domingo, 29 de setembro de 2019

Charles Dickens: Um homem bom (Resenha)



Charles Dickens: Um homem bom

Quando a Editora Literária planejou em Moscou a publicação da coleção de trinta volumes das obras de Charles Dickens, acreditava-se que iriam inscrever-se 200.000 pessoas. Inscreveram-se mais de 600.000! Mais de seiscentos mil subscritores a uma edição de trinta volumes! Vale a pena pensar nisto. No mundo moderno existem poucos literatos que escrevem sobre as transformações da vida, sobre o terrível mal que magoa as almas humanas. Porém nem todas estas obras são perduráveis. Só a arte em que arde a chama do amor ao homem resiste à prova do tempo.

É por isso que Dickens, até hoje, ocupa um lugar no coração de milhões de leitores dos seus livros. Foi um homem que na juventude sofreu a pobreza e o horror da arbitrariedade. Em sua alma ficou — para sempre — o ódio a toda violência contra as pessoas, e todo o seu magnífico talento do narrador consagrou-o em combater o mal.

Os seus livros contam como um injusto regime social mutila as pessoas e como estas resistem a ele; como o calor dos corações humanos derretem o gelo da crueldade e do egoísmo. São livros que dizem: não há nada melhor no mundo que o amor ao próximo, o desejo de fazer a vida bela e feliz, até para os mais oprimidos e desgraçados.

Dickens era um homem bom de verdade. Vale dizer, sabia também ser enérgico, quando via como se torturava e atormentava as pessoas. Em seus trabalhos existem palavras afetuosas e irritadas. Cobria de sarcasmo impiedoso aos inimigos da Humanidade, sabia estigmatizar, com o desprezo, para sempre, aos que criavam um bem-estar à custa da exploração, dos sofrimentos e da desgraça dos outros.

A intolerância para com o mal é o primeiro sintoma da verdadeira nobreza. Dickens foi um escritor desta nobreza. Porque sua cólera nunca expressava maldade. Há escritores cujas linhas estão escritas com veneno. Dickens escrevia com o sangue do coração. Indignava-se em nome do bem. Se há algo que se possa reprovar a este grande escritor é talvez a sua crença ingênua em que os exploradores e tiranos têm os corações que podem ser suavizados.

Dickens punha sempre seus heróis ante duras provas. E os heróis as suportavam, sempre honrados. Queria que os homens tivessem fé no triunfo do bem e tratava de infundir a esperança nas almas humanas. Hoje os homens não só esperam, como lutam pelo cumprimento de suas esperanças. Nesta luta os animam o calor da arte profundamente humana de escritores como Charles Dickens.

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A.A.
Revista "Leitura", maio de 1962.
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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