domingo, 15 de setembro de 2019

Jaime de Magalhães Lima e a Língua Portuguesa (Resenha)



A Língua Portuguesa e os seus mistérios

Poderia, sob o ponto de vista glotológico ou mais de acordo com o fenômeno linguagem propriamente dito, empilhar aqui uma série de argumentações fortemente apoiadas por uma lista de autores de todo o gênero e encarando o problema sob todas as suas variadas faces; porém desejo me limitar tão somente à explicação e a um ligeiro desenvolvimento da tese de um escritor português, note-se bem, português, Jaime de Magalhães Lima, em interessante livro que tem o sugestivo título A língua Portuguesa e os seus mistérios.

Façamos um ligeiro exórdio antes de entrar na matéria para melhor compreensão da tese e do seu valor.

Nós, quando lemos qualquer coisa (em uma língua que nos é familiar, bem entendido) pensamos que nos estamos detendo em palavra por palavra ou mesmo em sílaba por sílaba. É um grande engano. Se fizermos uma experiência, isto é, se, lendo, pousarmos o nosso olhar em cada palavra ou em cada sílaba, apuraremos que gastamos um tempo enorme para chegar ao fim da página. O que resulta da observação?

Resulta, que, lendo uma língua familiar, nós, por uma palavra como que sentimos ou adivinhamos as outras ou, por uma sílaba, sabemos qual a palavra que ela inicia. Deste modo chegamos mesmo a abranger frases inteiras num único golpe de vista ou num incompleto e rapidíssimo golpe de vista.

Este fenômeno da visão se repete, de modo perfeito, completo, com a audição. Quando nós ouvimos alguém que fala a nossa língua ou uma língua que nos é familiar, o nosso ouvido, — como se dá com os olhos na leitura — não detém ou não acompanha cada som em separado. Basta-lhe um conjunto de sons, uma soma de sons para compreendermos tudo.

Se ouvimos uma língua que não conhecemos bem, temos sempre a impressão de que estão falando muito depressa e pedimos, então, para que falem mais devagar, para podermos entender. É que não podemos apreender pela soma, pelo conjunto de sons, precisando que seja separada, por assim dizer, parcela por parcela, som por som...

Conseguintemente, desde que dois povos que falam a mesma língua não se compreendem rapidamente pelo conjunto de sons que cada um emite ou que cada indivíduo de cada nacionalidade emite — eles deixam de falar a mesma língua. Mudada, pois, a tonalidade de uma língua ela se torna outra.

Com uma série de doutos argumentos e uma grande erudição, Jaime de Magalhães Lima, o grande escritor português, desenvolve a sua tese de maneira a elucidar a questão de um modo decisivo.

Os povos, diz ele em uma das suas brilhantes páginas "não falam a mesma língua somente porque usam o mesmo vocabulário e por ele se compreendem; ainda que esse vocabulário possa reduzir-se ao rol de inconsciente volapuque (língua artificial criada em 1879 pelo padre alemão Martin Schleyer), tão usados pelas bastardias literárias modernas e tão querido do tráfego mercantil das alfândegas, nem assim falarão a mesma língua os que o aproveitam. Por baixo de um nivelamento e identificação meramente superficiais, os caracteres étnicos renovam-se com uma persistência invencível e guardarão no canto da fala a sua expressão mais profunda".

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Jaime de Magalhães Lima entra diretamente na questão da língua do Brasil ou do fenômeno de diferenciação da linguagem entre o Brasil e Portugal.

O Brasil — diz ele — "o Brasil, por exemplo, que mais de perto nos toca, será, na realidade, um país cuja independência se avigora dia a dia, à medida que a acentuação da sua fala se define e se torna orgânica".

E precisa, de modo completo a questão: "Um português, conversando com um brasileiro, se possui sensibilidade e ouvido não muito obtuso, logo verificará que a compreensão da palavra exige certo esforço de atenção, perfeitamente igual ao que qualquer outra língua estrangeira lhe demanda, e apenas menos imediatamente perceptível para nós por um parentesco de linguagem que atenua o desacordo e o reduz ao mínimo".

Este período de Jaime de Magalhães Lima já é decisivo, mas, melhor ainda, ele põe o problema no seu justo termo no período seguinte: "A desafinação (entre a língua brasileira e a língua portuguesa) é, porém, manifesta e arrepia e cansa os nervos; ninguém, a não ser aqueles que por inveterada incúria atropelam todas as línguas e se servem sem constrangimento de toda a gíria moderna, cosmopolita ou pouco menos, — ninguém que esteja habituado a pensar na sua língua e isento da vulgaríssima inanidade de dizer sem pensar, ninguém de maior idade em tal matéria dirá que os nossos sentidos e a nossa alma estão prontos a lidar indiferente com o português e o brasileiro".

Está aí de modo perfeito o fenômeno da diferenciação da língua brasileira da língua portuguesa no próprio fenômeno da linguagem.

Mas, Jaime de Magalhães Lima não se detém somente neste fenômeno da linguagem em si mesmo, porque se alça ao fenômeno político invencível para concluir: "Embora à estreiteza de patriotismos, tão acanhados quanto despóticos, — repugne reconhecer que os filhos, por serem diversos dos pais, não deixaram por isso de ser bons e amados, prolongando na independência, que a sua condição lhes outorga, a nobreza e as virtudes herdadas, e até pela própria independência e pela beleza e dignidade que ela importa, honrando aqueles de quem descendem, e assim orgulham os ter por filhos, no fundo desse fenômeno multiplicação e diferenciação paralela de uma língua, não podemos deixar de pressentir e admirar a riqueza de possibilidades congênitas que lhe permitem sobreviver rejuvenescida, em vez de se afundar e perder no surdo labor de adaptação às exigências do novo ambiente".

Não pode haver nada mais terminante, mais claro, mais preciso, mais verdadeiro do que o contido nestes períodos de Jaime de Magalhães Lima.

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OTO PRAZERES
Revista "Cultura Política", julho de 1941.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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