sexta-feira, 5 de julho de 2019

Um nigromante (Conto), de Brito Camacho



Um nigromante
Quando o comboio se pôs em marcha, estavam quatro passageiros na carruagem. Não se conheciam; talvez nunca se tivessem visto; mas ainda o comboio não tinha saído das agulhas e já eles estavam de cavaqueira. Um deles, muito alto e muito louro, tipo de homem do norte, sacou da maleta uma almofadinha de ar, soprou-a até a encher completamente e pediu licença para se deitar. Os outros foram taramelando à vontade, falando d isto e daquilo, das mil coisas sem importância que constituem o tema quase obrigado em viagens de caminho de ferro.
Por acaso tinham os três assistido, na véspera, a um espetáculo curioso, no teatro da cidade, e em todos tinha feito muita impressão o nigromante, que mais parecia um santo a fazer milagres que um politiqueiro a fazer habilidades.
Era lá possível adivinhar o que um espectador, tomado ao acaso, tinha nas algibeiras, ou ler, de olhos fechados, uma carta metida no respectivo sobrescrito, não falhando sequer uma palavra! E então aquela de reduzir a migalhas, num almofariz, um relógio de prata, e logo de seguida, com um sopro, refazê-lo tal como era, sem a mais leve beliscadura, e a trabalhar na perfeição!... Nem o diabo era capaz de fazer passar a carteira de um cavalheiro que estava na geral, sem lhe bulir, para a algibeira de um outro que estava num camarote, como não era capaz de cortar a cabeça de um pombo, metido numa caixa, pegando-lha imediatamente ao corpo, besuntadas as superfícies sangrentas com uma pomada amarela. O homem a quem ele tinha dito que encolhesse uma perna, e que depois, por mais que fizesse, não conseguiu estendei-a enquanto ele não lha esfregou com a palma da mão, esse homem era um criado da casa, que ia ali ganhar dinheiro, prestando-se a burlar o público. Sim, para fazer aquilo era necessário ter muita habilidade; mas nem Deus já faz milagres nos tempos que vão correndo, e muitas das coisas que o nigromante fizera, se não fossem puras mistificações, seriam atos sobrenaturais, revelando o poder divino. Assentaram, ao cabo de uma discussão larga, em que o homem era um intrujão, fazendo em todo o caso as suas intrujices com mais limpeza que os seus confrades.
Foi nesta altura da conversa que o outro se ergueu, até ali de olhos fechados como quem dorme, e naquele momento fresco e desempoeirado como quem nem pegou no sono.
— Peço desculpa de me intrometer na conversa; mas esse tal intrujão de ontem à noite, a que há pouco se referiram... sou eu.
Calcule-se o assombro dos três! O mais novo, prontamente refeito da surpresa, disse-lhe:
— Pois bem; eu não acredito em nada do que o senhor ontem fez.
Sem lhe replicar, olhando-o serenamente, com muita firmeza, o homem alto e louro disse-lhe que fechas, se os olhos. O outro obedeceu. Fez-lhe então, na fronte, uns sinais cabalísticos, uns passes rítmicos, como quem traça no ar desenhos complicados e simétricos. Por fim ordenou:
— Abra lá os olhos.
O outro bem queria abri-los; mas dir-se-ia que lhe tinham cosido as pálpebras a pontos naturais, como se fossem os bordos duma ferida acabada de fazer. Mas bastou um sopro do homenzinho, alto e louro, a quem havia segundos classificara de intrujão, para ele os abrir sem a mínima dificuldade. Voltando-se então para um dos outros, num tom imperativo que não admitia replicas:
— Abra a boc...
O outro abriu a boca, e logo o nigromante se pôs a fazer os mesmos sinais, os mesmos passes que fizera havia pouco para trancar os olhos do incrédulo viajor. A seguir, esboçando um riso trocista, em que se afirmava o seu triunfo:
— Feche a boca...
Pude fechá-la tanto como o outro pudera abrir os olhos. Mas bastou um sopro do homenzinho, alto e louro, para que a boca se lhe fechasse sem esforço, com a habitual naturalidade,
O outro viajante era um velhote alto e seco, muito curvado, mas com a fisionomia sempre em movimento, e os olhitos muito vivos, guardando muito da sua malicia de rapaz.
—Os senhores estiveram aí mas foi a intrujar-me!
Logo o nigromante, alto e louro como os homens do norte, sem se mostrar ofendido com o qualificativo:
— O senhor quantos anos tem?
— Fiz setenta na semana passada.
— De modo que a respeito de...
— Há quanto tempo isso lá vai!
— E seja em que condições for em que se encontre, faça o que fizer...
— Isso sim! Foi chão que deu vinha.
Sem lhe dizer nada, com muita serenidade, o nigromante pôs se a fazer sinais cabalísticos, passes misteriosos. Passados alguns segundos:
— Então?
— Como nos meus tempos de rapaz!
Brincava-lhe uma alegria doida em toda a fisionomia enrugada, e parecia que uma chama de sensualidade febril lhe punha clarões nos olhos.
Afinal conseguira, sem vender a alma ao Diabo, rejuvenescer como o Dr. Fausto, e esse milagre de ressurreição, em nada inferior ao que vão relatado na Bíblia, operado por Jesus na pessoa de Lázaro, esse milagre espantoso, duma autenticidade irrecusável, quem o fizera sem elixires, sem drogas e sem orações, sena ao menos pronunciar o fiat da literatura clássica, fora aquele homem muito alto e muito louro, tipo de escandinavo, que ele vira trabalhar, na véspera à noite, num teatro, e que lhe dera mais a impressão dum santo a fazer prodígios, que um politiqueiro a fazer habilidades.
Parecia-lhe agora que o comboio se não mexia, não andava, a máquina pegando-se às calhas como um sendeiro, arfando como um jumento a contas com uma tuberculose, das que nunca se tornam galopantes.
Talvez o milagre fosse de curta duração e ele, improvisado Fausto, morreria danado por toda a eternidade, sem possibilidades de salvação, maldito de Deus e do Diabo, se não pudesse entrar rejuvenescido em sua casa, apresentando-se à sua Margarida, que por sinal era Engrácia, intrépido, vigoroso como há cinquenta anos, quando se casaram. E o maldito comboio a arrastar-se como uma jiboia farta, arfando a máquina em estremeções de impotência, sendo de recear que rebentassem os tubos e a caldeira.
Curvou-se um pouco o nigromante, soberbo do seu triunfo, e intumesceu as bochechas como quem vai soprar. Recuou o velhote, num repelão, como quem vê diante de si uma fera de goela hiante, e sacando da algibeira um revolver, apontando-lho à cabeça:
— Se você sopra, faço-lhe saltar os miolos.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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