitos anos sem se verem, quando um dia se encontraram, por acaso, numa praia, sentiram reviver o béguin doutro tempo; mas já ela era noiva de um merceeiro abastado, honradíssimo negociante da nossa praça, homem que nunca deixara de pagar uma letra no prazo do seu vencimento, e nunca deixara vencer uma letra, como sacador, sem a protestar no Tribunal do Comércio.
Casaram.
Para ele a casa, o seu lar, era como que um prolongamento do seu escritório; a vida em família era uma comodidade a que se ia habituando, e que já achava excelente... quando tinha o escritório fechado. A mulher, no fim de contas, era o caixeiro que ele mais estimava, porque era o que lhe inspirava mais confiança, o que mais zelosamente cumpria o serviço a seu cargo. Muito econômica, só gastava o que era preciso; mas a sua casa era farta e se um hospede lhe chegava, sem ser esperado, à hora do almoço ou do jantar, não se envergonhava de o sentar à sua mesa, sempre bem-posta, servida sem escusados luxos, mas com a singela e cativante elegância das pessoas bem-educadas.
Para ela, coitada, sem feitio para se interessar pelos negócios do marido, espírito um nadinha romântico, tendo vislumbrado através do seu temperamento os encantos, as delícias da vida conjugal, para ela a casa era uma gaiola dourada, mas gaiola em todo o caso. Precisava de mais ar, mais liberdade; sobretudo precisava de mais ternos carinhos, de mais afetuosa intimidade. Sentia-se preza ao dever por sólidas cadeias, mas lamentava se amargamente de que o dever fosse um obstáculo insuperável à felicidade sonhada.
Encontros repetidos sem nenhuma combinação previa; protestos mudos de uma afeição que nunca se apagara de todo, esbatida nos longes de uma ausência que nunca fora esquecimento; a vaga promessa, em olhares quebrados e enternecidos, de uma felicidade que nunca passaria de encantadora mentira, tudo isto foi preparando secretamente, ao abrigo de qualquer suspeita, o encontro daquele dia, o primeiro do ano.
O marido andava por longe, a tratar de negócios, e demorava-se ainda alguns dias. Recebê-lo-ia ao cair da noite, com a promessa de ter muito juízo, contentando-se com os protestos de um amor que a enleava, sem todavia lhe tirar a noção clara do dever, de que nada a afastaria, ainda que para o conseguir fosse preciso afrontar a morte...
Foi uma doidice, que durou a eternidade de uma noite!
Estancavam-se-lhe na garganta os mais veementes protestos, e as súplicas que fazia, quase de joelhos, as faces incendidas e os olhos cheios de lágrimas, morriam-lhe entre os lábios secos, como se os queimasse a febre.
— Juraste que havias de ter muito juízo; que não abusarias da situação, querendo obrigar-me a faltar aos meus deveres mais sagrados. Arrependo-me de ter cedido às tuas instancias; chorarei toda a vida a minha leviana e criminosa condescendência.
O marido andava lá por longe, a tratar de negócios, honrado comerciante que nunca deixara de pagar uma letra no prazo do seu vencimento, e nunca deixara vencer uma letra, como sacador, sem a protestar no Tribunal do Comércio.
Secaram-se-lhe os olhos ao fogo que lhe incendia as faces e lhe crestava os lábios, e já não eram súplicas que ela murmurava, quase de joelhos, perdida a noção do dever, e sentindo que iria até à morte, se fosse necessário morrer para ter um minuto de suprema felicidade.
Quando no relógio da casa de jantar, pausadamente, com tonalidades de bronze, começaram a bater as sete horas, ainda o sol, friorento e dorminhoco, não se desembaraçara do seu pijama de nuvens, sentados na cama, pousando-lhe a cabeça sobre o ombro, a coar-lhe no ouvido palavras macias e doces como o mel de enxame novo, lembrou-lhe que desde a meia-noite estavam em dia de ano bom, e que este dia, segundo uma velha tradição, marca o programa de todo ano a seguir.
— Alma da minha alma!
— Vida da minha vida!
O marido anda lá por longe, a tratar de negócios, honrado comerciante para quem o lar, a sua casa, era um prolongamento do seu escritório, e a mulher o caixeiro em quem mais confiava, o que tinha sem maior estima.


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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019

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