sábado, 7 de setembro de 2019

Álvares de Azevedo e a poesia da dúvida (Ensaio)



Álvares de Azevedo e a poesia da dúvida

Com Álvares de Azevedo, Laurindo Rabelo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e um sem número de poetas menores, tomou a nossa poesia rumo diferente e matiz novo. A "Lira dos Vinte Anos", de Álvares de Azevedo, trouxe às nossas letras o amargor irônico de Byron, a melancolia de Musset, a inquietação de Shelley e Spronceda, e o pessimismo imaginativo de Leopardi. Os aspectos ruins da vida, os vícios de toda espécie, a atração pela carne, o desejo lúbrico e desvairado irromperam de todas as almas, como se a nossa poesia estivesse entregue, momentaneamente, a angustiosos histéricos. Essa particularidade da clínica psiquiátrica, que os alienistas alemães denominaram Wille zur Krankheit, isto é, a vontade da doença, foi o traço predominante na estética de Álvares de Azevedo e de seus incontáveis epígonos.


Concorria para agravar o mal, não só a novidade sedutora dos cantos, mas também a morbidez ingênita dos cantores. Uns, por doenças físicas, outros por sofrimentos morais, o certo é que todos aqueles cinco prógonos acima referidos mostraram-se fracos e desalentados diante da vida, sem energias para o rude combate do mundo em constante conflito com o ambiente em que viveram, reagindo apenas com imprecações e ameaças, sorrisos e suspiros contra a onda temerosa que os arrastava no seu turbilhão. Em todos eles havia traços fundos de parentesco moral, não somente na sensibilidade, que tinham afinada ao mais alto grau, mas ainda na concepção propriamente literária da obra de arte.

Até bem poucos anos eram eles, com Castro Alves e Gonçalves Dias, os poetas mais lidos e estimados no Brasil. Para uma raça triste, qual a nossa, é a dúvida contemplativa o melhor e mais saboroso alimento. Álvares de Azevedo quis viver as ficções de que estava imbuído o seu espírito: tentou realizar as aventuras do D. Juan, de Byron, e os romances sentimentais de Musset. Suas leituras encontradas e tumultuosas provocavam-lhe uma formidável indecisão, como a prova este fragmento das Ideias Íntimas, onde se debate o poeta entre as garras de mil influências diversas, incapaz de cumprir um destino certo e proveitoso:

OSSIAN — o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
É monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som das ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
— Fibra de amor e Deus que um sopro agita!
Se desmaia de amor... a Deus se volta,
Se pranteia por Deus... de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo,
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé: passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar... Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d’inverno... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos...
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma:
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro,
Odeio o lasquenet... Palavra d’honra!
Se assim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

A asa de Heine roçou certamente por estes versos. Há aqui um quase delírio, onde a vida real e a fantasia se misturam, e onde as criações do sonho contrastam com o inesperado humour de uma inteligência que se observa a si mesma, e que não deixa voar muito longe o pensamento irrequieto. A ironia corrige a blasfêmia, o sarcasmo castiga o excesso dó coração. É que Álvares de Azevedo, a par de um grave sentimento das coisas, tinha uma alma de vinte anos. Suas queixas são, ao mesmo tempo, fictícias e verdadeiras. Ele sofria do mal do século, foi o primeiro que no-lo mostrou em toda a sua plenitude. E estava tão perto da nossa mentalidade que, além de ter sido amado e imitado como ninguém jamais o fora, ainda agora se prolonga a sua penetrante influência. Ainda agora muita gente dirá, certa da sua profunda originalidade e estranheza, que:

O mundo é lodaçal, é leito infecto, e a turba é sempre a que se riu do Tasso!

Das suas teorias literárias é o "Poema do Frade", mescla disparatada de formosos atrevimentos e audaciosas extravagâncias, documento profundo e admirável. Vejamos como ele considerava o mecanismo exterior da poesia:

Frouxo o verso talvez, pálida a rima
Por estes meus delírios cambeteia,
Porém odeio o pó que deixa a lima
E o tedioso emendar que gela a veia!
Quanto a mim... é o fogo quem anima
De uma estância o calor: quando formei-a
Se a estátua não saiu como pretendo,
Quebro-a, mas nunca seu metal emendo.

Álvares de Azevedo fala tanto mal da rima quanto Verlaine que a descrevia como

... un bilou d'un sou
Qui sonne faux creux sous la lime

Suas preferências não eram propriamente as de um rapaz honesto, bom burguês, metódico e nédio. Ouçamo-lo:

Meu herói é um moço preguiçoso
Que viveu e bebia porventura
Como vós, meu leitor; se era formoso
Ao certo não o sei. Em mesa impura
Esgotara com lábio fervoroso
Como vós e como eu a taça escura...
Era pálido, sim... mas não d'estudo:
No mais... era um devasso e disse tudo!

Referindo-se às qualidades do seu herói, comenta acrimoniosamente a facúndia dos poetastros que, desde aquela época, se tinham por gênios autênticos:

Dizer que era poeta — é coisa velha:
No século da luz assim é todo
O que herói de novelas assemelha.
— Vemos agora a poesia a rodo!
— Nem há nos botequins face vermelha,
Amarelo caixeiro, alma de lodo,
Nem Bocage d'esquina, vate imundo,
Que não se creia um Dante vagabundo!

O meu não era assim: não se imprimia,
Nem versos no teatro declamava!
Só quando o fogo do licor corria
Da fronte no palor que avermelhava,
Com as convulsas mãos a taça enchia...
...............................................................................

Não se lançava nas plebeias lutas,
Nem nas falanges do passado herdeiras,
No turbilhão das multidões hirsutas.
Não se enlaivou da pátria nas sangueiras,
Nem da praça no pó de vis disputas!
Sonhava sim, em tradições guerreiras,
Nos cânticos do bardo sublimado...
E nas épicas sombras do passado.

Ainda hoje continua, em menor escala é verdade, a sua influência; através das fórmulas pomposas do modernismo, que ama os rótulos e os sistemas, reponta muitas vezes a dúvida irônica, ou a fantasia colorida de Álvares de Azevedo. No "Spleen e Charutos", por exemplo, há muitas notas que ressoaram mais tarde, sob variados disfarces, em dezenas de outras composições. Vejamos esta rápida impressão:

É belo dentre as cinzas ver ardendo
Nas mãos fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo...

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d'honra! és tu, ó meu charuto!

No "Meu Sonho", em que o poeta dialoga com um fantasma, aparecem também alguns dos motivos mais explorados pelos pretensos decadentes, que, com Cruz e Sousa, tiveram a ingenuidade de supor que estavam abrindo novas estradas à poesia nacional:      

Cavaleiro das armas escuras
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?
Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através...
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?
Tu escutas... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério...
Quem, te força da morte no império
Pela noite assombrada vagar?

O FANTASMA
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar.

A poesia da dúvida, ao mesmo tempo dolorosa e irônica, elevou-a Álvares de Azevedo à mais alta intensidade, servindo-se, para isso, de um estilo cheio de tons velados e das meias tintas, tão ao gosto dos satanistas, como Baudelaire e Rollinat, aos quais, diga-se de passagem, ele nada deveu.


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RONALD DE CARVALHO
Revista "Letras Brasileiras", junho de 1943.

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