sábado, 7 de setembro de 2019

Alberto Torres: O Profeta da Realidade (Ensaio)



Alberto Torres: O Profeta da Realidade

Chamaram-no Cassandra. Senão com alarde, pelo menos, intimamente. Muitos teriam dado de ombros às suas predições. Era — diziam — um visionário, com pretensões a profeta. Ou seria um ideólogo, notável sem dúvida, cheio de altos conhecimentos, um dos poucos eleitos para palmilhar os terrenos movediços da sociologia, mas sempre... um ideólogo. Alguns acreditavam-no um iluminado; outros, um teórico de fértil imaginação ou um utopista perdido num mundo estranho...

Homens de governo, responsáveis pelo destino de todo um povo, teriam sorrido diante de suas parlandas. Firmavam-se no conceito secular, repetido de maneira lírica e insistente, da riqueza da terra, de seus inesgotáveis recursos, do "berço esplêndido”, em que o Brasil repousava, "deitado eternamente”. Se ao embalo falaz da evocação dessas maravilhas a vaidade indígena se satisfazia, preferível seria incentivar as loas e cânticos de patriotismo oco, do que descer à análise dos postulados enunciados por aquele homem que timbrava em ser uma exceção.

Ele insistia. Não o escutavam, mas também não o contradiziam de face, pois imenso era seu valor mental. Só um intelecto de igual estofo poderia enfrentá-lo na liça. Deixavam-no, pois, falar...

E tudo quanto ele predisse, aconteceu. Os rumos errados da administração, trazendo o desconcerto das finanças, da economia, da educação, da política, de tudo, enfim, que dimanava de ordem do poder público, levaram o país ao desespero da revolução, ao êxodo rural, à queima do café, à amargura de seu povo, condenado este ao pauperismo que gera a desilusão e o indiferentismo, quando não a revolta. E de tal maneira, que em meio desse processo desagregador do bem-estar coletivo, ninguém poderia sustar-lhe a marcha, visto que os acontecimentos eram apenas consequência de erros acumulados. Mesmo assim, diante do panorama desolador que foi se desenrolando aos olhos de toda a gente, nem mesmo assim pode-se dizer que houvesse surgido, com alento bastante para vencer, um movimento de emenda da mão, uma conclamação ao bom-senso, uma resistência ao descalabro.

Continuamos errando, e às vezes, fazendo praça da insistência no erro. É certo que errar é humano; mas a obstinação no erro, positivamente, não o é.

Agora, à distância e em meio dos problemas quase insolúveis criados pela inobservância à pregação cívica, em cujas tábuas o ruralismo tinha a força de um postulado, o vulto do profeta se avantaja sobremaneira, dominando meridianamente a paisagem, onde se debate, em confusão, um povo que foi conduzido sem norte, porque não havia bússola.

 O profeta chamava-se Alberto Torres.

Ele, ao se oferecer oportunidade, quando em limitado trecho do país detinha rédeas de comando, voltou suas vistas parar onde deveria iniciar o lado prático de sua campanha. E, naturalmente, atacou o setor da organização escolar, reformando de modo fundamental o obsoleto edifício da educação. De seus princípios então expostos, surgiram ensinamentos preciosos, tais os contidos neste tetrálogo:

PRIMEIRO — a necessidade de considerar a instrução primária como elemento básico para a formação exata da nacionalidade.

SEGUNDO — a conveniência de organizar o aparelhamento escolar, sem a cópia ridícula da legislação estrangeira, quase sempre inadaptável ao nosso meio e de resultados ineficazes, produzindo a fusão e a balbúrdia, por não serem atendidos os verdadeiros interesses nacionais.

TERCEIRO — o imperioso dever de dotar as zonas rurais com instrução adequada, para formarmos o trabalhador brasileiro, dispensando-nos da imigração, que não vem solucionar os problemas da nossa economia, mas, apenas, resolver a situação pessoal do próprio imigrante.

QUARTO — o franco estímulo à iniciativa individual em matéria de ensino, quando bem orientada, pois o Estado ainda não emprega para a solução do problema cultural da formação da nacionalidade os grandes elementos imprescindíveis à sua consecução."

Nestes quatro itens está todo um programa de governo, programa revolucionário, cujo seguimento determinaria a transformação de um país que se desenvolvera tumultuosa e desordenadamente, sob a influência de civilizações de empréstimo ou servilmente copiadas, em uma potência de caráter próprio, original, consciente de seus fins e de seu destino.

Era um pensador quem os propunha, uma voz moça que repelia o pessimismo e desacertos do passado para traçar rumos ao futuro; era um homem de método e clarividência quem traçava o plano de solução dos problemas sociais e administrativos do Brasil, submetendo-os a uma ideia geral de unidade. Não vamos, porém, estudar a filosofia de seu pensamento; se não nos faltasse ânimo, faltar-nos-ia espaço, tantos e tão grandes são seus conceitos estatuídos relativamente à Política, esta arte de governar os povos, em nome da qual, entretanto, os aventureiros fizeram medrar a política, ou artifício demagógico de embair multidões, através de conciliábulos na penumbra.

Vamos apenas e ligeiramente descrever-lhe a vida, para que sua obra seja patente aos que dela se alhearam, não porque o desejassem, mas devido ao sensacionalismo dispersivo e trepidante de nossos dias, que lhes colocou tapas nos olhos, assim limitando-lhes o campo de descortino.

Desde já, esclareça-se todavia, que o apostolado de Torres não se perdeu. Manteve-se presente, por isso que a bandeira tombada por ocasião de sua morte, foi empunhada por seus discípulos, à frente dos quais se ergueu a figura de Sud Mennucci, o laureado autor da "A Crise Brasileira de Educação", verdadeira bíblia do ruralismo, em homenagem a cuja efeméride jubilar escrevemos estes gatafunhos sem cor nem tom.

Alberto de Seixas Martins Torres era filho do magistrado, mais tarde senador da República, doutor Manuel Martins Torres e de dona Carlota de Seixas Torres. Nasceu aos 26 de novembro de 1865 na fazenda da Conceição, em Porto das Caixas, município de Itaboraí, na então província do Rio de Janeiro.

***

Ambiente rural. O casarão da fazenda. Papai e Mamãe. Uma babá que o teria ninado. A escravatura na faina dos cafezais. laiá e ioiô, Suns Cristo sinhá, a bênção sinhô... A casa da farinha, a moenda, o cavalicoque de estimação, um companheirinho de andanças, talvez pretinho... Estas e outras que tais seriam suas recordações da infância, remembranças saudosas do primeiro capítulo da vida.

Em chegando o tempo de se tornar gente, deixou o bucólico recanto da meninice, seguindo para a Corte, a fim de iniciar seu curso de humanidades. Estudou, a princípio, no internato dirigido por dona Maria Constança, irmã do bispo de Mariana e do Dr. José Maria Correia de Sá e Benevides, lente da Faculdade de Direito de São Paulo. Transferiu-se se depois para o colégio do notável pedagogo Dr. Menezes Vieira, o qual teria ocasião segundo testemunho do barão de Ramiz Galvão — de dizer que “Alberto Torres constitui uma das maiores glórias da minha missão de professor."

Sua precoce inteligência mais se fez notar quando, com apenas 14 anos, matriculou-se na Faculdade de Medicina, o que conseguiu graças a uma licença especial concedida por decreto do Imperador. No entanto, sentindo despertar sua verdadeira inclinação, abandonou o curso no terceiro ano, ingressando, a seguir, na Faculdade de Direito de São Paulo.

Apesar do verdor da idade, desde logo expandiu no velho casarão conventual os seus sentimentos liberais, pondo em foco os problemas sociais e políticos do momento. Era o pensador, o evangelista, que já se revelava. Sua dialética, de fascinante contágio, exornada com a transcendência das questões, transforma-o sem detença num legítimo líder. Agita-se a colmeia do largo de São Francisco; a Palavra inflamada do moço Torres se esbate pelas arcadas claustrais, por aquelas mesmas arcadas que ainda guardavam a lembrança da passagem de Castro Alves. Assuntos da importância da extinção, do cativeiro e da instituição da República são tratados em assembleias, tendo como fulcro o jovem estudante. Com Luiz Murat, Xavier da Silveira e Gaspar da Silva, funda o Centro Abolicionista de São Paulo. E, como não podia deixar de acontecer, Torres faz surgir à luz folha acadêmica, o Ça Ira, republicana e de combate à escravidão; posteriormente, com outros colegas, edita A Ideia, e depois, em dezembro de 1883, de parceria com Figueiredo Coimbra, torna-se fundador do primeiro vespertino paulista, a Folha da Tarde, sempre com as mesmas cores político-sociais.

Um incidente, porém, com o professor Leite de Morais, que Torres criticara em artigo no Diário Popular, leva-o a transferir-se quando no terceiro ano, para a Faculdade de Recife. Solidário com ele, acompanha-o quase toda a turma; da qual faziam parte, entre outros espíritos de escol, Raul Pompeia e Xavier da Silveira. Em 1886, ao atingir maioridade, conquista o diploma, logo regressando para o Rio de Janeiro, onde abre escritório de advocacia junto com Ubaldino do Amaral e Tomás Alves.

Apaixonado por seus ideais, Alberto Torres enceta sua fase de atividade em prol da abolição e da República. Escreve em jornais e revistas; ao lado de Luiz Murat, Ferreira de Menezes, Patrocínio, Lopes Trovão, Sampaio Ferraz e outros, presta eficiente concurso às campanhas; em 1889 funda o Clube Republicano de Niterói. Seu pai é o chefe do partido liberal; ele, porém, é pela transformação do regime; não aceita, por isso, o cargo de promotor público, para o qual o nomeara o governador da província, conselheiro Carlos Afonso, irmão do presidente do Conselho de Ministros, visconde de Ouro Preto. Desenvolve grande atividade, como secretário do Partido Republicano; substitui de fato a Silva Jardim, sempre ausente em serviço da propaganda; mantém-se em contato com os chefes Quintino Bocaiuva, Glicério, Rangel Pestana, Campos Sales, Aristides Lobo, Saldanha Marinho, todos já entrados em idade, enquanto que ele conta apenas vinte e quatro anos.

Proclamada a República, deixa de ocupar o cargo de ministro plenipotenciário em Bruxelas, para o qual o nomeara o governo provisório. Prefere agir na política do estado, junto com Silva Jardim, contra o governador Francisco Portela, que seria deposto com a ascensão de Floriano ao poder.

Rapidamente se processa sua condução aos postos eletivos. Deputado à primeira constituinte estadual, torna-se líder da maioria e projeta o estatuto básico fluminense. Como deputado federal, passa a representar seu estado na primeira legislatura constitucional da República.

Sem embargo de sua mocidade, revelou-se, através de seus discursos e de seus projetos, uma das maiores figuras do Parlamento, atacando os problemas mais complexos, sempre em defesa de um ideal nacionalista. O sociólogo e o estadista despontavam de maneira estuante naquele moço que não procurava o recurso pirotécnico das frases sonoras e tropos literários, para tão somente explanar-se de modo conciso e ponderado, eloquentemente sóbrio e persuasivo.

Dada sua projeção no cenário político nacional, o presidente Prudente de Morais, ao reorganizar seu ministério, chamou-o, em 30 de agosto de 1896, para ocupar a pasta do Interior e Justiça, talvez a mais importante do governo. A tarefa a desempenhar era pesada e de alta responsabilidade, pois a organização político-social republicana era incipiente, e cumpria fortalecê-la, máxime quando ainda estavam patentes as consequências da guerra civil que abalara o país. Poucos meses, entretanto, permaneceu no cargo, deixando-o quando o Dr. Manuel Vitorino, então no exercício da presidência da República, ordenou a intervenção federal na cidade de Campos, à revelia do ministro. Um gesto altivo e de independência que, junto aos seus títulos, concorreria para elevá-lo à presidência do Estado do Rio de Janeiro.

Tinha, então, 31 anos de idade. Exerceu o mandato de 1º de janeiro de 1897 a 31 de dezembro de 1900. O mais moço ocupante do palácio do Ingá, durante quatro anos lutou pela instauração de verdadeiras normas democráticas e de defesa do homem brasileiro, atacando frontalmente as práticas oriundas da vesgueira política. Claro, foi combatido; mas a despeito de tenaz oposição, seu governo foi uma era de progresso, de proteção ao colono nacional e de estímulo às iniciativas privadas; foi, sobretudo, uma administração que se baseou no amparo, disseminação e racionalização do ensino popular, abolindo costumes rançosos e imitações pernósticas de modelos estrangeiros. Notáveis foram as providências tomadas relativamente à educação rural, conforme se depreende deste pequeno destaque de um relatório do diretor da Instrução Pública naquele quatriênio, Dr. José Bernardes Paranhos da Silva:

"Compreendendo a necessidade de dotar os professores do Estado da cultura necessária para orientar com acerto nas escolas rurais os que se destinariam à vida dos campos, instituiu nos estabelecimentos de ensino normal a cadeira de "Economia rural, noções de agronomia e zootécnica, demonstrando, de agronomia e zootécnica", desde logo, a necessidade de preparar uma política de trabalho rural que nos isentasse da importação de braços estrangeiros e que evitasse o congestionamento dos grandes centros urbanos, porquanto, como bem frisou Alberto Torres em um dos seus trabalhos, "atrair imigrantes é um expediente sugerido pelo descuido intelectual dos políticos, não para solver o problema da organização do trabalho, mas para acudir à sua crise permanente, cada dia mais grave por efeito da própria panaceia adotada.”

A situação financeira, entretanto, das mais difíceis, agravada pela crise do café, muito dificultou a marcha da administração; acrescentem-se ainda os embaraços opostos por interesses particulares, que se manifestavam em feroz oposição política e poder-se-á calcular quão tormentoso foi seu período governamental. Deixou a presidência sentindo o peso da guerra que lhe moviam, enojado com o ambiente mefítico em que sobrepairava. Desiludido, fatigado, nobremente renunciou a qualquer gesto para continuar em posição de mando; afastou-se da atividade política, pensando, naturalmente, que havia necessidade de evangelização para poder conquistar terreno na compreensão das massas.

Contava, na ocasião, 35 anos. E pela primeira vez na história do Brasil, e até hoje, pôde alguém com tal idade, mínima permitida pela Constituição, subir as escadas do Supremo Tribunal e assentar-se como ministro nomeado pelo presidente Campos Sales, nas poltronas daquela alta Corte, entre as venerandas figuras de eminentes jurisconsultos.

Erudito, ágil na percepção dos fatos, eloquente, Rio Branco admirava-o; tentou, mesmo, incluí-lo na representação brasileira ao Congresso Pan-Americano reunido no Rio de Janeiro em 1906, não o conseguindo, porém, devido à posição de juiz de Alberto Torres, que o inibia para o caso.

No Supremo Tribunal, suas sentenças demonstraram à evidência que, além de administrador e político, ele era jurista que julgava com clareza, elegância e sabedoria, honrando a intelectualidade pátria.

Embora seja de poucos sabido, Alberto Torres foi, também, poeta. Do valor de seu estro, faça-se a avaliação por estes versos:

Sobre verde colina, uma casinha branca.
Pousa, como uma pomba entre festões de rosas;
Ao lado uma cachoeira as águas murmurosas
Vai rolando, entre os musgos e os lírios da barranca.

No céu de eterno azul, o sol de eterno brilho
Entorna sobre a casa o dilúvio da luz;
Serpenteando, a montanha um sinuoso trilho
Para o ninho de calma, entre sebes conduz...

De um bosque bem cerrado à sombra hospitaleira
Os pássaros cantando as festas da alegria,
Dão-me os bons dias quando eu saio à luz primeira,
E me dizem adeus ao som da Ave Maria.

Eis o sonho, o ideal, eis e ambição modesta,
Que, para o fim da vida, a minh'alma ilumina.
Mas como sonho que é, e o último que resta,
Tombará sobre mim, pobre sonho em ruinar...

Ia nestas linhas uma predição. Áugure do seu destino, Alberto Torres antevia que seu desejo de paz jamais seria alcançado. E não o foi, realmente...

***

Sentindo-se abalado na saúde, aposentou-se em 1909.

A moléstia era insidiosa, mortal. Iria-o consumindo devagar, martirizando-o. O cérebro, porém, íntegro, luminoso, sem jaça, desferiria voos ainda mais elevados, agora que ele trocava a toga do magistrado pela clâmide do filósofo. É a fase mais brilhante de sua vida essa que vai de 1909 até sua morte em 1917. Não mais ação e luta, mas pensamento, doutrinação, evangelho; de qualquer forma, uma continuação de sua mocidade heroica. Escreve, sob um título implícito de "nacionalismo", três obras basilares: "O Problema Nacional Brasileiro", "A Organização Nacional" e "As Fontes de Vida no Brasil", em cujas páginas profetiza a conjugação do homem com a terra, vendo naquele uma parte integrante do solo, do solo que é a riqueza na exuberância de sua produção; não admite o êxodo rural, considerando-o uma calamidade, desde que a emancipação econômica do país está na dependência do campo. Ei-lo que diz:

"A terra nos pode suprir de tudo que carecemos para viver. Com a criação das indústrias agrícolas comuns, capazes de produção para o comércio, e com a localização do maior número possível de brasileiros em situação de poderem obter da terra, como se dá nos países mais civilizados, tudo de que pode carecer uma família, solveríamos dois problemas: o de suprir, nas cidades, as populações ocupadas com outras indústrias, dos gêneros indispensáveis à vida ordinária, e o de criar conforto e prosperidade, para grande número de patrícios nossos... Localizar em boas terras famílias brasileiras é o dever elementar de assistência, imposto à sociedade pelo interesse de uma geração que se vai perdendo, na ociosidade ou no parasitismo...

E por esse caminho, indica o programa a seguir no terreno da educação:

"Demos terra a todos os homens válidos; instrução primária, a todos que podem ver e ouvir; instrução secundária e superior, a todos os que são capazes, não a dando a nenhum que não o seja; educação social e profissional, também a todos; e não temamos o futuro. O Brasil é um país destinado a ser o esboço da humanidade futura.

Saboia Lima, seu maior biógrafo, assim se expressou:

“Se Alberto Torres amou a humanidade, como Pasteur, reservou para a pátria a sua predileção, destacando-se um pouco da linha humanista para trilhar a estrada verdadeiramente nacional quando sentiu que a nossa desorganização podia um dia levar o povo brasileiro a ficar, como o hebreu, perdido nos areais do deserto, a chorar pela Canaã de tantos sonhos.”

E Sud Mennucci, discípulo que de todos foi o mais eficiente na aplicação de seus ensinamentos, alertando os espíritos com a candência da sua "A Crise Brasileira de Educação", interpretou a "fórmula conciliadora da justiça social" preconizada pelo mestre fluminense, dizendo:

"Essa fórmula, apaziguadora dos espíritos, nós só a encontraremos na educação e na educação pelo trabalho e para o trabalho. É a tentativa mais alta, mais fecunda, mais bem intencionada que um governo poderá realizar."

***

Inegável, sem dúvida, a cooperação que o homem, dentro de seu trabalho, tem que manter com a terra; abrace, pois, o lavrador as madrugadas, beba na inspiração divina da natureza o alento para amar entranhadamente o solo em que nasceu e que o envolverá na transformação universal; agarre-se ao chão que produz, que é a permanente seara da riqueza; tenha a consciência ruralista, que sem ela não poderá medrar o progresso racional; transmita às gerações a mística da obra do Criador, que é a única que poderá salvar o urbanismo jactancioso às voltas com seus problemas de racionamento alimentar, de congestão e de pletora; liquide-se de uma vez, nesta terra que tem tudo para ser feliz, com o pauperismo humilhante, com a vergonha de legiões de retirantes que morrem de miséria na decantada terra da fartura; coloque-se à margem essa "instrução pública que é um sistema de canais de êxodo da mocidade do campo para as cidades e da produção para o parasitismo" , e que desapareçam do cenário, pela compreensão e pelo altruísmo, aqueles que, por negativismo ou conveniência, ainda combatem a doutrina torreana.

Obreiros do ruralismo somos nós também; com nossa fé e com o pouco que nos é dado participar. Não nos cansaremos, pois, de bradar pela reforma do ensino, visto que só pela educação especializada do homem do campo, desse patrício esquecido que, em verdade, representa o Brasil autêntico, o Brasil da hinterlândia, simples, honesto, valente e construtor de uma civilização original, o Brasil que produz e dá sem nada pedir, e que por isso nada recebe daqueles que consomem sem produzir, só assim teremos contribuído para a realização de uma pátria nova. E feliz. Onde haverá sempre terra para lavrar, pão para alimentar, água para dessedentar. Onde não haverá párias. E nem nababos destituídos do sentimento de solidariedade humana...

E se algum serviço mais podemos prestar, este será o de insistirmos para que todos os brasileiros, desde o que se assenta na mais alta curul até o mais humilde alfabetizado, leiam, contritos, num ato de penitência para resgate dos pecados de que todos somos passíveis, em maior ou menor escala, os livros do profeta do ruralismo, desse grande Alberto Torres cuja visão ultrapassou a própria época, projetando-se no futuro. Alberto de Seixas Martins Torres morreu em 29 de marco de 1917. Desesperado, talvez menos pela doença cruciante que o torturava do que pela perversa indiferença e ignorância derrotista do ambiente, atirou-se num precipício, indo beijar lá em baixo, a terra-mãe, de onde se elevaria à consagração da posteridade.

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Revista do Professor, maio de 1955.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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