domingo, 15 de setembro de 2019

Alexandre Herculano e a Torre do Tombo (Ensaio)


Alexandre Herculano e a Torre do Tombo

Não sei ao certo qual a vez primeira era que o nosso grande historiador subiria as escadas do Arquivo Nacional, então instalado na parte do edifício de São Bento fronteira á calçada da Estrela. Não sei, nem tão pouco a impressão, por ventura de respeito e veneração, que ele havia de sentir, ao pisar aqueles gelados corredores beneditinos e as celas onde se albergavam monumentos multiplamente seculares! Quem nos diz se o aluno dos padres de Saint Philip Neri, no Hospício das Necessidades, não faria quotidianamente caminho para ali, ao sair de sua casa no pátio do Gil, à Rua de São Bento?! E quem nos diz também se a pouco e pouco o amor do passado, surgindo no seu espírito, radicando-se nele, e desabrochando ao fim nos ótimos frutos, por demais conhecidos, não lhe havia de espicaçar a curiosidade de conhecer o conteúdo da tão falada Torre do Tombo?!

Quanto sabemos ao certo é que, com vinte anos de idade, se matriculou na aula de Diplomática, então regida na Torre do Tombo pelo lente substituto, Francisco Ribeiro Dosguimarães. Da aplicação e talento do aluno hão de falar os seus trabalhos históricos.

Tomando parte ativa nas lutas políticas da época, e obrigado a expatriar-se, vemo-lo em Rennes dedicado aos seus estudos prediletos; vemo-lo ocupar de 1833 a 1836 um lugar na Biblioteca do Porto e vemo-lo finalmente em 1839, escolhido por el-rei D. Fernando para seu bibliotecário e pouco depois encarregado de dirigir a valiosa biblioteca da Ajuda.

Poderá alguém contestar de boa fé que nessa peregrinação entre livros e manuscritos lhe não servissem de muito as luzes adquiridas na Torre do Tombo?

Mas eis Herculano de regresso à capital e agora com a sua situação definida, com a sua carreira direitamente traçada. Ouçamo-lo pois: "Fora a este (D. Fernando), escreve ele no prefácio da terceira edição da História de Portugal, que eu devera uma situação isenta de pesados encargos, a qual me tornara possível dedicar a maior e melhor parte do tempo ao duro e longo lavor que hoje exige a composição da história". Com efeito, se a escolha não podia ser mais acertada para a Biblioteca da Ajuda, também o deixava de pulso livre dar largas aos seus voos de condor, correr à desfilada pelo passado qual ardente visionário, por esse passado que ele tentaria erguer, "como Lázaro, do pó sepulcral dos arquivos".

Foi então — nos primeiros anos da nova profissão — que Herculano concebeu o plano gigantesco da História de Portugal. Diz-no-lo expressamente no já citado prefácio da terceira edição.

Conhecedor dos trabalhos históricos dos cronistas, da embusteira Monarquia Lusitana, dos trabalhos da Academia Real da História — dessa infinidade de Memórias, legadas pelo século XVIII, tão nitidamente impressas quão falhas de crítica — Herculano tinha igualmente estudado a obra um pouco demolidora, exageradamente crítica talvez da autenticidade das fontes, de que era autor João Pedro Ribeiro: as Dissertações cronológicas e críticas.

Esse foi o seu precursor; todavia, para quem comparar Ribeiro ao milhafre, de vista aguda sim, mas de horizontes estreitos, Herculano é a águia, pairando alto e abrangendo no seu olhar dominador vasto e extenso panorama. Ribeiro viu muito, viu por vezes bem; viu no entanto só um aspecto dos documentos. Herculano, com o seu gênio, estudou-os todos; aproveitou bastante das Dissertações, mas pôde ir incomparavelmente mais adiante.

Era oficial maior da Torre do Tombo, no tempo em que Herculano a começou assiduamente a frequentar, José Manuel Severo Aureliano Basto. Guarda-mor seria Vieira de Castro ou o visconde de Santarém, ausente em Paris. Em qualquer das hipóteses seria com o oficial maior que Herculano se entenderia, pois que a frequência do Arquivo não era nesse tempo permitida ao público, e o seu nome deveria figurar na tabeliã junto do relógio, a fim de o porteiro ser sabedor que lhe não era vedada a entrada nas casas dos armários no interior da Casa da Coroa. Nessa mesma tabeliã figurara alguns anos antes o nome de João Pedro Ribeiro.

Isto, se se cumprissem as disposições regulamentares, porque tamanhas foram as facilidades com que Herculano começou as suas investigações históricas, que é ele mesmo a declarar-nos não ter tido para isso autorização oficial!

Quem tenha alguma vez tentado orientar-se no meandro labiríntico, que é a Torre do Tombo, avaliará a priori se Herculano precisaria ou não do auxílio e da boa vontade do oficial maior Severo Basto. Possuía na verdade conhecimentos paleográficos adquiridos no Arquivo, mas não era natural conhecer as coleções que interessavam ao seu estudo. Por isso, sabedor de quais elas eram, seguir-se-ia imediatamente o percorrer os índices, elaborados umas dezenas de anos antes, no tempo em que era guarda-mor o conhecido Manuel da Maia.

E assim havia o mestre de percorrer, bem-dizendo certamente esse trabalho, os índices das Chancelarias dos primeiros reinados, os índices das gavetas e os índices das Bulas. Isto para a sua História de Portugal, porque para a História da origem da Inquisição grande auxílio lhe haviam de ter prestado os índices do Corpo Cronológico e da Coleção de São Vicente, este último não organizado na Torre do Tombo.

Consciencioso como era, não admira que Herculano se não contentasse com as indicações dos índices e percorresse a um e um, nas manhãs de segundas e quintas-feiras, esses pergaminhos amarelecidos pelo tempo e que indiferentes tinham visto perpassar gerações sobre gerações, como indiferentes tinham vindo do castelo de São Jorge para o edifício de São Bento.

Consultado sobre questões íntimas do Arquivo, como aconteceu em 1843, por ocasião dum conflito com José Feliciano de Castilho, minuciosamente narrado no nosso opúsculo sobre O Visconde de Santarém como Guarda-mor da Torre do Tombo, Herculano manteve tão boas relações com Severo Basto que, aparecendo o primeiro volume da História de Portugal, acompanhou a sua oferta da seguinte carta inédita e desconhecida:

"Ilustríssimo amigo e senhor. — Não me sendo possível oferecer um exemplar do primeiro volume da História de Portugal a cada um dos meus amigos desse Arquivo, ofereço um a vossa senhoria, certo de que lhe facultará o uso dele, se julgarem que vale a pena de se ocuparem com isso, do que eu próprio não tenho muita certeza. — Sou de vossa senhoria, amigo e companheiro obrigadíssmo. — A. Herculano)."

Quer-se prova mais cabal da consideração ligada pelo mestre ao funcionalismo superior da Torre do Tombo, e, em especial, ao seu ilustre oficial maior?

Aí vai outra bem clara e terminante:

"Ilustríssimo senhor. — Fiado na bondade de vossa senhoria, que a circunstância de ter aturado por tanto tempo o José de Hamburgo, tornou proverbial, e demonstrou inesgotável, tomo a liberdade de lhe pedir queira mandar pôr sobre o bofete em que costuma trabalhar no Arquivo o Sr. Visconde de Juromenha, esse cartapácio velho que eu lhe prometi, e que não mando a sua casa porque me não lembra o número. Também rogo me haja de mandar pôr lá para um canto esse rolo de papel, que vem a ser uns quadros sinóticos, em que pretendo extratar os forais, o que, se me for possível chegar à Torre, e vossa senhoria me facultar licença, começarei hoje mesmo ou na próxima quinta-feira. — De vossa senhoria, amigo venerador e companheiro. — A. Herculano".

É nos vedado saber em que época esta carta foi escrita, pois é vulgar as cartas do grande historiador não serem datadas. No entanto, como fica bem patente, a sua gratidão ao oficial-maior da Torre do Tombo, o reconhecimento da sua bondade e dos favores recebidos!

Todavia, prova ainda bem mais frisante havia de prestar do desvelo que lhe merecia o aumento das coleções do Arquivo Nacional. Foi quando, em espinhosa peregrinação oficial, o Mestre percorreu, como comissário da Academia, nos anos de 1853 e 1854, as Beiras e o Minho, estudando os cartórios das corporações eclesiásticas e promovendo o seu recolhimento à Torre do Tombo.

É desse tempo a entrada no Arquivo do célebre códice iluminado do século XII, Apocalipse de Lorvão, que as freiras daquele convento lhe ofertaram.

Não contente com isso, por conta da Academia Real das Ciências, começou publicando os documentos históricos desde o século VIII em diante, e ainda nessa obra é o seu braço direito um funcionário do Arquivo, elevado depois a diretor, o Sr. José Basto. O seu maior elogio está nas palavras seguintes:

"Todas as cópias (para esse trabalho), escreveu o Mestre, foram tiradas com o maior esmero e quase todas se acham já escrupulosamente conferidas com os originais".

Uma nuvem bem negra veio, porém, empanar a cordialidade de relações de Herculano com a Torre do Tombo. Em 1856 nomearam guarda-mor Costa de Macedo, seu inimigo declarado. Herculano deixou de poder frequentar o Arquivo e tamanho prejuízo lhe causava tal fato que chegou a escrever ter cessado para ele a carreira de historiador...

"...Esse homem, escrevia ele em carta à Academia... foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, cargo importante, porque pressupõe, não só elevados dotes literários, mas também inconcussa probidade... Honrado com a confiança do supremo poder, vingado do desar que recebera, o sucessor de Gomes Eanes de Azurara, de Rui de Pina, de Damião de Góes, de João Pinto Ribeiro, de José de Seabra, de D. Francisco de São Luís, atirou à Academia com os seus diplomas de secretário e de sócio, etc."

Felizmente não durou muito tempo tão estranha situação, porque, em outubro de 1857, foi Costa de Macedo aposentado. No Código Civil é ainda Herculano quem introduz o artigo 2.497 de tanto interesse para o Arquivo Nacional.

Quem hoje percorre na Torre do Tombo o Indiculo, o Livro Preto da Sé de Coimbra, o Obituário e o Livro de Noa, de Santa Cruz, o Livro dos Mestrados, o Livro das leis e posturas, o Livro dos bens de D. João de Portel, o Livro dos Copos e o Tombo da comarca da Beira, códices de que Herculano lançou mão para a sua História de Portugal; quem percorre, dizemos, as folhas de pergaminho desses medievos cronicons, certamente poderá neles adivinhar, ainda agora, vestígios dos dedos do Mestre, estudando paciente e laboriosamente aqueles caracteres paleográficos.

E que o seu espírito paira ali como se fosse um nume protetor. É que a sua alma se identificou tanto com os documentos que nos parece senti-la ainda hoje vibrar, qual vigilante sentinela.

Por isso, na terrível crise social que atravessamos, em que são relegados para um triste plano secundário os trabalhos literários da nossa terra, Mestre, é á tua sombra austera que nos havemos de acoitar nos momentos de desânimo, como outrora te acoitaste desalentado sob os robles frondejantes do teu lindo Val de Lobos.

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ANTÔNIO BAIÃO
"Homenagem ao Mestre" (1910)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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