terça-feira, 27 de agosto de 2019

Homenagens a Eça de Queirós



Homenagens a Eça de Queirós

Senhor Diretor da Revista Moderna:

Faz-me você a inesperada honra de me pedir “algumas linhas” sobre Eça de Queirós.

Devo sem dúvida o seu pedido à circunstância de haver você sabido — não posso descobrir como — ser eu um dos 3 ou 4 portugueses, (somos ainda 4?) que há mais de 30 anos admiram o Eça de Queirós.

Há mais de 30 anos já, com efeito, vi eu uma noite, na Redação da Gazela de Portugal, em Lisboa, um vulto alto e esguio, magro como um índio esfomeado, lívido como um marfim antigo. A cara, fundamente cavada a claro escuro, era ladeada de melenas corredias de cabelo muito preto, e manchada por um bigode muito preto, por duas sobrancelhas muito pretas, por dois olhos muito pretos, luzindo entre os grossos aros, muito pretos também, de grandes lunetas escuras. Este vulto estava completamente vestido de preto e coberto por um chapéu alto, de feltro mate, um pouco cônico, como se usou nos fins do século XVI, e se vê nos retratos de Philippe II de Espanha.

Esta lúgubre pessoa era o Eça de Queirós. Na Gazeta de Portugal, onde entretanto se revelavam, com pronto e unânime aplauso, alguns dos mais influentes estadistas e estimados literatos do país, os Contos fantásticos que o Eça de Queirós publicava, — “os seus abutres”, como ele próprio lhes chamava, — eram apenas assunto de chacota: citavam-se sobre eles ditos de espírito decisivos do Teixeira de Vasconcelos e do Severo — do Severo do Espírito Santo.

— Tem talento este rapaz, — dizia o Teixeira de Vasconcelos.

E depois duma pausa, gaguejando, acrescentava:

— E pena ser completamente doido, ter estado cm Coimbra, e... e... escrever em francês.

E a hilaridade que hoje o Eça de Queirós produz com os seus escritos humorísticos, era então provocada pelos seus escritos trágicos, nas poucas pessoas que distraidamente os olhavam.

Quando a Gazeta de Portugal publicava algum folhetim do Eça de Queirós (As memórias duma forca, O senhor Diabo, Os Corvos) eu lia-o, relia-o, tornava a lê-lo, e insultava, intolerante, as pessoas que, por dias, ousassem chamar-me a atenção para escritos dos festejados lisboetas da época.

Por anos o Eça de Queirós deixou de escrever; e ninguém deu por isso senão eu, que, ao ver o que por esse tempo se publicava em Portugal, pensava sempre:

— Se o Queirós escrevesse! Quando o Queirós escrever!...

Convivemos então intimamente e fomos muito amigos.

Tudo isto se passou há mais de 30 anos. Há 30 anos o Eça de Queirós era, na completa despreocupação mundana e social dos seus 20 anos; no seu desinteressado, profundo e cintilante desdém idealista por todas as pessoas, por todas as coisas oficiais, por tudo que é irracionalmente convencionado; na forma do seu espírito e nos seus ditos incomparáveis — a mais forte e original figura de artista que jamais existiu em Portugal.

Trinta anos passaram.

Hoje o Eça de Queirós não tem senão admiradores em Portugal e no Brasil, — o que na verdade me inquietaria se eu não soubesse que muitos desses admiradores atuais fornecem ao genial romancista do naturalismo português o seu mais precioso assunto, e que todos eles hão de ficar, fixados para sempre, muito mais vivos e interessantes do que realmente são, nas obras do grande Escritor

Podia encher volumes com recordações do Eça de Queirós, que me não cabem, é claro, nas “linhas”, que você me pede, e que decerto eu já excedi.

Do Eça de Queirós deve dizer-se julgo eu, em resumo, o que se não pode dizer de mais ninguém em nenhuma outra nação: que ele é essencialmente único, — absolutamente único, — na Literatura do seu país. E é um problema interessante que eu ofereço ao estudo dos críticos, discípulos de Taine, o de descrever o Eça de Queirós como um Literato português. O que ele é, entre os primeiros escritores de todas as nações e de todos os tempos, é um dos que mais poderosamente tem  possuído, no mundo, o dom de criar vida. Mas é talvez uma novidade para os numerosos admiradores atuais do humorismo e do realismo do Eça de Queirós o informá-los de como ele é, ao mesmo tempo também, um grande criador fantástico e, quando quer, um grande poeta em verso.

É pena porém — permita-me você que eu aqui o lamente — o não ser possível já agora dizer do verdadeiramente grande artista que é o Eça de Queirós, coisa que todos os dias não escrevam os expansivos e hiperbólicos portugueses e brasileiros de milhares de medíocres pessoas do Brasil e de Portugal.

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J. BATALHA REIS
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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