terça-feira, 27 de agosto de 2019

Um Plebiscito (Memória)



Um Plebiscito
Em Coimbra, quando eu era estudante, eu e alguns rapazes tivemos a ideia de um plebiscito literário, dispostos a averiguar pelo sufrágio — quais os três escritores portugueses a esse tempo mais notáveis...

A pergunta afixamo-la durante três meses no jornal onde escrevíamos, o Imparcial de Coimbra, e não houve folha, de cá e do Brasil, que a não transcrevesse, — e algumas com seus comentários, nem sempre amáveis...

Corria, porém, o tempo, e os votos chegavam, às dúzias todos os dias; — e do Brasil, em dois ou três paquetes, sociedades literárias remeteram-nos atas em forma, com escrutínios que lá tinham feito, e maiúsculas muito floreadas.

O plebiscito pegara, pois; — e no dia 25 de dezembro, dia de Natal, foi o apuramento!

Incluindo todos os votos, ou quase todos, o nome de Camilo, os do Brasil carregaram, porém, muito sobre Pinheiro Chagas e Latino Coelho, — de modo que o senhor Eça de Queirós, que era, em todo o país e principalmente em Coimbra, o candidato dos “novos”, veio a ficar, feito o apuro, o primeiro da minoria, tendo por imediatos, em número de votos, os senhores Ortigão e Teófilo Braga.

Foi esse o resultado do plebiscito; mas como disse, a ideia tinha levantado celeuma, — e Beldemônio, por exemplo, que a esse tempo escrevia no Correio da Noite as suas “Crônicas da Capital”, viu na pergunta uma invasão irreverente dos direitos da crítica, e o menos que lhe chamou foi extravagante, arrojada e original, — e por último também inocente, grifando... É de ouvir o que ele dizia:

— “Isto não são coisas que se perguntem (clamava ele no Correio da Noite) a um público inteiro, onde só uma pequeníssima minoria dispõe dos elementos críticos que poderiam dar garantias do bom senso da resposta...” — E invectivava: — “... e quando uma redação, em que se supõem capacidades feitas para imprimir uma direção ao espírito público, coloca assim a sua autoridade em subserviência perante a massa anônima dos seus leitores, exautora-se a si própria.”

Como estas, outras, assim fortes; — mas o que ele não sabia, esse pobre e infeliz Beldemônio, é que no plebiscito havia uma boa dose de blague coimbrã, — e que o jornal era feito por meia dúzia de rapazes cabulas, que ao toque da Cabra subiam Quebra-Costas de capa ao ombro, e aguardavam, na redação que era na rua dos Cantinhos, que fossem horas de sair a sebenta...

Travou-se, porém, rija polêmica, está visto; — e revendo agora, num velho e puído volume do Correio da Noite, do último trimestre de 1884, os libelos cáusticos de Beldemônio, verifico, por transcrições aí feitas de certas réplicas, que era eu que lhe replicava!

Entretanto, merece registro, — principalmente neste lugar, — o que dizia no fim de uma das suas crônicas o galhardo impugnador do plebiscito, — por terem constituído, as palavras que vou transcrever, o “lema” dos eleitores dedicados do senhor Eça, isto é, da rapaziada toda da Lusa-Atenas. Estabelecido que o escrever pode ser um ofício, ou uma ciência, ou uma arte, e que o escritor tem de se afirmar como artífice, ou como sábio, ou como artista, — indeciso em qual destas três divisões seria necessário escolher três nomes, Beldemônio perguntava assim:

— “E nesse campo (no da arte) que deverão ser eleitos os três escritores contemporâneos mais notáveis de Portugal?”

E votava de lista aberta:

— “Então, a Crônica apresenta os seus candidatos: — primeiro, o senhor Eça de Queirós; segundo, o senhor Eça de Queirós; terceiro, finalmente, o senhor Eça de Queirós.”


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TRINDADE COELHO
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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