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2/13/2020

O Naturalismo (Ensaio), de Ronald de Carvalho



O NATURALISMO
A história do romance naturalista, no Brasil, está feita na obra de quatro escritores: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro e Raul Pompeia. Machado de Assis é o psicólogo, sobrelevava a todos pela profundeza do pensamento, pela correção da linguagem, pela sobriedade da forma e pela ironia sutil, que o aproxima da linhagem dos Sterne e dos Swift, na Inglaterra, dos Anatole, na França, e dos João Paulo, na Alemanha. Aluísio é o impressionista, é um retratista admirável, seguro e honesto. Júlio Ribeiro é o mórbido, o sensacionalista, se assim podemos dizer, aquele em quem era mais forte e agudo o instinto da vida. Raul Pompeia é o inquieto, o insatisfeito, o mais poeta de todos os quatro, o mais comovido ante o espetáculo do mundo.
Machado de Assis não pertence, propriamente, ao movimento naturalista que se iniciou, aqui, entre os anos de 1875 a 1880, e se firmou em 1881, com o Mulato, de Aluísio Azevedo. Já em 1872, com um romance (Ressurreição), e, antes disso em vários jornais e revistas, como o Diário do Rio de Janeiro, a Marmota Fluminense e a Revista Popular, surgira em nossas letras. À margem das reformas literárias, sofrendo-lhes as repercussões, pela inevitável influência do meio, conseguiu, todavia, manter límpida a personalidade, que não herdou de qualquer mestre obscuro ou em voga, nem repartiu com discípulo algum.
Ele cultivou como ninguém, talvez, em nossa literatura, a tortura do riso, não pela maneira da carne provocada, mas pela agudeza de uma força invencível que precisava de negar para existir. Machado de Assis não era um puro mental, não tinha, por exemplo, o brilho dos punhais com que a perversidade galante e fascinadora de João do Rio costumava apresentar-se. Entre um e outro vai a diferença que afasta Juvenal de Petrônio. Um sorri para se castigar, o outro para se divertir. Na obra de João do Rio há um perfume capitoso de sensualismo e decadência, um pouco de orientalismo esquisito e precioso, há mesmo riqueza, e, por vezes, exuberância. Em Machado de Assis nada há que lembre fausto ou que o mostre, desde logo, exaltação. É um sensível, sendo um intelectualista. Através da sua placidez aparente reponta um temperamento mais atento às coisas que extasiado com elas. E como os seres e as coisas são, em verdade, quase sempre ruins, e como os ridículos sobram desastradamente, ele os examina sorrindo...
Em suas páginas aparece um país retardado, ainda cheio de entraves, ainda colonial na maioria dos seus aspectos, um país que recebia a cultura livresca pelas portas da Universidade de Coimbra, e que só conhecia, em matéria de jurisprudência, o João das Regras e Lobão, e, como literatura, os versos de Camões e os sonetos monótonos dos Árcades. Seu espírito não podia conformar-se com a ambiência de trivialidade que o envolvia, que o apertava, que o comprimia por todos os lados. Era mister reagir. Tudo lhe pesava: o ar, as plantas, o céu tauxiado de estrelas. Ele não podia ser a resignação de Mr. Brotteaux em face da guilhotina, nem a pacata irreverência de um mercador judeu, entre as torres guelfas e gibelinas da Florença de Farinata Degli Uberti.
A cada golpe recebido correspondia um determinado tipo, que se fiava em sua memória como, sobre a cera virgem das tabelas do cedro, um canto amargo. E tantos foram os golpes recebidos, tantos foram os bonecos que ele desenhou com segurança, ora gravando com mais profundeza, para os destacar melhor, ora confundindo-os, em breve e aéreo traço, numa igual farândola animada. Talvez que a alma lhe permanecesse intangível e serena, no espírito dos turbilhões que o arrastavam, na sanha das paixões que o salteavam. Talvez permanecesse serena, mas sofrendo, embora. E sempre assim acontece aos que chegam até aquela "dúvida metafísica", penetrante, insistente e cruel, de que nos falou o Sr. Afrânio Peixoto em uma sua conferência sobre o "humor".
A dúvida metafísica! Haverá tortura maior? A dúvida metafísica é o prazer dos deuses. Criando o mundo, com os seus pequenos dramas e as suas tragédias periódicas, deu-lhe o Ser Supremo a ilusão da seriedade, para desenvolver-lhe indefinidamente os efeitos cômicos, assim como o adubo desenvolve a corola das rosas nos jardins. As amáveis criaturas da Teogonia, privadas do nosso delicioso globo, ficariam diminuídas na sua solene grandeza, perderiam, com pouco, a imaginação jovial que as distingue, não se realizariam completamente, e tudo seria enfado e calmaria perigosa no Olimpo de Zeus... Tal não aconteceu, todavia, por ventura delas. Concedendo ao homem o espírito, os deuses lhe prenderam as mãos a um fio sem termo, e mandaram que ele se movesse eternamente sobre um abismo tenebroso. A primeira ideia foi, portanto, a primeira batalha. Os homens começaram a matar-se com uma porção de razões, cada qual mais estimável e prudente, para ocuparem um lugar que, logo após, seriam obrigados a abandonar. À porta denticulada das cavernas primitivas, os martelos de pedra, manejados por braços rudes, esboçaram um simulacro das futuras lutas, e, ao longo do tempo, o machado e a flecha, o escudo e a lança, a espada e a massa, a cota de malha e o punhal, a couraça e o canhão chocaram-se, esmagaram-se, aniquilaram-se para a defesa de um punhado de preconceitos momentâneos e inconsistentes. E os heróis surgiram, e os poetas exaltaram os heróis, e tudo começou a rodar, a esfuziar, a arrebentar como as bocas de fogo de uma imensa girândola. Eis como os deuses resolveram a sua dúvida metafísica, armando bagatelas sonoras, "nugaequae canorae", para regalo próprio e miséria desses bichos da terra tão pequenos... E nós, como poderíamos resolvê-la? Nós, que guardamos uma parcela da inteligência criadora, uma pobre parcela misteriosamente escondida justamente nessa duvida metafísica?
De dois modos ela se insinua no ser humano: como doença do espírito abatido, ou como uma espécie de heroísmo íntimo. O primeiro caso é o de Schopenhauer, ou Hartmann, o segundo é o de Machado de Assis. Quando ela se manifesta como enfermidade da alma, produz o pessimismo imaginativo, como o solo de greda a erva estéril e daninha. Não há sombra de frondes nem aroma de bosques úmidos: há desanimo, horror, um verdadeiro desvio do sentido da vida. Mas quando ela se equilibra, temperada por uma ironia piedosa e refletida, em vez da invectiva desesperada há um amargor quase suave, e a incerteza interior não perturba tanto. Pantagruel, posto não acreditasse na perfeição humana, nem por isso lhe sabia mal o vinho espumarento dos repastos gloriosos. O nosso D. Casmurro não deixou de jantar, e bem, como tranquilamente ajunta, no dia em que recebeu a notícia da morte do filho, que lhe ofereceram à larga e descuidada paternidade o amigo de infância e a mulher, a Capitu de olhos de ressaca...
Sendo o adultério um pecado e uma injuria, não devia magoá-lo senão como uma dor física, porquanto, moralmente, tudo é mais ou menos uma hipótese. Philetas de Cós, se não nos enganamos, poeta elegíaco, e um dos cínicos mais deliciosos que têm florescido sobre a terra, implorava aos deuses, todas as manhãs, que destruíssem pela metade os povos da Grécia, para que, das lamentações e dos gemidos dos sobreviventes, pudesse compor um hino imortal à beleza da vida. Quem poderá concluir que o cinismo ingênuo e inócuo de Philetas, ou a superioridade calculada e cruel de D. Casmurro sejam imorais? Como julgar, em tal caso, quando sabemos que o mal está tão bem repartido, tão igualmente distribuído, que seria perversidade castigar nos outros a dádiva que recebemos, também, de Deus! É que a moral não procede da geometria. Seus teoremas se reduzem às nossas convicções e, como é notório, as nossas convicções têm o contorno da fumaça, o que vale por afirmar que não têm contorno algum... Já reparastes como a natureza, entre o eterno dualismo das nossas opiniões, se assemelha aos recuos de Voltaire entre as duas cortes famosas? De um lado Versalhes, de outro Sans-Souci, e, no centro, a. irreverência de um gênio mordaz, que atacando ou acarinhando, ora uma, ora outra, a ambas maltrata.
Machado de Assis, como bom psicólogo, não tentava contrariar o curso imponderável dos fatos; não acreditava no momento feliz nem no momento infeliz, acreditava em ambos, acompanhava a realidade de ambos. Seu raciocínio estava sempre em função do tempo e do espaço imediato, porquanto aceitava todas as coisas vivas e mortas, boas e más, honestas e desonestas com aquele imperturbável acolhimento dos espelhos e dos quadros.
Da sua obra se desprende um sentimento de constante preocupação pela beleza ou pela miséria terrena, e uma rara compreensão, atingida poucas vezes, da triste inutilidade a que as contingências quotidianas reduziram o coração e a inteligência dos homens. Em seus romances, o documento humano não obedece a um plano preconcebido, a um postulado primordial, a uma lei qualquer científica ou literária. Reflete-se neles, apenas, um espírito indagador, que a todo instante se observa a si mesmo, através dos outros, e vai corrigindo, com o sorriso e a lagrima, a imagem que a vida lhe põe diante dos olhos. Machado é, sem contestação, sob variados aspectos, o mais significativo dos escritores da língua portuguesa e, especialmente entre nós, ficará como exemplo de discrição, graça de estilo e finura de percepção.
Caberia a Aluísio Azevedo, formado entre os românticos, e romântico em seu primeiro livro (Uma Lágrima de Mulher) senão a primazia, ao menos o mais forte impulso para a reforma naturalista no Brasil. O Mulato, publicado no Maranhão, em 1881, marcou-lhe para logo um lugar à parte em nossa literatura, sem embargo de se perceber ainda, quer no feitio, quer no tom geral da fabulação, alguns laivos da corrente que vinha combater.
Na obra de Aluísio (A Casa de Pensão, O Homem, O Cortiço) não se encontra nem o desencanto de Quincas Borba, nem aquela intuição risonha de Braz Cubas. Ela nos oferece, porém, uma abundância de quadros, de cenas e de tipos verdadeiramente notável. Aluísio, como dissemos, é um impressionista, um impressionista que desenha, às vezes, com dificuldade, mas que sabe colorir admiravelmente. Vede os seus aspectos de rua, com as lojas abertas e as figuras costumeiras de homens de negócio, vendedores ambulantes, e desocupados; observai os seus diálogos, onde a língua e as ideias passam por todas as gamas imagináveis, desde o pernosticismo petulante da cabrocha até o balbucio do homem tímido e humilde. Que profusão de matizes, que riqueza de tintas em quase todas as suas páginas, cheias de um forte sentimento da realidade, flagrantes e sugestivas. Um pintor ressalta de cada período, e um pintor atrevido, amigo dos tons primários, quentes e luxuriantes. Sem se importar com os refolhos, Aluísio procurava a superfície da alma humana, onde geralmente, têm assento as paixões violentas, os vícios do nosso drama quotidiano. Seus tipos são, por via de regra, vulgares, grosseiros, não se distinguem pela sutileza da compreensão, nem pela frescura dos sentimentos. Ninguém, entretanto, poderá entender, seguramente, certos pormenores da nossa intimidade popular, certas tendências desse caos étnico, tumultuoso e disparatado, que forma a nossa plebe, e que se estende até aos primeiros degraus das nossas camadas sociais, sem conhecer a obra de Aluísio Azevedo. Ela reproduz, com a melhor fidelidade possível, a fisionomia do nosso mestiço físico e moral, cujas linhas fugitivas de caráter dificilmente se deixam entrever.
Júlio Ribeiro, que publicou dois romances, Padre Belchior de Pontes e Carne, não nos deu, todavia, a obra que era licito esperar do seu temperamento. A inteligência era, nele, menos forte que a sensibilidade, porquanto, apesar da sua nada comum leitura, sempre se revelou pouco discreto nos conceitos, desequilibrado na composição dos seus trabalhos e derramado no estilo. Possuía, entretanto, um verdadeiro instinto da vida que nem todas as preocupações científicas, nem todas as teorias literárias conseguiram dominar.
A Carne é um livro de exaltação, um hino dionisíaco ao prazer, ao gozo relativista, ao aproveitamento do momento que passa. Apesar do processo zolista, evidente no arranjo das cenas, no exagero das paixões, na brutalidade das criaturas, e, até, num certo propósito de confundir o leitor ingênuo; apesar da grosseria da palavra e do gesto, notadamente violentos e estranhos, ásperos e pesados, há na Carne uma poesia instintiva, um penetrante perfume de selva exuberante e selvagem. É uma obra comprometida pelo tom geral escandaloso e atrevido, mas onde, não há negar, sobressaem muitas qualidades apreciáveis e um forte lirismo.
A Raul Pompeia, que, à semelhança de Machado de Assis, não se deixou arrastar por um prejudicial "imperativo categórico" de escola, muito comum nos nossos escritores, é, malgrado a exiguidade da sua obra, uma das personalidades mais características da nossa literatura. O Ateneu não mostra somente um escritor elegante, um colorista, mas também um pensador original e inquieto, e um poeta, queremos dizer um homem, na mais larga acepção do termo. A sua observação, sempre vigilante e justa, vinha juntar-se um intenso interesse pelas coisas do mundo, interesse que mal escondia a fonte tormentosa de onde brotava. Raul Pompeia não afetava indiferença, nem se resignava facilmente quando, acaso, descobria nas nossas contingências terrenas uma nova tortura desconhecida, um abismo ignorado, um sinal incompreensível do destino mudo e imóvel. Ao contrário, atacava de frente o problema insolúvel, procurava o olhar fugitivo da esfinge, sondava-o, provocava-o até sentir o coração pesado e a alma cheia de vozes misteriosas. Então, e só então, consentia em revelar o pensamento amadurecido em segredo, e fazia reluzir a ideia esquisita, como uma joia polida.
Seu estilo é simples, não tem ornatos nem extravagâncias e possui uma ductilidade admirável. Ajusta-se às fôrmas definidas da paisagem, assim como às meias-tintas dos mais indefinidos estados de consciência, com uma precisão maravilhosa; mostra, ao mesmo tempo, os recamos da arvore enflorada e a melodia do pássaro escondido na espessura das ramas. Sua obra é, assim, um conflito entre a inteligência que, serenamente, investiga a fatalidade das causas remotas, e a sensibilidade, que se perturba ante o inevitável determinismo dos efeitos imediatos. Eis por que foi ele, entre os nossos naturalistas, o mais comovido e o mais poeta.
Sob o influxo desses quatro pioneiros do romance e do conto de índole realista, ou com intenções psicológicas, alargou-se consideravelmente, no XIX século, a história da nossa prosa de ficção, aparecendo escritores como Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque e o Sr. Xavier Marques, que representam, atualmente, a mais brilhante descendência da segunda geração naturalista brasileira.
Trouxe, pois, o naturalismo às nossas letras uma concepção mais objetiva da vida e um sentimento menos idealista das eternas questões morais e sociais que movem os homens sobre a terra. O romance deixou de ser um mero jogo de situações fabulosas, ou um poema de caráter panteísta e contemplativo, para tornar-se um elemento de combate, uma escola de aprendizagem, às vezes perigosa, é certo, porém quase sempre útil e proveitosa. Se a exaltação de um Júlio Ribeiro pode produzir alguns resultados negativos, que ensinamento profundo não se colherá, porventura, no prudente desencanto de Machado de Assis?


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RONALD DE CARVALHO
Estudos Brasileiros (1924)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

9/15/2019

Os românticos (Ensaio)



Os românticos

Depois da independência política, esforçaram-se os nossos avós por fazer a literária e artística. Coincidindo o movimento, que aqui se operava, com a renovação romântica, vinda através da Inglaterra e da Alemanha para a França, nada mais natural que nós, já sob a fascinação da literatura francesa, procurássemos no Romantismo o roteiro intelectual. Reagindo contra os remanescentes do estilo clássico, que lhes relembrava, quando menos, os estreitos processos da metrópole, entregaram-se confiantes os nossos escritores à nova corrente que, então, entrava em sua fase mais brilhante. Voltaram-se para a terra natal, e, vendo a sua enormidade inculta e desconhecida, procuraram fazer dela uma grande e nobre nação. Entramos, pois, sob o influxo do Romantismo, no período autonômico da nossa literatura.

Desprezados os nomes de muitos poetas sem maior significação, veremos que a nossa poesia romântica apresenta quatro feições distintas. Na primeira, depara-se-nos Gonçalves de Magalhães; na segunda, Gonçalves Dias; na terceira, Álvares de Azevedo; na última, Castro Alves. Gonçalves de Magalhães é geralmente considerado o pioneiro do movimento romântico em nossa pátria. O aparecimento dos Suspiros Poéticos, em 1836, saudado por todos os críticos de responsabilidade como obra original e vigorosa, marcou época em nossas letras. A novidade de tal poesia não estava no calor do sentimento patriótico, pois, desde a escola mineira, e porventura ainda mais longe, com Gregório de Matos e Rocha Pita, muitas vozes nativistas ecoaram por aqui; não estava, também, no acento religioso, já distinto em Souza Caldas, mas na íntima expressão de ambos, com a predominância ora de um, ora de outro. A forma aparece, por igual, mais variada, complica-se mais, apesar de guardar ainda um característico sabor clássico, muito do agrado de Magalhães. Ele influiu na poesia nacional:

1º) — porque lhe deu mais liberdade, maior movimento de ritmos e mais fantasia nos assuntos; 2º) — e porque lhe introduziu um alto caráter religioso e patriótico, largo e eloquente.

Gonçalves Dias foi, sem dúvida, a primeira voz definitiva da nossa poesia, aquele que nos integrou na própria consciência nacional, que nos deu a oportunidade venturosa de olharmos, rosto a rosto, o deslumbramento dos nossos cenários. Nesse homem pouco vulgar palpita com inigualável intensidade a luz dos nossos horizontes, a limpidez de nossos céus, e o sonoro fragor dos nossos rios. Ninguém, até ele, mostrara em tão elevado grau essa compreensão da natureza, esse conhecimento profundo e claro do seu papel na poesia. Há por toda a sua obra, acompanhando as notas de bucolismo, ou as religiosas, ou as puramente descritivas, um idílio permanente com a natureza, de que era ele enamorado, singular. Não se lhe percebem as ruidosas proclamações patrióticas dos românticos da primeira hora; não se lhe descobrem, também, as fastidiosas tiradas sobre a imortalidade da alma, a existência de Deus, a perfeição da Igreja, e outras divagações quejandas, muito estimadas do autor dos Cânticos Fúnebres e dos seus epígonos. É como poeta da natureza que deve Gonçalves Dias ser estudado, sem o que não conseguiremos apanhar-lhe a fisionomia interior. O indianismo não foi mais que um resultado dos seus pendores, pois, ele se aproveitou da vida selvagem para poder mostrar, em toda a sua pujança, a luxuriante e colorida terra brasileira.

Com Álvares de Azevedo, tomou a nossa poesia rumo diferente e matizes novos. A sua Lira dos Vinte Anos trouxe às nossas letras o amargor irônico de Byron, a melancolia de Musset, a inquietação de Shelley e Espronceda, e o pessimismo imaginativo de Leopardi. Os aspectos ruins da vida, os vícios e as deformações de toda espécie, a atração pela carne, o desejo lúbrico e desvairado irromperam de todos os carmes, como se a nossa poesia estivesse entregue, momentaneamente, a angustiosos histéricos. Concorria para agravar o mal, não só a novidade sedutora dos cantos, mas ainda a morbidez ingênita dos cantores. Uns, por doenças físicas, outros por sofrimentos morais, o certo é que todos os imitadores de Álvares de Azevedo mostraram-se fracos e desalentados em face da vida, sem energias para o rude combate do mundo, em constante conflito com o ambiente em que viveram, reagindo apenas com imprecações e ameaças, sorrisos e suspiros, contra a onda temerosa que os arrastava no seu torvelinho. A poesia da dúvida, ao mesmo tempo dolorosa e irônica, elevou-a Álvares de Azevedo á mais alta intensidade, servindo-se para isso de um estilo cheio de tons velados, e daquelas meias tintas tão do gosto dos satanistas, como Baudelaire e Rollinat, aos quais, diga-se de passagem, nada ficou devendo o nosso poeta. Êmulos de Álvares de Azevedo foram Laurindo Rabelo, o poeta lagartixa, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, lírico dos mais populares do Brasil, e Fagundes Varela, um dos nossos melhores poetas descritivos, de larga e numerosa inspiração.

Castro Alves encontrou na campanha abolicionista a finalidade da sua ardente poesia; ele possuía, além de admirável poder verbal, emoção agudíssima e fina sensibilidade. Juntava, assim, as duas forças motrizes da poesia, isto é, a eloquência, que pertence à imaginação, e a doçura que é fruto do sentimento. Não podia deixar de ser, pois, como realmente o foi, um dos maiores caiadores de símbolos, não só da nossa, senão até das letras portuguesas, muito embora lhe saísse por vezes impura a dicção e abusasse constantemente das chamadas licenças poéticas, que são o visgo onde a sua larga asa se despluma inutilmente. Vibram-lhe nos poemas, cordas ignoradas de paixão e ternura, uma onda de perfumes se desprende dos seus versos de amor, onde reponta um sainete de fatalidade, próprio da mistura de raças, voluptuosas e sensuais. Quando deixava falar o coração, simplesmente, de si para si, fundiam-se todas as arestas duras numa perspectiva suavíssima, feita de tonalidades cambiantes, de macias sombras e odoríferos vergéis. Nossas paisagens entremostravam-se, por um momento, engalanadas de ramagens ricas e aromáticas, o corpo moreno das nossas mulheres destacava-se das folhas reluzentes de orvalho dos espaçosos vales.

Quando, porém, sua voz se elevava para reivindicar direitos oprimidos, como em Vozes d'África e no Navio Negreiro, para estigmatizar tiranias inglórias, como em Pedro Ivo e No Meeting do Comitê do Pão, ou para descrever a dureza de certos preconceitos sociais, como em Ahasverus e o Gênio, sua Musa era bem um incêndio em marcha, para empregar uma expressão de Michelet.

O sucesso do seu lirismo declamatório, empolado e brilhante, onde refulgem, de trecho a trecho, imagens de uma formosura quente e arrebatada, tem as raízes no caráter grandiloquente e enfático da cultura brasileira. Ele foi, e é ainda amado, aqui, por várias razões de ordem moral, porquanto é, de certo modo, um genuíno representante do nosso pendor para o excessivo, até para o extravagante.

Ao lado desses quatro poetas de maior significação, poderemos mencionar Porto Alegre, autor do Colombo, largo poema em versos brancos, onde há porções de real beleza; Francisco Otaviano de Almeida Rosa, em cuja obra se encontram ainda ressaibos de classicismo, à maneira de José Bonifácio; barão de Paranapiacaba, célebre por suas tradições, entre as quais avulta a das Fábulas de La Fontaine; Antônio Francisco Dutra e Melo, que foi também crítico perspicaz; Aureliano José Lessa, lirista delicado; José Bonifácio, o moço, poeta eloquente; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, colorista agradável e descritor elegante; José Alexandre Teixeira de Melo, que versejou com sentimento, à feição de Casimiro de Abreu; Pedro Luís Soares de Sousa, onde se encontram muitas notas particularmente caroáveis aos condoreiros, aos quais, é mister dizer, precedeu de alguns anos; Trajano Galvão de Carvalho, Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Gentil Homem de Almeida Braga, Melo Moraes Filho, todos bucolistas leves e agradáveis; Vitoriano Palhares, cujo estro patriótico e inflamável faz lembrar o de Castro Alves; Moniz Barreto, o repentista; Luís Gama, o endiabrado mestiço da Bodarrada, Bruno Seabra e Joaquim Marinho Serra Sobrinho, que descreveram com chiste alguns aspectos do nosso meio sertanejo os quais, em nada concorreram para imprimir feições novas à Poesia no Brasil.

Os prosadores do período romântico são dos mais notáveis da nossa literatura. Somente com Manuel de Macedo e José de Alencar é que a prosa de ficção tomou fisionomia própria, ganhou contornos definitivos, e avultou em nossas letras. Antes da Moreninha e do Guarani houve apenas tentativas mais ou menos felizes, corno as de Teixeira e Sousa e Norberto Silva, todas mui louváveis, porém de apoucado merecimento, se as considerarmos pelo seu valor literário. Manuel de Macedo foi o verdadeiro fixador dos nossos costumes fluminenses e cariocas naquela época ainda colonial na maioria dos seus aspectos. Ele compreendeu admiravelmente os pendores da nossa alma popular, sentimental e piegas, e fez, com pequenas intrigas ingênuas, à guisa de um Bernardim de Saint-Pierre atrasado e rústico, a sua história íntima e simplória. Na imensa galeria dos seus personagens, alguns, a exemplo do Moço Louro, e da Moreninha, vivem na memória de todos os brasileiros, embora os anos hajam decorrido às dezenas desde a sua ruidosa aparição. Seu estilo, a não ser na poesia enfática e palavrosa, é correntio, agradável, flui serenamente. Faltava-lhe apenas um certo colorido, mas é sempre correto no desenho das criaturas e na descrição das paisagens, posto lhe não seja castiça a dicção. Esse colorido, quem o teve por excelência foi José de Alencar. O Guarani e Iracema, sem esquecer as Minas de Prata, são obras fundamentais para quem quiser conhecer a história do nosso romance. Alencar possuía o gênio do pitoresco. Seus romances de índole americana, incontestavelmente os melhores que produziu, são verdadeiras epopeias, onde a urdidura da intriga é quase sempre um pretexto para a pintura de uma série de quadros e painéis naturais, de impressivo poder descritivo. Aprendemos com ele a ter estilo, isto é, a considerar o romance como obra de arte, e não simplesmente como um divertimento, um mero jogo de situações, mais ou menos possíveis, ou um punhado de anedotas picantes. Se não bastassem as suas qualidades de lirista delicado e imaginoso, Alencar teria ao menos influído pela riqueza da forma, antes dele desconhecida em nossa prosa de ficção. Sucedendo a Macedo e Alencar, surgiram Manoel de Almeida, autor das Memórias de um Sargento de Milícias, onde se vislumbra um narrador sagaz do meio popular no Rio de Janeiro; Bernardo Guimarães, pintor artificioso, mas interessante, do ambiente sertanejo; Franklin Távora e Escragnole Taunay, ambos notáveis por suas novelas de assunto nacional, das quais, O Cabeleira, do primeiro, e Inocência, do último, deveriam ficar popularizadas em nosso país.

Entre os críticos, publicistas e historiadores desse período, vale apontar Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto-Seguro, um dos mais ativos pioneiros dos estudos históricos e literários, e o maior escavador de arquivos de que há notícia no Brasil; Pereira da Silva, cuja obra um tanto fantasista revela espírito operoso; Sotero dos Reis, espécie de Quintiliano brasileiro, de muita lição e pouco aprazimento para o leitor; Joaquim Norberto de Souza e Silva, esforçado amigo das nossas tradições, e João Francisco Lisboa, o crítico mais sagaz e agudo entre os seus contemporâneos.

Aos românticos devemos, também, a criação do teatro nacional. Pode-se afirmar que ele surgiu em 1838, com a tragédia Antônio José, de Magalhães, e a comédia de Martins Pena, O Juiz de Paz na Roça. Sobressaíram, no gênero, o já citado Martins Pena, talvez o mais forte teatrólogo do tempo, França Júnior, Macedo, Alencar, Agrário de Menezes, Pinheiro Guimarães, Augusto de Castro e Álvaro de Carvalho. O teatro do romantismo é, porventura, até hoje, o mais característico da nossa literatura, pelo menos o mais nacional, sem preocupações estritamente regionais, e por isso, perfeitamente sincero e representativo.

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RONALD DE CARVALHO
Estudos Brasileiros (1924)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

9/07/2019

Álvares de Azevedo e a poesia da dúvida (Ensaio)



Álvares de Azevedo e a poesia da dúvida

Com Álvares de Azevedo, Laurindo Rabelo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e um sem número de poetas menores, tomou a nossa poesia rumo diferente e matiz novo. A "Lira dos Vinte Anos", de Álvares de Azevedo, trouxe às nossas letras o amargor irônico de Byron, a melancolia de Musset, a inquietação de Shelley e Spronceda, e o pessimismo imaginativo de Leopardi. Os aspectos ruins da vida, os vícios de toda espécie, a atração pela carne, o desejo lúbrico e desvairado irromperam de todas as almas, como se a nossa poesia estivesse entregue, momentaneamente, a angustiosos histéricos. Essa particularidade da clínica psiquiátrica, que os alienistas alemães denominaram Wille zur Krankheit, isto é, a vontade da doença, foi o traço predominante na estética de Álvares de Azevedo e de seus incontáveis epígonos.


Concorria para agravar o mal, não só a novidade sedutora dos cantos, mas também a morbidez ingênita dos cantores. Uns, por doenças físicas, outros por sofrimentos morais, o certo é que todos aqueles cinco prógonos acima referidos mostraram-se fracos e desalentados diante da vida, sem energias para o rude combate do mundo em constante conflito com o ambiente em que viveram, reagindo apenas com imprecações e ameaças, sorrisos e suspiros contra a onda temerosa que os arrastava no seu turbilhão. Em todos eles havia traços fundos de parentesco moral, não somente na sensibilidade, que tinham afinada ao mais alto grau, mas ainda na concepção propriamente literária da obra de arte.

Até bem poucos anos eram eles, com Castro Alves e Gonçalves Dias, os poetas mais lidos e estimados no Brasil. Para uma raça triste, qual a nossa, é a dúvida contemplativa o melhor e mais saboroso alimento. Álvares de Azevedo quis viver as ficções de que estava imbuído o seu espírito: tentou realizar as aventuras do D. Juan, de Byron, e os romances sentimentais de Musset. Suas leituras encontradas e tumultuosas provocavam-lhe uma formidável indecisão, como a prova este fragmento das Ideias Íntimas, onde se debate o poeta entre as garras de mil influências diversas, incapaz de cumprir um destino certo e proveitoso:

OSSIAN — o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
É monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som das ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
— Fibra de amor e Deus que um sopro agita!
Se desmaia de amor... a Deus se volta,
Se pranteia por Deus... de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo,
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé: passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar... Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d’inverno... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos...
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma:
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro,
Odeio o lasquenet... Palavra d’honra!
Se assim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

A asa de Heine roçou certamente por estes versos. Há aqui um quase delírio, onde a vida real e a fantasia se misturam, e onde as criações do sonho contrastam com o inesperado humour de uma inteligência que se observa a si mesma, e que não deixa voar muito longe o pensamento irrequieto. A ironia corrige a blasfêmia, o sarcasmo castiga o excesso dó coração. É que Álvares de Azevedo, a par de um grave sentimento das coisas, tinha uma alma de vinte anos. Suas queixas são, ao mesmo tempo, fictícias e verdadeiras. Ele sofria do mal do século, foi o primeiro que no-lo mostrou em toda a sua plenitude. E estava tão perto da nossa mentalidade que, além de ter sido amado e imitado como ninguém jamais o fora, ainda agora se prolonga a sua penetrante influência. Ainda agora muita gente dirá, certa da sua profunda originalidade e estranheza, que:

O mundo é lodaçal, é leito infecto, e a turba é sempre a que se riu do Tasso!

Das suas teorias literárias é o "Poema do Frade", mescla disparatada de formosos atrevimentos e audaciosas extravagâncias, documento profundo e admirável. Vejamos como ele considerava o mecanismo exterior da poesia:

Frouxo o verso talvez, pálida a rima
Por estes meus delírios cambeteia,
Porém odeio o pó que deixa a lima
E o tedioso emendar que gela a veia!
Quanto a mim... é o fogo quem anima
De uma estância o calor: quando formei-a
Se a estátua não saiu como pretendo,
Quebro-a, mas nunca seu metal emendo.

Álvares de Azevedo fala tanto mal da rima quanto Verlaine que a descrevia como

... un bilou d'un sou
Qui sonne faux creux sous la lime

Suas preferências não eram propriamente as de um rapaz honesto, bom burguês, metódico e nédio. Ouçamo-lo:

Meu herói é um moço preguiçoso
Que viveu e bebia porventura
Como vós, meu leitor; se era formoso
Ao certo não o sei. Em mesa impura
Esgotara com lábio fervoroso
Como vós e como eu a taça escura...
Era pálido, sim... mas não d'estudo:
No mais... era um devasso e disse tudo!

Referindo-se às qualidades do seu herói, comenta acrimoniosamente a facúndia dos poetastros que, desde aquela época, se tinham por gênios autênticos:

Dizer que era poeta — é coisa velha:
No século da luz assim é todo
O que herói de novelas assemelha.
— Vemos agora a poesia a rodo!
— Nem há nos botequins face vermelha,
Amarelo caixeiro, alma de lodo,
Nem Bocage d'esquina, vate imundo,
Que não se creia um Dante vagabundo!

O meu não era assim: não se imprimia,
Nem versos no teatro declamava!
Só quando o fogo do licor corria
Da fronte no palor que avermelhava,
Com as convulsas mãos a taça enchia...
...............................................................................

Não se lançava nas plebeias lutas,
Nem nas falanges do passado herdeiras,
No turbilhão das multidões hirsutas.
Não se enlaivou da pátria nas sangueiras,
Nem da praça no pó de vis disputas!
Sonhava sim, em tradições guerreiras,
Nos cânticos do bardo sublimado...
E nas épicas sombras do passado.

Ainda hoje continua, em menor escala é verdade, a sua influência; através das fórmulas pomposas do modernismo, que ama os rótulos e os sistemas, reponta muitas vezes a dúvida irônica, ou a fantasia colorida de Álvares de Azevedo. No "Spleen e Charutos", por exemplo, há muitas notas que ressoaram mais tarde, sob variados disfarces, em dezenas de outras composições. Vejamos esta rápida impressão:

É belo dentre as cinzas ver ardendo
Nas mãos fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo...

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d'honra! és tu, ó meu charuto!

No "Meu Sonho", em que o poeta dialoga com um fantasma, aparecem também alguns dos motivos mais explorados pelos pretensos decadentes, que, com Cruz e Sousa, tiveram a ingenuidade de supor que estavam abrindo novas estradas à poesia nacional:      

Cavaleiro das armas escuras
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?
Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através...
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?
Tu escutas... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério...
Quem, te força da morte no império
Pela noite assombrada vagar?

O FANTASMA
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar.

A poesia da dúvida, ao mesmo tempo dolorosa e irônica, elevou-a Álvares de Azevedo à mais alta intensidade, servindo-se, para isso, de um estilo cheio de tons velados e das meias tintas, tão ao gosto dos satanistas, como Baudelaire e Rollinat, aos quais, diga-se de passagem, ele nada deveu.


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RONALD DE CARVALHO
Revista "Letras Brasileiras", junho de 1943.

7/16/2019

Guadalajara (Memória), de Ronald de Carvalho



Guadalajara

Coberta ainda pelos nevoeiros pardos da manhã, Guadalajara, pintada de azul e branco, parece uma talavera. Dentre a cortina dos plátanos imóveis e dos eucaliptos parados no ar, sobem, cortando de chofre a claridade prateada e fina, as torres pontiagudas da catedral. Rompendo a penumbra das folhagens pulam, de trecho a trecho, as curvas macias das cúpulas forradas de azulejos. O espaço é uma inquietação de pedras que se arremessam tragicamente para o céu.

Essa madrugada colonial é uma lição permanente da história do novo mundo. O ambiente da América absorve, nas suas solidões verdes e ásperas, os vestígios do homem europeu. A paisagem índia contraria o desenho espanhol. A rendilha churrigueresca dilui-se na atmosfera virgem das arvores mexicanas. E, quando o sol tapatio, abrindo toda a sua luminosa corola, arde no firmamento, Guadalajara fagulha em tons violentos e agressivos. O zarape de Saltilho ou de Caxaca vence, nas suas geométricas coloridas, o misticismo castelhano. O índio levanta-se, mais uma vez, nesse primeiro minuto de aurora, para repelir o conquistador.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O exemplo de Obregon (Memória), de Ronald de Carvalho



O exemplo de Obregon

"Desse tumulto, como onda que empolasse o dorso e, de improviso, avultasse sobre o referver das paixões partidárias, arrastando, no redemoinho impetuoso, o turbilhão das vagas menores e incontáveis, que se agitavam inutilmente, surgiu Obregon.

Obregon veio da terra, e a terra imprimiu-lhe o feitio dos temperamentos exaltados. Sua mocidade foi espontânea e rebelde, como a de todos os homens que nasceram sem compromissos. Já, montado no lombo nu dos cavalos, laçando o touro tresmalhado ou competindo com os mais adestrados ginetes de Sonora, já, de espingarda pronta, escondido entre a vegetação úmida e rasteira dos mangues tranquilos ou à sombra dos bosques espessos, para derribar as garças ou os gamos selvagens, ele viveu a adolescência de um herói.

Sempre em contato com o povo, Obregon apurou o caráter destemeroso nas livres trajetórias da natureza. Não foi pedir às Universidades os diplomas de sapiência graduada. Não foi buscar, nos salões oficiais, o prestigio dos favoritismos transitórios. Não mergulhou no sofisma livresco as claridades do espírito. Sua mestra exclusiva foi a observação diuturna dos seres e das coisas. Foi a vida, em suma.

A realidade que os seus vinte anos encontraram não podia ser mais dura. O país estava confiado, praticamente, a um círculo estreito de indivíduos que jogavam, desabridamente, com os seus destinos, impedindo o surto da consciência coletiva. O povo sem mestres e os campos sem amanho estavam entregues às mais solertes explorações. Sobre todas as tiranias, a pior, sem dúvida, era a do espírito. Dentro do México só havia uma opinião: a de Don Porfirio. A imprensa era porfírista, o exército era porfirista, o ensino era porfirista, o clero era porfirista, a sociedade era porfirista. No seio dessa unanimidade, as massas não tinham assento, nem para concordar. Contribuíam, apenas, para as estatísticas, como um valor econômico.

Obregon viu tudo isso, de perto. Ao contrário de muitos, porém, não se satisfez com um exame superficial do momento. Não se tornou descontente por ambição recalcada, senão pelo conhecimento direto dos fenômenos que analisava. Ele sentiu, desde logo, que a Revolução decorria da natureza das coisas, porquanto o país estava governado por homens que procuravam contrariar a sua verdadeira realidade étnica e histórica. A palavra famosa de Juarez sobre a intervenção francesa, confirmava-se mais uma vez, nos derradeiros tempos do porfirismo: "Ia paz interna es imposible cuando no hay respecto al derecho ajeno".

Refletindo os anseios da maioria, Obregon compreendeu a necessidade de dar ao governo mexicano feição nacional. Para não agravar o conflito entre o branco e o íncola, tão perturbador para a vida intima da pátria, ele percebeu que era imprescindível a participação direta do elemento autóctone nos negócios públicos. Inteligente e sagaz, o índio mexicano não se adapta facilmente aos postulados da civilização ocidental. Herdeiro de raças superiores, pôde exibir, à semelhança do egípcio ou do assírio, uma nobre tradição de cultura humana, mais vigorosa que a de qualquer civilização pré-colombiana.

Ora, pois, forçar onze milhões de indivíduos à observância dos usos e costumes de cinco milhões, descendentes dos conquistadores, seria prejudicar, talvez irremediavelmente, a marcha progressiva da nacionalidade. Equilibrar essas duas forças, a imaginação do índio e a vontade do branco seria, ao revés, realizar obra de lúcida política.

Os homens capazes de tal empresa não eram, certamente, os que apoiavam o Estado porfirista. Aos intelectuais extremes, como José Vasconcelos, e aos campesinos, como Álvaro Obregon, caberia a glória de preparar as massas para a defesa dos seus direitos. Quando a Revolução, com o baque da tirania, começou o ciclo das lutas intestinas, só as antigas classes dirigentes não quiseram entender a razão da nova lei. Chegando ao poder, pela armadura de  uma vontade inflexível, depois de sobrepujar o caudilhismo de Pancho y Vila, Obregon não desmentiu as suas origens nem falseou os princípios da Revolução, a exemplo de Carranza.

Seu primeiro cuidado foi o de nacionalizar o México. Abriu escolas, aparelhando-as com os mais aperfeiçoados sistemas pedagógicos, repartiu a terra, como na parábola evangélica, entre os humildes, tornou o subsolo patrimônio da nação e organizou os sindicatos operários e agrários. O México, por tantas décadas apartado da vida intelectual, reformou-se espiritualmente. A palavra das Universidades, das academias, das escolas secundárias e primarias veio ao encontro da multidão, e, das fileiras obscuras do proletariado, repontaram tipos dominantes.

Nem um chefe de Estado me impressionou tanto pela simplicidade, como esse que soube morrer na vanguarda do seu povo. Na noite em que ele me recebeu, o Castelo de Chapultepec, dentro do bosque milenar picado de luzes vivas, não parecia um palácio oficial, mas hospitaleiro solar de outras idades. Estadistas, poetas, guerreiros e artistas confundiam as vozes, naquelas salas espaçosas, em que pulsaram corações de imperadores e caudilhos. Pensei no Renascimento. E era o renascimento de uma raça aquele príncipe, distraído dos protocolos e dos títulos, que atingira a mais alta nobreza humana, pelo caráter, aquele príncipe, cuja singeleza não tentaria, talvez, a pena dos historiadores retóricos.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Porfirio Diaz (Memória), de Ronald de Carvalho



Porfirio Diaz

A nacionalidade estava temperada. Faltava, porém, um reativo que desse consistência ao amálgama. Esse reativo foi o general Porfirio Diaz. Vencedor das tropas francesas, libertador do território, Diaz assumiu o governo como um chefe
militar ascende ao comando de um exército. Dirigiu a República, durante trinta anos, a toque de clarim. Volveu os cuidados da sua administração quase que exclusivamente para as obras materiais. Por esse lado, sua contribuição foi fecunda. O México articulou-se materialmente, ganhando logar de primazia entre as Repúblicas hispano-americanas. Enraizado nos preconceitos de uma pequena aristocracia, que o rodeava, Porfirio Diaz esqueceu-se do povo. O ditador deslumbrou-se com as servidões que o seu mando improvisava. E, apesar do luxo que irradiava da sua corte, dos tesouros que rolavam dos empréstimos para os cofres nacionais, continuava de pé, agravando-se, dia por dia, como nos albores da independência, o problema fundamental do México: a quase totalidade do povo não participava da fortuna pública. Segundo a Repartição Geral de Estatística do México, nas vésperas de ser deposto o general Diaz, apenas 9.000 indivíduos possuíam terras, numa população de cerca de 15 milhões de seres.

"A maioria dos fazendeiros, escreve um historiador mexicano, possuía propriedades de mais de sessenta milhões de hectares, tornando-se, portanto, impossível o seu cultivo completo e racional. Esses grandes senhores feudais não se preocupavam com as suas fazendas, deixando-as, em geral, entregues a capatazes fiéis, que lhes remetiam para Madrid, Paris, ou Londres, o produto das suas rendas.

"As terras desses latifundistas eram trabalhadas pelo sistema de "peonagem" O peão era o servo da gleba. Não se lhe permitia, via de regra, possuir terras, nem instrumentos de lavoura. Ele devia servir ao amo, trabalhando de sol a sol, mediante o preço de 15 a 25 centavos diários. Os artigos do seu sustento e vestimenta eram adquiridos no armazém da fazenda. Dado o seu estado miserável, muitas vezes não era pago em dinheiro. Seu irrisório salário obrigava-o, fatalmente, a contrair dívidas com o patrão, dividas que o escravizavam para toda a vida, transmitindo-se à sua descendência. Os filhos de pães insolváveis pertenciam à clientela dos senhores. Don Francisco Bulnes, insuspeitíssimo panegirista de Porfirio, escreve, a propósito, em "La Crisis Monetária", que, num país onde existia a escravidão um "bom negro" custava mil pesos, enquanto, no México, um "bom índio" custava apenas cem."

Dess'arte, não seria exagerado supor que, sob as calmarias da paz porfirista, lavrasse a revolução. É curioso verificar, todavia, um fenômeno sociológico bastante raro, quando se estudam os pródromos da reação contra o materialismo do general Diaz. Coube a um banqueiro, oriundo de família de milionários, a chefia do movimento de 1910. O idealismo de Francisco I. Madero vence, pela energia da sua fé, uma ditadura de trinta anos. Permanecera, não obstante, o fermento militarista. O lirismo político de Madero teria que sucumbir aos golpes do sabre de Vitoriano Huerta. O novo ditador não representava uma garantia para o país, que reclamava as grandes reformas eleitorais e agrárias. Os partidos exaltam-se. Carranza, Pancho y Vila, Zapata, uma chusma de caudilhos se levantam. A nação transforma-se, outra vez, numa praça de armas.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)