sexta-feira, 5 de julho de 2019

Ser ou parecer... (Conto), de Brito Camacho



Ser ou parecer...
Quando chegou à porta, alta e espadaúda como um cuirassier en jupons, viu na sua frente quatro homens de aspecto ameaçador, armados de pistola, que lhe embargaram o passo. Um deles, com ar de chefe, metendo-lhe a arma à cara, sentenciou com firmeza, num tom de voz em que havia acentos de cólera:
— O cavalheiro, ou se entrega sem resistência, ou eu lhe meto uma baia na cabeça.
Ficou atônita, sem perceber o que aquilo significava, a chamarem-lhe cavalheiro, não obstante os seus trajos femininos, sem consideração pelo seu aspecto senhoril, o peito montanhoso arfando dentro do espartilho, e o cabelo farto, de longas tranças, com muito jeito acomodado num pequenino canottier.
— O senhor disse?...
— Disse que o cavalheiro, ou se entrega sem resistência, ou eu lhe meto uma baia na cabeça.
— Mas... os senhores bem veem que eu sou uma senhora, e ainda estamos longe do carnaval para cenas destas...
Recuou dois passos, mas não pôde fechar a porta, porque os quatro homens entraram, num salto, sempre com as armas em punho, e o que tinha ar de chefe, robusto como um Hércules de feira, rugiu uma ameaça de morte, que a fez perder a cor.
— Nada de brincadeiras; o cavalheiro está preso, e assim mesmo como está, acompanha-nos à esquadra.
Deixou-se cair em cima de uma cadeira de verga, atônita como quem se encontra de repente em face de um espetáculo inverossímil. Chorou, implorou, caiu de joelhos aos pés do homem que tinha ares de chefe, mas as suas lágrimas não o comoveram, os seus rogos deixaram-no insensível como se fosse um bonzo de pedra.
À Polícia de Segurança tinha chegado a denúncia de que um temível conspirador, disfarçado em mulher, se instalara em Lisboa, provido de muito dinheiro, pois gastava à larga, não recebendo pessoa alguma em sua casa, mas realizando conferências diárias com os mais cotados realistas, hoje aqui, amanhã além, variando amiudadamente os pontos de reunião para não dar nas vistas. Na posse desta denúncia, feita em termos de produzir uma grande impressão de verdade, a Polícia pôs-se em campo, e não tardou muito em farejar a pista que a levou à descoberta apetecida, realizando uma façanha que não ficaria sem recompensa.
— O cavalheiro está preso e assim mesmo como está, acompanha-nos à esquadra.
As suas lágrimas não comoviam o homem que tinha ares de chefe: os seus rogos era como se fossem dirigidos a um bonzo de pedra.
Mas então...
Subitamente iluminada, como se um raio de graça divina, atravessando-lhe a cabeça, pusesse em ordem as suas ideias confusas, barulhadas como num delírio desconexo ou como num sonho macabro, ergueu-se com muita serenidade, pousou a malita sobre a cadeira de verga, limpou os olhos enevoados das lágrimas, e encarando o homem que tinha ares de chefe, resoluta como quem joga uma cartada decisiva:
— Está bem; o cavalheiro acompanha-me ali, àquele quarto, e os seus companheiros esperam aqui um instante. Suponho que não terá medo!...
Entraram, ela adiante, ele seguindo-a de pistola em punho, tendo recomendado aos outros, num olhar, que estivessem vigilantes, e ao mais pequeno sinal entrassem sem pedir licença.
Não foi preciso.
Quando já tinha passado uma longa meia hora, um deles, batendo na porta com as juntas dos dedos, lembrou ao chefe que ainda aí estavam.
Fez à pressa a sua toalete, acomodando o peito montanhoso no espartilho sem barbas, e o cabelo farto, de longas franças, no pequenino canottier que parecia ter sido comprado para uma cabeça de menor volume.
Já com a mão na chave, que correra, à cautela, quando entrara acompanhada do homem que tinha ares de chefe, estendendo-lhe os beiços, numa momice:
— Então?...
— Ó filha! com um bigode desses, alta, forte, desembaraçada como um homem... Quem te denunciou à Polícia não fez uma parte carregada; limitou- se a dar os sinais que te identificam, com rigoroso escrúpulo de exatidão. Não me tenho na conta de pessoa feroz; no desempenho das minhas obrigações propendo mais para a brandura que para a violência. Pois bem. Quando eu te disse que te meteria uma bala na cabeça se não te entregasses sem resistência, senti tremer me o dedo no gatilho do revolver, sendo milagre que não desfechasse, tão convencido estava de me encontrar na presença de um terrível conspirador, tão valente como atrevido, disposto a vender cara a liberdade, dando por ela sem rega- tear, a própria vida.
— É preciso não confiar demasiado nas aparências, porque elas muitas vezes enganam. E visto que já sabe onde mora este terrível conspirador, faça o seu dever, exercendo sobre ele a maior vigilância. Mas sem pistola, que as armas de fogo metem-me medo...

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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