sexta-feira, 5 de julho de 2019

Glórias efêmeras (Conto), de Brito Camacho



Glórias efêmeras
Julgava-se indispensável... como todos os inúteis, e afizera-se ao pensamento de acabar no seu posto, como um velho sacerdote velando sobre a pureza da fé, ou como um velho soldado velando sobre a segurança do acampamento. Mas eis que de repente se vê arredado como um empecilho, posto de banda como um instrumento que já não serve, despedido como um serviçal que envelheceu na casa e os patrões, um dia, põem fora, fazendo-lhe sumariamente as contas.
Urna vida inteira de trabalho, de dedicação, de sacrifícios, cinquenta anos de luta por conta alheia, num espírito de renúncia quase evangélica, tudo isso era então coisa de somenos valia, uma carta lida que se deita no fogão, um farrapo sujo que se mete no barril.
Pela sua memória, como num caleidoscópio, passaram todos os acontecimentos a que assistira ou em que tomara parte, coisas grandiosas ou insignificantes, sucessos graves ou cômicos, um longo rosário de peripécias simplesmente curiosas ou altamente sugestivas, muitas das quais lhe apareciam na sua verdadeira significação e alcance. — Sentira a vertigem das alturas, erguido às culminâncias do mando, e parecia-lhe, às vezes, que viera ao mundo fadado para governar povos e cingir na sua fronte ampla um régio diadema.
Um dia, subornando um faminto, conseguiu sentar-se no trono, empunhando o cetro, e tão à justa a coroa lhe assentava na cabeça, tão perfeitamente o largo manto lhe caía dos ombros, em pregas majestáticas, que tudo parecia ter sido feito para ele, de encomenda, rei como D. João I, por aclamação popular. Era estruturalmente monárquico, realista por convicção e por sentimento; mas sentia às vezes revoltas íntimas, efêmeras como a lucilação de um relâmpago, contra o princípio da hereditariedade, absurdo no ponto de vista científico, porque pretere muitas vezes em favor de um imbecil, no provimento da magistratura da Nação, um homem de superiores talentos e inigualáveis virtudes só porque não tivera a sorte de nascer em régio tálamo. E vinham-lhe guinadas, impulsos de um liberalismo também efêmero, que sem o congraçarem como Povo, mais o indispunham com o Monarca.
Servira milhares de interesses; satisfizera milhares de caprichos; tecera milhares de intrigas e ocultara milhares de infâmias. Nunca soubera resistir às solicitações do alto, quer se tratasse de solver dívidas que uma mulher perdulária ia semeando no seu caminho, quer se tratasse de encher de ouro as goelas de uma espécie de Moloque insaciável.
Valera bem a pena, na verdade, durante cinquenta longos anos violentar a consciência, amarfanhar a dignidade, prostituir o caráter, aniquilar o brio, para ao cabo se ver tratado assim — carta lida que se mete no fogão, farrapo sujo, que se atira à rua. As situações que tivera, as eminências a que se elevara, não tinha que as agradecer a ninguém, como um favor; conquistara-as pelo seu esforço inteligente, por afirmações de uma competência e de um zelo que ninguém excedia, e pela isenção, e desinteresse que raros igualavam. Tantos que reclamavam agora a sua forçada aposentação, ainda ontem o reverenciavam como se fora um Deus, alguns beijando-lhe as mãos como se fora um pai. O que sobretudo indignava, enchendo o de uma indignação em que havia ódio, era o procedimento para com ele havido pelos de cima, pôr os que sempre o tinham encontrado ao seu dispor nas horas tremendamente difíceis ou eminentemente perigosas em que a onda republicana, se não lhe opusessem um dique, galgaria, submergindo-a, uma fortaleza velha de oito séculos.
Como quer que, relanceando os olhos pelo gabinete desse com uma cópia barata de um quadro célebre, representando Strafford marchando ao suplício, abriu a história da Inglaterra, que tinha sobre a mesa de trabalho, ainda por encadernar, e pôs-se a ler a biografia do Conde, entregue ao carrasco por aquele a quem sacrificara tudo — a fortuna e a vida depois da popularidade.
— Não vos fieis dos Príncipes, exclamava Strafford, já com a morte na garganta, não há nada a esperar deles.
Sobre a leitura desta passagem, que ele desejaria que fosse conhecida, como lição e advertência, de todos os Ministros e Validos, fechou o livro com serenidade, limpou a testa cheia de camarinhas e disse ao criado que lhe trouxesse uma algalia mole.
No estado de irritação em que se encontrava, desconexos os movimentos, a sensibilidade desordenada, tinha medo de alguma fístula que acabasse de o escangalhar.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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