domingo, 15 de setembro de 2019

Alexandre Herculano e o catolicismo (Ensaio)



Alexandre Herculano e o catolicismo

Nas questões de literatura e arte diz Teófilo Braga que as primeiras impressões do espírito de Herculano o tornaram um padre por dentro. Por que motivo o distinto escritor não deu este epíteto a tantos outros portugueses ilustres que não só foram católicos mas nunca lutaram com os padres, nunca ousaram combater energicamente a reação ultramontana e o jesuitismo, nunca se preocuparam com os progressos que a Companhia de Jesus tem feito em Portugal? Que um homem rude, sem instrução, tendo apenas algumas ideias superficiais ministradas pelo jornalismo político, chegue a confundir a religião com o jesuitismo, isso não me admira; o que me causa verdadeiro assombro, o que me impressiona muito desagradavelmente é que Teófilo Braga, cujo talento é assaz notável, procure deprimir Herculano dando-lhe o epíteto de padre. O grande lírico João de Deus, vivendo numa época menos religiosa, foi um católico fervoroso que nunca desagradou ao clero como Alexandre Herculano; mas quem se lembrou de dar ao espontâneo, singelo e mavioso poeta do Campo de flores o epíteto de padre? Almeida Garrett, o glorioso reformador do teatro nacional, escreveu um elegantíssimo tratado de educação, onde não se revela menos católico do que Herculano; todavia qual foi o crítico que procurou deprimi-lo chamando-lhe padre? Não me consta que alguém desse este epíteto nem a Rebelo da Silva por ter sido o autor dos Fastos da Igreja nem a Camilo Castelo Branco por haver escrito uma obra religiosíssima, a Divindade de Jesus. A seguirmos a crítica de Teófilo Braga, não só poderíamos afirmar que o mosteiro dos Jerônimos ficaria em breve repleto de padres se quiséssemos continuar a trasladar para aquele suntuoso monumento os restos mortais dos nossos grandes homens, mas também daríamos o referido epíteto à maior parte desses gênios prodigiosos cujos descobrimentos científicos contribuíram tão poderosamente para o progresso da humanidade como Kepler, Newton, Leibnitz, Pascal, Descartes, Claude Bernard, Pasteur e tantos outros, cujo espírito eminentemente religioso é bem notório.

Herculano era da máxima tolerância para com aqueles cujas opiniões divergiam das suas; não admitia restrições para a livre manifestação do pensamento. Foi um católico liberal como o célebre historiador e teólogo alemão Doellinger, que fazia dele o mais alto conceito e o admirava entusiasticamente, consultando-o sobre muitos pontos históricos e chegando a ocupar-se, nos Anais históricos de Munique, da vida e obras do nosso eminente prosador, a quem fez os maiores elogios. Na questão religiosa, Doellinger, o grande historiador da igreja, um dos mais profundos teólogos da Alemanha, desempenhou um papel semelhante ao de Herculano; foi o denodado campeão do partido dos velhos católicos alemães, que ousaram arrostar as fúrias de Roma; como escritor e professor de teologia, exerceu um grande prestígio no seu país, combatendo energicamente as novas modificações feitas no cristianismo e procurando assim desviar a mocidade católica alemã da influência nefasta dos jesuítas; por isso era mal visto em Roma, era detestado pelo partido jesuítico, pelos sectários do neocatolicismo.

Herculano foi o adversário mais temível que os jesuítas tiveram em Portugal; era dentro do cristianismo que ele os combatia com o máximo vigor; os seus vastos e profundos conhecimentos de teologia e de história eclesiástica foram as armas mais poderosas por ele manejadas para demonstrar os erros dos ultramontanos e a grande diferença que existia entre as doutrinas jesuíticas e as que haviam professado os cristãos dos primeiros séculos; era expondo lucidamente as opiniões dos padres da Igreja e dos antigos papas que ele dava os golpes mais profundos na Companhia de Jesus e no partido ultramontano. Na verdade os jesuítas têm-se afastado tanto da igreja primitiva que não é mister sair do cristianismo para combatê-los; é com o Evangelho na mão que mais solidamente se podem refutar os seus erros gravíssimos. O Manifesto da Associação popular promotora da educação do sexo feminino, redigido por Herculano, o qual se acha inserto no segundo volume dos Opúsculos, é a obra mais eloquente e profunda que em Portugal se tem escrito contra a educação jesuítica; é um livro que deve ser lido por todos aqueles que ainda se preocupam com o futuro da nossa pátria e prezam a moralidade da família portuguesa. Deste brilhante opúsculo vou reproduzir o seguinte trecho, que é sem dúvida um dos mais eloquentes que se têm escrito em todas as línguas:

"O procedimento dos poderes públicos durante dez anos e as suas tristes hesitações na atual conjuntura legitimam, santificam a nossa resolução; porque se trata do envenenamento moral da sociedade pelo envenenamento moral da família. Uma lei desta terra, uma lei de sete séculos, uma lei cuja duração representa um profundo sentimento de honra, diz que se pude ser homicida sem crime quando a prostituição do adultério vai enodoar o seio da família. É que a família é a molécula social, e gangrenada ela, a sociedade esfacela-se num monte de podridão. Vamos muito menos longe que a lei. E todavia o perigo é maior; porque nos seminários da reação não se hostiliza só a liberdade: ensina-se também a revelar à donzela e à mãe de família delícias mais monstruosos que o adultério. Defendemos nossas mulheres, nossas irmãs, nossas filhas: defendemos as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão de vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violência, o erro, o motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, não tergiversamos; a nossa linguagem é simples e explícita como as nossas intenções."


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DIOGO ROSA MACHADO
"Alexandre Herculano, Conferência Pública realizada no Ateneu Comercial de Lisboa", 15 de Julho de 1900.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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