quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Álvares de Azevedo (Vida e Obra)



Álvares De Azevedo

Álvares de Azevedo!

Eis aí um nome — que deve de ser escrito em caracteres de ouro no mármore da História da Literatura; eis aí um nome que deve de viver, viver muito, aquecendo a nós outros — mancebos que demandamos a estrada do progresso, caminheiros que tomamos por norte a palavra de Byron, o lábaro da civilização — Away! — que procuramos tornar esta terra em que vimos a luz ao primeiro descerrar dos olhos — invejada das nações mais cultas da velha e vaidosa Europa.

Álvares de Azevedo!

E no entanto morreu tão moço, tão moço, quando risonha lhe despontava a manhã, quando sentia à fronte escaldar-lhe o fogo santo do gênio, quando tinha no vasto crânio em ebulição um milhão de ideias a criar e desenvolver ainda!

Morreu tão moço! flor da primavera crestou-a o simoun do destino, que emurcheceu-lhe as pétalas cor de ouro, e sem viço e sem seiva tombou à beira do regato, que arrastou-a em sua correnteza.

E quão vasta que era aquela fronte, e quão fecunda que era aquela imaginação! Fadara-o Deus para destinos bem altos; mas, meteoro brilhante, cortou por um momento as nuvens e esvaeceu-se no nada da morte, no silêncio da lousa.

E hoje pranteia-o uma família, que vive de sua glória; e hoje chora-o seu pai, seu pobre pai, de que era o orgulho bem legítimo; e hoje choram-no as letras de nossa terra, a que tanto e tão vivo impulso em tão pouco tempo dera.

Fado é das letras entre nós! Junqueira Freire morreu ao despontar-lhe a primavera da existência; Álvares de Azevedo, também, como ele, foi arrastado no torvelinho da morte que lhe cortou os voos.

Resignemo-nos.

Profetas da civilização, apóstolos da luz, lançaram a semente fecundante em seu perpassar na terra; pois bem, reguemo-la, nós outros, obreiros do progresso, com o suor de nosso rosto, e oxalá que árvores frondosas e frutos doces e viçosos — venham abençoar nossas noites de insônia, nossas decepções e amarguras.

Estrelas cintilantes a luzirem no céu — sejam eles nosso norte, e levantemos-lhes estátuas, e engrinaldemos-lhes as frontes nos traços vivos de nossos arroubos e inspirações.

***

A terra de Bueno e dos Andradas, e onde pela primeira vez soara a voz vibrante do príncipe guerreiro — que nos deu foros de livres — foi o berço de Álvares de Azevedo.

São Paulo, a pátria de tantos heróis que a História canta, iluminou com seu reflexo dourado a fronte infantil do mancebo poeta.

E a criança, que balbuciava apenas, cresceu e tornou-se o arbusto verdejante, que se foi cobrindo de folhas que o vento agita, de flores que perfumam a brisa.

Rápidos foram seus progressos nos primeiros ramos dos conhecimentos humanos, o laurel de bacharel em letras pelo imperial Colégio de Pedro II lhe ornou a fronte, infantil ainda e os primeiros lampejos do gênio começaram a sair daquele cérebro inspirado.

E voltou-a São Paulo a conquistar a carta de bacharel em direito.

Foi aí que lhe nasceram a maior parte dessas composições admiráveis, desses rasgos estrepitosos do gênio; foi aí que ilustrou o espírito e viu incendiada a imaginação na leitura aturada, constante, refletida e sisuda dos principais clássicos — poetas e prosadores da literatura francesa, inglesa, alemã e italiana; foi aí que se inspirou no incessante meditar da Bíblia, de Ossian, de Lamartine, de Shakespeare, de Tasso, de Goethe, de Uhland, de Chénier e sobretudo do Byron inimitável, companheiro constante de suas noites de ardente insônia, de seus dias passados no silêncio do gabinete.

Foi nesses poetas brilhantes ou sombrios, nessas leituras fantásticas e tristes, no delirar do Dante e nos gritos de desespero de Gilbert, que adquiriu Álvares de Azevedo essa eloquência apaixonada, essa linguagem tão do coração, esse estilo melancólico, impregnado de doce suavidade, de arrebatamentos delirosos, que tanto impressionam a quem os lê.

Como tanto escreveu o em tão pouco tempo, para nós é mistério ainda. Três volumes de belas produções aí vão publicados o material bastante ainda tinha para mais.

E para escrever tanto e tão bem, e para ostentar essa profusão imensa de conhecimentos variados, essa erudição profunda da antiga e moderna literatura, que a cada passo, a cada momento se depara em suas obras, que de tempo não era preciso, que gastar de horas, que consumir de dias!

E não era só nisto que se empregava Álvares de Azevedo. Cultivando a literatura amena e fácil, inteligência poética, delirante, e inspirada, — culto também votava às ciências áridas que formam o objeto do curso que seguia. Primeiro entre os primeiros era ele nos bancos da Academia de São Paulo e os compêndios de que servia-se acham-se cheios de notas extensas, de reflexões tão bem cabidas e profundas, que fariam honra aos mais abalizados e distintos jurisconsultos. Conhecia perfeitamente o Direito Mercantil e a obra que folheou, como estudante, acha-se tão anotada, que só as reflexões já contidas forneceriam matéria para um bom volume.

E apesar desse afegar constante de trabalho, desse estudar contínuo, desse escrever sem interrupção e sem descanso — ainda restava-lhe tempo para desenvolver na esperançosa mocidade que o rodeava — o gosto pelas letras, a aspirações da glória.

Mas tanto afã, tanto lidar de noite e dia alquebrava-lhe o corpo delicado, e o jovem arbusto pendia a haste para a terra, ao sopro violento do furacão. Muita vez ao trabalho fatigante de um dia e dois e três, sem trégua, sem interrupção, vinha-lhe a prostração e o desalento; — e a palidez das faces e o bater fraco e sumido do pulso indicavam o abatimento e a diminuição das forças.

E demais à prostração do corpo vinha juntar-se o desalento d'alma. O coração tem pressentimentos, cuja origem ignoramos, mas que nem por isto deixam de ser infalíveis — como as sentenças lavradas no livro misterioso do destino.

Perseguia incessante ao jovem poeta — a ideia de que cedo, muito cedo seria arrancado da terra que pisava, indo dormir no silêncio lúgubre da campa o sono de finados.
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E tão jovem morrer!... Morrer deixando lágrimas à sua pobre mãe, que amava-o tão de dentro d'alma; a seu pai, a seus irmãos, que lhe admiravam o gênio e se orgulhavam dele!

E perseguia-o essa ideia dia e noite, no silêncio do gabinete, à sós com suas reflexões, e no ruído das festas, na vertigem da valsa.

E de sua alma que assim padecia, e desse desalento terrível da vida, que lhe comprimia o peito, tirava essas notas dolentes e sentidas, ou esses gritos profundos, estridentes, que não podemos ler, sem que horrível calafrio nos venha gelar o sangue.

E morreu: o arbusto virente que se debruçava à beira do regato viu cair uma por uma as folhas que lhe formavam a coma, as flores que perfumavam a brisa, e deixando também pender a fronte foi arrebatado pelo impulso da correnteza.

"— Que fatalidade, meu pai!"

Foi o último adeus do moribundo, a saudade legada a nós outros, seus companheiros, soldados de que era o chefe.

E morreu!... E o sol da literatura pátria anuviou o semblante, e o anjo da glória desdobrando as asas cândidas lhe cobriu o semblante — que desbotara a morte.

Que importa! Morrerá por ventura o gênio que ilumina a terra? Álvares de Azevedo pertence a essa raça de homens, que vivem sempre nas páginas imorredouras da história.

"A sua perda, diz o Sr. Lopes de Mendonça, é daquelas que se devem deplorar, como um funesto acontecimento para a situação e progresso das letras. Era um talento inovador, que não limitaria a sua ambição a percorrer as veredas conhecidas, que alcançaria novos horizontes, impelido pelo fogo da sua inspiração e também pela madureza de seus estudos."

"Há vocações, que reproduzem os prodígios das sibilas antigas. Profetizam involuntariamente sobre a trípode, e deixam-se arrastar pelo entusiasmo de suas próprias palavras. O jovem poeta não cantava, somente para que as turbas se deixassem comover pela harmonia dos seus cantos; cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a sua alma ébria e palpitante, lhe acendia a imaginação, e como lhe intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos seus desejos, o esplêndido irradiar da sua esperança."

Digamos algumas palavras a respeito do escritor, e deixando de parte tudo quanto se tem escrito neste ponto, vamos emitir nossas próprias reflexões.

Não é um artigo de crítica o que fazemos aí; não vamos tão longe, que cansaremos no caminho; o que escrevemos são puramente nossas impressões e não nos peçam mais do que isto.

Álvares de Azevedo pertence a essa escola romântica, em que avultam às figuras gigantescas de Shakespeare, e Byron e Lamartine.

Estudando-os a todos esses grandes mestres — seu estilo possuo essa grandeza máscula de ideias, essa elevação de pensamentos, essa beleza de frase, que causam arrebatamento e prazer.

Lendo muito o Byron, demasiado talvez, vemos nele, em seus pensamentos, em suas imagens, esse delírio febricitante, esse arroubo de ideias, esses rasgos apaixonados, frenéticos e violentos, que caracterizam o autor de Don Juan.

Como é belo esse estilo fácil e natural que o caracteriza; e que grandeza nos pensamentos, que elevação na frase, que de inspirações brilhantes de sensibilidade e de imaginação! Ora semelha o gemido dolorido, a explosão da dor nas profundidades do peito, e depois, prorrompe em uma gargalhada estridente, frenética, que coalha o sangue e eriça os cabelos.

O estilo de Álvares de Azevedo, na poesia além de original, é fácil, natural, ameno, deslizando-se suave, sem afetação e sem esforço. Nem sempre escoimado de galicismos, ele o é porém desse purismo ridículo de muitos que querendo à risca seguir os conselhos de Filinto Elísio caem no excesso contrário. Não há aí esse estudo forçado de frase, esse estilo imensamente castigado e tão castigado e tão limado, que à força de escovadelas perde aquele brilho, aquele colorido, aquele aveludado brilhante, aquele perfume balsâmico, enfim, — como tantos exemplos e de bem acreditados escritores poderíamos apresentar.

Defeitos tem-nos ele por certo, mas inteiramente provenientes da sofreguidão com que escrevia, do pouco tempo que teve para limar e polir o que lhe saíra da fronte escaldada — nessas noites de delírio e de vigílias. Há somente a natureza, somente o lampejo fulgurante do gênio; aquilo que a arte podia fazer, o que competia à reflexão — não lhe deu tempo a voz do arcanjo do extermínio.

Mas como bolo é mesmo assim em seus defeitos! Como agrada aquele desleixo, aquele abandono, que às vezes se lhe nota no estilo! Como cala aquela suprema poesia, que transpira de suas palavras, quando canta-o a mulher que o inspira, ou as flores dos campos, o canto das aves, o vento do céu, o ciciar da brisa, o silêncio da noite e a luz pálida e desmaiada da lua! Como sabia dizer tão bem as afecções do peito, as emoções sentidas d'alma!

Cultivando com gosto e felicidade a musa joco-séria, ainda não pôde até agora ter muitos imitadores.

Muitos têm tentado semelhante tarefa, mas os resultados pálidos e frios de seus tentames, tem-nos feito recuar desanimados. Aquele belo espécime, a que denominou de — spleen e charutos — tem atraído a atenção de todos e os esforços de muitos, mas até agora ninguém, que o saibamos, tem chegado à altura à que ele subiu naquelas jocosas produções, em que a naturalidade ressalta. Falta-lhes a inspiração e a espontaneidade, a ideia e a linguagem o sentimento e o vigor, que possuía Álvares de Azevedo.

Na prosa é seu estilo pomposo, colorido, cheio de rasgos e de lampejos, como traços cintilantes de luz no meio do espaço e algumas de suas produções são verdadeiros poemas — não metrificados.

Imaginação de fogo era ás vezes demasiado arrojado em suas ideias e em suas opiniões. Para prova aí estão algumas de suas poesias.

Cremos que si o poeta vivesse e tentasse dar-lhes a luz da publicidade, certo que lhes modificaria, não o estilo, que é belo e grandioso, mas o arrojo do pensamento, o arrojo das ideias.

Temos terminado esta desalinhada introdução; mas, como dissemos, não foi nosso fim fazer um artigo crítico literário; escrevemos o que sentimos e nada mais.

Em nosso coração de moço, que não descrê do futuro desta terra tão bela, tão bem fadada, erguemos culto farto à memória de Álvares de Azevedo. Sentíamos necessidade de alguma coisa dizer e escrevemos.

Que nos desculpem, pois, os críticos; quanto aos outros — cremos que nos compreenderão.

--
Rio de Janeiro, 12 de março de 1861.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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