domingo, 15 de setembro de 2019

Porque Junqueiro não veio ao Brasil no Centenário de 1922 (Memória)



Porque Junqueiro não veio ao Brasil no Centenário de 1922

Na sessão da Academia Brasileira de 9 de março de 1922, Coelho Neto propôs que se enviasse uma mensagem a Guerra Junqueiro convidando-o a vir ao Brasil, por ocasião das festas comemorativas do 1º Centenário de nossa Independência. Guerra Junqueiro não pôde vir. Mas desse episódio ficaram dois belos documentos literários, que damos hoje nestas colunas: a mensagem da Academia, escrita por Coelho Neto, e a resposta de Junqueiro.

SENHOR GUERRA JUNQUEIRO,

Quando nos chegou a notícia de que havíeis sido indicado, por vossa Pátria, para a representardes, entre nós, como seu embaixador intelectual, por ocasião das festas do Centenário da nossa Independência, já esta Academia, da qual sois membro, por voto unânime de todos os seus titulares, havia resolvido convidar-vos, como seu hóspede, prestando, nas homenagens que vos tributasse, justo preito ao estro maior, e verdadeiramente representativo, da Poesia Portuguesa contemporânea.

Escusastes-vos, por motivos íntimos, à missão; nem por isto, entretanto, a Academia desiste do seu propósito, manifestando-o em votos entusiásticos.

O amor radica-vos à terra pátria e, naturalmente, recusai-vos a partir pelo receio que tendes de que o vosso coração não suporte a nostalgia.

Saindo das vossas plagas não vos apartareis, senão do solo, o mais tereis sempre presente nos sentidos, e, ainda do espaço que percorrerdes, hão de vos surgir à mente as glórias do Passado.

Sulcareis os mares cortados, pela primeira vez, em monção de ventura, pelas proas altas dos galeões manuelinos. Vereis os astros que alumiaram os navegadores na grande viagem misteriosa.

Contemplareis, à luz de ouro do nosso sol, a terra moça e linda que se levantou das ondas vestida de selvas verdes e que foi festivamente sagrada, batizada, esforçadamente desbravada, prodigamente semeada, heroicamente defendida pelos pescadores de mundos, gente saída, ao clangor do tubas, dos vossos campos, dos vossos montes e cidades, e ouvireis, contente, o som da Pátria, que é o idioma, um tanto abrandado pela languidez das nossas vozes, instrumentos d'alma.

Achareis no altar a mesma Crença, na História feitos dos vossos bravos, nos lares os mesmos hábitos e costumes vossos, a mesma tradição nos cantos, o mesmo amor nas almas. Mudareis apenas de casa — a Família será a mesma. E aqui, entre nós, sob o toldo da nossa bandeira, com a qual vos acenamos, sereis como o gênio lírico de Portugal em visita de amor à terra do Brasil. E, recebido no ádito, onde se conserva o fogo sagrado da nossa nacionalidade, lume que a nossa Alma retirou do altar onde flamejam "Os Lusíadas" e rebrilham os fulgores da mística e ainda relumam os clarões de novas chamas como as que aclaram a obra de Herculano, coruscam intensamente nos brasidos de Camilo, e cintilam nas trípodes de Eça de Queirós e Fialho, vereis que a língua é estimada com devoção pelos que nela procuram criar Belezas, como as que tendes realizado, mantendo-a altura a que a elevaram os mestres.

Entre nós, onde sois amado e admirado, não andareis como estrangeiro, senão como da Família, e a Poesia vindo convosco das searas e dos olivais confraternizará com a Poesia das florestas virgens.

A Academia Brasileira espera a vossa resposta para transmiti-la ao Brasil.

Coelho Neto
Rio de Janeiro, 11 de Abril de 1922.

RESPOSTA DE GUERRA JUNQUEIRO

CONFRADES E AMIGOS,

Aniquilado pela doença, abandonei de todo, há muitos meses, os meus trabalhos espirituais. Todavia fui adiando a resposta à vossa generosa e magnífica mensagem, na esperança contínua duma saúde ilusória que não voltou. Ah, como eu desejaria aceitar o convite, e ser, na apoteose augusta do Brasil-Irmão, um dos embaixadores de Portugal!

Eu amo o Brasil mais que fraternalmente, — filialmente; e queria dizer-lho em palavras de luz, com toda a alma. Deus não permitiu. Curvo-me à sua vontade.

Não faço falta: Depois da embaixada épica dos dois heróis (os comandantes Gago Coutinho e Sacadura Cabral) ides receber a do Chefe do Estado, eloquente e venerando vulto de Patriota (Antônio José de Almeida, então presidente da República). Nobres figuras do Exército, da armada e das letras o acompanham. E aí o espera, porque aí vive, o introdutor e organizador ilustre da grande História da Colonização Brasileira de Portugal (Carlos Malheiros Dias).

Dentro de alguns dias, no centenário majestoso da vossa Independência, celebrarão as duas pátrias a eterna festa do seu amor, que é a graça divina da sua imortalidade. O meu coração, com asas, lá irá. Estou exausto e não posso responder condignamente à vossa bela mensagem, que é o galardão mais alto da minha vida. Perdoai-me.

Com indelével reconhecimento, vosso confrade e amigo Guerra Junqueiro.



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Revista "Letras Brasileiras", junho de 1943.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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