terça-feira, 24 de setembro de 2019

O azeite do Sr. Alexandre Herculano (Resenha)



O azeite do Sr. Alexandre Herculano

Na literatura amena é este o seu cognome: o solitário de Val de Lobos. Os registros oficiais denominam-no simplesmente Alexandre Herculano de Carvalho e afirmam que nascera em 1810. O Sr. Inocêncio assinala-o como primeiro historiador, e o Sr. Martins do Chiado como primeiro fabricante de azeite. Sob este duplo título ele merece o primeiro lugar na nossa galeria: além de uma consagração é uma prova de sincera homenagem que prestamos ao apóstolo ardente da luz que vem do livro e de que vem do candeeiro.

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Conta-se que aos cinco anos de idade a sua paixão pelos estudos históricos era tão viva, que quando a família o queria leva à feira do Campo Grande ou à de Belém, ele começava a chorar pedindo que o levassem antes à biblioteca de Évora, ou à Torre do Tombo. A família não o atendia, ou antes não o entendia, e o jovem Herculano lá ia passear indiferente ao longo das barracas cheias de tambores, de cavalinhos, de espadas de lata e dos brinquedos mais tentadores. As outras crianças corriam, falavam, agarravam-se às sobrecasacas dos pais, apontavam para as atrações e formavam um desses burburinhos de súplicas, de pedidos a que os corações paternais não podem resistir. No meio de tudo isto a seriedade do jovem Herculano contrastava violentamente com o entusiasmo dos da sua idade.

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Pela mão de uma pessoa de família, o futuro historiador olhava indiferentemente para tudo aquilo, e no mais recôndito de sua alma embalava a imagem fagueira de uma crônica do século XII escrita em pergaminho.

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Chegado aos dezoito anos as suas maneiras eram tão graves, tão austeras, que todas as pessoas diziam estar talhado para um padre exemplar. Realmente havia certos motivos para essa previsão, porque sendo um dos preceitos do clero, o celibato eclesiástico, Herculano parecia talhado para o exercer satisfatoriamente; na idade em que todos os rapazes se apaixonam por uma prima, ele estava cegamente apaixonado pela vida de D. João de Castro.

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O Sr. Alexandre Herculano ó exatamente o seu estilo: o estilo do solitário de Val de Lobos é grave, justo, pausado; um grande lenço de seda preta com sete voltas em roda do pescoço, majestosa e ampla sobrecasaca, pesada bengala de cana da Índia, com castão de búfalo, e, disfarçadamente, barba à particular. De resto, pelo seu ar vagaroso e meditativo a gente reconhece logo que ele está mal nesta época de precisão e de positivismo, e que, por exemplo, quando tenha de partir para Santarém no comboio das oito, ele chegue sempre à estação de Santa Apolônia às oito e três quartos.

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Como todos os temperamentos fortes e violentamente acentuados, o Sr. Herculano possui grandes dedicações e grandes ódios. As suas dedicações tem resistido às mais duras provas: à Paquita e ao Almanaque das Senhoras; os seus ódios são inabaláveis contra o que ele considera implacáveis inimigos do homem: a ferrugem das oliveiras, o pulgão das vinhas e a hidra da reação.

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O solitário de Vale de Lobos como historiador, como romancista, como dramaturgo, como poeta, como polemista está suficientemente discutido. As suas obras, como as das poderosas individualidades, têm merecido as acusações mais acerbas e os louvores mais entusiásticos. Se ele roja às faces do catolicismo a negação blasfema do milagre de Ourique, ele atira à geologia, na Voz do Profeta, a afirmação extraordinária de Lisboa, cidade de mármore e de granito!  A reação esbraveja, contorce-se, espuma, cobre-o de epítetos e brada por toda a parte que o historiador faltou à verdade. A ciência recebe serenamente aquela novidade e fica tranquila, muda, imperturbável! Todavia qual tinha mais razão para se encolerizar? A ciência ou o clero?

Não ousaremos decidi-lo.

A segunda fase do Sr. Alexandre Herculano, historiador audaz, romancista apaixonado, poeta entusiasta e profeta cavernoso — fase fatal em todos os grandes gênios, revela-se no Sr. Herculano, azeiteiro correto, acadêmico, pautado, recolhido no profundo silêncio dos olivedos, em face da posteridade que o contempla e dos ratos que lhe devoram a História. O Sr. Herculano fez do azeite uma religião, ele e a sua flor d'alma, sua última crença, o seu último refúgio contra a maldade do homem e as iniquidades do mundo. Quando há pouco Viena de Áustria o classificou entre os últimos, o triste solitário sentiu vontade de escrever contra a cidade depravada uma segunda Voz do Profeta! Caso estranho! A maior admiradora do azeite do Sr. Herculano é exatamente a maior inimiga de seus escritos, porque enquanto Viena condena o azeite de Val de Lobos — nos seus relatórios, a reação consome-o — nas suas lâmpadas!

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Devemos concluir com uma revelação. O solitário de Val de Lobos chama-se Alexandre Herculano de Carvalho... e Araújo!

Suprimindo este último apelido, o grande historiador foi uma vez verdadeiramente dotado do dom da previsão. Sem isso, ele, que pelo seu admirável talento conseguiu dar alguns monumentos às letras pátrias, pela fatalidade do nome ficaria inevitavelmente ligado à tribo dos Araújos!


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LUIZ DE ANDRADE
O Mosquito, 22 de julho de 1876.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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